terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Burocracia da Morte - Do encontro com o “Demónio de Marte”, de nome Evaristo da Silva

 

2

Assustou-se quando o Espírito Livre lhe fez sinal para entrar numa das cabines do WC mas ao transpor a porta tudo mudou. Um encontro, com sucesso, com um demónio, obrigava a medidas rigorosas como por exemplo ter um conhecimento aprofundado do ser em questão.

- O primeiro aspecto é que não há dois demónios iguais, entre os milhares que se passeiam por todo o Universo – explicou o Espírito Livre. – A visita pode ser muito útil, pois eles abarcam a totalidade do saber, ou pode ser mortal, caso a hora escolhida tenha sido a errada. Neste caso, o senhor Evaristo da Silva é canibal e muito tóxico. Nós vamos encontrá-lo com a barriga cheia, ou seja, inofensivo durante as próximas doze horas. Um anjinho, no sentido literal da palavra.

Encontraram-se junto a um ribeiro, na Cidade Interna de Monória, algures na Quinta Posoninnes, Quadrante Terceiro. O ogre esperava-os e fez sinal para se sentarem.

- Vejo que o meu amigo, além de previdente, – e apontou para o Espírito Livre, – foi bem aconselhado. Estou em plena digestão e com todo o meu saber, que não é pouco, escancarado.

- Segundo dizem, o senhor Evaristo é uma biblioteca universal.

- Quem diz isso são sempre os imprevidentes que vêm falar comigo quando estou com a barriga vazia. É o que eu chamo de “comida ao domicílio”. Quando se apercebem da situação delicada em que se encontram, fazem de tudo para conseguirem ir jantar a casa. Só que é sempre tarde demais. Mas mesmo assim os boatos espalham-se. Sei algumas coisinhas, o território por onde deambulo à procura de comida é imenso, e por isso abarco a totalidade do saber, e não me satisfaço com pouco. Mas, o que é que o traz por aqui?

- Falar sobre uma senhora chamada Lilith e saber o caminho para Laputa, – disse o doutor Narciso, aproximando-se do ogre, mas afastando-se de imediato, repelido pelo cheiro tóxico do demónio, agora convertido em anjo.

- Duas palavras indissociáveis. “Leve”, a menina dos olhos do Arquitecto, o “Centro do Universo”, onde Ele guardou a sua “criação”, como prova do Seu grande amor. Mas depressa os levianos se acharam no direito de fazer a globalização metafísico-cosmológica, como se fossem os donos do Universo. E o nosso Pai nada fez, ofendendo os Senhores dos Ares, que acabaram por dizer “basta”, deixando Laputa em crise.

- Palavras que nada me dizem, – exclamou o detective, acendendo um cigarro e atirando um fumo provocador para o bicho.

- Vê-se que vens de Leve. São os únicos que conseguem olhar para a Morte fixamente. E para o Sol?

- Com óculos escuros!

A conversa foi interrompida pelo Espírito Livre que pediu uma pausa para aconselhar o seu detective.

- O ogre está a ficar nervoso. A imagem que pensava que os outros tinham dele, está a ser desagregada por ti a partir do momento em que o olhaste nos olhos. Está-se a dissolver, a enlouquecer, e isso pode levá-lo à morte. Precisamos das coordenadas da próxima etapa.

- Eu nasci cidadão de Marte, mas agora sou cidadão do Mundo e de todos os tempos, – gritou o demónio, abrindo as asas. – Leveniano, as tuas palavras estão repletas da força intrínseca da tua raça, mas revelas os genes ilegais de Eva e duas ideias de Lilith. Estás a desafiar as leis do planeta para além do que é razoável. Foi por isso que eu fui condenado ao movimento eterno. Não posso permanecer muito tempo no mesmo lugar. Mereces ver Laputa, o Oráculo de Delfos espera por ti!

Dito isto bateu as asas e começou a subir lentamente, enquanto os outros dois o observavam a desaparecer num cume sem montanha, envolto num eterno entardecer, que os distraia do peso incessante da vida.

- Cada anjo tem uma bem determinada função, – disse o Espírito Livre. – Este é um adepto da “criação”, da “domesticação” e da “selecção” de todos os seres do Universo. Para ele o “sucesso” de todos passa pela qualidade. E Deus guarda uma ferida por curar: Leve!

- Outra vez “Leve”?

- A tua “Terra”, o teu planeta!

- Queres dizer que a Terra não tem qualidade?

- A Terra não, a tua espécie.

- E segundo o ogre, se não há qualidade, apaga-se!

- Sim, segundo os adeptos da “criação” a evolução do Homem tornou-se inútil, ele deixou de ser leal, de ter confiança e de ter informação. Mas Leve tem um defensor do “Livre Arbítrio”, outra corrente, que é Deus, mas que nega tudo, que revela uma mágoa que vem do fundo mais remoto de Si. Eu atravessei meio Universo com uma obstinação tenaz de chegar à solução, que faça com que Deus, a Razão de todos nós, pare de chorar. E não tenho complacências!

- O ogre deu-nos uma pista!

- Ele analisa sempre as pessoas e contigo não conseguiu ser tagarela. Foi obrigado a revelar as coordenadas, perdeu a batalha da retórica, mas há-de regressar e virá com enorme violência.

- Oráculo de Delfos? Que lugar é este?

- É aqui ao lado em Phobos.

Sem comentários: