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Na cidade sagrada Tricúspica o tempo já não é bom conselheiro, os últimos acontecimentos obrigaram Helias II a uma reflexão profunda. O monarca convocou o Conselho dos Sábios e, por isso, todos sabem que algo de grave está a passar-se. A azáfama é grande, entram carros azuis de minuto a minuto, a zona está interdita à população e há muitos grupos de contestatários nas fronteiras marcadas com grades pintadas de um amarelo vivo. Sente-se a tensão, as portas tricuspianas são fechadas com estrondo. Junto à carrinha duma das estações televisivas, um jornalista acaba o seu trabalho com uma estranha pergunta:
- Haverá alguma relação entre a tragédia que vitimou toda a tripulação do Piolho-Um e o nervosismo da corte de Helias II?
Na Sala dos Profetas o monarca assusta-se.
- Até onde é que eles sabem?
- Não se preocupe alteza, eles não sabem nada, é apenas um desabafo dum jornalista perspicaz. As notícias que saíram sobre o acidente foram aquelas que nós achámos convenientes.
- Já analisaram a imagem do espectro da tripulação da nave?
- Sim, os técnicos detectaram a ausência de quatro elementos, alguém ficou na Eva!
- Meu Deus, algo me diz que eles tiveram acesso à caixa, como é que isso foi possível?
- Há forças estranhas naquele planeta, alguém lhes facilitou o caminho, temos de enviar outra missão.
- O governo cardíaco lançou-nos um ultimato, não querem mais nenhum voo, dizem que vão fazer mais atrasos no metabolismo.
- Atrasar ainda mais o metabolismo!?? É impossível! Com o fracasso da operação nos Pulmões, o Cancro está em todo o lado, tornou-se impossível manipular o Corpo. E o Cérebro, o Coração ainda consegue controlá-lo?
- A crise também se estendeu ao Cérebro, o seu governo decretou o estado de sítio em Lóxis, a Federação está com enormes problemas, vários Neurónios revoltaram-se.
A conversa entre o monarca e o delegado da República do Estômago é interrompida pela chegada dos outros membros. Um a um cumprimentam afectuosamente Helias II e ocupam os seus lugares. As grandes portas de ouro maciço fecham-se e os guardas selam--nas, deixando bem à vista os símbolos com a águia das três cabeças.
Algures na capital do reino do Coração, Diástole, uma forte explosão faz estremecer o ar, ao mesmo tempo que provoca uma intensa chuva de vidros e pedras. Por momentos o silêncio é total, só uma nuvem de pó vai abraçando, com pantufas, a cidade da luz, transformada agora num lugar cheio de trevas. Gritos tímidos rasgam a noite, aumentados por coros de sirenes que cintilam por toda a parte, perseguidos por vultos ensanguentados que forram a noite.
- O rei morreu, – informa friamente o jornalista da emissão especial. – D. Sístole II sofreu um atentado e não resistiu aos ferimentos. O Coração está de luto, foi decretado o recolher obrigatório em todo o país, as forças armadas são agora o garante da lei e da ordem.
- Só Deus nos pode agora salvar – diz em pânico o delegado da República dos Rins.
- Deus!?? Agora não é altura para falar de Deus, os acontecimentos precipitaram-se, temos de pensar na eventualidade de abandonarmos a cidade Tricúspica.
- Abandonar a nossa cidade!??
- O caos vai tomar conta de tudo, é a profecia anunciada há mil anos pelo profeta Castor: “ Quando o monarca da cidade luz desaparecer no meio de uma tempestade de fogo e trovões, é o sinal do Juízo Final, e os filhos do Espírito Santo devem fugir para os territórios sagrados “.
- “ Territórios Sagrados “?! Nunca soubemos que territórios eram esses, nem nos preocupámos em saber, as profecias só servem para dominarmos os outros.
- Meus senhores, nós somos os eleitos, – diz Helias II, levantando-se e tentando acalmar os presentes. – A hora é de reflexão, todos esperam muito de nós, e o exemplo que dermos marcará a atitude do povo.
