quarta-feira, 6 de maio de 2026

69 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Companheiros Estátuas

 

69

John dá a volta à chave e o veículo começa a vibrar, como que a dançar ao som do barulho dos motores. Dá uma olhadela aos seus companheiros-estátuas. Parece estar tudo em ordem, ninguém se queixa. Empurra a alavanca laranja para a frente e o “Carraça” arranca, fazendo estremecer os seus ocupantes. O clone do Paulo não resiste ao abanão e cai desamparado para a frente, bate com a cabeça no painel dos instrumentos e fica encostado ao John.

- Chega para lá, assim não consigo guiar - grita, empurrando-o para o lado contrário.

A estrada sinuosa mostra a variedade das paisagens e a imensidão do território. O sol levantou-se cheio de força e deixou o vento a dormir. No céu, milhares de pássaros voam aos círculos e gritam desalmadamente uns para os outros, talvez tentando mostrar de quem será a mais forte goela.

- Isto mudou radicalmente! As zonas da Cabeça e do Tórax eram muito mais agrestes, – diz John, quebrando o silêncio sepulcral. - O Abdómen é mais alegre.

Ao seu lado vai o engenheiro de sistemas Paulo Prestes, ou melhor, a sua imitação, que parece ter sido feita na República do Estômago, na posição invertida: pernas para cima, cabeça para baixo, “congelado”, completamente “congelado”.

68 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Espírito Santo

 

68

Nuca da Eva, algures num tempo sem data. Helias II olha pela última vez para a cidade das deusas, Aléluia, e relembra a missão que os céus lhe deram num dia longínquo: dominar o Tempo e oferecê-lo ao Espírito Santo.

Adão pertence ao Pai e ao Filho, não tem futuro, porque as suas ideias esgotaram-se em atos falhados. Eva, a senhora dos três diamantes temporais, o passado, o presente e o futuro, é a fiel amiga do Espírito Santo, mas desconhece os seus poderes.

Helias II sabe que o astronauta John Kovac’Olhões não tem passado e por isso nunca poderá transpor as suas portas. Só o futuro está à sua espera! Para que a missão do monarca tricúspico tenha êxito, este terá de agir sozinho, sem oponentes. O botão do engenho desce, não resistindo ao dedo gordo que o pressiona. Uma violenta explosão pulveriza a cidade Aléluia, levando-a em pedaços, envolta numa manta de fumo e fogo.

67 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Diário de Bordo da Nave Piolho-Um - Dia 7

 

67

John, eu sei que vais ler esta carta, mais cedo ou mais tarde, escreveu-a por mim o meu clone, já depois de ter ultrapassado a porta da banda-2 do espectro. Tu não vais conseguir passar, porque não tens lugar no passado. Os nossos clones sempre estiveram nessa sala, há milhões de cavernas como essa espalhadas pela Eva e cada uma tem imagens de outros individuos e passagens para outros tempos. Esses “bonecos” estão imóveis, sem vida, e só se mexem quando nos aproximamos. O movimento que fazem é igual ao da sua imagem, cruzamo-nos, mas nunca nos tocamos. Quanto a mim, vou para o meu passado, sei que estou presa algures. A Rita-2 é o nosso elo de ligação, é uma espécie de rádio, através da qual te vou dando informações. Vai para a região do Umbigo, talvez descubras algo. A Eva é uma caixa de surpresas!

Assinado, Rita Bouvalier, comandante da missão

66 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Asilo de Salpêtrière

 

66

13 de Junho de 1969

- Qual é o nome do paciente? - Pergunta o doutor Charles Lipiérre.

- Narciso Figueiredo Baeta, é dos pacientes mais antigos, está connosco há trinta e um anos, e quando entrou tinha setenta e cinco, – responde o seu assistente.

- Cento e seis anos? E está muito ativo!??

