sexta-feira, 3 de abril de 2026

23 - Da animada conversa à mesa no reino de Laputa até ao conhecimento do “Vírus de Deus”

 


23

- Quem és Tu? – Perguntou o senhor Narciso.

- Sou o filho do Nada.

- Filho do nada?!

- Antes de mim existia o vazio, em oito dias criei o Universo.

- Apareceste do nada? Por geração espontânea, presumo? – Questionou o detetive com um sorriso trocista.

- Deus É! – Gritou, lançando um apocalipse de raios, relâmpagos e trovões. - Espero que não tenhas vindo aqui só para me fazer perguntas ridículas, cujas respostas nunca conseguirás perceber.

Nesse momento Lilith reapareceu e sentou-se à mesa. O detetive fitou-a e acenou com a cabeça. Ela tocou-lhe no braço, ele não sentiu os seus ossos, mas apercebeu-se da boca sensual da anja junto ao seu ouvido:

- Ele resistiu a todas as tentações carnais, é uma entidade povoada de aparições que lhe provocam um sentimento de revolta muito grande, - exclamou Lilith, deixando no ar um cheiro agradável e intenso.

- Tens razão, não ganho nada em saber a origem do Universo. Mas podes-me explicar porque é que a minha mulher morreu tão nova, com vinte e sete anos, um ano depois do nosso casamento, e a vizinha do segundo esquerdo, que só fez mal a vida toda, viveu até aos oitenta anos? Ás pessoas más nunca lhes acontece nada, à Pureza que eu amava acima de tudo e era uma mulher excecional com uma alegria de viver, teve um cancro fulminante.

- Os que os deuses amam morrem cedo. Tens alguma estatística que comprove que os “maus” vivem mais que os “bons”?

- Constato!

- Então, caro Narciso, constatas mal. Já ouviste falar em “Livre Arbítrio”? – Perguntou Deus olhando-o nos olhos.

- Regra essa que Tu quando queres desrespeitas, – respondeu o detetive mostrando um raio de lucidez sobre a confusão que o rodeava.

- Achas que eu consigo ser omnipresente neste Universo ilimitado? Por vezes interfiro, mas só quando posso. O “Mundo das Ideias” que construí serve para que o Universo seja belo e feliz, para que se perpetue a minha obra. Quando as “ideias” se encontram e dão forma a um indivíduo, este já tem um destino. Alterá-lo envolve tomar decisões difíceis.

- Para ti isso é uma ninharia, – exclamou, com uma atitude que parecia desproporcionada e sem sentido.

- Se tivesses tido esse poder no caso da Pureza, o que é que terias feito?

- Ela nunca teria morrido…

- …ia a vizinha do segundo esquerdo? – Perguntou Deus mostrando a sua beleza num grande sorriso.

- Isso mesmo! A velha nunca teria chegado a velha, – respondeu o detetive com raiva parecendo estar possuído por um demónio contorcionista.

- Mas isso não funciona assim. Tem de haver compatibilidade entre as “ideias”, só podes trocar um genoma por outro idêntico.

- Genoma?!

- Todos os seres do Universo têm a minha marca, a “Substância Negra”, que dá vida dupla às coisas, ao original e ao seu clone, em que cada um ficará sujeito ao “Livre Arbítrio”.

- Então eu para destruir a Pureza teria de destruir o seu clone.

- Ou o original, isso é irrelevante. Mas poderia ser também uma pessoa boa e a má continuaria a ficar.

- Mas Tu podes mudar isso. Porque não o fazes?

- Porque só assim é que o Universo funciona, com “ideias” más e boas, são ambas úteis, da eternidade à eternidade, é o melhor mundo possível, – respondeu Deus sem parar, subindo o tom, tornando a voz poderosa.

- Estás-me a dizer que a vizinha do segundo esquerdo foi mais importante para o Universo do que a Pureza?

- Uma má para dez boas. Foi muito útil.

- Nunca sentiste revolta por isto?

- Acredita que todos os dias sofro e por isso introduzi uma variante no mecanismo: o meu vírus!

- O Teu vírus?!

- Sim, o “Vírus de Deus”, mas o conceito é diferente do vosso. O “Genoma” aperfeiçoa-se com o “Livre Arbítrio”, reforça-se, ilumina-se, a política de Laputa faz-se de extremos e paradoxos, levando muitas vezes um indivíduo mau a fazer coisas boas, num sentido unívoco, do menos para o mais, e quando o meu “vírus” entra o indivíduo dá um salto substancial e as suas “ideias” mantêm-se unidas após a sua morte, num espaço diferente. São aqueles a quem vocês apelidam de “santos”, que adquiriram a capacidade de fazer “milagres”. Foi a forma que arranjei para dar a volta ao sistemas e poder ajudar alguns “bons”, os que conseguem aproximar-se mais de mim nos seus momentos de dor. Agora compreendes porque é que todos me gritam aos ouvidos?  

quinta-feira, 2 de abril de 2026

22 - A Última Ceia

 

22

Se o silêncio absoluto existisse era ali que ele se encontrava. O detetive reparou na frase que estava escrita, estilo grafiti, na muralha:

 

“Múltiplo, Deus não é uno, está sempre em contínua reconstrução e evolução”

 

Soube que Laputa convocara os anjos, fora por isso que escutara música durante toda a viagem.

- A sonoridade diz quais são aqueles com quem Ele quer falar, – explicou o Anjo Gabriel, abrindo a porta de entrada para o Palácio de Deus.

