sexta-feira, 1 de maio de 2026

45 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 6

 

45

Baluster

 

Cidade Tricúspica – tempo sem data

 

Caro amigo, encontrei de novo o velho Álhi, desta vez a discursar emotivamente para uma assembleia de esqueletos calmamente sentados num anfiteatro. Dizia-lhes em voz alta: 

- Antes ser louco por seu próprio critério do que sábio segundo a opinião dos outros!

- Essa já estamos fartos de ouvir, – gritou um dos presentes, um moribundo.

- E ainda hei-de dizer muitas mais vezes, até os teus amigos encarnarem. Já nem para os abutres servem!

Após a eloquente palestra que fazia inveja aos políticos que governaram os destinos do país, Zaratustra contou-me a história de Baluster, o maior sábio do planeta. Filho de uma família de agricultores dos Altos Rins, depressa chamou à atenção da aldeia onde morava. Aos 6 anos de idade projetou o sistema de captação de água da humidade noturna, resolvendo de uma vez por todas a crónica falta de água da região. Conseguiu uma bolsa de estudos e mudou-se para o Colégio Real na capital. Aos 19 anos completou o curso de medicina e especializou-se em manipulação genética. Individuo de boa formação moral, foi o responsável pelo aparecimento da chamada Geração dos Sábios, homens brilhantes que deram um grande impulso à medicina corporal. Mas, um acidente imprevisto, matou o Dr. Baluster, deixando sem rumo a universidade e o país. O grupo da Geração dos Sábios interveio e retirou vários núcleos das células do seu mestre, tentando assim fazer renascer Baluster. O projeto foi apadrinhado por toda a classe dirigente e dum momento para o outro três dos núcleos começaram a desenvolver-se. Um ano depois a Universidade Renal de Manipulação Genética era dirigida por três doutores Baluster. Foi nessa altura que as relações com o Coração se deterioraram, o que levou a monarquia cardíaca a cortar com os fornecimentos sanguíneos. Como resposta os Rins deixaram de reciclar os resíduos cardíacos, tendo estas medidas afetado enormemente as economias dos dois países. Os dois governos depressa se aperceberam da interdependência a que tinham chegado e rapidamente restabeleceram os serviços, mantendo-se a disputa ao nível político. E foi aí que os novos Baluster entraram em ação, através da manipulação genética dos seus inimigos. Equipas de ação entraram clandestinamente no território vizinho e conseguiram infiltrar variantes celulares nos organismos dos jovens cardíacos, através dos alimentos que exportavam. O cardíaco era um indivíduo naturalmente arrogante, mas muito trabalhador. Julgavam-se uma raça biologicamente superior e o seu comportamento já era genético. Quando as alterações se começaram a fazer sentir, a juventude do Coração tornou-se muito contestatária e violenta. Queriam viver unicamente de subsídios. O caos instalou-se na capital e só a pronta intervenção da polícia é que conseguiu restaurar a ordem. Mas por pouco tempo! A juventude estava corrompida e depressa contaminou a dos países vizinhos, pois as variantes celulares tinham dado origem a um vírus facilmente transmissível sexualmente. Mais uma frente de guerra contra os nossos adversários invisíveis estava aberta. E tudo isto devido a um sábio!

                                        

Do teu, Narciso

44 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 5

 

44

A Razão

 

Aurícula Direita - Tempo sem data

 

“ Hoje somos menos prisioneiros da natureza, mas somos mais prisioneiros de Lilith “. Um pensamento estranho que li escrito no tronco de uma árvore, aliás, da única árvore decente que encontrei até agora. “ Razão “, palavra mágica para todos, a mais poderosa arma alguma vez inventada. Por causa dela dividiu-se a população em duas partes: os senhores e os servos. Aos primeiros deu-se uma linguagem total, enquanto que aos segundos forneceu-se uma linguagem útil, suficiente. Era por isso que os políticos tomavam todas as decisões, pois alegavam que a população “ mal falava “. A monarquia cardíaca depressa divinizou a palavra e assim apareceu a deusa Razão, com as suas leis eternas e imutáveis, estendendo a todos o seu despotismo. No Cérebro, a ditadura perfeita, os indivíduos eram controlados desde a nascença, sendo dado a cada um um certo destino, útil à comunidade. Os bebés eram colocados em envolvimentos diferentes, para assim se transformarem em racionais e irracionais. O Estado decidia quem deveria pensar. Um dia apareceu escrito numa parede da Cidade Imperial do Cortex Occipital a seguinte inscrição: “ Tudo é pecado, sofrimento e morte – racionalidade para todos – EU, grupo de libertação “. O pânico embrenhou-se no poder! Afinal nem todos estavam controlados. Racionalidade para a escumalha?! Isto significava o desagregar dos neurónios, a destruição das unidades estruturais do Estado. Imaginem as unidades do Córtex Temporal começarem a produzir o mesmo que as do Córtex Parietal?

