3
Phobos
significava “terror” e quem o descobriu enlouqueceu. Era um dos satélites do
planeta Loga e, segundo a lenda, artificial. Quando Laputa resolveu criar a
espécie leveniana, enviou para o planeta Leve um casal especialmente dotado
para a procriação: Adão e Lilith, a fêmea mais bonita do Universo, dotada de
genes escolhidos pelo próprio Deus. Phobos foi enviada, mas algo não correu
como o planeado, e quando a nave passou junto a Loga, uma tempestade solar
empurrou-o para a órbita do planeta e ficou presa. O Centro de Comando de Sulis
quis intervir, mas como as desavenças entre os dois partidos mais poderosos de
Laputa, os “Criacionistas” e os do “Livre Arbítrio”, estavam ao rubro, Deus não
deixou. O casal ficou à mercê do Demónio do Meio-dia que matou Lilith e pôs Eva
no seu lugar. Mas Lilith, a Princesa Perfeita, já tinha tido seis filhas
durante a longa viagem, as Lilim, hermafroditas, que fugiram de Phobos com a
ajuda do pai, sendo enviadas clandestinamente para Leve. Com o tempo Adão
acabou por afeiçoar-se a Eva e esta conseguiu convencer o Demónio do Meio-Dia,
dando-lhe uma maçã, a fruta mais rara do Universo, a levá-los para Leve, pois o
domínio que o casal tinha do Mentino, a linguagem universal, permitir-lhes-ia
coexistir com as outras espécies do Centro do Universo e manter o fornecimento
de maçãs regular. Foram os dias do Paraíso. Mas Eva não conseguiu engravidar e
Adão nunca mais teve notícias das suas adoradas Lilith, que acabaram por
conviver com as outras espécies, excepto Perséfone, a mais velha. Nasceu assim
uma nova raça sem o sentido do Mentino, e sem este dom a luta pela
sobrevivência depressa tomou conta dos destinos de todos aqueles que habitavam
o planeta Leve. Foi uma vitória para os adeptos do “Livre Arbítrio”.
Quando o Espírito
Livre poisou no satélite de Loga, levando no seu dorso Narciso, o seu detective
particular, estremeceu e sentiu um abraço frio, que o fez experimentar o
excesso, o terror do seu próprio tempo. Ele sabia que estavam numa linha de
risco.
- Este demónio
também é canibal? – Perguntou o passageiro, limpando o pó do cosmos que se
tinha acumulado nas golas, dando um aspecto de caspa.
- Não, o Demónio
do Meio-Dia anda há séculos numa demanda sem fim, por amor de uma dama. Nessa
viagem já conviveu com grandes deuses, conhecidos e desconhecidos. É um
visionário que pretende a junção do “Criacionismo” com o “Livre Arbítrio”, num
só ideal, que traga paz ao Universo e dê descanso a Deus. Este demónio só é
terrível aos olhos da ignorância. E ao pé dele todos parecemos ignorantes, –
respondeu, em estado de alerta, o Espírito Livre.
- Estás com medo
dele?
- Medo não diria,
respeito. O Universo está cheio de criaturas que julgam saber tudo, e com essas
ele sempre foi implacável.
- E tu pensas que
sabes tudo?
- O que Deus
procura é a perfeição, nada menos. Mas este problema está a acordar coisas que
ninguém quer enfrentar.
À medida que
conversavam, resolveram explorar o ambiente. Não precisaram de andar muito até
descobrirem um vulto ajoelhado junto de um túmulo.
- Vê o Anjo do
Meio-Dia a chorar junto do túmulo da sua amada Lilith.
- Amada?! Então
ele não a matou?
- Matou-a por
amor a Deus. Phobos nunca deveria ter encontrado Marte. Lilith sugou-lhe a
atmosfera para conseguir alimentar as suas filhas. O Demónio do Meio-Dia tinha
aceite a missão de Deus, que era proteger o planeta Loga, e falhara, e tudo por
causa da sua eterna amada, que um dia conhecera em Laputa. Teve de fazer a mais
terrível das opções. Procura agora a alma de Lilith, guardada algures pelo
Cordeiro Verde nos confins do Universo.
- Alma de Lilith?
Fui contratado para procurar um fantasma? – Perguntou exaltado o detective
Narciso.
- Disseste que
por aquele preço até procuravas uma agulha num palheiro. E Lilith não é bem um
fantasma.
Bastou o barulho
seco de uma bota a desfazer um pedaço de rocha, para fazer com que o Demónio do
Meio-Dia se voltasse e abrisse as asas em aviso, deixando à vista as últimas
palavras de Lilith, que ficaram gravadas na pedra, antes de morrer:
“Eu sou do meu
amado, e o meu amado é meu, e alimenta-se de maçãs, entre os lírios”.
- Quem são vocês
que ousam pisar o território obscuro e incompreensível, onde Adão e Eva andaram
de calções?
- Uns simples
viajantes à procura do caminho para Laputa. Levo no meu dorso um leveniano que
foi contratado para descobrir uma mulher, – respondeu o Espírito Livre
saudando-o com as suas majestosas asas.
- Cada um de nós
tem um pedaço de caminho e, todos juntos, chegamos a Laputa. O meu vai dar a
Cister, o reino dos lírios.
- Fico-te muito
grato pela informação, e desejo-te todo o amor do mundo na demanda pela tua
querida amada. Sinto que aquele que levo no dorso, ser-te-á um dia muito útil.
Cister, conhecida
dos terrestres por Io, era um dos dezasseis satélites do maior planeta do
Universo, Santo, e o mais interior, constituído por planaltos e planícies
cobertos de vegetação.
Combinaram um
novo encontro para o dia seguinte e cada um seguiu para o seu espaço, o
Espírito Livre para o Mundo Real e o detetive Narciso Baeta para o Mundo
Aparente, cuja porta de acesso era a da cabine do WC do Centro Comercial.