- Neste momento passeia no jardim, aliás, foi lá que o descobrimos. Nunca pensámos que um homem daquela idade e há tanto tempo imóvel, já entrou para aqui naquele estado, parecia uma estátua, se levantasse e andasse com tanta energia.

- Deixe-me o processo, vou dar-lhe uma olhadela.

O doutor Lipiérre dá uma espreitadela pela janela, na esperança de ver o “ressuscitado”, mas fica-se por um bando numeroso de pombas, que executa na perfeição manobras temerárias. Senta-se na poltrona cor-de-azeitona, puxa dum cachimbo já carregado e abre o processo que está em cima da mesa, ao mesmo tempo que tenta arrancar com a fumaça.

 

Nome: Narciso Figueiredo Baeta

Data de nascimento: 13 de Janeiro de 1863

O paciente nasceu em Nova Iorque, sendo o filho mais velho de uma grande família de classe média. Aos dez anos de idade mudaram-se para a Europa, mais precisamente para a cidade de Paris, de onde nunca saíram. Durante a infância nunca sofreu de doenças sérias, o seu aproveitamento escolar foi brilhante e quando concluiu a licenciatura em medicina e cirurgia decidiu enveredar pela carreira eclesiástica. O seu espírito ávido, levou-o a percorrer os quatro cantos do mundo, em missões evangélicas, que cumpriu com o brio e determinação. Em 1908 um incidente veio mudar-lhe o rumo da vida. Um incêndio na vivenda do seu pai, durante a festa anual da família, acabou em tragédia. Todo o clã Baeta pereceu, excepto o padre Narciso, que se encontrava ausente no Vaticano. A notícia causou-lhe um choque tremendo. Nos dias seguintes começou a sofrer de pesadelos aterrorizadores, imaginava-se a cair num poço sem fundo, não fazia movimentos, era uma estátua, queria acordar mas não conseguia, chamava desesperado pelo pai, que aparecia e desaparecia, até que era desperto pelos seus companheiros. A conselho de um médico seu amigo, retirou-se para uma abadia nos Alpes. Aí permaneceu durante cinco meses, até conseguir recuperar a lucidez por completo. Decidiu então refugiar-se numa capela de uma aldeia perdida numa floresta francesa e pediu ao Papa para exercer aí o seu magistério. O pedido foi aceite e ficou até 1938, ano em que o imprevisto aconteceu, durante a celebração da missa da manhã. Quando levantou os braços para agradecer a Deus o bom ano agrícola, caiu desamparado por cima do altar. Voltou a si acompanhado com movimentos súbitos e imobilizou-se por completo. Virou ainda os olhos para o altar e assim ficou. O médico local foi rápido no diagnóstico: “catatonia”. Trouxeram-no para esta instituição e aqui esteve imóvel, excepto durante as refeições, até agora.

- Não há dúvida, o corpo está submetido à alma, – diz o doutor Lipiérre, atirando para a mesa o dossier.

É interrompido pelo barulho de alguém a bater à porta com insistência.

- Entre, está aberta.

Um enorme enfermeiro, com um volumoso bigode, entra de rompante e pede ao director para o acompanhar à fonte velha. Precipitam-se pela escadaria numa corrida louca e embrenham-se pelo labirinto de sebes, obra fantástica erguida pelo jardineiro mais famoso de França, o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua. Ao passarem pela curva-das-cebolas-nuas, o espectáculo aparece-lhes de frente. Em cima da sereia-verde, que chora desalmadamente, o senhor Narciso Baeta inflama a vasta assistência que se sentou para o ouvir.

-...eu passei o espectro, sou o coronel Narciso Figueiredo Baeta do exército cardíaco, co-piloto da nave Piolho-Um, da missão “Novo Olhar”... Passei a porta da banda 2... Tudo depende de Deus, não só aqueles que vivem, mas também a lei, a ordem, a vontade, as verdades eternas, o meu cão, as vossas doenças, tudo, tudo... Deus conserva-nos e é por isso que existimos... Rita, procuro a engenheira Rita Bouvalier, a comandante, algum dos senhores a viu?

