quinta-feira, 21 de maio de 2026

156 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 1 - 18 de novembro de 1949 (sexta-feira) - "Prova de Vidas"

 

3

O avô acompanhou-o até aos limites da casa e desejou-lhe uma boa-tarde, pedindo-lhe educadamente para que não os voltasse a incomodar.

- Dá-me uma última oportunidade para tentar esclarecer as dúvidas, Dr. Mário de Miranda? Ou será Mário Joaquim Ribeiro Alves de Miranda, como sempre desejou, mas que o seu pai não registou?

- O que é que o senhor quer dizer com isso? – Perguntou, já um pouco transtornado.

- Sei que o avô ….

- Não me chame de “avô”, o senhor é mais velho que eu. Não posso estar a perder tempo com fantasias, tenho mais em que pensar!

- No seu cancro do pâncreas?

- Como é que sabe disso? É confidencial, não contei a ninguém, os rapazes não podem saber.

- Avô, é tudo verdade, venho de 2023, sou o seu neto Miguel, filho do Jorge. Vim visitar-vos, o meu pai morreu no dia 2 de abril de 2022. Não me peça explicações sobre isto tudo, porque eu também não sei dá-las. Mas esteja descansado, o destino de todos não será revelado, eu não vim aqui para mudar o passado.

Mário de Miranda sentou-se num muro, tirou um lenço do bolso esquerdo do casaco, ajeitou os óculos, e limpou a testa.

- Fantástico! – Exclamou, olhando pela primeira vez para o neto. – Mas ainda tenho dúvidas!

- Ambos temos, e muitas, - retorquiu Miguel mostrando-lhe uma foto de 1943.

- Os meus versos para o António? Mas como é que os conseguiu? Não mostrei a ninguém, tenho-os guardados na escrivaninha!

 

“Filho perdido!

Cobriu-se-me de sombra o claro dia

Por onde a frágil vida me levava;

Por ele venturoso caminhava

Dos meus entre o amor e a alegria.

 

Ao meu filho querido eu já o via

No meio dos triunfos que sonhava!...

Passou a asa da morte e transformara

Curta manhã de sol em noite fria.

 

Como relíquia nesta solidão

Deixou-me n’ alma o derradeiro beijo

Da sua primavera inda em botão,

 

O adeus supremo o último lampejo.

E chamo: - António! Filho!.. Mas em vão

Ansioso o vou buscando e não o vejo.

 

Penaventosa

Abril 1943”

 

O Miguel sabia que o tio António tivera uma vida efémera, nascera em Baião, a 20 de abril, dois dias depois dele, em 1930, dia de Páscoa, às 0H30 em Penaventosa, freguesia de Campelo, e morrera no dia 31 de janeiro de 1943 de sarampo com broncopneumonia e abcesso pulmonar na casa de família na rua Fernandes Tomaz, 242, Porto. Doze anos, somente doze anos! No ano seguinte a Penicilina foi introduzida em Portugal pela Cruz Vermelha.

- Fantástico aparelho, como é que disseste que se chama?

Miguel esboçou um sorriso ao se aperceber que o avô Mário o tratara agora por “tu”.

- Telemóvel, chama-se telemóvel, e serve para muita coisa, mas é principalmente um telefone.

- Como é que o texto sobe?

O neto aproximou-se do visor e arrastou-o com os dedos, passando para o outro verso.

 

“Angústia

Em sonhos o meu filho bem amado

Veio aquecer a minha solidão:

Entrei no mundo irreal da ilusão

Do seu límpido olhar iluminado!

 

Contra o peito o seu peito magoado

Cingi a dar-me alento ao coração!

Meiga cara era sol! Com seu clarão

Deixou-me por instantes deslumbrado!

 

Acorre a mãe dorida de ternura

E o nosso amor o vai acalentando …

O doce sonho teve pouca dura

 

E foi-se, como sonho, dissipando …

Se me havia de fugir a visão pura

Ai! – porque não continuei sonhando?!!

 

Penaventosa

Maio 1943”

 

- Foi duro avô, perder um filho assim tão novo. O meu pai praticamente nunca falou dele, aliás falou muito pouco de vocês, optou por escrever.

- Não se recupera de uma perda destas. Ainda tenho uma sensação visceral de que ele está vivo. Em breve estarei com ele, não é? Sinto a presença do António, é como se ele tivesse acabado de sair para a escola.

- Não sei, não sei!

- Não sabes? Mas estás aqui, sabes mais do que eu!