Foram enviadas brigadas de antibióticos para as zonas de potenciais conflitos, mas nada descobriram, pois o Eu era produto da imaginação duma população mentalmente doente. A crise era grave, como se poderia apagar um sonho coletivo, um enfarte populacional? Mais uma vez a deusa Razão atuou e decidiu que aqueles que conseguiam ler nas paredes brancas, estavam contaminados por uma terrível doença muito contagiosa, e só havia um meio para a combater, a destruição dos doentes. A população ficou com o poder de aniquilar os que mencionassem o Eu. A paz retornou ao poderoso Cérebro. O Estado, que se confundia com o poder, com o chefe, era representado por todos e por ninguém. Falava-se muito do rei, mas ninguém o conhecia ou o vira. Parecia que todos mandavam em todos, que uma engrenagem perfeita regulava a vida e a comunidade. Cada indivíduo nascia para uma função, era encaminhado e formado para ela, transmitiam-lhe as informações necessárias para o desempenho do seu papel. Nada mais lhe dava!

                  

  Do teu Narciso

43 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 4

 


43

No rasto de Lilith

 

Cidade Tricúspica - Tempo sem data

 

Caro companheiro de viagem do planeta Leve

 

Encontro-me na cidade sagrada, a menina dos olhos do rei Sistole II. Era um lugar imaginado por muitos e visto por poucos. Agora todos podem entrar e sair, as suas muralhas não passam de amontoados de pedras, cobertos por musgo e pela vergonha dos memohs. À minha frente as ruínas do majestoso palácio real parecem dar-me as boas-vindas, ao mesmo tempo que me avisam dos perigos existentes. Era aqui que se decidia o rumo do Corpo, as virtudes dos memohs e os vícios dos cardíacos. Quando a comida acabou, começaram-se a comer uns aos outros. Pela primeira vez a ordem social alterou-se e as classes inferiores passaram a ditar a lei, a lei da vida, pois eram organicamente mais fortes.

Tricúspica era quase uma lenda, muitos a reclamavam como terra sagrada, universal para os memohs, proibida para os outros. Diziam os adoradores que fora ali que Deus espalhara a Sua energia cósmica pelos cantos do planeta, dando origem ao Memoh. Mas como é que um Ser tão perfeito poderia ter criado um ser tão imperfeito? Deus começou a ser posto em causa! Os cardíacos bem tentaram argumentar, mas a discórdia estava instalada. Os sacerdotes recusavam a mudança, pois sabiam que com ela viria a sua desgraça. No momento em que as muralhas ruíram, a força de Deus desvaneceu-se e a discórdia dos memohs reinou. As massas de gentes em fúria tomaram de assalto os centros de vícios e durante uma semana o paraíso prometido por muitos tornou-se realidade e acalmou as hostes dos deserdados.

Acabei de entrar na sala sagrada, onde outrora se acumularam os inúmeros tesouros dos falsos profetas. Durante séculos e séculos foram acumulando as esmolas dadas pelos pobres de espírito, em troca do reino dos céus. A fome generalizada de povos inteiros não sensibilizou os poderosos tricúspides, alheios ao sofrimento dos outros. Quando as portas foram abertas o espanto calou a multidão durante algumas horas e todos recearam entrar. O brilho dos tesouros iluminou a noite e mostrou as caras aterrorizadas da assistência. Até os anjos choraram perante tal espetáculo, que lentamente despertou a assistência do seu longo sonho. E com a pesada fadiga nasceu um ódio terrível que ecoou por todos os cantos do Universo. O espírito do Memoh ficou vagabundo no caos, sentado em cima dos destroços do seu escusado milénio. A única marca deixada pelo furacão foi o trono cardíaco, vestígio dum passado desnecessário, imagem dum futuro a evitar. Por cima dele uma placa com dizeres: “ Alguém deve ser a causa do meu mal-estar...és tu mesma, Lilith os teus pecados são a causa do meu mal “. “ Pecado “, a palavra mais sublime para o maior negócio alguma vez feito no Corpo. Imaginem serem acusados de algo que nunca fizeram e terem de pagar toda a vida, para mais tarde serem absolvidos. E afinal o Tempo é circular!