Lilith tivera uma vida vivida com intensidade. A sua morte fora simplesmente o nome dado para a sua segunda vida. Por não aceitar a existência de um ser superior, procurara no Universo respostas para as injustiças e crueldades dos vários deuses.

- Deus consegue organizar os nossos sentimentos e emoções, - disse alguém por detrás, com uma voz constante.

O detetive voltou-se e viu que um homem de meia-idade lhe estendia a mão.

- Bem-vindo senhor doutor, o meu nome é Pedro e sou o porteiro deste castelo. Acompanhe-me, tenho ordens para o conduzir até à sala de refeições.

Quando entraram um enorme quadro de cortiça cheio de notas e notícias de jornais chamou a atenção do visitante, que se aproximou.

 

“A minha religião é a partilha com os outros seres vivos, pois o único castigo do Mal é nunca acabar. É por isso que temos sempre de vaguear entre a nostalgia e a alegria. ”

Umbelino

 

O senhor Narciso apercebeu-se da presença de duas pessoas em cantos opostos da sala, que se contemplavam. O olhar minucioso e indagado de Deus cruzou-se com o olhar irónico e determinado de Lilith. A aparência da mulher escondia o seu interior animal, visceral, carnal. A fêmea que ela era no seu íntimo, contrastava com a imagem limpa de um anjo. A sua pele branca escondia uma alma desarrumada, excessiva, exagerada, irascível, impaciente, determinada, com pressa de viver. Lilith era uma sobrevivente, um ser camaleónico muito divertido, que passava a vida a roubar as almas dos amigos. Era uma deusa muito territorial, narcísica, que ambicionava sempre ser completa, universal. Era exímia em abrir portas por todo o Universo, deixando-as escancaradas. Deus era ao contrário, muito arrumadinho e decidira namorar à força com este amor da sua vida. Quem não a conhecia julgava-a distante, misteriosa, inacessível, intocável. Era por isso que os anjos a amavam. Quando Deus estendeu a sua mão ao detetive e ele a apertou, reparou que tinha esqueleto. Fez sinal para se sentarem num conjunto de sofás.

- Eu tenho um mundo muito próprio que tento partilhar, – disse Lilith.

- Tu sabes que eu amo a miséria bela, – exclamou Deus tentando tocar na sua deusa, esquivando-se para o lado do convidado, que gritou de dor quando ela se encostou e o queimou.

- Se não for amada aqui, será noutro lugar, noutro tempo, porque foi com este amor que eu sobrevivi a tudo, – retorquiu a anja abrindo demasiado os olhos.

- Eu deixo-te navegar sem restrições entre o passado e o presente. O que é que mais queres?

- Quero também o futuro.

- Esse é exclusivamente meu! – Gritou Deus. – Não podes querer todo o meu poder, eu sou a estrela que te indica o caminho.

- Posso falar? – Perguntou timidamente o detetive.

O silêncio ficou tão profundo que ele assustou-se. Viu-se a voltar à infância, na Covilhã, estava a esgueirar-se numa janela, a olhar para as estrelas e a imaginar outros seres. Também ele era passado e presente. Só agora compreendia porque é que a face de Lilith fizera sempre parte dos seus sonhos, tinham estado sempre entrelaçados, possuíam laços pessoais indestrutíveis. Sentiu uma estranha leveza, um arrepio na espinha, a cabeça parecia estar a abrir-se. Lilith levantou-se, foi à frente e voltou atrás, pausadamente, com meio corpo transparente. A segurança do detetive não desapareceu quando se confrontou com Deus:

- Mas afinal, o que é que tu queres?

- Pedaços da vida de muita gente para os poder colar, – respondeu com uma serenidade encantadora e terrível, sinal de uma intensa manipulação, que possuía uma tristeza tão profunda que roçava a tragédia.

O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta sentiu-se uma criatura pequena e perdeu-se a olhar para a uniformidade do interior e para os retratos de pássaros proibidos de cantar, de onde saíam luzes tranquilas de perfeição estética, acompanhadas por um vento longo e curvo. Levantou-se repentinamente e correu para uma das portas. Estava fechada. Tentou outra e mais outra, mas as portas estavam fechadas e os corredores proibidos. Espreitou pela única janela e viu que a água do lago estava agitada e sombria e o céu escuro e fechado. Tornou a olhar para Deus e desta vez viu o centro dos Seus olhos, que aumentaram com intensidade o seu susto silencioso. O detetive sentia-se sem destino, estava triste. Lá fora a chuva era pesada, os pingos grossos até o ar lavavam. Encarou de novo Deus e outra vez afastou o olhar. Havia um estranho silêncio no ar. A sala foi lentamente envolta numa penumbra e por uma das paredes azuis começaram a descer estrelas.

- O que é que queres de mim? – Perguntou de novo o detetive.

- O que criei nasceu primeiro no coração das estrelas, - respondeu, batendo com força com um pé no chão.

A vibração que produziu chegou ao corpo do detetive.

- Eu sou os teus olhos, os teus ouvidos, a tua boca, as tuas pernas, - gritou Deus. – Para mim cada ser vivo é um mundo e tal como as estrelas, estão sempre a aparecer e a desaparecer.

De repente uma luz crua e rápida fez desaparecer Lilith e os dois ficaram frente a frente, aquele que iria ser sacrificado e o carrasco.

- Onde é que está a verdade de tudo isto? – Perguntou o detetive em desespero.

- O que é que as pessoas podem fazer levadas pelo sonho? Eu fiz uma obra justa, orgânica e inteira. Estes são os meus princípios, se não gostares paciência.

