quinta-feira, 14 de maio de 2026

105 - A Miúda do Lenço (18)

 

18

Era uma cena que doía. Todos sentiam na alma a dor da mãe, doíam-lhes nos corações as lágrimas que pingavam ininterruptamente dos seus olhos de cor azul celeste, e sentiam nas almas o lume de fogueiras iluminadas por luzes azuis, acesas na noite negra que caíra à traição. A vida de Sofia fora apenas um sono sem sonhos.

- Eu era a única pessoa no mundo que a conhecia, - desabafou a mãe Joana. – Tudo isto é injusto, os filhos devem sobreviver aos pais.

A grande preocupação dos pais com filhos deficientes tinha a ver com o seu futuro, quando eles não estivessem presentes, devido à lógica da vida. Mas para a Joana este pensamento nem se punha, porque para ela a filha era igual a todas as outras.

- A Sofia não precisava de mais tempo para a vida, pois nunca recebeu vida ao tempo, - tentou consola-la uma amiga, abraçando-a.

- Não percebo? – Perguntou a mãe com o corpo todo, deixando escapar um suspiro que se alongou, e se suspendeu, e se tornou a alongar.

A sensação da sua interioridade era tão intensa, que incomodou. Sentia a catacumba escusa para onde fora atirada. Não percebia ela, nem a própria, mas estas eram alturas em que as pessoas tentavam ganhar pontos perante o portador da dor, usando a maior parte das vezes as palavras mais caras, assim como as flores. A imortalidade é um luxo a que a Natureza não se pode permitir, tal como a esperança de vida de uma menina deficiente profunda é curta. Por isso as nossas vidas não são realmente nossas, e são feitas com as mortes dos outros.

- Muitas destas estranhas amigas da mãe Joana substituíram o meu confessionário pelo psiquiatra, - ironizou o padre. – Regressam agora cheias de cruzes à feira de vaidades em que se transformou o velório.

- Mais tarde ou mais cedo hão-de regressar, - disse outro. – As consultas estão caras e as pessoas vão ter com os padres para desabafar.

Para a mãe Joana, a Sofia seria sempre uma pessoa única e irrepetível, com um corpo feito de exterioridade e interioridade, uma menina frágil de um silêncio único dentro de uma bolha, que lhe ensinara a olhar para o tempo das coisas de outra perspetiva, e lhe dera o valor que ela precisava para deixar de ter medo dos silêncios. Foram dias demasiado longos, para uma vida demasiado curta.

104 - A Miúda do Lenço (M) - (17)

 

17

SMS - Fátima, 18 de julho de 2012.

Vai correr tudo bem. O que eu te quis dizer com o Tamoxifeno, é que o que custa mesmo é nós pensarmos que ao fim deste tratamento as coisas ficam bem, e afinal duram e duram e duram. Por isso é um "mais" não ter que o tomar. Porque no fundo também é uma quimioterapia, mais ligeira, mas é. Há quem disfarce com bloqueador de estrogénios, mas é uma quimioterapia. Se o teu tratamento durar menos, vai custar, mas é mais rápido, e podes acreditar, faz muita diferença. Recuperas mais depressa, não te cansas tanto e acima de tudo, acaba. Fica-te bem o cabelo mais curto. Se bem que vais ter que o cortar mais. E vais ver que o que custa é cortar, depois já está. Mas fala com os enfermeiros que te fazem a quimio. Eles explicam tudo. Eu penso que vás levar o FEC, se for, fazes logo xixi vermelho. É tomado de 3 em 3 semanas, se não houver problema. Pergunta dos enjoos. O Ondansetron ajudava muito. Mas tu até podes nem ter náuseas. E vais aprender o que deves e não fazer. Somos todas diferentes. Eu aprendi e acabou por me custar menos no meio do tratamento, a primeira e a última foram as piores. Há alturas que até parece que não aconteceu nada. Agora eu acho que estou diferente. Menos paciência para gente parva. Não que não brinque, não consigo deixar de o fazer, mas distingo muito mais o que interessa do que não interessa. E não perco tempo com futilidades. Só de vez em quando (smile). As tuas miúdas são as maiores. Eu vi pelo Gonçalo. Eles estão sempre lá. E olham para nós e fazem-nos sentir importantes, mesmo quando nos vemos ao espelho e nos achamos um nojo. Percebemos que somos muito mais que isso e que isso é mérito nosso, porque os outros nos vêem assim. Lembro-me de um enfermeiro me dizer "eu só vejo uma mulher linda". Sabe tão bem. O Zé, já sabe? Ele foi um fdp, já lho disse, mas gosta muito de ti. Eu sei que gosta. Quanto a ser a única pessoa que tu conheces bem e que passou por isto, usa e abusa. Eu sou muito directa, mas acho que ser directa não é ser pessimista. É mesmo ser directa. Não vale a pena florear. Isto custa. Pensa em ti. Em ti mesma. Mas como te disse, se o tratamento não se prolongar vai ser muito bom. Um grande beijinho e aguenta aí o esqueleto, eu estou cá para desabafares. Faz mesmo bem, acredita. Quando souberes datas de tratamento e protocolo, diz-me. E vai escrevendo. Beijinhos

 

SMS - Fátima 23 de julho de 2012.

Algo de novo a relatar, miúda? Beijinhos.

- O tempo é um rio circular, o desaparecimento de alguém abre sempre a porta para o nascimento de outra, - disse um amigo, beijando a testa de Sofia, que jazia imóvel no caixão. – Cada beijo envia uma mensagem, este foi de “adeus”!

A morte parecia ter sido suave, um gesto para algo mais, para o Céu.

- E há pessoas que aprenderam a navegá-lo. Se tivesse essa capacidade gostava de ir para montante, - retorquiu a mãe, com uma voz que avançava e recuava como se deambulasse fora e dentro de si mesma.

Era uma bela adormecida encantadora mas imperfeita, numa candura que podia parecer provocação.

- Somos, muitas vezes, aquilo que os nossos pais fazem de nós, quer gostemos ou não, para o melhor e para o pior. Neste caso, sem qualquer dúvida, foi para o melhor! – Exclamou outro amigo, aproximando-se e abraçando a mãe inconsolável.

- O Inferno surge quando o mal deste mundo é superior à nossa crença de que podemos vencê-lo, - interveio o padre, - Neste caso o Bem prevaleceu!

- As mães rezam mais que os padres, dormem menos que os pais, e envelhecemos antes da hora, esperando e preocupando-nos, - interrompeu a mãe Joana dando uma festa na filha.

103 - A Miúda do Lenço (16)

 

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O detetive Bartolomeu espreitou pela janela da instituição e assistiu a um acasalamento de cães, ao mesmo tempo que sentia aquele imenso espaço existencial, e frio. A mãe do Paulinho veio-lhe à cabeça. Nunca pensou que este caso pudesse ter tanto poder, que pudesse criar um poço sem fundo, onde todas as suas convicções acerca da justiça caíssem e desaparecessem como fantasmas. Perdera-se a si próprio, estava triste, queria desesperadamente sair daquele mundo sem sol, onde só havia frio e sombras. Descobriu que a sua incessante busca de conhecimento não o tinha tornado imune às emoções. Lembrou-se do diálogo com a mãe.

- Onde está Deus senhor Inspetor? Que mal é que eu Lhe fiz para me dar mais uma desgraça destas, já não Lhe bastou a primeira? - Perguntou, agarrando-lhe a mão, como um náufrago a uma tábua de salvação.

As perguntas eram pertinentes, o Deus Omnipresente e Omnipotente distraíra-se durante o nascimento do Paulinho, e também não a ajudara agora na hora da sua morte.

- Dona Maria José, o deus em que eu acredito não é exclusivo de ninguém, por isso nunca pode estar em todo o lado ao mesmo tempo – respondeu o detetive apertando a mão daquela mãe desesperada, com carinho.

A maioria dizia que acreditava em Deus, mas zangavam-se constantemente com Ele sempre que lhes acontecia algo de mau, o Livro Amarelo do Céu estava cheio de reclamações, onde todos Lhe perguntavam porque é que não tinha escolhido o vizinho em vez deles? Um deus particular e uma fé limitada, em vez de um Deus de todos e de uma Fé inquestionável.

- O Mal é mais generoso para os seus, veja esta juíza. Mandar analisar a urina na fralda para ver se o Paulinho morreu por falta de medicação. Isto é mau, é muito mau!

- Confesso que acho um exagero, é a primeira vez que sou confrontado com uma coisa destas.

- Se eu fosse uma assassina ele nunca teria chegado a esta idade. E passou-me tantas vez pela cabeça acabar com todo o seu sofrimento.

- Só quem passa pelas situações é que sabe, os outros limitam-se a falar sem conhecimento de causa.

- E é só para alguns. Durante algum tempo o meu filho foi seguido em Lisboa, num centro grande chamado Caloustre Gulbenkien e teve uma colega, a Obiana, com o mesmo problema, e que viera com o pai de Cabo Verde, ao abrigo do protocolo de saúde que existe com o nosso país.

E contou que mal o pai se legalizou em Portugal, chamou a numerosa família, que tirou de imediato a Obiana da instituição onde andava, para assim recuperar o subsídio com que o Estado Português pagava à escola, e trancaram-na definitivamente na barraca, deixando de lhe comprar os medicamentos necessários para a sua sobrevivência. O golpe tinha sido dado, a Obiana servira para saírem de Cabo Verde, e agora não passava de um fardo em Portugal. A assistente social foi várias vezes alertada para a situação dramática, mas como não gostava da profissão, que conseguira à custa de uma bela cunha, nada fez e nada disse. E quando a menina morreu, acompanhada pelo seu fiel amigo, não apareceu nenhuma juíza para fazer justiça. Por terem a cor escura estavam imunes, graças ao “politicamente correto”, que poderia virar o feitiço contra a feiticeira, e acusá-la de racismo. A justiça estava exclusivamente direcionada contra os brancos!

 

102 - A Miúda do Lenço (15)

 

15

O mundo de Filipe, que trabalhava como jardineiro no palacete do coronel Osório, e de Quitéria, era como todos os mundos, feito de verdades e mentiras, mas um mundo regular. Repetiam alegrias e tristezas, eram unha e carne, odiavam-se com a mesma força que o vinho os unia. Foi uma relação complicada, num tempo e numa parte do mundo complicadas. Por isso o mundo onde viviam era contraditório de luz, paixão, confusão e caos, estava ligado a uma marginalidade que, apesar de tudo, tinha os seus princípios. A miséria possuía a chave para a relação entre estas duas pessoas, reféns de um amor maldito que foi longe de mais, para lá do aceitável. Esta é uma estória de afetividade de um casal com valores fluidos, onde já não havia ilusões, e que tinha sonos sem sonhos. O instante decisivo na vida de Quitéria correspondeu a um descarrilamento pessoal. Este romance tem de ser julgado pelas próprias cabeças que o lêem e não pelo que os outros dizem. Num dia já muito distante o calendário pendurado numa das paredes do café “Iolanda” assinalava o dia 30 de março de 1971. Quitéria passou junto a uma casa com ameias na Avenida e lembrou-se da escola primária e da professora Edviges, ao mesmo tempo que sentiu o cheiro das batatas fritas da Mariana. Viu ao longe uma imagem do passado, o senhor Bazílio em cima da carroça, puxada pelo burro, a sair da carvoaria, para mais uma distribuição de carvão pela zona:

- Coitado, morreu cedo, atropelado na curva da morte, a caminho da praia velha, - recordou este homem de temperamento vivo e raciocínio lento.

Quitéria era uma ninfeta da praia e do mar, uma mitologia natural, tinha apenas a idade e o impudor, o ar perdido, a perversidade um pouco transtornada, os brilhos e movimentos e apetites, beber, comer e andar. Quando passou junto ao Cineteatro “trocou” os cartazes do Bruce Lee, amarelados pelo sol, pelas telas gigantescas que anunciavam o concurso de Miss Paço de Arcos, onde outrora participara e ganhara. Tinham sido tempos de boémia saudável, em que as concorrentes eram conhecidas como as “espanholas”. O vidro da vitrine refletiu a sua imagem, transformando-se na porta de entrada do seu espírito sonhador. Deixava de ser a adulta que se governava pela ditadura do real, passando a reger-se pelos jogos do imaginário. Tossiu, para aclarar a voz, saudou a imagem para lhe conquistar a confiança e deixou sair uma ampla indignação exclamada de impropérios e gritos, que quase quebrava o espelho. Para ela o mais importante era voltar as costas à realidade. Conseguia assim conciliar as exigências contraditórias do sonho e da vida, mergulhando a fundo nas suas memórias, ilusórias miragens de felicidade. Fez caras baças, caras brutas, a voz ficou rouca, sobre-humana. Sabia que era capaz de grandes afeições, mas também de enormes raivas e ressentimentos, e isso assustava-a. Teve sonhos pequenos, um pouco mais longos, de novo pequenos. Era só ali que os construía. Ouviu um cão a ladrar. No bairro onde moravam dizia-se que os cães ladravam à noite porque viam fantasmas. Coisa que agora o Bóbi fazia regularmente quase todas as noites junto ao palacete, debaixo da janela onde costumava pernoitar a menina Isabel, amiga de Sara, filha do senhor Jóni, filho do coronel Osório.

Para os lados da vacaria, junto a um terreno de pasto, Carlos cavava no chão com vigor.

- Tem a certeza que foi aqui que enterrou a mula?

- Quase a certeza!

- Quase?!! Ainda vou passar aqui o dia todo e depois o bicho está a dormir noutro lado.

A vida tinha destas coisas, a mula que o pai do senhor José trouxera da tropa vinha com obrigações e livrete que a atestava como propriedade do Exército Português. A morte dela deveria ter sido comunicada, assim como deveria ter sido entregue o respetivo documento de identificação. Mas já lá iam muitos anos! E agora os burocratas bateram-lhe à porta, porque nunca um equino vivera tanto tempo.

- Penso que o meu pai a enterrou com o livrete dentro de uma saca presa ao pescoço da Joaninha.

- Pensa?!!

- Já foi há tanto tempo!

- E para que é que eles querem o livrete? – Perguntou Carlos coçando os testículos.

- Para dar baixa da mula, que já tem anos a mais!

 

101 - A Miúda do Lenço (M) - (14)

14

No palacete da Quinta de São Miguel dos Arcos Isabel, amiga de Sara, a neta do coronel Osório, olhou para as paredes gastas que guardavam as memórias de vidas que por ali se recolhiam na intimidade e já haviam desaparecido. Aproximou-se de uma janela e viu, ao longe, iluminado pela luz da Lua gorda, um moinho de vento a desenhar uma linha reta no horizonte. De repente viu, no fundo do corredor que dava acesso à cozinha, um espetro de extrema singularidade, inquietante e perturbador.

- Viram? – Perguntou, assustada.

Não foi apenas uma, houve outras caixas que se mexeram. A maior estava em cima de um móvel de madeira escura e era o centro da sala. Ouviu uma voz, destoada e áspera, saíram clarões raros das profundezas do rádio. Estavam todas num estado sem tempo, imóveis e mudas, sem vontade e sem pensamento. 

SMS - Fátima, 17 de julho de 2012.

O Tamoxifeno é um quimioterápico, uma quimioterapia mais ligeira, mas cumulativa. Toma-se normalmente por cinco anos, depois da quimioterapia tradicional e normalmente depois ou já em simultâneo com a radioterapia. Ouve bem tudo o que te explicarem e bebe água como um camelo. Vais ver que te aguentas. E felizmente se não tiveres de fazer mais nada depois deste boom inicial, as coisas voltam ao normal com toda a normalidade. Vai correr bem.

 

SMS - Sesaltina, 18 de julho de 2012.

Hoje, mais logo vou fazer a cintigrafia ossea... acredito que vai estar tudo bem por isso.... mas depois digo-te. já fiz as ecos vaginal e abdominal, ecocardiograma, rx torax e até agora tudo bem. Se tu estás aí firme e irta eu tambem vou ficar, mais comprimido menos comprimido o importante é ficar bem! eu queria dormir e acordar daqui por uns 2/3 meses para saber como foi... esta expectativa mata-me! quero acabar com tudo isto... depressa!!! eu tambem sei que não é assim, as coisas levam tempo mas, não custa querer pois não? sabes és a unica pessoa que eu conheço bem e que passou por esta situação, daí esta minha necessidade de "desabafar" contigo porque és credível quando falas! - já contei às minhas miúdas na sexta feira passada - elas e eu rimos, choramos enfim... mas sinto-me mais aliviada foi bom. Hoje fui cortar o cabelo, bem pequenino e estava enorme, para que o choque depois não seja tão grande! é uma grande diferença mas sinto-me bem vou dando news. Mais uma vez, numa altura complicada da minha vida estás aí! Obrigada mesmo, por tudo.

 

100 - A Miúda do Lenço (13)

 

13

O pecado é só a incapacidade de escolher a bondade. A bondade é uma escolha. Cada momento é uma oportunidade de fazer uma escolha. A escolha de pensar um bom pensamento, de pensar um mau pensamento, de reagir a ele, de deixá-lo passar.

- A minha bisavó deve andar por aí, - exclamou Sara entusiasmada e olhando para todos os candeeiros que podia alcançar. – Ainda vamos ser amigas.

Abriram com sofreguidão o caderno e leram-no pausadamente, ao mesmo tempo que Adelaide recuperava as memórias empoeiradas. Tinha todos os momentos guardados, registados, retidos. Ela suportou-lhes as impaciências, as queixas e as revoltas.

- Às vezes ouvem-se os soluços, - explicou a governanta.

- Talvez seja uma destas figuras, - disse Isabel, apontando para um candeeiro e rindo-se.

Quando a noite veio ficaram cercadas pela escuridão, junto a uma lareira, imóveis, silenciosas, observando o fundo de um corredor e a sua paisagem visual cheia de tudo e de nada, como se fosse uma tempestade parada. Sara abriu um livro, uma fotobiografia de Fernando Pessoa, e deu de caras com o poeta a enfiar um copinho pela goela abaixo, enquanto Isabel subiu por uma escada ornamental. Primeiro ouviu um ruído ténue, que se tornou mais forte, mais firme, mais audível. Correu em direção a algo, mas foi distraída por uma frase escrita num quadro:

- “Princípio de um caminho é a nascente de um rio” – Leu, em voz alta.

Adelaide reparou que a amiga de Sara prolongava as suas palavras com as mãos e que quando tocou na pintura os dedos apertaram-se, como se colhessem a fruta.

- Sinto o cheiro, e o gosto da casca, colam-se à minha pele.

Por momentos Adelaide viu Isabel fazer-se corpo de Matilde. Os minutos de espera eram agudos como agulhas. Isabel sentiu afetos envolverem-na no silêncio e na escuridão, mas quando sentiu uma mão fria a apertar-lhe o rabo, gritou:

- Apalparam-me!

Sara levantou-se e correu para junto da amiga. Olharam-se em silêncio, até que se abraçaram no meio de risos barulhentos de adolescentes. Adelaide sorriu e lembrou-se duma passagem no livro de anotações da sua antiga e saudosa patroa: “Não há detalhes supérfluos, tudo é significante, nada é natural ou está lá por acaso, por isso decorei a casa para que os meus amigos se sentissem confortáveis”.

- Eles querem falar, - disse a governanta.

99 - A Miúda do Lenço (12)

 

12

O verdadeiro crime sobre o Paulinho, o filho da Maria José que vivia na Casa do Lago, a meio caminho entre o palácio e a vacaria, edifícios que pertenciam à quinta, tinha sido cometido por causa de uma noite de farra que atrasara o parto, e obrigara a inventar um relatório que nada dizia, com termos que escondiam realidades e mantinham as gratificações. Mas este tipo de gente estava sempre protegida pela lei, e por isso o mundo dele reduzira-se às paredes da sua casa e da escola. O inspetor Bartolomeu sabia que a descida aos infernos não se fazia sem dor e por isso resguardou do olhar aquele mundo de emoções.

- Coitado do Paulinho, - disse-lhe a funcionária enxugando uma lágrima ao canto do olho. – Foi tratado por nós com todo o carinho, mas o mesmo não se pode dizer lá em casa.

Ficou a saber que a vocação de mãe fora trocada pelo prazer, consentindo que o pai se perdesse pelo pó branco. O inspetor possuía um espírito inquieto e sagaz de olhar brilhante. Lembrou-se do encontro que tivera no dia anterior com a médica de família, que lhe tinha cortado a palavra dezasseis segundos depois de começar a falar. Cronometrara. Quando falou com a mãe sentiu que ela tinha uma voz em fuga. Contou-lhe o passado, e da forma como o problema do filho a tinha feito esquecer-se do tempo e dela própria. A sua vida tinha estado suspensa no seu alheamento. Chegara a esperar o seu fim como um resgate. Confessou que quando soube da morte dele ficou triste e contente. O inspector olhou para a fotografia e por momentos conseguiu sentir o que o Paulo sentira a vida toda, a incompreensão da sua situação, a incapacidade de falar, a solidão. Olhou para a mãe e viu um ser que tinha estado eternamente à espera de uma cura, que se consumara agora num ir embora. Estava em paz, apesar de se sentir uma tensão surda no ar. O ambiente emocional tinha agora tomado uma forma, a fronteira entre a sanidade e a loucura aumentara. A experiência do inspetor, um homem torturado e controverso, fê-lo sentir a mágoa que vinha do fundo mais remoto daquela mulher, que fora interrogada, perseguida com perguntas, para que revelasse a verdade que os representantes da justiça proclamavam: “não fora a doença que o matara, mas sim a negligência”, mesmo com a patroa, Palmira, filha do coronel Osório, a tecer rasgados elogios àquela mãe sofredora. Por isso ele estava ali, para que gestos e palavras revelassem alguns dos segredos da dignidade da mãe, da sua humanidade sagrada.

- Foi um ano terrível inspetor, - disse a educadora, e continuou. – O Paulinho sufocou lentamente à nossa frente, até o reflexo da tosse perdeu, ficando também dependente da intervenção de terceiros para lhe desobstruir a garganta que se entupida frequentemente com a expetoração.

Maria José recebia com agrado a mãe de uma colega do filho, a Sofia. Nela sentia-se a respiração possível, via-se que no seu olhar havia uma vontade de falar, porque gritava sem voz. Havia quem ouvisse um “olá”! Na escola o seu eterno cheiro a primavera contrastava com o cheiro agreste de fezes e urina dos colegas. Era um drama terreno com culpas cósmicas, que fazia com que as fronteiras formais não fizessem parte daquele espaço, cujas paredes do quarto e da escola há muito se tinham tornado no seu mundo. A mãe, que tinha uma voz em fuga, consentira que o pai se perdesse, lembrava-se do grande neurocirurgião que vinte anos antes lhe tinha cortado a palavra dezasseis segundos depois de começar a falar.

- A sua filha é como a Bela Adormecida, mas com uma diferença, nunca irá chegar o príncipe!

De cada vez que abraçava a sua princesa segredava-lhe:

- Nós contra o mundo!

Nunca mais o viu, e virava-lhe as costas de cada vez que aparecia, todo emproado, na televisão, a falar de algum dos seus livros. O problema da filha tinha-a feito esquecer-se do tempo e dela própria. Pensava que nada de mal aconteceria à sua Sofia, e se algo tivesse de acontecer, seria a ela. Achava que todos os pais pensariam desta maneira. Entregou a sua vida à filha, que passou a significar toda a felicidade que existia e que sentia, o amor por ela não tinha fim, vivia para quem amava. Tudo o que queria, queria para a sua Sofia. Esperara eternamente por uma cura de um qualquer recanto do Céu. Mal sabia a mãe que ela tinha sido enviada! Chegara muitas vezes a esperar o fim da filha como um resgate, por isso naquela manhã quando se confrontou com a morte da Sofia ficou muito triste, e não se apercebeu que também estava muito contente. Triste porque amava-a, contente porque amava-a muito. Um dia brilhante tornara-se numa noite de escuridão.

- Obrigado por ter vindo Joana, - agradeceu Maria José, abraçando-a com força. – Os nossos meninos são agora estrelas.