- Sei que estou aqui, mas não sei como.

- Gostava de adormecer como tu e rever o António. Se alguma vez souberes onde fica a passagem para esse mundo paralelo diz-me. Houve uma coincidência estranha no dia da morte, 31 de janeiro, em 1943, pois foi o mesmo dia e mês do nascimento do meu pai, teu bisavô, em 1838.

Fez-se o silêncio das memórias, até que Mário de Miranda se levantou, abraçou o neto e convidou-o:

- Vem, ficas por cá o tempo que quiseres, temos muito para conversar, e uma coisa é certa, estamos os dois no mesmo dia, que é o sítio onde ambos estamos obrigados a viver. A tua viagem tem uma razão ou propósito. Talvez a energia do António ande por aí, e a sua substância material esteja com ele. O teu aparelho já conserva algo, a imagem. Será que podíamos ir mais longe? Fica, fica o tempo que quiseres, espero que seja muito. Talvez conheças mais um tio!

- Se deixar ir o António, ele libertar-se-á e talvez regresse com mais facilidade. Em 1956 uma ambulância que irá ser oferecida à Santa Casa da Misericórdia de Baião terá como madrinha a avó!

- A minha viúva! Tenho de ir tratar dela, está outra vez cheia de dores.

- É a ciática da avó?

- Como é que tu sabes?

Miguel abriu os braços com as palmas das mãos viradas para a frente e levantou os ombros, ao mesmo tempo que sorria.

- Esquece, tens razão. Estou-lhe aplicando umas injeções nas veias, diariamente, que parece a vão curando, embora lentamente.

O hóspede abriu a bolsa que trazia pendurada à cintura e tirou 4 comprimidos.

- Dê dois à avó!

O dr. Mário de Miranda olhou para o remédio e leu:

- “Algimate”?

- É para as dores!

- E como é que os tiro daqui?

- Carregue no comprimido.

Quando se despediram o neto ainda reforçou:

- Sei que o avô salvou um rapaz de morrer afogado no rio Teixeira, no verão de 1904. E em 1921, dia 30 de março salvou outro na praia da Polana, em Lourenço Marques reanimando-o.

- Como é que sabes? Que pergunta estúpida!

- Li a carta que escreveu em 1932 ao Diretor do Instituto dos Socorros a Náufragos a candidatar-se a uma medalha. A propósito, como é que o processo andou, não descobri qualquer registo nos papéis do meu pai?

- Nem me respondeu!

- A notícia no “Lourenço Marques Guardian” do dia 30 de março de 1921 ficou para a posteridade, a medalha seria só mais uma carica.

- Carica?

- Uma rolha! Um exemplar do jornal está arquivado na Torre do Tombo em Lisboa.

O homem só é forte pelas pessoas que o rodeiam, pela comunidade que serve e pela família que se comprometeu proteger. A força vai busca-la a eles, e por eles tem de estar preparado para dar tudo. A sua vida através do seu sangue, senão tudo o que fez não servirá para nada. Ele é nada. Mário de Miranda, como homem da ciência, ficou a pensar em tudo e em nada, por isso foi à biblioteca e escolheu dois livros, que levou para o quarto. Não disse que revia o seu filho Jorge no hóspede. Uma coisa o bisneto do padre Joaquim já notara, a energia do seu telemóvel conservava-se nos cem por cento, e a data estava atualizada: 18 de novembro de 1949!



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155 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 1 - 18 de novembro de 1949 (sexta-feira) - "Acompanho-o à estrada!"

 

2

Miguel estava à procura do centro do sonho, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando encontrar o interruptor que acendesse a luz no meio deste alucinante sonho, que era tão real. Conseguiu, por breves instantes, quando viu passar um avião no reflexo do vidro da janela, ao mesmo tempo que derrubava a garrafa de água na mesa de cabeceira, sinal de que o seu tempo ainda existia, para logo se desfazer. Emocionou-se, deixando cair mais uma lágrima, quando encarou de novo o pai. A cena estava a ser vivida algures num tempo que tanto tinha de longínquo, como de próximo, e era isto que lhes permitia viver o espaço dentro das suas mentes, mostrando a realidade do imaginário coletivo, mais real do que tudo o que viam e que os rodeava.

- Desembuche homem, desembuche, o que é que realmente o traz aqui? – Perguntou o Dr. Mário de Miranda, já mostrando alguma impaciência fulminante contra o intruso que aparecera por ali, de geração espontânea, dizendo ser da família.