- Mas eu só quero resgatar o sentido da minha vida, – disse o senhor Narciso tornando a agarrar no braço de Deus e a sentir-lhe novamente os ossos.

- Então já somos dois. Mas quem se submete ao meu poder impaciente é sempre anulado.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

21 - Do encontro com o “Anjo Gabriel”, o porteiro de Deus!

 

21

O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta tinha sido o único a ser chamado a Laputa por Deus e fora bem alimentado pelos anjos. Era a prova de que um simples grão de poeira perdido algures no Universo, poderia influenciar os destinos de todos e foi por isso que se tornou incandescente e se desintegrou quando o Anjo Gabriel o foi buscar ao Centro Comercial. A fórmula que dera origem ao detetive fora guardada no Céu, como um exemplo para os fabricantes da felicidade, pois era o resultado de um trabalho de paciência, destruição e crueldade. Narciso acordou entre quatro grossas paredes de pedra e apercebeu-se que a sua morte já fora anunciada. Mas ganhara experiência e por isso sabia que tinha créditos. Prometeram-lhe um último desejo e ele pediu um jantar com Deus e Lilith, “para matar a minha eterna curiosidade sobre o Céu”, explicou ao anjo. Conseguira complicar o processo criando uma rutura na inviolabilidade do esquema mental de Laputa. A ideia que o detetive tinha da “Casa de Deus” era grande, no tamanho, na qualidade, nos livros, nos quadros, nas canções. Foi uma enorme desilusão quando poisaram no planeta de uma só cidade.

- Aqui os lugares vão ao encontro das pessoas e é por isso que não é necessária ostentação, – explicou Gabriel, interrompendo a caminhada silenciosa.

- Mas a paisagem é triste, – disse o detetive.

- Os seus pensamentos é que a fazem. Para mim é bela.

O horizonte mostrava uma penumbra de eclipse, sinal de um estado de espírito. Surgindo do nada apareceu um grandioso palácio, semeado de colunas e cúpulas. O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta sentia-se sufocado, engolido pela cidade que era ao mesmo tempo um planeta. Foi apresentado ao Anjo da Saudade, que era horrível, sujo, sanguinário, mas também uma tentação porque oscilava entre o mundo onírico e o estado de vigília, que modelava a seu bel-prazer a realidade e o sonho, numa luxúria amoral. Tinha sido uma peça do tabuleiro de Lilith no jogo com Deus e estava agora ali reduzido a uma estátua abandonada num jardim povoado de ervas.

sábado, 28 de março de 2026

20 - A Terceira Metamorfose

 

20

O paciente do quarto número cinco do Hospital de Highlands encontrava-se sentado na cama da divisão do lado, numa animada conversa com o doente que se encontrava em coma profundo.

- É a pessoa mais lúcida que o mundo produziu. Tem pensamentos profundos, cavernosos, imperfeitos, foi ele que construiu as verdadeiras estradas de abnegação à causa universal, - disse, quando o Doutor Preston chegou junto dele. – Sempre foi assim, nos dias de sombra e nos de luz.

O médico aproximou-se e mediu a pulsação do acamado.

- Aposto que o pulso está lento e triste, - exclamou o senhor Paulo Prestes com os olhos a cantar.

- Praticamente está sem pulso. É uma vela que está a chegar ao fim.

- O coração dele saltita na ponta da língua. Os seus sussurros enchem a alma de qualquer um, - retorquiu Paulo. – Encoste o ouvido na boca dele, como fazemos com os búzios, e em vez de ouvir o mar, ouve o respirar do Universo. A sua voz tem magia!

O médico deitou um rápido olhar ao nome do paciente , que estava escrito na cama, e disse:

- Vamos lá ouvir o seu sussurro senhor Maximiliano, - e sentou-se junto a ele, inclinando a cabeça.

Afastou-se de imediato.

- O senhor Maximiliano é a ponte entre o Céu e a Terra, papel que já coube um dia a outros. Não tenha medo doutor, aproveite e faça as perguntas que sempre quis fazer.

O médico sentiu afeto, devoção e admiração pelo moribundo, que parecia estar forte e feliz. Havia uma compaixão genuína e uma estranha empatia por aquele homem. Sentia um pânico moral, por isso foi sem rodeios nem subtilezas que fez a pergunta:

- Senhor Maximiliano, e não Maximiano como todos, há vida depois da morte? – E encostou o ouvido na boca do doente, entre o riso e o ar sério.

- Acontecem coisas, - respondeu uma voz vinda de muito longe, como o som do mar num búzio. – Não é preciso ter medo e com tudo o que isso implica. Olhe à sua volta e verá como tudo se altera constantemente. Deus é soberano, tem o Seu núcleo, o Seu tempo e o Seu espaço, a Sua vida é errante e solitária. O que pensa agora?

- No meu papel como médico.

- É assistir ao passar do tempo e das coisas. Vá ao fundo da consciência e descubra um sentido para a sua existência. Quem pensa que é?

- Sou parte da Natureza.

- As nossas ações não bastam para definir o nosso destino. O imponderável intromete-se sempre, subvertendo os acontecimentos, bastando um erro para que tudo se altere. As “ideias” que entram em cada corpo dependem do instante em que vimos ao mundo. Nada acontece por acaso, a genética está sempre presente. Esta é a vossa ligação com Deus.

- Livre Arbítrio com moderação, - disse o médico esboçando um sorriso e levantando a cabeça.

- Muitas vezes o que nos parece num determinado momento, pode não estar realmente ali mas apenas já ter estado, - exclamou o Paulo.