Palavras bonitas para quando o presente era radioso, mas que não passam de frases soltam para um futuro que desaparece à medida que chega. A multidão está cega, já ninguém a contém no assalto à cidade sagrada, os valores precipitam-se como um baralho de cartas, é a chegada do caos para quem não soube gerir a ordem. As estátuas veneradas há séculos caiem dos pedestais, empurradas por hordas traídas, feridas de morte por negreiros das suas almas, que fizeram da luxúria e da orgia suas cúmplices, renegando para catacumbas escuras as essências da vida universal. Algures na vastidão do cosmos, viajando a velocidades muito para além da luz, vão ideias perdidas que um dia deram forma a um rei, juízos julgados por ideias que nessa mesma hora deram consistência a uma máquina que se desagregou, desagregando. É este o pulsar de Deus, a morte é sempre a causa da vida!
Salão após salão, tudo é consumido pela multidão que avança enlouquecida pelas entranhas do palácio, que até há pouco tempo era considerado sagrado, e que agora não passa de um covil de ladrões que ousaram um dia negociar as almas.
- Alteza, está tudo preparado, – informa o secretário de Helias II, entrando de rompante na assembleia.
- Meus senhores, as naves estão à nossa espera, temos de abandonar a cidade. O nosso destino é a Nuca da Eva!
Francisco Sá, sucessor daquele que um dia quis repartir as verdades com o seu povo, farto das hipocrisias dos governantes, subiu ao poder depois de um golpe silencioso que vitimou Helias I. Como troféu escolheu o mesmo nome e apareceu às janelas do palácio como Helias II, aquele que iria repor as mesmas verdades.
A eterna aliança entre a monarquia cardíaca e a cidade-reino reforçou-se e a existência do Corpo-Dois manteve-se no segredo dos deuses. Mas a ciência é incontrolável e os Olhos acabaram por detectar a boa nova: existia outro planeta próximo do Corpo. Uma verdade já há muito descoberta pelos “sábios do cosmos”, os profetas do povo do Apêndice.
Os apêndicedianos eram os mais evoluídos do planeta, sabiam o Mentino e isso permitia-lhes navegar pelo Universo. Criaram uma colónia na Nuca da Eva e conheceram as “seis magníficas”, os anjos de Deus. Receberam como missão divulgar a linguagem universal e enviaram uma expedição às “terras nobres”. O rei Babuino recebeu-os como heróis e apresentou-os aos profetas da cidade Tricúspica, os governantes do Coração. Estes registaram pacientemente os ensinamentos dos estrangeiros e como paga ofereceram-lhes um fabuloso dragão de ouro, “tão grande que nele cabiam todas as terras do Pólo Norte”.
Puro engano! Quando o presente chegou à península do Apêndice, as suas entranhas abriram-se e de lá saiu o maior exército jamais visto, que dizimou aquele povo de gente pacífica e lhes roubou todos os bens e toda a ciência.
Os tricuspianos consideram-se uma parte de Deus e a sua filosofia de vida baseia-se na obtenção, por todos os meios, dos conhecimentos necessários para a glorificação do “Tempo do Espírito Santo”. São pacientes, para eles a morte não existe, e estão sempre preparados para mudanças bruscas, mesmo que isso signifique mudar de planeta. “Andamos à frente da História”, costumava dizer o rei. A acumulação de riquezas fez parte dos seus planos de defesa, eles sabiam que o seu reinado não seria eterno, e então colocaram estrategicamente o ouro e as jóias, pois quando o povo viesse em fúria seria distraído pelo fabuloso tesouro e eles teriam tempo para fugir e levar a verdadeira fortuna: o Conhecimento. Também dominam com mestria o espaço físico. Enquanto lhes foi útil governarem o Coração não hesitaram, mas quando os problemas surgiram, reduziram-se à cidade Tricúspica e arranjaram quem ficasse no seu lugar. Agora sabem que estão a mais no Corpo, que já aprenderam tudo, e então preparam-se para o abandonarem. Mas este tipo de política fez-lhes muitos inimigos! Os apendecidianos são os mais implacáveis, e juraram combater em todo o lado contra o “Tempo do Espírito Santo”.