O Jorge, o pai do forasteiro, esboçou um sorriso trocista, deixando escapar uns “xs” impercetíveis. O Victor Hugo adotou uma atitude mais desafiante, batendo com a ponta do pé direito no chão, não fosse ele um futuro jogador de rugby da Universidade de Agronomia de Lisboa, onde iria ser talonador nos anos de 1952/53 e 1953/54. A prima Ilda, sentada no degrau do meio, na ponta esquerda da foto, com o Joaquim ao seu lado, filho da tia Dulce e do tio Amador, acabados de chegar do Brasil, sorriu, não deixando sair um pensamento, “um tontinho vestido de uma forma estranha”. O discurso do avô paterno Mário de Miranda estava cheio de curvas, o neto Miguel, mais velho do que ele, procurava desesperado um porto seguro, que lentamente se foi deslocando para o futuro, e por isso o inesperado tornou-se o esperado: tirou o telemóvel do bolso e abriu a pasta da “galeria”, onde guardava nos “favoritos” muitas fotos antigas da família. Todos estavam desassossegados, perdidos nos mundos que se desfaziam lentamente. Mário de Miranda parecia estar cansado de si mesmo. Saberia já o seu destino, teria já conhecimento do seu diagnóstico fatal? Houve uma breve pausa de sossego, crescia a possibilidade de considerar o mundo a partir de diferentes pontos de vista, de fragmentos, sem que nenhum fosse falso. Mas o avô do Miguel levantou-se e disse:

- Acompanho-o à estrada!

quarta-feira, 20 de maio de 2026

154 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 1 - 18 de novembro de 1949 - (sexta-feira) - "O Encontro"

 

1

“Uma coisa não deixa de ser verdadeira só porque não é aceite por muitos”

Espinosa

 

Somos todos descendentes de nobres, vadios e padres, e apenas na morte podemos ser imortais, mas antes de morrermos todas as recordações e sentimentos da vida regressam com o mesmo deslumbramento da primeira vez, através de portas que se fecham e de outras que se abrem em lugares inesperados. No momento da morte a nossa mente esforça-se mais um pouco para sobreviver, e a última coisa que vê é o rosto dos seus entes queridos. Através dos filhos persistimos para sempre, por isso nunca nos conseguimos desprender daquilo que perdemos porque estamos impedidos de perecer. As coisas aconteceram, mas não se propagaram, estão desde sempre num lugar que não se pode definir, nem ressuscitar, nem reparar. As nossas vidas são feitas com a morte dos outros, quer sejam pessoas ou células, é por isso que vivemos várias vidas. Amamos pessoas que morreram, qual é a utilidade social disso? Nada! Ou tem um significado que não podemos compreender no mundo dos vivos, como a prova da existência de algo superior. O amor é a única coisa que transcreve o tempo e o espaço. Na noite de 5 de abril de 2023 Miguel sentiu uma entidade estranha, não corpórea, porque não podia tocar, mas podia escutar e encarar como um ponto de luz, o estranho candeeiro da parede do quarto que sempre tivera vida própria. Viu a imagem limpinha de um homem, sem espessura. E foi através de um sussurro saído de um sonho, onde as oscilações quânticas dos eletrões espalhados pelo quarto se emaranharam com as partículas dos núcleos de fósforos das suas células que o Miguel, cujo pai se chamava Jorge, deu de caras com um dos nove filhos, Mário de Miranda, de três mulheres, Ana Miranda, Maria de Barbosa e Rosa Pinto, do pároco das freguesias de Gestaçô e Teixeira, Joaquim Ribeiro Alves de Miranda, Senhor da Casa de Quintela, que nascera no dia 31 de janeiro de 1830 e falecera no dia 17 de setembro de 1912.

- O que distingue os homens dos animais é a capacidade de fazer o sinal da Cruz, - proclamava com frequência nas suas homilias, destreza que dizia ser fundamental na primeira triagem do São Pedro para o Paraíso, pois quem não o fizesse corretamente iria para outra freguesia.

Todos tinham sido criados com a ajuda preciosa da tia Eufrásia Clemente de Miranda, a “minha santa irmã”, como costumava dizer o prior de cada vez que se referia a ela, sepultada na Igreja de Gestaçô perto da porta lateral esquerda, dias depois de falecer com 60 anos em 1897. A questão com que cada um se debate é como vivemos com a nossa sobrevivência? Como damos uso a esta vida que ainda temos? Com as memórias, carregamos a alegria e a dor de muitos, o passado diz-nos como sobreviver, e quando se junta ao acaso forma o elemento básico da evolução.

