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O senhor Prestes comprou o jornal e sentou-se calmamente num dos bancos do jardim principal da pequena vila de Torne. Tirou os óculos do bolso da camisa, acendeu o centenário cachimbo e após a primeira fumaça contemplou pensativamente a sua terra. O imponente castelo, testemunho duma época áurea que tornara famosa a região, deu-lhe os bons dias. Outrora passaram por ali milhares de viajantes que se dirigiram para todos os cantos do mundo. E era a memória colectiva do passado que tentava a todo o custo enganar esta terra esquecida e desgastada pelo tempo. Abanou a cabeça e riu-se para dentro com desprezo. Só o passado lhes dava alguma coisa, pois do presente nada recebiam. E até o pouco que tinham era de origem duvidosa! Para ele a vila de Torne, outrora cidade, tinha sido unicamente um ponto de passagem de piratas e ladrões, transformados em heróis com o decorrer dos séculos. E ainda havia descendentes que clamavam bem alto as suas origens e olhavam com desprezo para os que os rodeavam. Eram um bom exemplo da espécie mesquinha auto-intitulada "Homem" que dominava o planeta, criando valores à sua medida, para assim poder explorar todos os outros indivíduos que consigo coabitavam este pequeno grão atirado e esquecido num dos cantos do Universo. Torturava e matava em nome da sua longevidade, controlava em nome da sua multiplicação... Umas pernas femininas interromperam a meditação e trouxeram-lhe à memória os anos da sua louca juventude e do grupo de amigos. Ele era o único sobrevivente! Tantos sonhos tiveram juntos, tantas ambições e planos que consumiram horas e horas das suas vidas. Agora pertencia tudo ao passado, nada se distinguia entre o banal e o histórico. A única esperança que havia no meio de toda esta confusão existencial, era de que tudo tinha um fim, a morte igualava os seres perante o verdadeiro Deus. Uma aragem agradável do início do Verão banhou o senhor Prestes e interrompeu-lhe, mais uma vez, o diálogo com a alma. Mas foi tudo tão rápido, pois o
seu pensamento estava a atingir uma velocidade incontrolável. Uma formiga que subia pela sua perna trouxe-o de novo à realidade.
- Aqui está um membro da mais evoluída civilização que alguma vez habitou a Terra – exclamou, abrindo os braços como que cumprimentando a amiga. – Vocês já existiam há cem milhões de anos antes de nós, mas no entanto andamos à procura de seres inteligentes extraterrestres. Não param para pensarem que o que procuram é infra terrestre. É pelo medo de serem desmascarados que se tornam arrogantes.
Olhou para o cimo da cordilheira e pareceu-lhe ver um vulto. Sim, era um velho, muito velho, com umas longas barbas brancas, sujas pelo passar dos anos. Estranho, muito estranho, o tempo parecia estar sintonizado com o movimento do desconhecido que descia em direcção a Torne. Um nevoeiro de poeira foi-se embrenhando pela vila e apagou lentamente toda a paisagem, pondo frente a frente dois homens e uma formiga.
- Bom-dia velho amigo, – saudou o barbudo levantando um dos braços. – Eu sou um rebelde da minha espécie, que um dia subiu para a montanha fugindo do meu passado, mas que agora a desce para trazer a boa nova, a tua palavra escondida, que é “Tríade”.
- A tua forma é igual à minha. – Interrompeu senhor Paulo Prestes.
- Não, não penses assim, tu estás preso num castelo com a forma e o feitio de ti próprio. Eu já me libertei dessa prisão, eu sou diferente de ti porque abandonei o meu neocórtex. Não o tenho e assim estou livre da sua tirania, do seu ressentimento. Ele é um conservador de sonhos mortos e de ambições esgotadas. Eu vivo numa imensa floresta sem homens, convivo todos os dias com o meu próprio espírito, um amigo excessivo e perturbador, com pensamentos dominantes e dominadores, que se elevam lentamente até se superarem a si próprios e deixarem de ser ouvidos.
- Se vives sozinho, se não te conheces, porque é que vieste até aqui? - Perguntou Paulo, ao mesmo tempo que olhava para a formiga, que agora se encontrava num dos seus ombros.
- Foi o teu espírito e o da tua amiga, que são mais brilhantes do que um raio do Sol, e que pairam libertos de tudo, que me alertaram e avisaram da tua vontade de fugir do rebanho.
- Fugir!?? Fugir para onde!?
- Fugir para a verdade, subir para as montanhas mais altas, caminhar em direcção ao teu cume. Então, tu não sabes que Deus está moribundo!?
Acordou num quarto mergulhado num silêncio reconfortante, com um brilho que cegava, e o impossibilitava de olhar para cima.
- Seja bem-vindo, senhor Prestes, – cumprimentou alguém que estava sentado junto a si, e que tinha acabado de lhe tocar num ombro.
- Mas o que é que me aconteceu?!
- Fez uma viagem até mim.
- O quê?! Uma viagem até si?!
A atenção foi desviada pelo estrepitar de uma ruminação. Aos pés da cama estava um cordeiro verde.
- Mas o que é isto?! Um sonho?!
- Não meu amigo, é a hora da manifestação, de desmantelar os seus sentidos.
- O senhor é um anjo?! – Perguntou, calmo e sorridente. – Eu acredito em anjos que nos vêem e nos falam. Vai-me levar pela mão para o Céu?
- Eu sempre ouvi dizer que sob as asas dos anjos acoitam-se, muitas vezes, a cobardia e a vaidade, – respondeu o rapaz.
- Eu senti muitas vezes, em sonhos, os passos de um anjo na minha cabeça.
- E a marca dos teus pés sobre a terra, reparaste?
- Tantas vezes!
- Quiseste sempre transfigurar os lugares de decepção em sítios maravilhosos, com vida nova.
- E esta luz, porque é que é tão intensa?
- Atrás dela há outro mundo, vais-te transformar a partir da luz, que ilumina agora as tuas memórias. Estou a passear por dentro do teu cérebro.
- És Deus?
- Deus está em toda a parte, dentro de cada partícula do Universo, cuja unidade estrutural é o Cérebro, que acomoda o próprio e o mundo. Deus não tem princípio nem fim, e não responde a preces nem a lamentações. Não, não sou Deus, nem pouco mais ou menos.
- E essa ovelha verde?
- O Cordeiro Verde? Ele tem a resposta para todos os mistérios da vida, e estou a ver que gostou de ti.
- Gostou de mim?!
- Os teus afectos e a regulação da tua vida fazem com que o animal goste de ti e se aproxime. Nunca gritaste “Deus é Grande”, e por isso nunca O insultaste. As distâncias definem o novo caminho que vais seguir. Tu representas a ânsia de uma criatura em superar as suas debilidades, sob o ímpeto da gratidão, da honra e do amor.
- Eu nunca gritei por Deus!
- Graças a Deus. E Ele também nunca gritou por ti!
- Graças a Deus.
O quarto foi invadido por um pôr-do-sol melodioso, brutal e efémero, que desmantelou os sentidos. O senhor Prestes só teve tempo para reter a imagem de um anjo gigantesco, com as asas de abutre, que lhe pôs as mãos sobre os ombros e levantou voo. Quando abriu os olhos viu que estava numa sala com vários idosos, todos sentados em cadeiras de rodas, com uma tabuleta ao colo.