- Cento e seis anos? Este paciente teve o corpo parado, mas a sua alma parece ter viajado muito, – diz o director. - Está perdido, o tempo dele é outro.

- Coronel Narciso, o senhor por aqui? - Pergunta alguém do cimo de uma árvore.

O doutor Lipiérre vira-se e reconhece o jardineiro.

- Só faltava agora aparecer este artista - desabafa o enfermeiro.

- O senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua! - Exclama o director – Sabia que este é o seu verdadeiro nome? Está escrito no bilhete de identidade.

- É um maluco, cada vez que aparece dá espectáculo.

- Então agora já são dois, não podemos perder a festa.

- Ainda ontem estava a dar uma lição sobre Descartes à rosa multicolor que está no vaso da entrada.

- A minha mulher diz que essa planta deve ser única no planeta, é teoricamente impossível a sua existência.

- Mas no entanto existe e foi ele que a concebeu!

Os dois espectadores sentam-se confortavelmente num dos bancos e preparam-se para assistir ao acto. O “ressuscitado” olha impávido e sereno para aquele que ousou reconhecê-lo e mexe os lábios silenciosos.

- Então coronel, essas palavras estão com medo de sair? - Provoca o jardineiro.

- O senhor conhece-me?

- E quem é que não conhece o célebre coronel do exército cardíaco, o co-piloto da nave Piolho-Um , o pioneiro da missão “Novo Olhar”, eu vi-o partir do Centro Espacial Auricular!

- Esteve no Centro Espacial Auricular!?? - Pergunta o militar, aproximando-se do jardineiro.

- Eu estou em todo o lado!

- Você está a gozar comigo, ouviu-me falar sobre isso e agora quer aproveitar-se, – diz Narciso, afastando-se.

- E a “Nuca da Eva”, a “Carraça”, a engenheira Rita Bouvalier, o cartógrafo John, que não passou pela porta...

- É impossível, o senhor sabe muita coisa! - Interrompe o “descongelado”, voltando-se repentinamente.

- Eu sei tudo senhor coronel, a minha missão é observá-los, foi Deus que me mandou. De vez enquanto Ele tem destas ideias!

O director ajusta-se no banco de madeira e comenta o estranho diálogo:

- Estes dois falam de coisas sem nexo, mas que parecem ser verdadeiras.

- Verdadeiras doutoram?! Tudo o que dizem é um perfeito disparate, até o jardineiro é maluco. Na semana passada o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua (risos alarves!), quis-me convencer que falava com as formigas, e que elas são mais evoluídas do que nós.

- A minha mulher também partilha dessa opinião! - Exclama secamente o doutor Lipiérre.

- As formigas mais espertas do que nós!?? Posso esmigalhá-las quando quero.

- Mais forte não quer dizer mais esperto!

- Senhor doutor, se me dá licença vou-me embora, tenho de ir ao pavilhão oito.

- Vá, vá.

O enfermeiro levanta-se, acena com a mão e afasta-se.

- Idiota, só sabes dar injecções... e mal, – pensa baixinho o médico.

- Cuco... e ainda por cima director.

- Senhor.... senhor...., – chama o coronel.

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua ! - Responde com orgulho.

- Senhor Maximiliano...

- O nome todo, é a totalidade que dá forma aos seres!

- Senhor Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, se sabe tudo, diga-me por favor onde estão os meus amigos?

- Paulo Prestes e Rita Bouvalier passaram, John não conseguiu.

Narciso afasta-se em silêncio, enquanto que o jardineiro mais famoso do norte de França desaparece, embrenhando-se na sua obra-prima. O doutor Lipiérre assenta numa agenda os dois nomes que ouviu, levanta-se e inspira profundamente o mundo.

- Paulo Prestes e Rita Bouvalier, vão ser vocês que me hão-de levar ao coronel.