No dia 1 de junho de 2023, Miguel nunca imaginaria que, durante a visita à igreja de Gestaçô, iria ser transportado para a porta da Quinta de Palmazões no ano de 1949, dia 18 de novembro, sexta-feira. E tudo porque na capela-mor, perto da cadeira paroquial, havia uma deformidade quântica, com uma membrana tão fina na sepultura de Agostinho Clemente de Miranda que, juntamente com o efeito da gravidade, que pode atravessar todas as dimensões, incluindo o tempo, uniu inesperadamente duas pontas do Universo, devido a uma anomalia nos impulsos eletromagnéticos na igreja, e o ADN comum de ambos forçou a sua passagem. Caiu desamparado num buraco que se abriu no chão, a escuridão iluminou-se com uma explosão de luz e de pó das estrelas, a girar à sua volta, e à medida que esvoaçava deixava um rasto de fumo, que ia mudando constantemente de forma. A família, que a pouco e pouco se apagara, estava ali renascida como uma fénix.

Os sentimentos são livres, mas são raras as vezes que as pessoas se atrevem a obedecer, o que não era o caso do Miguel. Por isso disse em voz alta ao ver o Jorge encostado à mãe no topo da escada:

- Pai!

Todos ficaram estáticos, atónitos, Miguel sentia o peso do olhar do grupo sentado nos degraus da porta de entrada da casa da Quinta da Telheira, ninguém possuía as ferramentas para superar este teste do tempo. Miguel, de 62 anos, olhava emocionado para o Jorge de vinte. Deixou cair uma lágrima, só uma. Ao lado da avó paterna estava o marido, Mário de Miranda, com óculos, médico, 61 anos, que o Miguel sabia que iria morrer no ano seguinte, no dia 22 de junho de 1950 às dez e meia da noite, no Hospital da Ordem do Terço, no Porto, onde seria submetido a uma operação a um cancro pancreático.

- Bom dia caro senhor, o que podemos fazer por si? – Perguntou o avô, que ele sabia que gostava de caçar codornizes, tinha lido numa nota que o pai deixara escrita, e que escrevera numa carta, enviada do Gerês, no dia 13 de agosto de 1928, para a mulher Maria da Glória, “eu animo pouco porque não danço, no entanto gosto de ver dançar”, mexendo somente os lábios, esforçando-se para se manter sereno perante tão invulgar situação.

A normalidade do tempo não existe, é apenas a forma como os homens se defendem da ideia da morte. Tudo pode acontecer por uma razão. Os minutos estavam divergentes, diferentes em algo, estranhos. Diferentes na maneira de viver no mundo, e especiais em casos como este, pois tudo indicava que tinham estado sempre ali. Miguel fechou os olhos procurando refúgio na escuridão. Beliscou-se, mexeu-se, gritou, mas quando os abriu viu-os de novo.

- Um maluquinho! – Exclamou o Jorge com a sua voz “saloia, fanhosa, ridícula”, como a iria definir dois anos depois, após a ouvir numa gravação feita durante uma visita aos estúdios da BBC, no decorrer das filmagens do filme “Angels one five”, onde iria participar como figurante aos comandos dum Hurricane MK II C, integrado numa esquadrilha de 5 aviões portugueses.

Miguel tentava agora compreender uma parte do mundo que antes não entendia, a possibilidade de regressar ao passado, uma possibilidade do eterno retorno, que só pensava ser possível após a morte, mas que neste caso acontecia em vida. Sentia-se bem vivo numa união com tudo e todos.

- Que brincadeira é esta? – Perguntou o Vítor, de 21 anos, com um olhar provocador, gravata às riscas e meias brancas.

Miguel olhou para o futuro campeão nacional de rugby e futuro especialista em “isótopos radioativos”, e limitou-se a encolher os ombros.

- Que disparate, - interveio a tia Dulce, cujo sobrinho Victor a fora esperar ao vapor que atracara no porto de Lisboa, juntamente com o marido, Amador, mãe do Joaquim e nora da Ilda, também ali sentados. – A moda do Brasil já chegou aqui, malandros a fazerem-se passar por familiares.

