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Assustou-se
quando o Espírito Livre lhe fez sinal para entrar numa das cabines do WC mas ao
transpor a porta tudo mudou. Um encontro, com sucesso, com um demónio, obrigava
a medidas rigorosas como por exemplo ter um conhecimento aprofundado do ser em
questão.
- O primeiro
aspecto é que não há dois demónios iguais, entre os milhares que se passeiam
por todo o Universo – explicou o Espírito Livre. – A visita pode ser muito
útil, pois eles abarcam a totalidade do saber, ou pode ser mortal, caso a hora
escolhida tenha sido a errada. Neste caso, o senhor Evaristo da Silva é canibal
e muito tóxico. Nós vamos encontrá-lo com a barriga cheia, ou seja, inofensivo
durante as próximas doze horas. Um anjinho, no sentido literal da palavra.
Encontraram-se
junto a um ribeiro, na Cidade Interna de Monória, algures na Quinta Posoninnes,
Quadrante Terceiro. O ogre esperava-os e fez sinal para se sentarem.
- Vejo que o meu
amigo, além de previdente, – e apontou para o Espírito Livre, – foi bem
aconselhado. Estou em plena digestão e com todo o meu saber, que não é pouco,
escancarado.
- Segundo dizem,
o senhor Evaristo é uma biblioteca universal.
- Quem diz isso
são sempre os imprevidentes que vêm falar comigo quando estou com a barriga
vazia. É o que eu chamo de “comida ao domicílio”. Quando se apercebem da
situação delicada em que se encontram, fazem de tudo para conseguirem ir jantar
a casa. Só que é sempre tarde demais. Mas mesmo assim os boatos espalham-se.
Sei algumas coisinhas, o território por onde deambulo à procura de comida é
imenso, e por isso abarco a totalidade do saber, e não me satisfaço com pouco.
Mas, o que é que o traz por aqui?
- Falar sobre uma
senhora chamada Lilith e saber o caminho para Laputa, – disse o doutor Narciso,
aproximando-se do ogre, mas afastando-se de imediato, repelido pelo cheiro
tóxico do demónio, agora convertido em anjo.
- Duas palavras
indissociáveis. “Leve”, a menina dos olhos do Arquitecto, o “Centro do
Universo”, onde Ele guardou a sua “criação”, como prova do Seu grande amor. Mas
depressa os levianos se acharam no direito de fazer a globalização
metafísico-cosmológica, como se fossem os donos do Universo. E o nosso Pai nada
fez, ofendendo os Senhores dos Ares, que acabaram por dizer “basta”, deixando
Laputa em crise.
- Palavras que
nada me dizem, – exclamou o detective, acendendo um cigarro e atirando um fumo
provocador para o bicho.
- Vê-se que vens
de Leve. São os únicos que conseguem olhar para a Morte fixamente. E para o
Sol?
- Com óculos
escuros!
A conversa foi
interrompida pelo Espírito Livre que pediu uma pausa para aconselhar o seu
detective.
- O ogre está a
ficar nervoso. A imagem que pensava que os outros tinham dele, está a ser
desagregada por ti a partir do momento em que o olhaste nos olhos. Está-se a
dissolver, a enlouquecer, e isso pode levá-lo à morte. Precisamos das
coordenadas da próxima etapa.
- Eu nasci
cidadão de Marte, mas agora sou cidadão do Mundo e de todos os tempos, – gritou
o demónio, abrindo as asas. – Leveniano, as tuas palavras estão repletas da
força intrínseca da tua raça, mas revelas os genes ilegais de Eva e duas ideias
de Lilith. Estás a desafiar as leis do planeta para além do que é razoável. Foi
por isso que eu fui condenado ao movimento eterno. Não posso permanecer muito
tempo no mesmo lugar. Mereces ver Laputa, o Oráculo de Delfos espera por ti!
Dito isto bateu
as asas e começou a subir lentamente, enquanto os outros dois o observavam a
desaparecer num cume sem montanha, envolto num eterno entardecer, que os
distraia do peso incessante da vida.
- Cada anjo tem
uma bem determinada função, – disse o Espírito Livre. – Este é um adepto da
“criação”, da “domesticação” e da “selecção” de todos os seres do Universo.
Para ele o “sucesso” de todos passa pela qualidade. E Deus guarda uma ferida
por curar: Leve!
- Outra vez
“Leve”?
- A tua “Terra”,
o teu planeta!
- Queres dizer
que a Terra não tem qualidade?
- A Terra não, a
tua espécie.
- E segundo o
ogre, se não há qualidade, apaga-se!
- Sim, segundo os
adeptos da “criação” a evolução do Homem tornou-se inútil, ele deixou de ser
leal, de ter confiança e de ter informação. Mas Leve tem um defensor do “Livre
Arbítrio”, outra corrente, que é Deus, mas que nega tudo, que revela uma mágoa
que vem do fundo mais remoto de Si. Eu atravessei meio Universo com uma
obstinação tenaz de chegar à solução, que faça com que Deus, a Razão de todos
nós, pare de chorar. E não tenho complacências!
- O ogre deu-nos
uma pista!
- Ele analisa
sempre as pessoas e contigo não conseguiu ser tagarela. Foi obrigado a revelar
as coordenadas, perdeu a batalha da retórica, mas há-de regressar e virá com
enorme violência.
- Oráculo de
Delfos? Que lugar é este?
- É aqui ao lado
em Phobos.

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