quarta-feira, 13 de maio de 2026

96 - A Miúda do Lenço (M) - (9)

 

9

O pintor lançou um sorriso tímido, com um indelével toque de desassossego. Eram complexas as circunstâncias em que se desenvolvera a sua gestação existencial, em subúrbios clandestinos e mal cheirosos da Brandoa profunda, que o levaram a desenvolver um passo foleiro e trôpego, com uma silhueta alquebrada e uma prosa analfabeta.

- Ó homem, estás bem? – Tornou a perguntar Quitéria.

Deixou o leite e saiu sem dizer qualquer palavra à rapariga. A meio da madrugada acordou sobressaltado e sentou-se na cama ofegante e cheio de angústia. Sonhara com a surdidez do bordel onde nascera. Acendeu a luz e viu a sombra refletida na parede branca do apartamento em que nem os seus próprios fantasmas cabiam. Engoliu em seco e sentiu o sabor e o aroma torpe do cubículo que lhe servia de habitação. Fez uma retrospetiva da sua vida remediada, medíocre, comovente, com variações sobre diferentes tipos de solidão, que foram diferentes formas de humilhação. Viciara-se nas febres do ego, estava em estado de depressão há demasiado tempo, não havia nada que não tivesse tentado para sair do buraco negro onde nascera, mas nada parecia funcionar para levantar Carlos do torpor, da solidão, do silêncio, do estado catatónico. Sentiu o fluxo sanguíneo dilatar as veias, os movimentos cardíacos e respiratórios aceleraram-se, os músculos contraíram-se, a boca entreabriu-se, o rosto ruborizou-se e os dedos grandes dos pés reviraram-se. Foi rodeado por uma aura de luz fantástica, lembrou-se do seu quadro a “Rosa dos Conflitos”, que transmitia uma impressão de pulsões violentas, de raiva, medo, desespero e incompetência. Antes de tornar a adormecer amaldiçoou a fêmea que recusara as suas soberbas obras de arte, e prometeu-lhe um castigo carnal quando ela naturalmente lhe caísse no colo. Mas o destino trocou-lhe as voltas, pois no dia seguinte chocou na traseira do automóvel da mulher das pernas longas, junto à praia de Caxias, distraído pelos pensamentos atormentados, e pela dificuldade em encontrar o seu lugar no mundo, que o afastaram da condução da mota e do sinal vermelho do controle da velocidade. Quando acordou já estava na fronteira entre a Turquia e o Iraque.

 

SMS - Fátima, 8 de julho de 2012.

Sesaltina , Só posso falar contigo à noite, tenho consultas até lá. É urgente? O meu tlm 910000001. Mas só depois das 21.

 

SMS - Fátima, 15 de julho de 2012.

Então miúda, como é que estás? Quando puderes manda-me uma mensagem por aqui. Como ficou do gânglio sentinela e do tratamento? Um beijinho e se precisares, eu estou cá. Se bem que quem tem uma Natália, tem tudo.

Beijinhos.

95 - A Miúda do Lenço (8)

 

8

Havia nele uma inquietação, não se insinuava qualquer linha de fuga imprevista, estava num estado de insanidade porque tinha tomado consciência da humilhante situação a que chegara. Os segundos passaram um a um. Tornou a olhar para o espelho e reviu o velho patético cheio de rugas e cabelo de caniche que estava diante de si, e não fez um gesto, não disse uma palavra. Sentou-se num cadeirão e tornou a observar o seu reflexo.

Olhou para umas fotografias penduradas e disse uma frase feita para ocasiões como esta:

- As fotografias são ironicamente…(e olhou para a cábula) impermanentes, capturam um momento perfeito no tempo. Uma pintura captura a eternidade, - e mostrou um dos quadros.

A mulher de pernas longas olhou para a pintura e viu que se assemelhava àquelas com que a revolução umas décadas antes decorara os muros do país. E o Carlos mostrou mais.

- Lamento, mas não se enquadram com o tema da exposição que pretendemos!