- É um Deus que não soube desistir, mesmo depois de o terem traído, castigado e morto, – gritou o médico, abrindo os braços e espreitando através da janela.

- E é único, – retorquiu Paulo Prestes com uma voz seca e lenta.

- Como eu e você! – Disse o doutor Preston em voz baixa, sorrindo para o paciente.

- Não doutor, isso não. Cada “ideia” que nos faz regressará um dia para dar origem a outra voz.

A conversa prosseguia, era agora usada a linguagem universal, o Mentino, de que o Demónio do Meio-Dia falara ao detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta. O médico estava tão animado que nem se apercebera que já não precisava de encostar o ouvido ao moribundo para o ouvir. O senhor Maximiliano explicou que Deus era uma cintilação física tumultuosa, era sombra e desafio, tudo Nele era o resultado de um esforço, de uma construção e de uma arte intuitiva, feitos com sabedoria e humor. Os projetos de Deus dependiam dos elementos que os constituíam. A Terra, conhecida por Leve, fora um falhanço porque, inesperadamente, tinham aparecido umas vedetas a proclamarem-se parentes e porta-vozes Dele, tendo a sua estupidez e incompetência causado muitos estragos.

- Doutor Preston, eu vejo pessoas mortas, – confessou o senhor Paulo Prestes, mostrando uma inquietante estranheza, ao mesmo tempo que lhe puxava o braço.

Estava mentalmente desgovernado, num limbo da vida, semiconsciente. Passou a utilizar uma língua estranha, incompreensível.

- Ele está a falar em sânscrito.

Dizia que a função do Diabo era sofrer e fazer sofrer, e nisto ele era assíduo e muito competente, pois praticava sempre todos os crimes disponíveis, ao mesmo tempo que mantinha uma aura de virtude, que o levava a destruir só quando tinha a certeza que Deus lhe iria perdoar. Era um especulador sem limites. Deus tinha os seus equívocos e dilemas, Ele era o cerne de um Universo único, que existia simultaneamente dentro e fora de nós.

- Se eu contasse a história da vida do detetive Narciso Baeta, vocês não iriam acreditar, – disse Paulo, abrindo muito os olhos.

- Está a delirar, – diagnosticou o médico.

O óbito foi confirmado duas horas depois.

sexta-feira, 27 de março de 2026

19 - A Segunda Metamorfose

 

19

Os meus sonhos evocam imagens de outras eras distantes, vejo olhares hostis, medonhos e perversos, ouço murmúrios, pareço ter um corpo sem corpo. Todos correm para um fim, incluindo eu, – disse Rita ao doutor Cinfuentes, balançando-se de um lado para o outro de forma suave, constante e uniforme. – Os meus pensamentos estão caóticos, são superabundantes e excessivos, são fantasmagóricos.

O médico conservava-se junto à sua paciente, observando-a. A expressão dela revelava uma ingenuidade imatura.

- Vejo seres famintos e errantes, – dizia, olhando através da janela para o horizonte.

Rita estava só e sentia-se recolhida em algo que não era seu. Quando não olhava para lá da janela inspecionava meticulosamente partes de si.

- Estou a desintegrar-me, – disse com paixão. – Sinto que vou partir, somos todos a mesma coisa.

O desconhecido parecia atrai-la, a aglutinação de obsessões incluía um ambicioso e imaturo desejo de passar pelo paraíso. A perturbação era indefinível e o sofrimento intolerável.

- Tenho uma noção clara da importância relativa das coisas.

Os olhos brilhavam na tensão das emoções deste jogo de conflito entre várias identidades.

- Rita, qual é o sentido de tudo isto para si?

- Estou confusa, as coisas confundem-me, perdi a noção da realidade. Parece que vivo um pesadelo.

- Um pesadelo ou um conto de fadas? – perguntou o médico aproximando-se e colocando-lhe carinhosamente a mão no ombro.

- Se fosse um conto de fadas a minha vida estaria muito melhor.

- E não está? Uns dias atrás a sua vida resumia-se a uma cadeira de rodas, imóvel.

- Mas não me lembro de ter alguma vez sofrido, não estava cá.

- Então, estava onde?

- Não sei, parece que não tenho passado, mas sim memórias confusas de vários passados. E nem ser do momento consigo.

O medo estava presente nas suas expressões, Rita parecia estar a jogar entre a vida e a morte.

- Doutor, o que é que vê no jardim?

O médico aproximou-se da janela e respondeu-lhe de imediato:

- Vejo um jardim vazio.

- Eu vejo imagens de pessoas que sobem e descem, gente de um tempo já cumprido, que não possui sombras. Vejo com extrema nitidez figuras que me são próximas.

- Quer ir até lá baixo?

- A minha vida é uma viagem contínua, - disse, encaminhando-se para fora do quarto.

Após sair pela porta principal parou junto ao primeiro degrau.

- Sinto-me ligada a uma corrente, vejo massacres, escravidão, pessoas a morrer de peste, tudo isto para que outros gozem de excelente saúde. Chama-se a isto “Ajustamento Divino” e chegou agora a minha vez de ser atraída para um buraco negro.

- O que vê mais, Rita? – perguntou o médico fascinado pelas descrições da sua paciente.

- Vejo ondas de luz geradas pela conexão entre os que morrem e os que nascem. Estou com medo de lidar com esta realidade, - agarrou-se ao médico e encostou a cabeça no seu ombro.

- Medo de quê?

