quarta-feira, 1 de abril de 2026

21 - Do encontro com o “Anjo Gabriel”, o porteiro de Deus!

 

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O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta tinha sido o único a ser chamado a Laputa por Deus e fora bem alimentado pelos anjos. Era a prova de que um simples grão de poeira perdido algures no Universo, poderia influenciar os destinos de todos e foi por isso que se tornou incandescente e se desintegrou quando o Anjo Gabriel o foi buscar ao Centro Comercial. A fórmula que dera origem ao detetive fora guardada no Céu, como um exemplo para os fabricantes da felicidade, pois era o resultado de um trabalho de paciência, destruição e crueldade. Narciso acordou entre quatro grossas paredes de pedra e apercebeu-se que a sua morte já fora anunciada. Mas ganhara experiência e por isso sabia que tinha créditos. Prometeram-lhe um último desejo e ele pediu um jantar com Deus e Lilith, “para matar a minha eterna curiosidade sobre o Céu”, explicou ao anjo. Conseguira complicar o processo criando uma rutura na inviolabilidade do esquema mental de Laputa. A ideia que o detetive tinha da “Casa de Deus” era grande, no tamanho, na qualidade, nos livros, nos quadros, nas canções. Foi uma enorme desilusão quando poisaram no planeta de uma só cidade.

- Aqui os lugares vão ao encontro das pessoas e é por isso que não é necessária ostentação, – explicou Gabriel, interrompendo a caminhada silenciosa.

- Mas a paisagem é triste, – disse o detetive.

- Os seus pensamentos é que a fazem. Para mim é bela.

O horizonte mostrava uma penumbra de eclipse, sinal de um estado de espírito. Surgindo do nada apareceu um grandioso palácio, semeado de colunas e cúpulas. O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta sentia-se sufocado, engolido pela cidade que era ao mesmo tempo um planeta. Foi apresentado ao Anjo da Saudade, que era horrível, sujo, sanguinário, mas também uma tentação porque oscilava entre o mundo onírico e o estado de vigília, que modelava a seu bel-prazer a realidade e o sonho, numa luxúria amoral. Tinha sido uma peça do tabuleiro de Lilith no jogo com Deus e estava agora ali reduzido a uma estátua abandonada num jardim povoado de ervas.