A verdade revelou-se insuportável. Estava com os olhos no chão, com um vazio na alma e a incerteza absoluta no dia seguinte. Para ele o amor era um lugar estranho em que o tempo era medido pelo número de namoradas, pertencia a uma casta incapaz de navegar em espaços não analógicos, já não via as coisas mas o espaço em volta delas e por isso sentiu que os seus sentidos estavam a perder a unidade, a sombra escura nos seus olhos luminosos mostravam que o sentimento era carnal. Era uma das mais sérias crises de dimensão psicanalítica. Olhou pela janela e viu um sol branco. Reviu-se na sombra de uma árvore centenária. Estava sem nenhuma perspetiva de integração, a palidez da pele do homem sem rosto não deixava dúvidas de que já não havia um pingo da pouca razão que os genes lhe tinham dado. Saiu da casa e viu a sua sombra passar por si arrastando os pés pelas escadas. Sonhou com palavras, imagens e cores de um tempo que nunca existiu, onde uma mulher emergia súbita e gentilmente da leveza do ar, lhe sussurrava ao ouvido com frases que corriam, paravam, recuavam, avançavam, desapareciam e reapareciam.

-Boa tarde – exclamou, sem sentimento, com uma voz típica das garrafas de vinho.

94 - A Miúda do Lenço (7)

 

7

Quitéria ouviu um som seco, que perturbou a banda sonora da normalidade, com pássaros, com crianças a brincarem ao longe e velhos a tagarelarem, todos à espera de receberem a sua refeição diária, no espaço arranjado pelo coronel para dar a sua “comida dos pobres”, um projeto apadrinhado pelo padre Zacarias da paróquia da vila.

- Quem está aí?

- “Quem está aí”? – Retorquiu Carlos, o ajudante do senhor José da vacaria.

- Mas agora repetes o que eu digo?

- Não foi o que tu disseste, foi o que Hamlet disse, - respondeu, tentando impressionar a rapariga.

- Omeleta? Mas que raio é esse Omeleta?

- Ficas com a voz doce quando me vês!

Carlos olhava sempre para os pés antes de mentir. Ele sabia que esta era a sua sina, despertar paixões, e como conquistador de bairro tinha consciência que nascera para desfrutar da vida. O requinte e a originalidade eram valores que adquirira na Brandoa, assim como o doce e o amargo. Em cada curva arriscou-se a perder o caminho.

- Deixa-te disso. Trouxeste o leite? – Perguntou Quitéria, fazendo um ar de frete.

- Sabes que vou participar numa exposição de quadros?

E contou que o apartamento encontrava-se fechado desde que o proprietário falecera quatro anos antes, e agora a Junta de Freguesia, a herdeira, pretendia fazer uma exposição de pintura com artistas locais. Para Carlos, um fura-vidas fabricado por uma beberagem alcoólica que lhe envenenara os sentidos, esta poderia ser a oportunidade para mostrar algo que lhe mudasse a mediocridade da vida, que ele dizia sempre ser da responsabilidade dos outros. Por isso lia todos os dias na taberna do “Manuel da Leitaria” o “Correio da Manhã”, à procura de ocasiões como esta. O desespero de não ter nada para fazer, era o caruncho que lhe minava a vida. À sua espera estava uma mulher de longas pernas em sapatos pretos de altíssimo salto. Quando entrou na casa apercebeu-se da variação extrema da temperatura, e sentiu um perfume a rosas.

- Quando é que me fazes um quadro? – Perguntou Quitéria, interrompendo-lhe o pensamento.

Estar sozinho era uma realidade crua. Viu o seu reflexo no espelho dum louceiro, e foi envolvido por súbitos clarões, fragmentos curtos de relâmpagos, fantasmas reais, que o transformaram a preto e branco, com muito grão, num espetro psicótico, a roçar o niilismo, mergulhado no lusco-fusco angustiante duma casa vazia da Terrugem de Cima, partilhando a solidão dos sentimentos.