Todos os que entram no labirinto de sebes encontram um aviso: “ Se tens a Alegria do Mundo, não temas as encruzilhadas, deixa ser ela a levar-te até à saída “. O enfermeiro Olímpio, o gigante de bigode, já lá ficou várias vezes, aliás, sempre que entra sozinho só sai com ajuda. O director costuma dizer que “ para se aventurar naquele quadrado é necessário pelo menos ter um neurónio, no sítio onde o matulão só tem areia “. Mas não é só ele que se perde. Segundo um estudo elaborado pelo psiquiatra da ala três, o doutor Désiré Fuo, cinquenta e quatro por cento dos funcionários passam na perfeição e os outros quarenta e seis precisam que os vão lá buscar. Em relação aos pacientes, todos entram e saem sem problemas! O doutor Lipiérre quando recebe candidatos para o quadro técnico, leva-os para o jardim e quem se perde é de imediato afastado. A melhor companhia para os pacientes que estão em crise é, sem dúvida, o jardineiro. Recorre-se sempre a ele porque sabe falar-lhes na mesma linguagem, bastam alguns minutos de passeio no labirinto, para que encontrem a paz. Muitos dos técnicos tentam boicotar os seus serviços, pois sentem-se profissionalmente ultrapassados por uma pessoa que consideram hierarquicamente inferior. “ É preciso falar-lhes para a alma, e para isso devemos entrar no seu tempo “, explicou uma vez o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, ao director. Umas simples palavras são melhores do que dúzias de comprimidos. O espírito não tem tamanho, é feito dum espaço e dum tempo, que se alteram constantemente, e é com esta inconstância que temos de trabalhar.

O cartógrafo John Kovac’ Olhões entra na sala vazia e só vê paredes. Ninguém, nenhum dos seus colegas se encontra lá dentro. Dirige-se novamente para a porta e repara que o seu clone está fora da “Carraça” e que olha para si, imóvel. Torna a entrar. Tudo permanece na mesma. Espera uma hora, até que se decide a sair. Cruza-se com a sua imagem e entra confuso no veículo. Os seus novos colegas estão estáticos, parecem estátuas. Fala com eles, mas não reagem. Aponta o radar para a porta e os dados confirmam o que tinha visto. Está sozinho! A clone da Rita Bouvalier tem o diário de bordo aberto, parece ter estado a escrever. Dá uma espreitadela e repara que há registos. Passa para trás, empurra com violência o coronel Narciso, deixando-o com as pernas para o ar e tira o livro à engenheira.

terça-feira, 5 de maio de 2026

65 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Hospital de Highlands

 

65

13 de Junho de 1969

A notícia correu depressa pela região, o paciente do quarto número cinco, o senhor Paulo Prestes, acordou do seu longo sono e passeia agora calmamente pelos bonitos jardins, na companhia da fiel enfermeira Margarete. São observados do alto, pelo director.

- Há quanto tempo é que ele está aqui, doutor Preston ?

- Segundo a ficha, o senhor Prestes entrou há vinte anos, com um parkinsonismo pós-encefalítico.

- A “Doença do Sono”?

- O senhor director conhece a doença!??

- O meu pai tinha seis irmãos, ele foi o único que não apanhou a encefalite letárgica. Todos morreram! Estava em Viena em 1916, o meu pai tinha sido nomeado embaixador. Apesar de nunca ter conhecido nenhum deles, quando vi pela primeira vez uma fotografia da família, aos 7 anos, disse o nome de todos sem me enganar. A “doença do sono” deixou marcas na família!

- Parece um milagre, o senhor Prestes ontem levantou-se normalmente e foi passear para o jardim. Parece não saber onde está, e nem pergunta, só se mostra preocupado com uns colegas, que desconhecemos quem sejam.

- Já viram nos arquivos?

- Rita Bouvalier, Narciso Baeta e John Covões nunca foram nossos pacientes.

- Deixem-no sentir o mundo, está perdido no tempo, tem de ser ele a encontrar-se!