- De confrontar-me com os meus medos, com a rudeza agreste do futuro. Vejo as pessoas com os pés no pó, nos detritos, na lama, só oiço zumbidos e silêncio, apetece-me gritar a ignomínia.

O médico observava com atenção a paciente. A sua mente estava estranha, levava-a a fazer coisas estranhas, como falar com pessoas imaginárias. Dizia a uma tia invisível, a tia Didi, que se sentia uma cobaia dos caprichos de Deus. Rita parecia refém de uma anarquia emocional. Apesar da mente desesperada, parecia ter uma imensa vontade de viver e ser feliz.

- Com o meu despertar do espaço solitário e mudo, acordaram também os meus próprios problemas.

Rita parecia estar numa luta feroz, que se deslocava do presente para o passado, como num passe de mágica, em direção a um mundo obscuro de ambiguidades e manipulações, que lhe dava acesso a pensamentos e memórias de outras pessoas, levando-a a um comportamento quase obsessivo e auto destrutivo, que lhe entreabria um mundo de fantasia, de pesadelos e demónios.

- Vejo um sol negro de onde só irradia uma noite muito escura. É a noite do mundo, chegou a minha vez.

Denotava sinais claustrofóbicos, estava exausta, tinha maneirismos, a cara era triste. Correu para o quarto, deitou-se e deixou de respirar.

quinta-feira, 26 de março de 2026

18 - A Primeira Metamorfose

 

18

- Doutor Lipiérre, consegui a ligação para o hospital de Mount Carmel, o doutor Cinfuentes está em linha.

- Obrigado senhora enfermeira.

O diretor do asilo de Salpêtriere poisou o álbum de fotografias na mesa e agarrou com força no auscultador.

- Doutor Cinfuentes, como está?

- Muito bem, muito bem, e o colega?

- Li o artigo do jornal acerca da vossa paciente, Rita. Aconteceu-nos o mesmo. Um dos nossos internos também despertou e era uma das vítimas da encefalite letárgica dos anos vinte e está aqui connosco há várias décadas – disse, ao mesmo tempo que olhava para a fotografia do recorte.

- Um acordar completo! - Exclamou o médico americano.

- Completíssimo, está a passear, mas muito perturbado.

- Há outro caso!

- Outro? Onde? – Perguntou o doutor Lipièrre.

Por momentos o outro lado do Atlântico ficou em silêncio, até que a voz pausada do doutor Cinfuentes se fez ouvir de novo:

- Em Highlands, ouvi na rádio. O caso é igual à da nossa Rita Bouvalier e ao seu…

- …Narciso Baeta. Com que idade é que a Rita foi internada?

- Aos 18 anos, – respondeu Cinfuentes.

- Dezoito anos! E esteve sempre internada?

- Nunca mais saiu, o parkinsonismo dela é, ou melhor, era uma autêntica masmorra. Está muda a olhar através da janela.

- Colega Cinfuentes, temos de nos encontrar.

- Aproveito a ocasião, vou passear até Paris e faço-lhe uma visita.

- Aguardo a sua vinda com ansiedade.

O doutor Charles Lipièrre diretor do Asilo de Salpêtrière acabara de ser informado que a perturbação do seu paciente Narciso Baeta se tinha agravado, procurava desesperado por uma senhora de nome Lilith em todos os cantos do estranho labirinto. O médico ficou parado, estático, preso a um pensamento que se desenrolava automaticamente, mas ao mesmo tempo consciente da importância do assunto.

- “Lilith”?

Levantou-se atordoado, olhou em redor, regressou à sua realidade e saiu apressado do gabinete, em direção ao vasto jardim onde estava o paciente do quarto nove. Aproximou-se em silêncio e descobriu-o dobrado, junto a uma pequena inscrição no meio das ervas. Observou-o com emoção e esperou, como de costume, pois sabia que o tempo era sempre um bom conselheiro nestes casos. O que estaria o senhor Narciso a ver? Numa pedra corroída pelo tempo alguém gravara um estranho nome: Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua! Pôs a mão no ombro do paciente e este limitou-se a olhar e a afastar-se. Encontrou-o um pouco mais à frente, envolto numa neblina espessa, parado junto a um bloco de pedra esverdeado devido ao musgo:

 

“ Presságios, Prevenções, Previsões e Prudências

Há uma violência boa?

Todo o mal terá uma entidade metafísica a fundamentá-lo?

O que é a vida?

Onde fica o Paraíso?

O que é maior que Deus?

O que é pior que o Diabo?”

 

O tempo encravara-se entre a manhã e a tarde e o detetive parecia estar numa paz satisfeita, pleno de confiança e vigor.

- Então senhor Narciso, já respondeu a tudo? – Perguntou o médico, sugerindo-lhe um sorriso, ao mesmo tempo que descobria o perfume de uma cerejeira em flor.

- A vida é tão frágil, - murmurou o detetive. – Sinto a intensidade excessiva da minha própria mortalidade. Saber não é pior do que não saber.

- As coisas nunca são como nós queremos, pois não?

Uma breve eternidade pareceu poisar nos raios luminosos que riscavam a escuridão áspera de um canto, quando o vento caía sobre eles.

- Ele diz tudo durante as ausências, - exclamou o paciente.

- Ele? Ele, quem?

- Estou numa encruzilhada, cai numa cilada e estou perdido, - respondeu com a tristeza no seu olhar e um lamento na sua voz. – Acenaram-me com joias e eu vendi-lhes a alma.

- Tem recordações do seu passado?