- Trouxe os seus quadros? – Perguntou a responsável pela cultura, sem paciência para o olhar que o desconhecido lhe fazia.

93 - A Miúda do Lenço (6)

 

6

Há um vórtice do destino à nossa volta que aumenta com cada uma das nossas escolhas, e modifica as sinas das nossas mãos.

Era um drama terreno com culpas cósmicas, que fazia com que as fronteiras formais não fizessem parte daquele espaço, cujas paredes do quarto há muito se tinham tornado no seu mundo. A solução do mistério iria ser insólita e complexa, com culpas abafadas ao longo dos vinte tormentosos anos do João, que fazia agora parte dos inquilinos do Instituto de Medicina Legal de Lisboa. O inspetor Bartolomeu abriu o processo que lhe tinha sido distribuído:

- Paralisia Cerebral, com tetraparésia espástica, Síndrome de West, grave deficiência mental…- leu . – E tudo por causa de uma anóxia.

A doença do doutor Matias estragou-lhe a vida e tirou-lhe os sonhos, fê-lo magoar pessoas, sem dar por isso. Ao princípio ainda conseguia saber quem era ao acordar de manhã. Quanto mais perdido se sentia, mais necessidade tinha de testar a sua identidade. Quando avançava para o presente a memória desfazia-se em cinzas, resistiu como pode ao seu avanço, que lhe apagava o discernimento e as linhas do rosto de quem o rodeava. Nem os autocolantes, agarrados como lapas às coisas, uma espécie de memórias externas, o salvaram do lento afundar no esquecimento de si e dos outros. O seu nome tinha todos os desvarios e todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências. Agora havia lentidão, a doença tinha abolido a ofegante velocidade de médico cirurgião, estava permanentemente à escuta, pergunta após pergunta, observava minuciosamente o mundo novo em que se hospedara, tentando sobreviver no meio das duas realidades, a dos outros e a sua, metido consigo, cansado, de voz apagada, com a alma entre as mãos, desiludido. Henrique estava a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando sempre encontrar um interruptor que acendesse uma luz, no meio de uma memória alucinada e lúcida. Por vezes conseguia-o, mas era sempre por breves instantes, sinal de que o tempo se fazia e desfazia, assim como a sua história. Chorava. E muitas vezes a mulher, via-o chorar. O discurso estava cheio de curvas e por isso pedia muitas vezes ajuda para o ar. Até onde é que continuava a ser ele mesmo? Até onde é que aquele rosto do espelho se afastara por causa da doença, que o atingira tão novo? Qual a fronteira a partir da qual o “eu” passava a “ele”? Não conseguia avaliar o que os outros começaram a ver nele, emoções espontâneas e muitas frases soltas, de alguém que estava encostado à vida, a agarrar com força as suas paredes, mas sem fazer parte dela, sem senti-la. Estava a cair abruptamente num pesadelo que nunca agendara para a sua vida, porque não conseguia safar-se fora do seu mundo mental derrotado.

92 - A Miúda do Lenço (M) - (5)

 

5

A grande bênção de Deus é que, a cada momento, podemos recriar-nos. Cada momento é uma oportunidade de fazer uma escolha. A escolha de pensar um bom pensamento, de pensar um mau pensamento, de reagir a ele, de deixá-lo passar. O pecado é só a incapacidade de escolher a bondade. A bondade é uma escolha!

Fátima 23 de dezembro de 2011.

Não, o Jorge ainda não casou e se queres que te diga, não tem intenção de o fazer já. Vai namorando, tem uma boa cabeça e faz tudo com uma inteligência que me surpreende. Faz amigos e amigas em todo o lado, é super popular, mas muito, muito simples. Nem sei a quem sai. A tua Carlota é mesmo a tua cara. Parecias tu. Só que não podia ser. Mas de repente foi um "olha a Sesaltina". Já tem namorado? E tu, pelo que me disse a Natália, estás muito bem. A Natália está sofisticada, anda sempre impecável. Quanto a mim, cá vou. Ainda não acabei o tratamento que continua a não ser pera doce. Mas tenho coisas boas, e essas é que realmente interessam. Um grande beijinho, a ver se um destes dias combinamos um café rápido no Shopping. Daqueles ao fim da tarde, um bocadinho à pressa. Mas como nós sabemos fazer resumos, dizemos tudo. Um grande beijinho de todos para todos.