64 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Mount Carmel

 

64

Nova Iorque, Hospital de Mount Carmel, 13 de Junho de 1969.

No pavilhão dos “ mortos-vivos “ reina a excitação. Os médicos correm apressadamente de um lado para o outro, levando a reboque as enfermeiras e os assustados estagiários. Todos esperam pelo doutor Cinfuentes, que acaba de entrar no edifício.

- O que é que aconteceu aqui de tão importante, para me acordarem a esta hora da manhã? - Pergunta o director, vestindo atabalhoadamente uma impecável bata.

- É a paciente do quarto nove, – responde-lhe a obesa enfermeira-chefe. - Hoje de manhã quando os auxiliares lhe foram dar o pequeno almoço, estava de pé junto à janela.

- A senhora Rita Bouvalier de pé!?? É impossível!

Entram de rompante no elevador e carregam no botão para o quarto andar. O silêncio é pesado. Os olhares perdem-se no vazio, como luzes descontroladas numa noite de nevoeiro. Os médicos recém-formados colam-se à parede do fundo, receosos pelo que vão encontrar. Uma campainha anuncia a chegada, ao mesmo tempo que as portas se abrem com estrondo. O quarto nove está entreaberto. O doutor Cinfuentes espreita cautelosamente, hesita, mas decide-se a entrar. Vê um vulto de mulher junto à janela gradeada, contempla-a carinhosamente por uns instantes e aproxima-se. A paciente olha para o horizonte e murmura baixinho uma frase:

- Transpus a porta, transpus a porta, transpus...

Observa-a fascinado, olha em redor, não ousa procurar por explicações porque sabe que não existem, e diz com um tom jocoso:

- “Só sei que nada sei”!

Rita volta-se. Os olhares encontram-se, o diálogo é fundo, bem fundo nos alicerces da alma, falam animados em silêncio e sem palavras, procuram desesperados a memória que descobriram ser comum, e soltam-se repentinamente assustados. No corredor uma multidão espera-o ansiosa.

- Então doutor, o que é que tem a dizer? - Pergunta a enfermeira, encostando-o à parede com a sua enorme barriga.

- Colega, – diz o médico, apontando para um dos estagiários. - Como se chama?

- Carlos, Carlos Tompson.

- Carlos, entre no quarto e diga-me que idade dá à paciente.

O jovem avança com receio, empurra a porta, entra cautelosamente e fica paralisado quando encontra o olhar da Rita, que avança para si.

- Transpus a porta, – diz-lhe, pondo as mãos nos seus ombros.

Os olhos azuis desbotados da paciente cravam-se bem fundo no seu interior, o cabelo cor de fogo atira-lhe com um perfume floral e a pequena boca continua a soltar as palavras:

- Transpus a porta, conseguimos descobrir a entrada para o passado.

Afasta-se, perde o presente, retorna ao horizonte. Carlos sai desorientado e dá de peito com a enfermeira-chefe Zobáida Mercedes.

- A idade? - Pergunta embriagado.

- Sim, eu só quero um palpite, – responde Cinfuentes, acordando-o.

- Quarenta e cinco, talvez cinquenta.

- Quarenta e cinco?! Cinquenta?! - Exclama Zobaida, consultando uma ficha que tem na mão. – A senhora Rita Bouvalier tem sessenta e sete anos.

- Sessenta e sete, é impossível!

- Meus senhores, temos aqui algo que ultrapassa a ciência, tal como a conhecemos. Antes de avançarmos mais, é melhor acompanharem-me ao gabinete, para esclarecermos algumas ideias.

O grupo dirige-se em marcha forçada, comandados pelo doutor Cinfuentes, entram de rompante e cada um escolhe uma cadeira e sentam-se.

- Já ouviram falar da “Doença do Sono”?

- “Doença do sono”?!

- São muito novos, hoje em dia não lhes ensinam história na faculdade, – responde secamente a enfermeira-chefe.