- Mais ou menos, mas não é só um, são vários. Aprendi que os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa, e que para eles ficção e realidade são uma só verdade.

O detetive parecia estar a fazer uma espécie de catalogação de factos, dir-se-ia que a sua ligação íntima com a vida perdera-se, o seu mundo estava a desfazer-se.

- A vida é efémera e irrepetível, – disse, apanhando uma flor amarela, a quem deu um nome impercetível.

Havia uma tensão entre a norma e o desvio, uma aberração de acontecimentos e comportamentos.

- Os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa e a ficção e realidade são uma e só uma verdade, - repetiu.

Parecia estar a agregar pessoas afetivamente importantes, à medida que ia colhendo flores de várias cores, e relacionava-as com lugares. Parecia misturar num mesmo sentido a alegria, a dor e a morte.

- Estou preparado, – e deu um passo em frente, especulando compulsivamente antes de cair desamparado no chão.

segunda-feira, 23 de março de 2026

17 - Buraco de Verme

 

17

O “Umbigo de Eva” era um “Buraco de Verme”, um atalho cósmico que permitia uma ligação com uma determinada região do Universo, mas isto o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, contratado por Deus para encontrar Lilith, não sabia. Começou por ver uma imagem desfocada de alguém que o chamava, dizendo o seu nome. A dimensão de tudo era desmedida, os sentidos confundiam, o nariz tacteava, os ouvidos saboreavam, os olhos ouviam, a boca cheirava. À medida que avançava iam-se abrindo portas, cada uma com um relógio e uma hora diferente, que davam acesso a salas cheias de memórias, de sonhos e de sombras que entravam e saíam, chamando-o por centenas de nomes. Viu-se rodeado de uma paz e tranquilidade tão puras, que inconscientemente sorriu. Apercebeu-se que a dimensão não era a sua quando se viu rodeado por fadas com dentes afiados, que lhe despertaram os sentidos. Lilith existia para desactivar a obra de Deus, e Este para a manter activa. Era por isso que os dois se completavam e eram importantes para que o Universo conseguisse avançar nesta profundidade de conflitos. Provocaram invejas, ciúmes, ódios e despeitos, na longa e tumultuosa história da evolução do Cosmos. A uma dada altura apareceu um duende que se apresentou como o “seu Anjo da Guarda”, que tinha como missão evitar que lhe roubassem a alma. Mas o perigo só era maior se ele tivesse nascido uma mulher bonita, o que não era o caso nem como homem.

 

Nova Iorque, Hospital de Mount Carmel, 13 de Junho de 1969.

No pavilhão dos “ mortos-vivos “ reinava a excitação. Os médicos corriam apressadamente de um lado para o outro, levando a reboque as enfermeiras e os assustados estagiários. Todos esperavam pelo doutor Cinfuentes, que acabara de entrar no edifício.

- O que é que aconteceu aqui de tão importante, para me acordarem a esta hora da manhã? - Perguntou o director, vestindo atabalhoadamente uma impecável bata.

- É a paciente do quarto nove, – respondeu-lhe a obesa enfermeira-chefe. - Hoje de manhã quando os auxiliares lhe foram dar o suplemento, estava de pé junto à janela.

- A senhora Rita Bouvalier de pé? É impossível!

Entraram de rompante no elevador e carregaram no botão para o quarto andar. O silêncio era pesado, os olhares perdiam-se no vazio, como luzes descontroladas numa noite de nevoeiro. Os médicos recém-formados colaram-se à parede do fundo, receosos pelo que iriam encontrar. Uma campainha anunciava a chegada, ao mesmo tempo que as portas se abriam com estrondo. O quarto nove estava entreaberto. O doutor Cinfuentes espreitou cautelosamente, hesitou, mas por fim tomou a decisão e entrou. Viu um vulto de mulher junto à janela gradeada, contemplou-a carinhosamente por uns instantes e aproximou-se. A paciente olhou para o horizonte e murmurou baixinho uma frase:

- Transpus a porta, transpus a porta, transpus...

Observou-a fascinado, olhou em redor, não procurou explicações porque sabia que não existiam, dizendo com um tom jocoso:

- “Só sei que nada sei”!

Rita voltou-se. Os olhares encontraram-se, o diálogo foi fundo, bem fundo nos alicerces da alma, falaram animados em silêncio e sem palavras, procuraram desesperados a memória que descobriram ser comum, e soltaram-se repentinamente, assustados. No corredor uma multidão esperava-o ansiosa.

- Então doutor? - Perguntou a enfermeira, encostando-o à parede com a sua enorme barriga.

- Colega, – disse o médico, apontando para um dos estagiários. - Como se chama?

- Carlos, Carlos Tompson.

- Carlos, entre no quarto e diga-me que idade dá à paciente.

O jovem avançou com receio, empurrou a porta, entrou cautelosamente e ficou paralisado quando encontrou o olhar de Rita, que avançou para si.

- Transpus a porta, – disse-lhe, pondo as mãos nos seus ombros.

Os olhos azuis desbotados da paciente cravaram-se bem fundo no seu interior, o cabelo cor de fogo atirou-lhe com um perfume floral e a pequena boca continuou a soltar as palavras:

- Transpus a porta.

Afastou-se, desligou-se do presente e retornou ao horizonte. Carlos saiu desorientado e foi de encontro à enfermeira-chefe Zobáida Mercedes.

- A idade? - Perguntou.

- Sim, eu só quero um palpite, – respondeu Cinfuentes, acordando-o.

- Quarenta e cinco, talvez cinquenta.

