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Se o silêncio absoluto existisse era ali que ele se encontrava. O detetive reparou na frase que estava escrita, estilo grafiti, na muralha:
“Múltiplo, Deus não é uno, está sempre em contínua reconstrução e evolução”
Soube que Laputa convocara os anjos, fora por isso que escutara música durante toda a viagem.
- A sonoridade diz quais são aqueles com quem Ele quer falar, – explicou o Anjo Gabriel, abrindo a porta de entrada para o Palácio de Deus.
Lilith tivera uma vida vivida com intensidade. A sua morte fora simplesmente o nome dado para a sua segunda vida. Por não aceitar a existência de um ser superior, procurara no Universo respostas para as injustiças e crueldades dos vários deuses.
- Deus consegue organizar os nossos sentimentos e emoções, - disse alguém por detrás, com uma voz constante.
O detetive voltou-se e viu que um homem de meia-idade lhe estendia a mão.
- Bem-vindo senhor doutor, o meu nome é Pedro e sou o porteiro deste castelo. Acompanhe-me, tenho ordens para o conduzir até à sala de refeições.
Quando entraram um enorme quadro de cortiça cheio de notas e notícias de jornais chamou a atenção do visitante, que se aproximou.
“A minha religião é a partilha com os outros seres vivos, pois o único castigo do Mal é nunca acabar. É por isso que temos sempre de vaguear entre a nostalgia e a alegria. ”
Umbelino
O senhor Narciso apercebeu-se da presença de duas pessoas em cantos opostos da sala, que se contemplavam. O olhar minucioso e indagado de Deus cruzou-se com o olhar irónico e determinado de Lilith. A aparência da mulher escondia o seu interior animal, visceral, carnal. A fêmea que ela era no seu íntimo, contrastava com a imagem limpa de um anjo. A sua pele branca escondia uma alma desarrumada, excessiva, exagerada, irascível, impaciente, determinada, com pressa de viver. Lilith era uma sobrevivente, um ser camaleónico muito divertido, que passava a vida a roubar as almas dos amigos. Era uma deusa muito territorial, narcísica, que ambicionava sempre ser completa, universal. Era exímia em abrir portas por todo o Universo, deixando-as escancaradas. Deus era ao contrário, muito arrumadinho e decidira namorar à força com este amor da sua vida. Quem não a conhecia julgava-a distante, misteriosa, inacessível, intocável. Era por isso que os anjos a amavam. Quando Deus estendeu a sua mão ao detetive e ele a apertou, reparou que tinha esqueleto. Fez sinal para se sentarem num conjunto de sofás.
- Eu tenho um mundo muito próprio que tento partilhar, – disse Lilith.
- Tu sabes que eu amo a miséria bela, – exclamou Deus tentando tocar na sua deusa, esquivando-se para o lado do convidado, que gritou de dor quando ela se encostou e o queimou.
- Se não for amada aqui, será noutro lugar, noutro tempo, porque foi com este amor que eu sobrevivi a tudo, – retorquiu a anja abrindo demasiado os olhos.
- Eu deixo-te navegar sem restrições entre o passado e o presente. O que é que mais queres?
- Quero também o futuro.
- Esse é exclusivamente meu! – Gritou Deus. – Não podes querer todo o meu poder, eu sou a estrela que te indica o caminho.
- Posso falar? – Perguntou timidamente o detetive.
O silêncio ficou tão profundo que ele assustou-se. Viu-se a voltar à infância, na Covilhã, estava a esgueirar-se numa janela, a olhar para as estrelas e a imaginar outros seres. Também ele era passado e presente. Só agora compreendia porque é que a face de Lilith fizera sempre parte dos seus sonhos, tinham estado sempre entrelaçados, possuíam laços pessoais indestrutíveis. Sentiu uma estranha leveza, um arrepio na espinha, a cabeça parecia estar a abrir-se. Lilith levantou-se, foi à frente e voltou atrás, pausadamente, com meio corpo transparente. A segurança do detetive não desapareceu quando se confrontou com Deus:
- Mas afinal, o que é que tu queres?
- Pedaços da vida de muita gente para os poder colar, – respondeu com uma serenidade encantadora e terrível, sinal de uma intensa manipulação, que possuía uma tristeza tão profunda que roçava a tragédia.
O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta sentiu-se uma criatura pequena e perdeu-se a olhar para a uniformidade do interior e para os retratos de pássaros proibidos de cantar, de onde saíam luzes tranquilas de perfeição estética, acompanhadas por um vento longo e curvo. Levantou-se repentinamente e correu para uma das portas. Estava fechada. Tentou outra e mais outra, mas as portas estavam fechadas e os corredores proibidos. Espreitou pela única janela e viu que a água do lago estava agitada e sombria e o céu escuro e fechado. Tornou a olhar para Deus e desta vez viu o centro dos Seus olhos, que aumentaram com intensidade o seu susto silencioso. O detetive sentia-se sem destino, estava triste. Lá fora a chuva era pesada, os pingos grossos até o ar lavavam. Encarou de novo Deus e outra vez afastou o olhar. Havia um estranho silêncio no ar. A sala foi lentamente envolta numa penumbra e por uma das paredes azuis começaram a descer estrelas.
- O que é que queres de mim? – Perguntou de novo o detetive.
- O que criei nasceu primeiro no coração das estrelas, - respondeu, batendo com força com um pé no chão.
A vibração que produziu chegou ao corpo do detetive.
- Eu sou os teus olhos, os teus ouvidos, a tua boca, as tuas pernas, - gritou Deus. – Para mim cada ser vivo é um mundo e tal como as estrelas, estão sempre a aparecer e a desaparecer.
De repente uma luz crua e rápida fez desaparecer Lilith e os dois ficaram frente a frente, aquele que iria ser sacrificado e o carrasco.
- Onde é que está a verdade de tudo isto? – Perguntou o detetive em desespero.
- O que é que as pessoas podem fazer levadas pelo sonho? Eu fiz uma obra justa, orgânica e inteira. Estes são os meus princípios, se não gostares paciência.
- Mas eu só quero resgatar o sentido da minha vida, – disse o senhor Narciso tornando a agarrar no braço de Deus e a sentir-lhe novamente os ossos.
- Então já somos dois. Mas quem se submete ao meu poder impaciente é sempre anulado.

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