sexta-feira, 8 de maio de 2026

73 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (2ª parte)

 

73

- Extraordinário, – comenta o neurologista. - A tripulação do “Piolho-Um”, por razões desconhecidas, foi projectada no Tempo e no Espaço, e cada qual seguiu o seu trajecto: a Rita foi parar aos Estados Unidos, no ano de 1969, o Narciso foi parar a França, também em 1969, e o Mac a França, em 1942. O raio do Tempo é mesmo relativo!

Levanta-se, guarda a folha numa pasta e vai ter com a enfermeira-chefe, para confirmar a chegada do doutor Cinfuentes e da senhora Rita Bouvalier.

O coronel Narciso Figueiredo Baeta está de muito boa saúde, ultimamente tem dado grandes passeios pela região e hoje a ansiedade é grande, pois vai encontrar-se com a sua colega. “A Rita é o único ser que para mim é real doutor, vocês podem não passar de personagens de um sonho”, disse ele hoje de manhã durante o pequeno-almoço. Por sua vez o doutor Lipiérre também se sente muito feliz, pois esta foi a primeira vez que um paciente lhe ensinou tanta coisa. “Aprendi mais com um indivíduo catalogado de deficiente mental, em três dias, do que durante trinta anos com colegas etiquetados de intelectuais”, desabafou ontem com o jardineiro.

- O doutor Cinfuentes chega aqui por volta das dezasseis horas.

- Óptimo, óptimo, assim ainda vou ter algum tempo para falar com o coronel.

O doutor deu ordem ao corpo clínico, e a todos os funcionários em geral, para que quando se dirigissem ao senhor Narciso, o tratassem por coronel, pois era isso o que ele era, coronel do exército cardíaco. Para ele o indivíduo nunca perde a sua alma, pois esta é a sua essência, o seu bilhete de identidade no Cosmos. Neste mundo não há “malucos”, existem é almas zangadas com os seus corpos.

O neurologista, doutor Cinfuentes, entra no mercedes com a engenheira Rita Bouvalier e o carro arranca em direcção ao asilo de Salpêtrière, para um encontro que passa despercebido ao comum dos mortais, mas que é fundamental para o futuro da Humanidade. Ao lado do médico está uma mulher perdida no Tempo, com dois passados e sem nenhum futuro. Tudo para ela é novidade, dir-se-à que acabou de nascer de geração espontânea, sem país e sem planeta. Os seus olhos absorvem sofregamente o mundo, talvez à procura de algo que lhe dê alguma confiança na vida.

- Isto é tudo bonito e calmo. Quando deixei o Coração, o clima estava tão tenso, as notícias da guerra fluíam como água, ninguém se entendia, todos reclamavam e ninguém dava nada. E aqui doutor, isto é sempre assim?

- Guerras há sempre, aqui também já se sucederam conflitos devastadores. Agora estamos em paz, mas não sei até quando. A guerra está marcada na alma do Homem, ele não consegue viver sem ela.

- Homem?

- Nós pertencemos à espécie humana!

- A minha espécie é o Memoh - diz Rita, olhando com ternura para um rebanho de ovelhas - No Corpo-Dois eram verdes.

- Como é que disse que se chamava a sua espécie?

- Memoh, eu pertenço à espécie Memoh.

- Memoh!??...Memoh!?

- Porquê esse espanto doutor?

- Memoh é Homem, ao contrário! Eu costumo brincar com o meu filho aos extraterrestres, e quem faz de invasor fala sempre ao contrário. Já temos alguma experiência em falar de frente para trás.

- Então a Teoria do Espelho é verdadeira! - Exclama, fixando os seus grandes olhos negros, nos pequenos olhos azuis do médico.

Pela primeira vez o doutor Cinfuentes repara na cara sorridente que está ao seu lado. Sempre apreciou as mulheres simpáticas, geralmente tornam-se as mais bonitas.

- A Teoria do Espelho?

Rita conta que participou na planificação da missão “Novo Olhar”, e que tinham sido definidos vários objectivos. A primeira fase consistia em chegar ao Corpo-Dois, era uma operação exclusivamente política, pois já há vários anos que viajavam secretamente para este planeta. Precisaram de tornar públicos os voos, para conseguirem prosseguir com as outras fases, que iam exigir muitos recursos. Não podiam esconder por mais tempo o dinheiro que estavam a usar, já havia senadores a investigar. Apresentaram então o “Piolho-Um”, a maravilha tecnológica, a nave capaz de se deslocar ao planeta mais perto. Isto representava um salto qualitativo na espécie Memoh e uma afirmação do Coração como potência dominante. Rita lembra-se ainda da grande homenagem que a tripulação recebeu um mês antes da partida. Foram considerados como heróis nacionais. Os seus pais choraram de emoção durante toda a noite, a sua menina iria ser a primeira a pisar o Corpo-Dois. Fora tudo uma grande farsa, até a maior parte dos seus companheiros tinha sido enganada! Com a chegada ao novo astro, iniciou-se a segunda fase. Simularam várias expedições, para assim manipularem as informações que podiam ser tornadas públicas. Foi numa destas missões que surgiu a primeira contrariedade: o veículo explorador “Carraça” deveria ter-se afundado num lago de ouro, dando-se assim por terminada a exploração do pólo norte; mas, por razões naturais, nesse dia o lago encontrava-se no estado sólido e os seus colegas ultrapassaram-no sem dificuldades, e sem se aperceberem da armadilha que lhes estava destinada.

- Quem é que ia na Carraça?

- A tripulação era constituída por três pessoas, o John, cartógrafo, a Mary, bióloga e a Maria, médica.

- Quem eram os seus cúmplices?

- O coronel Narciso e o engenheiro Paulo Prestes!

- Os outros iam ser eliminados, – diz o médico com um tom agressivo.

- Não se enerve doutor, tudo isto fazia parte da terceira e mais importante fase, a confirmação da “Teoria do Espelho”.

Rita Bouvalier prossegue o relato sem deixar de absorver com emoção a paisagem multicolor. Lembra-se da sua mãe e da enorme paixão que ela tinha por flores, especialmente das amarelas. Uma festa ternurenta da mão grossa do neurologista põe-a de novo nos carris da história. A “Carraça” ultrapassou o obstáculo e encontraram o que não deveria ter sido encontrado: a Cidade Sagrada, o elo de ligação com a Teoria do Espelho.

- Mas, explique-me o que é essa teoria - pede o médico, um pouco impaciente.

- O Universo não é tão grande como pensamos

- Rita, o Universo é infinita!

- Não doutor, o Universo é finito, tem limites, mas através de uma ilusão física torna-se infinito. Algures no seu equador, tudo se comporta como se de um espelho se tratasse. E o que é que os espelhos podem fazer? Aumentar o espaço! Uma vez comprovada esta ideia, passaríamos à seguinte, que consistia em descobrir entradas para o mundo da imagem. Havia quem quisesse avançar ainda mais, o coronel Narciso dizia que para além disso tudo estava Deus e que era possível alcançá-lo.

- Espantoso!Vocês descobriram o “espelho” ?

- A equipa 1 ficou encarregue de enviar uma sonda para a zona do Umbigo, o local que nós pensávamos ser a passagem para o outro lado do “espelho”.

- Vocês passaram pelo Umbigo?

- Não, afinal havia outras entradas. O Umbigo deve ter algo muito mais importante!

Um solavanco trá-los de novo à realidade e com ela vem um silêncio pensativo.

- Anda à minha procura, doutor Lipiérre? - Pergunta o coronel, saindo do labirinto.

- Está quase na hora do reencontro, a sua amiga já está perto.

- Nunca tive tantas saudades de alguém como agora Doutor, a Rita é do meu sangue.

- Do seu sangue? E o meu, é diferente?

- Somos de espécies diferentes!

- Espécies diferentes?! Coronel, podem haver muitas diferenças entre nós, mas uma coisa temos em comum, somos ambos humanos!

- Humanos?! O que é isso?

- Espécie humana, Homem! Não me diga que não sabe o que é o Homem? É grave, qualquer dia terei de rever a minha opinião sobre si.

- A minha espécie é o Memoh, não tenho outra.

- Memo?

- O Espelho Celestial criou tantas diferenças, – diz o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

- Espelho Celestial? - Pergunta o neurologista, voltando-se para o jardineiro que acaba de se “materializar” atrás de si, junto a um pinheiro.

- Então a Teoria do Espelho é verdadeira? - Questiona também o coronel.

72 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (1ª parte)

 

72

O doutor Lipiérre senta-se junto à secretária e abre o jornal que acabou de descobrir na biblioteca. É uma edição do “Figaro” de 26 de Abril de 1942. No suplemento de “Saúde”, há um artigo sobre um caso ocorrido duas semanas antes num hospital psiquiátrico de Flandres, assinado por um psiquiatra de nome Jean Paul Lupi. Já tinha lido este texto há vários anos, trazido por um dos seus alunos da cadeira de psiquiatria.

Na altura estavam a falar sobre a “confabulação nos doentes mentais”. O assunto foi tratado numa aula e depressa caiu no esquecimento. Os factos ocorridos nestes últimos dias trouxeram-lhe à memória este texto.

Despertar ao fim de 20 anos

Há certos fenómenos que atiram por terra dogmas que julgamos irrefutáveis. Ontem aconteceu um deles! Durante a visita matinal, fui chamado por uma das enfermeiras para ir ver, com urgência, um dos pacientes do primeiro andar. Entrei no quarto número nove e vi o senhor Mac Macléu Ferreira de pé junto a uma das janelas, olhando para o jardim. Até aqui nada de anormal! Pedi que me facultassem o processo e foi aí que o impossível aconteceu. Este homem estava no hospital há vinte anos e tinha sido internado com um parkinsonismo pós-encefalítico. Estava totalmente paralisado, nem as pálpebras conseguiam fechar. Foi sempre alimentado com sondas, nunca padeceu de alguma doença e não houve qualquer atrofia nos seus membros, apesar de terem estado sempre em retracção. A “múmia”, como o pessoal lhe chamava, tinha acordado e estava ali a olhar para o vazio. Aproximei-me dele e iniciei a conversa. Mostrou-se uma pessoa calma, falou sem qualquer tipo de emoção, não sabia o que estava ali a fazer, e a única coisa que o preocupava eram os seus colegas da missão “Novo Olhar”, que iam a bordo de uma nave chamada Piolho-Um, em exploração ao “Corpo-Dois”. Disse-me que era o piloto e que, por qualquer razão que desconhecia, tinham sido desviados do rumo. Perguntou-me se estávamos no “corpo”. Se esta cena se tivesse passado com outro qualquer paciente, eu tinha considerado tratar-se apenas de uma confabulação. Mas este contou a história com tanta segurança, que a ideia com que fiquei era de que a tinha vivido. O caso é espantoso, talvez único na vida de um médico. Em termos clínicos, o senhor Mac Macléu representa um dos raros sobreviventes da “doença do sono”, a encefalite letárgica, dos anos vinte, e por outro lado, um dos pacientes que agora conseguiu ultrapassar o terrível parkinsonismo pós-encefalítico a que foi condenado. Das longas conversas que tenho tido com o paciente, ou ex-paciente, apercebi-me de que sempre teve uma vida muito activa. A sua memória está intacta mas, e este é o grande enigma, os factos da sua vida não correspondem aos relatados no processo. Este indivíduo que está à minha frente tem duas vidas completamente distintas: entrou no hospital como o dono de uma fábrica de lulas recheadas e desperta como astronauta. Até os planetas onde viveu são distintos, não conhece a Terra, é um habitante do planeta Corpo, e acabava de completar a sua missão a outro astro, o Corpo-Dois, quando tudo aconteceu.

O senhor Mac Ferreira é uma pessoa mentalmente sã, mas como é que poderei dar alta a um paciente que está noutro mundo? A primeira diligência que vamos fazer, é contactar com a família e tentar saber quais os nomes dos tripulantes da dita nave “Piolho-Um” e ver se também despertaram algures.

                        J.P.L.

71 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - O Cordeiro de Deus

 

71

Helias II contempla maravilhado a vista ilimitada que vem saudá-lo sorrateiramente com mãos aveludadas. À sua frente estende-se o Tórax, um conjunto de montes e vales que parecem não ter fim e que se perdem monótonos no horizonte incerto.

- São terras mágicas, – diz-lhe um gato sorridente, que está sentado num galho duma árvore com folhas azuis.

O monarca, agora sem reino, aproxima-se do animal e pergunta-lhe:

- Se as terras são mágicas, então os mágicos podem ser reis?

- Depende do tipo de mágico, – responde o felino, encostando-lhe os olhos à entrada da alma. - Qual é o teu nome ?

- Verdadeiro ou artístico?

- O de mágico.

- Zoroem!

- Zoroem, o príncipe do Coração. E o teu curriculum, qual é?

- Fiz magia para dois exércitos poderosos.

- Que tipo de magia?

- Fiz desaparecer répteis e tirei a cabeça ao meu colega Arphaxat.

- É pouco, muito pouco, não podes usufruir de vantagens nestas terras.

- Então, se fazer desaparecer répteis e tirar a cabeça a um colega é pouco, o que é para ti uma boa mágica?

- Vi uma vez um mágico mandar abrir um mar imenso, fazer passar uma multidão, e fechá-lo de seguida.

- Isso é demais!

- Precisas de treinar muito Helias II. Vai, segue o teu caminho, e não te esqueças que és apenas uma carta, de um jogo entre o Pai e o Filho contra o Espírito Santo. As cartas estão sendo lançadas ininterruptamente e quem ganhar conquistará Deus!

A planície é imensa, o céu parece ser mais azul e a vegetação rasteira divide o espaço com pequenas elevações rochosas. A “Carraça” avança lentamente, deixando atrás de si sulcos de ervas pisadas.

- Temos de parar, – informa John, tentando ignorar o silêncio pesado que o acompanha.

Sai do veículo e dirige-se a um dos montes. Descobre uma entrada e espreita.

- Clones!

Imóveis, dentro de uma sala, estão quatro indivíduos. Parecem estátuas, mas no entanto estão vivos.

- Estão à espera da vossa cópia, – diz-lhes John. - Então podem esperar sentados, pois eu sou o único que anda à procura do meu clone.

Aproxima-se um pouco mais de um deles e parece reconhecê-lo.

- Eu conheço-te...és...o monarca da cidade Tricúspica ! Vi-te muitas vezes nos jornais...o teu nome é...é...Helias II, é isso, és a imitação do Helias II. Oh meu caro amigo, tu podes esperar é deitado, porque Helias II deve estar neste momento a comer uma bela refeição no seu palácio.

Sai, tira uma lata de tinta do bolso e desenha uma cruz branca numa das paredes.

- Esta já foi vista, nunca mais volto aqui.

Ao sair olha para o horizonte e vê ao longe um vulto a aproximar-se, trazendo atrás de si uma mancha verde. Vai à “Carraça” e pega nos binóculos. Muda as lentes, faz a ligação ao amplificador de imagens e aponta para o desconhecido.

- Um pastor com cordeiros verdes?! Só me faltava isto!

- Bom-dia caro senhor, – cumprimenta o viajante.

- Já aqui?! Mas ainda agora estava tão longe?

- É tudo muito relativo, foi impressão sua.

- Impressão minha? Não, não estou maluco, você estava longe.

- Meu caro senhor, as terras do Abdómen são mágicas.

- Mágicas?!

- Sim, mágicas, aqui têm de acreditar em tudo o que vê e o que sente. Sei que vai ao Umbigo, por isso aconselho-o a ter muito cuidado. Lá os pensamentos são muito poderosos, a sua alma e o seu corpo devem estar muito unidos.

- E estes cordeiros verdes?

- Isto é uma reserva estratégica de Deus.

- Deus?! Reserva estratégica de Deus? Está a gozar comigo?

- Calma, tenha calma. Já ouviu falar do Cordeiro de Deus?

- Cordeiro de Deus?!

- Sim, o Cordeiro de Deus que tira os pecados do Mundo!

- Sempre ouvi falar dele nas missas, mas isso é simplesmente uma metáfora.

- Não, não é uma metáfora, o cordeiro de Deus é real, aliás, os cordeiros de Deus, que tiram os pecados, não do Mundo, mas dos milhares de mundos. E como a vida deles é limitada, têm de ser substituídos de vez enquanto. Eu tenho um contrato com Laputa.

- Laputa ? - Interrompe John.

- Laputa é a casa de Deus, é lá que Ele vive....Mas como estava a explicar, fiz um contrato com Laputa, em que me comprometi a fazer criação de cordeiros e em troca dá-me cinco anos de vida, de cada vez que forneço um animal.

- Cinco anos de vida?! E qual é a sua idade?

- Cem milhões de anos!

- Cem milhões de anos?! Mas isso é fantástico! Não quer um ajudante, dá-me meio ano em cada venda.

- O seu destino é outro, o senhor tem uma missão muito importante, vai pôr Deus em ordem!

- Pôr Deus em ordem? Não diga isso, é pecado.

- Pecado? Senhor John, no Universo não há pecados. “Pecado” é uma palavra inventada pelos poderosos para subjugar os pobres de espírito. Lamento não poder estar aqui mais tempo, o meu rebanho quando pára adormece e é dificílimo acordá-los. Senhor John, não perca mais tempo nesta zona, o seu clone está no fundo do Umbigo...

- No Umbigo? - Interrompe o cartógrafo.

- Bem no fundo do Umbigo, ele é o ponto final desta aventura.

- E falta muito para chegar a esse buraco?

- Não, é já ali, – e aponta. - Mas vai precisar da ajuda de alguém que há-de aparecer.

- Ajuda de alguém?! De quem?

- Os nomes não são necessários mencionar. O Umbigo é uma cratera cheia de energia cósmica, e para se entrar sem perigo, é necessário ter o apoio de alguém que consiga canalizar para si essa força, durante um certo tempo...Continue o seu caminho, isto é um jogo muito importante para Deus.

- Obrigado senhor...senhor...qual é o seu nome?

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua!

- Que raio de nome.

- Cada um tem o seu, mas deixe-me dizer-lhe que o senhor também tem um nome um pouco esquisito.

O diálogo acaba e o batalhão verde retorna ao seu lugar no horizonte, deslocando-se numa marcha, que parece ser lenta.

Helias II contempla a planície multicolor, semeada de pequenos montículos avermelhados e forrada por uma espessa vegetação.

- Estou perto, – diz para o seu amigo felino, que resolveu apanhar uma boleia, deitando-se em cima da sua cabeça. - Sinto-me perto do astronauta, ele está algures por aqui.

- Agora sim, já começas a falar como um mágico, mas o que ainda te falta são os olhos de um gato.

Descem a encosta, a inclinação aumenta, as pernas já não lhe obedecem, a velocidade ultrapassa os limites legais, ninguém os consegue parar. O monarca entra, descontrolado e a grande velocidade, numa gruta, que tem desenhado na parede exterior uma cruz branca. Na porta cruza-se com um vulto que sai apressadamente e ainda tem tempo de ouvir o gato a dizer-lhe:

- Não, não podes entrar aí, a tua imagem sai e....

Cai desamparado em cima duma cama, onde se encontra um homem a dormir profundamente, que acorda sobressaltado, sentando-se.

- Quem é que está aqui na minha cama? - Pergunta o engenheiro Paulo Prestes.

- Entrei numa gruta e depois cai aqui, – responde Helias II, tentando orientar-se na escuridão.

- Entrou numa gruta e caiu aqui?!

A luz acende-se e a enfermeira de serviço entra no quarto.

- Senhor Paulo Prestes, passa-se alguma coisa? - Pergunta, ao vê-lo de pé junto à cama.

- Este senhor atirou-se para cima de mim, – responde, apontando para o monarca.

- Senhor Paulo, neste quarto só estão duas pessoas, sou eu e é você, mais ninguém, – esclarece pacientemente a enfermeira. - Está a ter uma alucinação visual.

- Ouviu senhor engenheiro, eu sou uma alucinação visual, – diz o monarca, aproximando-se da enfermeira e cheirando-a. - Que belo perfume!

- Ele está a falar comigo!

- Senhor Paulo Prestes, é melhor acalmar e deitar-se, senão vou ter que chamar os meus colegas para lhe administrarem um calmante.

- Cala-te de uma vez por todas Paulo Prestes, – pede Helias, tapando-lhe a boca com uma mão.

- Tenha calma senhora enfermeira, eu deito-me e esqueço estas alucinações. Desculpe o incómodo.

- Estava a ver que ia complicar as coisas. O meu nome é Helias, Helias II.

- Helias II? O monarca tricúspico!? Mas o que é que o senhor está aqui a fazer?

- Caí aqui!

- Caiu?!

- Estava no Corpo-Dois, ia atrás do John Kovac’Olhões e quando descia por uma encosta, escorreguei e precipitei-me por ela abaixo, parando aqui, na tua cama.

- Falou do John, onde é que ele está?

- Não conseguiu passar, o clone não estava na vossa gruta.

- E os outros, a Rita e o Narciso?

- Passaram, estão algures neste planeta. Eu tenho de regressar, mas ainda não sei como. O John tem de ser ajudado para conseguir passar.

- Que planeta é este onde estou?

- Chama-se Terra, e está no centro do Universo.

- Como é que pensa sair daqui?

- Ainda não sei, ficou um gato no Corpo-Dois que talvez me ajude.

- Um gato?

- É uma história muito complicada, talvez amanhã fale consigo. Agora estou a precisar de descansar.

Numa cama do quarto número cinco do hospital de Highlands duas pessoas dormem profundamente, uma é visível, a outra invisível. A enfermeira Margarete entra pé ante pé, acende a lanterna e observa o seu paciente. Tinha vinte e dois anos quando acabou o curso e foi admitida na instituição. Um ano depois entrou o senhor Paulo Prestes num estado deplorável. Destacaram-na para o acompanhar e nunca mais o largou. Corria o ano de 1949, os médicos que o assistiram deram-lhe apenas um mês de vida. Não aceitou o prognóstico e lutou com todas as suas forças para salvar o paciente. Meio ano depois o seu amigo continuava vivo e de boa saúde, apesar de permanecer uma estátua. De noite lia-lhe sempre um livro, pois estava convicta de que ele se movia interiormente. Margarete regressa à realidade e sai silenciosamente do quarto.

Algures noutro espaço e noutro tempo, um gato tenta desesperadamente puxar um indivíduo para dentro de uma gruta.

- Tenho de o recuperar, o Pai e o Filho usaram uma carta tirada da manga e isso é batota. Eu, o Gato-do-Sorriso-de-Ouro, júri deste Jogo Universal, empossado pelo Tribunal de Laputa, vou repor a ordem, – e dá uma patada violenta, com as garras de fora, nas costas do infeliz que dorme a seus pés, aliás, patas.

- Ai! - Grita Helias II, saltando estremunhado da cama e correndo para a janela.

- Por pouco punha-te dentro da gruta, – diz o felino, vendo o clone junto da entrada. - Mas porque é que não entras?

- Helias, que grito foi esse? - Pergunta Paulo acendendo a luz.

- Arranharam-me as costas, - e mostra as marcas.

- Eu não fui!

- Tu?! Só alguém tem umas unhas destas, e esse alguém é o Gato-do-Sorriso-de-Ouro.

- Gato-do-Sorriso-de-Ouro ?

- Esquece, esquece, isto é tudo muito complicado.

 

70 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - O Telefonema

 

70

- Doutor Lipiérre, consegui a ligação para o hospital de Mount Carmel, o doutor Cinfuentes está em linha.

- Obrigado senhora enfermeira.

O director do asilo de Salpêtriere poisa o álbum de fotografias na mesa e agarra com força no auscultador.

- Doutor Cinfuentes, como está?

- Muito bem, muito bem, e você?

- Tudo normal. Telefono-lhe para tentar descobrir algo sobre um paciente do nosso asilo. Ele é uma das vítimas da encefalite letárgica dos anos vinte e trinta e está aqui connosco há várias décadas...

-... e acordou! - Completa o médico americano.

- Sim, sim, despertou.

- Também um dos nossos!

- É precisamente aí que está o problema. O vosso paciente, ou melhor, a paciente, por acaso não se chama Rita Bouvalier?

Por momentos o outro lado do Atlântico fica em silêncio, até que a voz pausada do doutor Cinfuentes se faz ouvir de novo:

- Sim, o nome dela é Rita Bouvalier, mas como é que soube?

- Foi o meu paciente que o disse, engenheira Rita Bouvalier!

- Engenheira!? Não consta nada no processo acerca da sua profissão, mas ela foi internada com 18 anos.

- Dezoito anos?! E esteve sempre internada?

- Nunca mais saiu, o parkinsonismo dela é, ou melhor, era, uma autêntica masmorra. E o seu paciente, quem é?

- Chama-se Narciso Baeta, é formado em medicina e padre de profissão. Acordou de um dia para o outro!

- Interessante, muito interessante.

- Colega Cinfuentes, temos de juntá-los e é aqui em Salpêtriérre, o jardim e o jardineiro são mágicos!

- Tem um jardim e um jardineiro mágicos? É disso mesmo que eu precisava aqui, – diz o americano rindo-se desalmadamente.

- Há quanto tempo é que está aí em Mount Carmel ?

- Desde 1949.

- O tempo suficiente para ver o mundo com outros olhos. Doutor Cinfuentes, a sua paciente por acaso acordou há duas semanas, no dia treze?

- Sim, sim, no dia treze! - Responde o neurologista, já um pouco assustado.

- Doutor Cinfuentes, temos de nos encontrar.

- Também penso que sim! Vou dar andamento ao processo e depois ligo-lhe. Obrigado por se ter lembrado de mim.

- Agradeça à Rita, foi ela que me guiou até aí!

Cinfuentes fica parado, estático, preso a um pensamento que se desenrola automaticamente, mas ao mesmo tempo consciente da importância do assunto.

- Engenheira Rita Bouvalier?! Meu Deus, o que é que tu andas a fazer às pessoas?

Levanta-se atordoado, olha em redor, regressa à sua realidade e sai apressado do gabinete, em direcção ao paciente do quarto nove. Entra em silêncio e descobre-a junto à janela gradeada, com a alma perdida no horizonte. Aproxima-se cauteloso, observa-a com emoção e, por fim, pronuncia as palavras que estão na ponta da língua:

- Bom-dia engenheira Rita Bouvalier !

Vê-a estremecer! A sua cabeça começa a virar-se lentamente e atrás dela vem o corpo, que outrora foi formoso.

- Engenheira!?? Chamou-me engenheira!??

- Está alguém em França que a conhece, – dispara de novo o médico.

- França?! É alguma região aqui perto?!.... É o Paulo? Ou o Narciso?

- O padre Narciso Baeta, – responde o neurologista.

- Padre? Narciso Baeta é coronel do exército cardíaco.

- Coronel!? Exército cardíaco??... Rita, em que país nasceu?

- No Coração, mas os meus pais foram viver para o Cérebro.

- Coração!?? Cérebro!?? Isso são partes do nosso corpo... A senhora neste momento está nos Estados Unidos da América do Norte.

- O Coração e o Cérebro são países do planeta Corpo! - Diz Rita, sentando-se na cama - O que é que me está a acontecer, doutor ? Estarei louca? Estados Unidos da América do Norte? Não, nunca ouvi falar. Que planeta é este?

- Terra, estamos num planeta chamado Terra.

- Terra!?? Estamos num planeta chamado Terra!?? O meu planeta chama-se Corpo!

- Corpo!?? Corpo é isto, – Cinfuentes aproxima-se de Rita e mostra-se. - O coração é um órgão que bombeia o sangue, o cérebro é outro órgão que está aqui, na cabeça.

- Doutor, preciso de repouso, já não compreendo nada, estou louca, isto deve ser um pesadelo, mas o senhor parece tão real.

O diálogo em vez de aproximá-los, afasta-os cada vez mais. Os seus mundos são distintos, ambos saem derrotados, quando tentavam obter respostas concretas. Para um o Coração é um país, e é por isso que se escreve com letra grande, para outro um órgão que bombeia sangue. O Corpo é ao mesmo tempo um planeta e uma forma de um ser vivo. O que se estará a passar? No entanto, tudo parece ser tão real!

O doutor Lipiérre poisa o telefone e medita. Os seus olhos estão brilhantes, a luminosidade que emanam é sinal de que a sua convicção está tão firme e tão certa:

- A engenheira Rita Bouvalier existe, apesar de todas as evidências, – diz, com um ar seguro e feliz.

Sai do gabinete e vai ao quarto do paciente, que se tornou para si o mais importante. Bate levemente duas vezes. O silêncio é o único a responder e, como não é com ele que quer falar, insiste com mais força. Nada, nem o barulho chato duma mosca se faz ouvir. Roda a maçaneta e a porta abre-se. Entra com a cabeça e vê Narciso deitado na cama com os olhos abertos.

- Posso entrar, coronel?

- Entre doutor, entre. É sempre agradável recuperar a identidade.

- Prometo ser breve, não o quero incomodar, – diz, aproximando-se e sentando-se ao seu lado - Encontrei a sua amiga.