- Quarenta e cinco?! Cinquenta?! - Exclamou Zobaida, consultando a ficha que tinha na mão. – A senhora Rita Bouvalier tem sessenta e sete anos.

- Sessenta e sete, é impossível!

- Meus senhores, temos aqui algo que ultrapassa a ciência, tal como a conhecemos. Antes de avançarmos mais, é melhor acompanharem-me ao gabinete, para esclarecermos algumas ideias.

O grupo obedeceu dirigindo-se em marcha forçada para a sala, onde entraram de rompante e cada um escolheu uma cadeira e sentou-se.

- Já ouviram falar da “Doença do Sono”?

- “Doença do sono”?

- São muito novos, hoje em dia não lhes ensinam história na faculdade, – respondeu secamente a enfermeira-chefe.

- Não é com histórias que curamos as pessoas! - Exclamou um dos novatos.

- Engana-se, – disse-lhe Cinfuentes. – É na História que muitas vezes se encontram as curas, porque se repete indefinidamente. Mas o que nos traz aqui é a Encefalite Letárgica! Um dos maiores enigmas da medicina, uma doença terrível que aparece, dizima e evapora-se sem deixar rasto, aliás o único sinal da sua presença são os três pacientes que temos aqui há várias décadas. Senhora enfermeira, conte a anamnese da Rita Bouvalier.

- Nasceu em 1902 em Viena e aos dez anos mudou-se com a família para Paris. Teve uma infância feliz e aos dezoito anos, quando se preparava para casar, foi acometida de uma doença súbita, que a deixou prostrada na cama. O médico que a assistiu, não conseguiu fazer nada e algumas horas depois declarou-a cadáver, devido a uma síncope cardíaca. Na noite do velório uma das criadas descobriu que a Rita estava a chorar. Afinal não estava morta! Foi internada num hospital e nunca mais regressou a casa. Permaneceu numa cadeira de rodas, imóvel, durante estes anos todos. Veio para aqui em 1945.

- E o que é incrível, é que apesar de ter estado como uma estátua durante décadas, com uma postura péssima, não há qualquer tipo de deformações, e o envelhecimento atrasou-se consideravelmente.

- Sessenta e sete anos?! - Interrogou-se um dos assistentes, deixando escapar o pensamento.

- E apesar de tudo move-se, – continuou o doutor Cinfuentes, cada vez mais entusiasmado. - Raramente os vimos moverem-se! A altura mais interessante é a das refeições, todos são independentes nesta área, mas não os vimos comerem, temos de sair do refeitório. Quando voltamos, os pratos estão vazios.

- Doutor, – interrompeu um dos colegas. - Mas a encefalite letárgica devia ser mortal ainda por cima naquela altura.

- Em todo o mundo devem ter morrido milhões de pessoas, os poucos que sobreviveram devem ter sido aqueles a quem Deus protegeu, não sei para quê!

- Ou castigou! - Disparou a enfermeira Sobaida, sem levantar os olhos do processo.

- Depois da encefalite letárgica, quem ousou sobreviver, desenvolveu um parkinsonismo, que o deixou um morto-vivo. Eles são só alma, estão bem longe!

- No caso da senhora Rita Bouvalier, regressou ao corpo, – provocou de novo a enfermeira.

- Pode ter regressado, mas de dentro! - Ajudou um dos enfermeiros, que estava escondido atrás da enorme silhueta da sua colega.

- O quê? O colega se não tem nada para dizer, não diga disparates.

- Senhora enfermeira, não foi dito nenhum disparate, – disse Cinfuentes. - A discussão deve situar-se no plano metafísico, pois ao nível da medicina não vamos descobrir nada.

- Por amor de Deus senhor doutor, nós não somos padres!

- A alma não é exclusiva dos padres. Os médicos deveriam compreender que muitas das doenças do corpo se devem a problemas na alma. Quando soubermos respeitá-la, então respeitar-nos-à! O nosso trabalho com a senhora Rita Bouvalier vai ser de observação e registo. Alternamo-nos, vamos estar com ela vinte e quatro horas por dia, a registar tudo o que fizer e disser, incluindo os sonhos. Reunimo-nos todos os dias aqui e a esta hora. Bom-dia a todos!

Junto da grande janela do quarto número nove, a paciente falou para o horizonte:

- John, tu não vais passar, esta porta só dá para o passado, e tu não tens passado...

 

Hospital de Highlands 13 de Junho de 1969.

A notícia correu depressa pela região, o paciente do quarto número cinco, o senhor Paulo Prestes, acordara do seu longo sono e passeava agora calmamente pelos bonitos jardins, na companhia da fiel enfermeira Margarete. Eram observados do alto pelo director.

- Há quanto tempo é que ele está aqui, doutor Preston?

- Segundo a ficha, o senhor Prestes entrou há vinte anos, com um parkinsonismo pós-encefalítico.

- A “Doença do Sono”?

- O senhor director conhece a doença?

- O meu pai tinha seis irmãos, ele foi o único que não apanhou a encefalite letárgica. Todos morreram! Estava em Viena em 1916, o meu pai tinha sido nomeado embaixador. Apesar de nunca ter conhecido nenhum deles, quando vi pela primeira vez uma fotografia da família, aos 7 anos, disse o nome de todos sem me enganar. A “doença do sono” deixou marcas na família!

- Parece um milagre, o senhor Prestes ontem levantou-se normalmente e foi passear para o jardim. Parece não saber onde está, e nem pergunta, o único nome que menciona é Rita, que desconhecemos quem seja.

- Já viram nos arquivos?