O tio Mário estava de camisa clara, e a única recordação era o carro de brincar que lhe dera na visita que futuramente, mais de dez anos depois, iria fazer-lhes a Moçambique, já como médico. De resto, só guardava um fragmento da irmã Teresa a chorar copiosamente na casa da Dona Aninhas, que fazia uns saudosos biscoitos de canela, cujo rés-do-chão estava alugado à Bá e ao Mene, avós maternos, na rua Lino de Assunção, em Paço de Arcos, após serem informados do suicídio do “potencial” cardiologista no dia seis de setembro de 1967 às 10H30, no Hospital de Santa Maria, de “fratura do crânio com laceração de encéfalo”.

- Que idade é que o senhor tem? – Perguntou, fixando o olhar no desconhecido.

- 62!

- 62?? E chamou pai ao meu irmão Jorge?

- Sim, ele é o meu pai!

- Até a idade é mentira, - gritou exaltada a convidada. – O meu primo Mário, aliás Dr. Mário de Miranda, tem 61, e o senhor, nem sei se lhe posso chamar isso, diz que é mais velho e nem uma ruga tem. Tenha paciência, vá enganar outros.

- Calma Duce, não te zangues, - tentou o marido.

- Gostou da estadia em Vidago, tia Dulce? – Perguntou o Miguel, tentando desanuviar o ambiente. – Sei que se casou no dia 6 de agosto de 1916, e os padrinhos foram o meu tio avô António, filho da Rosa Pinto, casado com a tia Eva. O registo civil foi em casa e o ajudante cobrou cinco escudos por esta cerimónia. À noite decorreu na igreja. O tio Aflalo contou, numa carta que enviou para o meu avô Mário, que estava como tenente médico no Hospital de Lourenço Marques, que tinha tido problemas à saída com os irmãos do Eduardo Miranda. Sei também que é madrinha do meu tio Mário, que no dia do batizado, a 17 de abril de 1933, por estar no Brasil foi representada por procuração pelo meu tio avô paterno Aflalo de Miranda.

- Isso é tudo muito bonito meu caro senhor – retorquiu a tia Dulce com o indicador apontado ao desconhecido. - Leu as datas nos livros das igrejas e agora debita-as.

- Pergunte tia Dulce, mas não espere que eu saiba tudo!

- Qual foi a data do batizado do meu filho Joaquim?

Miguel procurou por breves momentos no telemóvel, e respondeu:

 - 1 de março de 1920, no Brasil. Tinha 2 anos, e na carta que enviou ao meu avô a 10 de março de 1920 para Lourenço Marques, dizia que ele estava “muito atrasado no falar, mas chama-te «doudô»”.

A cadela branca escondeu-se atrás do tio Fernando

- Meu Deus - exclamou o Amador, benzendo-se.

- O que quer que possa acontecer, acontece! – disse o tio Fernando.

 

 

153 - Remédios (1)

 

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Quando o coração da freira filipina Remédios Garibaldi bateu pela última vez todas as recordações e sentimentos da vida regressaram com o mesmo deslumbramento da primeira vez, viu fecharem-se portas para sempre e viu outras a abrirem-se de rompante, tendo conseguido ver, pela primeira vez, a cara do assassino do seu marido, que morrera durante a guerra civil de Espanha, acontecimento que a levara a tomar a decisão de se mudar para um convento, juntamente com a sua fortuna, exceção do nome Remédios, que foi dado a uma sobrinha neta, Maria de Lourdes, gémea de um Carlos, menina que quis tomar para si e cria-la como filha por não ter filhos, mas como o pedido não fora aceite, pediu então que lhe acrescentassem o seu nome, que em Espanha era nome próprio. Ela sabia que o destino era fluido, porque estava na mão dos homens.

- Não sou mais do que uma mulher iludida, - disse um dia em confissão

- Não Remédios, é uma boa mulher, talvez boa demais para este mundo.

A única maneira de ver a verdade da vida é afastarmo-nos dela, para podermos ver as consequências de todos os pensamentos, de todas as ações. Mas mesmo assim estamos limitados ao tempo e ao espaço, incapazes de definir o nosso destino. Ele só está nas mãos de algumas mulheres.