- A Rita? - Pergunta Narciso, sentando-se. – Encontrou a Rita Bouvalier?

- Está longe, do outro lado do Atlântico, mas penso que em breve estaremos todos juntos.

- Atlântico? É algum país?

- O Atlântico um país? O oceano Atlântico!

- Oceano Atlântico?!

- Mar, é um mar, – tenta explicar o médico, já um pouco desanimado.

- Ah, um mar! Lamento, mas o único mar que conheço é o Gorduroso, que se estende por todo o Corpo.

- Mar Gorduroso? Corpo? - Pergunta o doutor Lipiérre já em pé, e com uma face assustada.

- Doutor, eu não estou doido, – responde o coronel, agarrando-lhe na bata.

- Ou estamos os dois doidos, ou o Universo é mais complicado do que pensava! - Exclama o médico, olhando para o jardim. – Temos de nos sentar calmamente e falar sem tabus.

- E de preferência no jardim!

quarta-feira, 6 de maio de 2026

69 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Companheiros Estátuas

 

69

John dá a volta à chave e o veículo começa a vibrar, como que a dançar ao som do barulho dos motores. Dá uma olhadela aos seus companheiros-estátuas. Parece estar tudo em ordem, ninguém se queixa. Empurra a alavanca laranja para a frente e o “Carraça” arranca, fazendo estremecer os seus ocupantes. O clone do Paulo não resiste ao abanão e cai desamparado para a frente, bate com a cabeça no painel dos instrumentos e fica encostado ao John.

- Chega para lá, assim não consigo guiar - grita, empurrando-o para o lado contrário.

A estrada sinuosa mostra a variedade das paisagens e a imensidão do território. O sol levantou-se cheio de força e deixou o vento a dormir. No céu, milhares de pássaros voam aos círculos e gritam desalmadamente uns para os outros, talvez tentando mostrar de quem será a mais forte goela.

- Isto mudou radicalmente! As zonas da Cabeça e do Tórax eram muito mais agrestes, – diz John, quebrando o silêncio sepulcral. - O Abdómen é mais alegre.

Ao seu lado vai o engenheiro de sistemas Paulo Prestes, ou melhor, a sua imitação, que parece ter sido feita na República do Estômago, na posição invertida: pernas para cima, cabeça para baixo, “congelado”, completamente “congelado”.

68 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Espírito Santo

 

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Nuca da Eva, algures num tempo sem data. Helias II olha pela última vez para a cidade das deusas, Aléluia, e relembra a missão que os céus lhe deram num dia longínquo: dominar o Tempo e oferecê-lo ao Espírito Santo.

Adão pertence ao Pai e ao Filho, não tem futuro, porque as suas ideias esgotaram-se em atos falhados. Eva, a senhora dos três diamantes temporais, o passado, o presente e o futuro, é a fiel amiga do Espírito Santo, mas desconhece os seus poderes.

Helias II sabe que o astronauta John Kovac’Olhões não tem passado e por isso nunca poderá transpor as suas portas. Só o futuro está à sua espera! Para que a missão do monarca tricúspico tenha êxito, este terá de agir sozinho, sem oponentes. O botão do engenho desce, não resistindo ao dedo gordo que o pressiona. Uma violenta explosão pulveriza a cidade Aléluia, levando-a em pedaços, envolta numa manta de fumo e fogo.

67 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Diário de Bordo da Nave Piolho-Um - Dia 7

 

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John, eu sei que vais ler esta carta, mais cedo ou mais tarde, escreveu-a por mim o meu clone, já depois de ter ultrapassado a porta da banda-2 do espectro. Tu não vais conseguir passar, porque não tens lugar no passado. Os nossos clones sempre estiveram nessa sala, há milhões de cavernas como essa espalhadas pela Eva e cada uma tem imagens de outros individuos e passagens para outros tempos. Esses “bonecos” estão imóveis, sem vida, e só se mexem quando nos aproximamos. O movimento que fazem é igual ao da sua imagem, cruzamo-nos, mas nunca nos tocamos. Quanto a mim, vou para o meu passado, sei que estou presa algures. A Rita-2 é o nosso elo de ligação, é uma espécie de rádio, através da qual te vou dando informações. Vai para a região do Umbigo, talvez descubras algo. A Eva é uma caixa de surpresas!

Assinado, Rita Bouvalier, comandante da missão