- Há muitas Ritas no nos nossos registos

 - Deixem-no sentir o mundo, está perdido no tempo, tem de ser ele a encontrar-se!

 

Asilo de Salpêtrière 14 de Junho de 1969.

- Qual é o nome do paciente? - Perguntou o doutor Charles Lipiérre.

- Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, é dos pacientes mais antigos, está connosco há trinta e um anos, e quando entrou tinha setenta e cinco, – responde o seu assistente.

- Cento e seis anos? E está muito activo!?

- Neste momento passeia-se no jardim, aliás, foi lá que o descobrimos. Nunca pensámos que um homem daquela idade e há tanto tempo imóvel, já entrou para aqui naquele estado, parecia uma estátua, se levantasse e andasse com tanta energia.

- Deixe-me o processo, vou dar-lhe uma olhadela.

O doutor Lipiérre deu uma espreitadela rápida pela janela, na esperança de conseguir ver o “ressuscitado”, mas ficou-se por um bando numeroso de pombas, que executava na perfeição manobras temerárias. Sentou-se na poltrona cor-de-azeitona, puxou dum cachimbo já carregado e abriu o processo que estava em cima da mesa, ao mesmo tempo que tentava arrancar com a fumaça.

 

Nome: Narciso Serapitola Figueiredo Baeta

Data de nascimento: 13 de Janeiro de 1863

O paciente nasceu em Nova Iorque, sendo o filho mais velho de uma grande família de classe média. Aos dez anos de idade mudaram-se para a Europa, mais precisamente para a cidade de Paris, de onde nunca saíram. Durante a infância nunca sofreu de doenças sérias, o seu aproveitamento escolar foi brilhante e quando concluiu a licenciatura em medicina e cirurgia decidiu enveredar pela carreira eclesiástica. O seu espírito ávido levou-o a percorrer os quatro cantos do mundo, em missões evangélicas, que cumpriu com brio e determinação. Em 1908 um incidente veio mudar-lhe o rumo da vida. Um incêndio na vivenda do seu pai, durante a festa anual da família, acabou em tragédia. Todo o clã Baeta pereceu, excepto o padre Narciso, que se encontrava ausente no Vaticano. A notícia causou-lhe um choque tremendo. Nos dias seguintes começou a sofrer de pesadelos aterrorizadores, imaginava-se a cair num poço sem fundo, não fazia movimentos, era uma estátua, queria acordar mas não conseguia, chamava desesperado pelo pai, que aparecia e desaparecia, até que era desperto pelos seus companheiros. A conselho de um médico seu amigo, retirou-se para uma abadia nos Alpes. Aí permaneceu durante cinco meses, até conseguir recuperar a lucidez por completo. Decidiu então refugiar-se numa capela de uma aldeia perdida numa floresta francesa e pediu ao Papa para exercer aí o seu magistério. O pedido foi aceite e ficou até 1938, ano em que o imprevisto aconteceu, durante a celebração da missa da manhã. Quando levantou os braços para agradecer a Deus o bom ano agrícola, caiu desamparado por cima do altar. Voltou a si acompanhado com movimentos súbitos e imobilizou-se por completo. Virou ainda os olhos para o altar e assim ficou. O médico local foi rápido no diagnóstico: “catatonia”. Trouxeram-no para esta instituição e aqui esteve imóvel, excepto durante as refeições, até agora.

- Não há dúvida, o corpo está submetido à alma, – exclamou o doutor Lipiérre, atirando para a mesa o dossier.

Foi interrompido pelo barulho de alguém a bater à porta com insistência.

- Entre, está aberta.

Um enorme enfermeiro, com um volumoso bigode, entrou de rompante e pediu ao director para o acompanhar à fonte velha. Precipitaram-se pela escadaria numa corrida louca e embrenharam-se pelo labirinto de sebes, uma obra fantástica feita por um jardineiro local. Ao passarem pela “curva-das-cebolas-nuas”, o espectáculo apareceu-lhes de frente. Em cima da “sereia-verde”, que “chorava desalmadamente”, palavras do jardineiro, o senhor Narciso Baeta gritava para a vasta assistência, que se sentara para o ouvir.

-...eu passei a porta, sou o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta e fui contratado por Deus para procurar a sua amada, Lilith. Tudo depende de Dele, não só aqueles que vivem, mas também a lei, a ordem, a vontade, as verdades eternas, o meu cão, as vossas doenças, tudo, tudo... Deus conserva-nos e é por isso que existimos... Passei a porta com duas pessoas, a senhora Rita Bouvalier e o senhor Paulo Prestes. Alguém os viu? E alguém conhece um motorista com um nome esquisito, Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua?

- Cento e seis anos? Este paciente teve o corpo parado, mas a sua alma parece ter viajado muito, – disse o director, fazendo uma festa numa grande flor amarela. – Sabe que esta planta deve ser única no planeta e que em termos genéticos a sua existência é teoricamente impossível?

- Mas no entanto existe.

- E como é que terá vindo parar aqui?

- Poeira cósmica. Li há pouco tempo um artigo muito interessante sobre o tema. Entre biliões de grãos de pó que caiem na Terra todos os dias, estatisticamente é provável que um traga uma semente.

- E haveria logo de ser aqui e germinar?

- Em algum lado teria de cair. E se resistiu a tudo, as probabilidades de vingar eram quais cem por cento. É como este labirinto, será por acaso que terá a forma de um cérebro ou foi intencional?

- Pergunte ao jardineiro.

- É nosso paciente do pavilhão quatro.