- Não é com histórias que curamos as pessoas! - Exclama um dos novatos.

- Engana-se, – diz-lhe Cinfuentes. – É na História que muitas vezes se encontram as curas, porque ela repete-se indefinidamente. Mas o que nos traz aqui é a Encefalite Letárgica! Um dos maiores enigmas da medicina, uma doença terrível que aparece, dizima e evapora-se sem deixar rasto, aliás o único sinal da sua presença são os dezassete pacientes que temos aqui há várias décadas. Senhora enfermeira, conte a anamnese da Rita Bouvalier.

- Nasceu em 1902 em Viena e aos dez anos mudou-se com a família para Paris. Teve uma infância feliz e aos dezoito anos, quando se preparava para casar, foi acometida de uma doença súbita, que a deixou prostrada na cama. O médico que a assistiu, não conseguiu fazer nada e algumas horas depois declarou-a cadáver, devido a uma síncope cardíaca. Na noite do velório uma das criadas descobriu que a Rita estava a chorar. Afinal não estava morta! Foi internada num hospital e nunca mais regressou a casa. Permaneceu numa cadeira de rodas, imóvel, durante estes anos todos. Veio para aqui em 1945.

- E o que é incrível, é que apesar de ter estado como uma estátua durante décadas, com uma postura péssima, não há qualquer tipo de deformações, e o envelhecimento atrasou-se consideravelmente.

- Sessenta e sete anos?! - Interroga-se um dos assistentes, deixando escapar o pensamento.

- E apesar de tudo move-se, – continua o doutor Cinfuentes, cada vez mais entusiasmado. - Raramente os vimos moverem-se!

A altura mais interessante é a das refeições, todos são independentes nesta área, mas não os vimos comerem, temos de sair do refeitório. Quando voltamos, os pratos estão vazios.

- Doutor, – interrompe um dos colegas. - Mas a encefalite letárgica devia ser mortal, ainda por cima naquela altura.

- Em todo o mundo devem ter morrido milhões de pessoas, os poucos que sobreviveram devem ter sido aqueles a quem Deus protegeu, não sei para quê!

- Ou castigou! - Dispara a enfermeira Sobaida, sem levantar os olhos do processo.

- Depois da encefalite letárgica, quem ousou sobreviver, desenvolveu um parkinsonismo, que o deixou um morto-vivo. Eles são só alma, estão bem longe!

- No caso da senhora Rita Bouvalier, regressou ao corpo, – provoca de novo a enfermeira.

- Pode ter regressado, mas de dentro! - Ajuda um dos enfermeiros, que está escondido atrás da enorme silhueta da sua colega.

- O quê?! O colega se não tem nada para dizer, não diga disparates.

- Senhora enfermeira, não foi dito nenhum disparate, – diz Cinfuentes. - A discussão deve situar-se no plano metafísico, pois ao nível da medicina não vamos descobrir nada.

- Por amor de Deus senhor doutor, nós não somos padres!

- A alma não é exclusiva dos padres. Os médicos deviam compreender que muitas das doenças do corpo se devem a problemas na alma. Quando soubermos respeitá-la, então ela respeitar-nos-à ! O nosso trabalho com a senhora Rita Bouvalier vai ser de observação e registo. Alternamo-nos, vamos estar com ela vinte e quatro horas por dia, a registar tudo o que fizer e disser, incluindo os sonhos. Reunimo-nos uma vez por semana aqui e a esta hora. Bom-dia a todos!

Junto da grande janela do quarto número nove, a paciente fala para o horizonte:

- John, tu não vais passar, esta porta só dá para o passado, e tu não tens passado...