A cúpula do palácio tricuspiano abre-se perante a multidão que saqueia avidamente os inúmeros tesouros e todos recuam. Um raio rasga o céu e ouvem-se dez estrondos ensurdecedores, seguidos de um silêncio duvidoso. A luz desaparece, as bocas fecham-se, os olhos tornam-se a virar para o chão e a carnificina recomeça. Lá de cima, Helias II contempla serenamente a cena e exclama:
- O tempo encarregar-se-à de nos tornar um mito.
- No livro da História só os mais fortes têm direito a escrever os seus nomes.
- A minha sucessão deverá ser a nossa próxima tarefa.
- Sucessão!?? Mas, é só com a morte...
- Tenho uma missão muito importante para cumprir.
- Missão!??
- Há problemas para resolver na Eva. Ignorá-los é pôr em risco o “Tempo do Espírito Santo”, a causa da nossa existência. Já ouviste falar nas “Quatro Magníficas”?
- As deusas dos sonhos, que foram enviadas por Laputa para juntarem Eva a Adão, – respondem o fiel e confidente secretário de Helias II.
- As guerreiras enviadas pelo Pai para atrasarem o “Tempo do Espírito Santo”. Este preciso do Universo curto para começar o Seu “tempo”, enquanto que as deusas têm como missão aproximar Eva de Adão e levá-los a procriarem, conseguindo assim aumentar o Cosmos. A grandeza prejudica-nos!
- Mas elas já não estão todas reunidas!??
- Conseguimos quebrar-lhes a unidade, temos de aproveitar as suas fraquezas para as destruir.
- E Adão, qual vai ser o seu futuro?
- Adão tem de morrer!
- Destruir Adão!?? Laputa não vai deixar!
- Laputa não poderá reagir, Adão não é o centro do Universo, é unicamente uma poeira em movimento, e neste jogo nós podemos entrar.
Das janelas da nave principal, o Corpo não passa de um ponto com uma aura azul, hoje mais luminoso do que nunca, lançando para o Cosmos o seu último desejo, um grito lancinante que lhe vem das profundezas da alma, à procura da sua amada que já há muito saiu da oposição e que ruma agora em direcção ao desconhecido.
- Objectivo à vista, – informa o piloto.
- Eva, a nossa Eva, – desabafa Helias II - Ela vai ser a nossa próxima companheira, os conhecimentos que lhe conseguirmos extrair vão ser vitais para a nossa nobre missão.
As cinco naves poisam suavemente na região da Nuca e as luzes apagam-se, deixando aparecer da penumbra a bela cidade, a frondosa Cicerine.
No Corpo os acontecimentos precipitam-se. A cidade Tricúspica está em chamas, a multidão grita “o metabolismo é do povo, abaixo os tiranos”, a revolução está imparável, o governo cardíaco exilou-se no instável Cérebro, na Crossa da Aorta o caos é total. Os arsenais do exército foram saqueados, é o regresso às origens, o tribalismo faz a lei, os inimigos mudam ao sabor das necessidades.
Nas altas montanhas do Queixo dois vultos contemplam serenamente o horizonte, rodeado por um manto de neve muito branca.
- Somos uns privilegiados, deram-nos a grande oportunidade de assistir à História ao vivo – diz o historiador motorista Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, apontando os binóculos.
- O Memoh é incompatível com a liberdade! - Exclama o seu colega de grupo, o doutor Abiron ou o senhor Joanito-Faz-de-Conta, roubando uma longa fumaça ao seu teimoso cachimbo.
- Liberdade!?? O que é isso? Ninguém pode ser livre no Universo, felizmente Deus nunca teve dessas ideias. O que aqueles bárbaros fazem é obedecer às suas pulsões, estão agora mais subservientes do que nunca.
- Vê como tudo se repete, o retorno é inevitável. Primeiro destruíram o poder, depois tornaram-se nesse poder e de seguida aniquilaram-se entre si.
- Afrodite ainda acredita no Memoh!
- O quê, ainda não desistiu!?
- Informou-me de que vai continuar o trabalho e que tem o apoio das outras três.
- E Laputa, já disse alguma coisa?
- Laputa está cega, só tem olhos para estas meninas, e enquanto elas não desistirem, seremos os seus vigilantes.