 

Sesaltina, 8 de julho de 2012.

 

Olá Fátima, preciso muito de falar contigo ao telefone, pode ser? O meu numero é 910000000 mas como não pago a chamada manda-me um sms p.f. com o teu num que eu ligo-te. Bjs e até breve

 

Na Casa do Lago, a meio caminho entre os dois dúplex que serviam de habitação ao senhor João e à mulher, a dona Rosa, caseiros, e ao senhor Manuel, motorista, e à mulher Blondina, vivia a filha do coronel Osório, Palmira, casada com o doutor Henrique Matias, que deambulava diariamente pela vasta vivenda, perdido nas alucinações da Doença de Alzheimer. Num anexo a Maria José, criada e mãe solteira, era o seu braço direito e fiel amiga, que estava eternamente agradecida à patroa por a ter acolhido na gravidez de adolescente acossada. E um parto difícil tinha transformado a vida do seu Joãozinho num inferno, só atenuado pelas mãos de fada destas duas mulheres. Chegara agora a vez do infeliz ser chamado para junto do Senhor. Não muito longe dali o investigador incumbido de descobrir a causa da morte do Joãozinho dava início, contrariado, à missão que lhe fora distribuída. Na escola que o rapazito frequentara, Bartolomeu deu de caras com um mundo vivo, com personagens caóticas e orgânicas, presas num ambiente claustrofóbico e insano. Sentiu-lhes a respiração possível e viu que nos seus olhares havia uma vontade de falar, porque gritavam sem voz. Eram homens e mulheres em constante conflito, vítimas da rejeição e ignorância do passado, e catalogados no presente como “socialmente diferentes”, que comunicavam mais pelos gestos do que pelas palavras. Depressa descobriu a primeira qualidade desta gente, não fingiam ser o que não eram, com eles todos aprendiam a ser autênticos. Sentiu o cheiro agreste de fezes e urina. A cena era tão comovente como perturbadora. Estava perante um hipotético crime incomum, que teria passado despercebido se o corpo tivesse ido parar às mãos de uma médica comum, onde o simples bom senso imporia uma solução óbvia. Espreitou para outra sala, também tão lúgubre e silenciosa que, só de olhar, se emocionou. Tossiu uma tosse seca e nervosa, e esfregou, com rapidez e repetição, as mãos uma na outra.

- A intransigência trouxe-me aqui – disse, com uma voz com um travo de tédio, resguardando cuidadosamente do olhar aquele mundo de emoções.

91 - A Miúda do Lenço (4)

 

4

- Nunca ninguém falou com eles? – Interveio Sara.

- Houve muitos mal entendidos, - respondeu a governanta, acariciando a figura do candeeiro do papagaio embalsamado.

- Mal entendidos?

- Na comunicação, uns pensaram uma coisa, outros outra, e acabaram por magoar-se mutuamente.

- Agora o problema da comunicação está resolvido, – exclamou Isabel com um ar triunfante, e um sorriso de orelha a orelha, mostrando o portátil. – Com isto não pode haver enganos.

A conversa continuou, a governanta mostrou às raparigas o caderno de anotações da bisavó Matilde, que a mãe da Sara tinha deitado para o lixo, e que ela guardara, à espera do momento oportuno para o mostrar. Antes de morrer a antiga patroa pedira-lhe para tratar com carinho os seus fantasmas e passar a mensagem às gerações seguintes. Não conseguira convencer nem a avó nem a mãe de Sara, e agora com a idade avançada já pensava que falhara a missão, porque era duma missão que se tratava. Sara e Isabel eram agora a sua última esperança.

- Olá Quitéria, - gritou Filipe, o jardineiro do palácio, de longe, acenando com a mão.

Esta relação dava uma meditação lúdica sobre a realidade e a ficção, conceitos que não são nada óbvios, porque estão sujeitos a uma realidade periclitante. Ensinar-nos-á a aceitar uma fatalidade nua, crua, sem pudor e em que as emoções falam pelos corpos. Por isso a história de Quitéria da Conceição e de António Filipe escreve-se devagarinho, umas páginas aqui, outras ali, por vezes volta-se, porque a fama deles foi o resultado de uma estranha e intensa relação, cercada por prisões afetivas, que teve um profundo amor pelo vinho límpido e sem atalhos. Mesmo quando a descrição da relação é cruel no retrato, as palavras magoam, mas também são convencionais, lúdicas, acabam sempre por vir à procura do outro lado, capaz de justificar as decisões que os levaram para sítios inesperados, porque para eles o tempo era para ser vivido e não desperdiçado. Ela era uma mulher sem raízes e sempre em fuga, não pertencia a parte nenhuma e estava em toda a parte; ele era muito bem mal-afamado, um homem marcado por um passado, ambos estavam muito longe do paraíso perdido, eram náufragos na pequena vila de Paço de Arcos, destinados a tocarem-se e a divergirem de todas as vicissitudes, que os levavam muitas vezes a unirem-se como dois ponteiros de um mostrador de um relógio à meia noite.

 

90 - A Miúda do Lenço (3)

 

3


- Bom-dia senhor João – cumprimentou.

- Só se for para si, - respondeu a mulher, sem levantar a cabeça da galinha responsável pela canja da noite.

A dona Rosa tratava agora de duas famílias, da sua, como sempre fizera, e do patrão Osório, perdido algures no enorme palacete, que se erguia na parte mais nobre da quinta do alto de Paço de Arcos. Quando a dona Mercedes morreu deixou um vazio na família e um buracão no coronel. Os filhos vivos, o Jóny, com “y” por insistência da mãe, e a Palmira, revezavam-se para nunca deixarem o pai, de quem tanto gostavam, sozinho. O John, fruto de uma relação de solteiro em Inglaterra, há muito que morrera ao serviço da RAF na Segunda Grande Guerra. O coronel Osório passava agora os dias a citar Mouzinho de Albuquerque: «Chega a ter-se inveja dos mortos».

Na sala da lareira, a divisão mais importante do palacete do avô, Sara, filha do Jóny, pôs um vinil, e reparou que as vozes que saíam daquele disco pesadíssimo costumavam chamar todos os fantasmas. Fartou-se, eram demasiados a assombrar o local. Tinham atravessado, incólumes, o limiar dos séculos dezanove e vinte, e tudo graças à bisavó Matilde que achava graça às portas a baterem a meio da noite, ao soalho a ranger na escuridão, ao relógio que dava as badaladas fora de horas, às correntes que rangiam no torreão, ou seja, uma miríade de relações afetivas que se cruzavam, descruzavam e recruzavam eternamente. Sara era uma adolescente divertida e verborreica, dotada de um passado conflituoso com a escola e de um futuro radioso com…a escola. A mudança dera-se durante umas férias de Natal ainda a avó Mercedes era viva, em que levara a amiga Isabel.

- E o perfume que deixam, meninas? – Disse a dona Adelaide.

– Rosa com mistura de naftalina, horrível. Ao menos podiam ter evoluído, mas não, sempre a mesma coisa sem graça, – protestou Sara

- Mas já tentou falar com eles? – Perguntou a Isabel olhando para a governanta.

- Tentei tudo, mas ficam caladinhos. A mãe da sarinha conta que a bisavó dizia que eles se escondem nos candeeiros.

- Mas quais, eles são tantos! – Indignou-se Sara.

- Eu desconfio que sei qual é, - exclamou a governanta com uma voz baixinha e aproximando-se das raparigas.

- Já os viu? – Insistiu Isabel.

- Por vezes vejo-os quando semicerro os olhos.