 

63 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Entrada

 

63

O amanhecer acordou bem disposto, espalhando pela região uma luminosidade radiante, embora um pouco fria. Os quatro sobreviventes da missão “ Novo Olhar “ levantaram-se cedo e estão a ultimar os preparativos para mais uma viagem. Descobriram ao longe umas formações rochosas que parecem ser muralhas, sinais de que o destino está próximo. Os motores da “ Carraça “ já rosnam, o radar principal voltou a estar operacional e o engenheiro de sistemas Paulo Prestes acaba de se sentar aos comandos do veículo.

- Há problemas no sistema de refrigeração, – informa a engenheira Rita Bouvalier. - Temos de avançar com precaução e parar caso a luz de aviso acenda.

- Penso que o computador central resolverá rapidamente o problema, – diz o co-piloto Narciso Figueiredo Baeta.

As portas laterais são fechadas, o ruído aumenta e a “ Carraça “ põe-se lentamente em movimento.

- Já repararam que o radar acusa a presença do Piolho-Um em órbita do Corpo-Dois! - Exclama Rita.

- Agora tudo é possível, – diz, com uma voz rouca, John. - Os nossos sentidos estão embriagados, não sabemos o que é real e o que é fictício.

A viagem decorre sem incidentes, descendo a estrada que serpenteia pelas montanhas de várias cores, pois cada um dos ocupantes tem uma opinião diferente:

- A cor amarela das árvores é lindíssima, – diz Rita.

- Amarela?! É tudo azul! - Exclama Paulo.

- Azul!?! Amarelo!?? Cor-de-rosa, algum maluco andou a despejar aqui as latas de tinta que tinha no sótão. Poluidor! - Interrompe John.

- Fiquem com as cores que quiserem, que o meu encarnado ninguém me tira. Parece que as montanhas estão em fogo! - Grita Narciso, chorando emocionado.

Após a curva apertada, aparece uma enorme porta a barrar o caminho.

- Está fechada!

- Está alguém ali.

No lado inferior direito uma outra porta mais pequena está aberta e um vulto olha, imóvel, para os recém-chegados. Paulo tenta abrir a porta do seu lado e:

- Não consigo, está encravada.

- Deixa-me tentar, – diz Rita. – Não, também não consigo. Saímos pela porta do meu lado, – e roda a maçaneta. – Não, esta também não abre.

- Eu vou conseguir sair.

Narciso levanta-se, puxa a alavanca e a porta abre sem problemas.

- Eu também vou!

- Não venhas John, não vais conseguir.

- Então tu sais e nós não!??

- Há quem seja o preferido de Deus!

- Não brinques, não é altura para isso. Estamos colados aos assentos, algo nos obriga.

- Peguem nos binóculos e vejam quem está na porta.

Incrível! O vulto não é mais do que o coronel Narciso Figueiredo Baeta, ou melhor, um sósia.

- John, esta é uma das entradas da banda 2 do espectro, – esclarece o co-piloto. - Temos um tesouro nas mãos.

- Mas como é que tens tantas certezas?!

- Eu também fiz parte do projecto “ Tempo Novo “, não contaste tudo, John! Todos nós, direta ou indiretamente, estamos ligados a isso. Quem está ali é a minha imagem, e atrás dela estão as vossas. Para entrarmos no “ Tempo sem Data “, elas têm de sair, é a nossa segurança, é a segurança de Deus, Ele fez clones de todas as espécies.

O coronel aproxima-se da porta e a sua imagem sai e afasta-se. Quando se cruzam o original pára, obrigando a cópia a fazer o mesmo. Sorri para o seu clone e tem como resposta também um bonito sorriso.

- Felicidades amigo!

- Sedadicilef  ogima !

Enquanto ultrapassa a porta, cruzando-se também com outra engenheira Rita Bouvalier, o seu sósia entra calmamente na “ Carraça “. Um a um, os outros três fazem a mesma troca, e algum tempo depois a porta fecha-se, ficando no lado de dentro os originais da tripulação do Piolho-Um e no exterior, na “ Carraça “, os seus clones.

Na Nuca da Eva, Helias II recebe uma informação:

- Majestade, eles acabaram de entrar!