152 - A irmã de Cristo (2)

 

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Qualquer eternidade é desesperadora, por isso os seus olhos não refletiam nada, estavam esvaziados de sentimentos. A avó de Vitalina inventara uma realidade para a dama de branco, via, dentro Dela, Deus. Pensava Nela para viver num reino virtual, uma terra de nada cheia de si mesmo, onde era invulnerável, invencível, toda-poderosa. Concebeu-se sozinha, o passado sempre chegava e parte dele não se importava com aquilo que deixava. Às vezes Vitalina e a avó ficavam caladas durante longos momentos, até o silêncio se instalar por completo dentro delas, e as almas sentirem a neblina, as rajadas de vento húmido, todos os maus humores dos genes que as habitavam. A rapariga deu um gole no copo cheio de vinho tinto e, elevando-o para o céu estrelado repetiu as palavras que o avô Ezequiel costumava gritar:

- Obrigado Oumuamua pela bebida!

Há treze mil anos os Senhores das Estrelas fizeram os macacos descerem das árvores para apanharem os frutos apodrecidos que já estavam a fermentar e que os punham zonzos. Mudaram-se de sociedades pequenas para grandes e com a bebedeira veio a Humanidade. Tantas vezes Vitalina entrara à socapa na igreja do padre Januário e trouxera Cristo na barriga, pois Ele próprio era o vinho com que o padre se deliciava nas horas de solidão.


151 - A irmã de Cristo (1)

 

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A memória raras vezes encontra o lugar em que se perdeu. A avó de Vitalina cruzou-se, só uma vez, com uma senhora cuja brancura permitia ver-lhe os mapas das veias e as zonas lisas do pensamento, e que à medida que andava fazia nascer flores, como se fosse o outro milagre dos pães e dos peixes.

- Esse quem o fez foi o meu irmão, - disse-lhe a desconhecida. – O meu nome é Eva, e acabei de deixar a Argentina.

Através dos filhos persistimos para sempre de alguma forma, porque eles nos impedem de perecer e muitas vezes este amor pode ser uma ruína. Apenas na morte se pode ser imortal. Da mesma maneira que o barão de Água-Izé encontrara o seu amor 144 anos depois do nascimento, Eva também se cruzou com o António Cândido nove anos depois da morte dele no dia 31 de janeiro de 1943, de sarampo com broncopneumonia e abcesso pulmonar na casa de família na rua Fernandes Tomás, 242, Porto, e beijaram-se levemente. Era o dia 26 de julho de 1952, quando ela fechou os olhos e se entregou à eternidade, enquanto o seu corpo era embalsamado, também para sempre.

150 - Vitrificação (3)

 

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Nos intervalos entre momentos bem aventurados de felicidade e segurança, e momentos perdidos de desespero, desorientação e sofrimento, os avós tinham de escolher uma via perante as trevas, ou tapavam a luz, ou acendiam uma vela. Acendiam sempre  uma vela! Queriam que tudo isto fosse um sonho, mas sabiam que não era. Por isso contavam recorrentemente à neta a estória do homem que saiu até tarde numa bela montanha na véspera da Páscoa e ouviu o som de uma mulher cantando com tristeza, lamentando-se, vindo das próprias pedras da montanha: “Sou uma mulher do Universo, o povo levou-me mais uma vez, as pedras pareciam dizer. Subi ao topo da montanha e o vento levantou-se, e o som dos trovões ressoou pela Terra. Colocou a mão na pedra mais alta e viajou para uma terra longínqua, onde vivi por uns tempos no meio de estranhos, que se tornaram em amantes e amigos. Mas um dia viu a Lua a nascer e o vento soprou mais uma vez. Então, tocou nas pedras e viajou de volta à terra natal e voltou para o homem que tinha deixado para trás”.

- Era uma miúda em vão tentando recuperar restos, fulgores de um dourado amor, - confidenciou uma noite à sua prima Márcia.

E a rapariga com que Vitalina sonhava todos os dias chamava-se Katherine, que se atirou ao rio Avon em maio de 1579, para cumprir o “chamamento”, que ela acreditava ter um motivo, sabia que era o seu fim, mas não que iria dar um grande salto na fé, renascendo para sempre como Ofélia em Hamlet de Shakespeare. Por isso quando deu a última expiração sentiu o corpo a fugir como um cavalo a galope, e a beleza saiu de rompante de dentro de si sem pedir autorização. O medo de acordar morta e não saber o que fazer, desvaneceu-se na presença dos novos amigos, muitos deles também antigos amigos. Os olhos melancólicos, a janela da alma, ficaram sem cor. A vida é uma série de interrupções causadas por almas semelhantes. Em Cabo verde os sábios, escondidos no meio do povo, diziam que a cada dois mil anos nascia um humano com um código genético tipicamente extraterrestre, com uma mente tão poderosa que conseguia ligar o passado ao futuro