A cidade Tricúspide fica situada no centro do país, sendo toda ela rodeada por muralhas. Um enorme portão controlava a circulação das pessoas, sendo necessário uma autorização especial para se poder entrar. Era um estado dentro do estado. O Coração não detinha qualquer poder dentro da cidade. O “amigo” de Deus, Helias II, era o dono e senhor de tudo e de muito mais. Dominava mentalmente metade do Corpo e especialmente os Rins, sua terra natal, não hesitando em lançar o seu povo contra o ditador que os governava. Helias II era um fanático adorador da mãe de Deus, uma estranha senhora que só tivera coragem de aparecer a três criancinhas vadias, condenando duas à morte e a outra a um encarceramento durante toda a vida. E no entanto dizia-se representante do Bem! Este acontecimento também rendeu muito dinheiro aos parasitas mentais. Poucos eram os que tinham acesso ao monarca tricúspide. Na altura da revolta ninguém o encontrou, sendo hoje talvez um dos perseguidos por Deus.

                             

 Do teu, Narciso



quarta-feira, 29 de abril de 2026

42 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 3

 



42

Os Senhores do Coração

 

 

Ventrículo Esquerdo - Tempo sem data

 

Caro amigo, hoje foi o dia mais feliz da minha alegre e triste vida. Encontrei um velho zarolho chamado Álhi, fugitivo de outra aventura, a falar com uma meia osga, um precioso marisco nos dias de hoje.

- Amigo caminhante, que belo discurso e que atento ouvinte – disse, obrigando-o a voltar-se para trás.

- Mais vale falar para uma meia osga, do que para um intelectual inteiro – retorquiu e continuou lendo o seu livro – “Vede trepar esses ágeis macacos! Trepam uns sobre os outros e arrastam-se assim para o lodo e para o abismo. Todos se querem abeirar do tronco: é a sua loucura – como se a felicidade estivesse no tronco! - Frequentemente também o trono está no lodo” – e apontou para o cadeirão podre do rei do Coração, D.Sistole II.

- Que palavras tão confusas.

- São mais simples do que a nossa vida. Já não sabemos quem somos nem para onde vamos. A única certeza que tenho é de que não posso parar mais do que dez minutos! - E desapareceu, embrenhando-se nas entranhas dos túneis.

Não soubemos descobrir a nossa posição no Corpo. Poucos foram os iluminados que se consideraram uma espécie entre as muitas que habitavam este extenso planeta. Todos tinham o direito à felicidade! O papel que foi dado ao Memoh pelos deuses era grande demais para tão mesquinho ser. Quando o povo dos Rins definiu os seus valores, sentiu-se com o direito de escravizar as outras raças. Ele era coerente com a maneira de pensar do Memoh, pois a relação com as outras espécies baseava-se nesta mesma filosofia de vida. Quando a lei desapareceu a “selvajaria” tomou o lugar da “civilização” e os atos cometidos foram de longe superiores à destruição que Deus fez em Nagasaki e Hiroshima, as duas cidades da perdição, segundo o Livro Sagrado. A crueldade era a festa do Memoh, a guerra o seu sonho! O grande erro foi não terem tomado consciência de que o seu grande inimigo era a sua própria espécie e não as outras. As doenças que mais o matavam eram transmitidas pelos seus semelhantes, mas no entanto ele insistia em dizimar os outros seres. Um dia foi posta em dúvida a superioridade do Memoh, muitos indivíduos deixaram de acreditar na sua espécie e aliaram-se às outras, depois de descobrirem a grande fraude. E tudo isto devido à matança dos deuses. A populaça entrou pelas cidades, atravessou as muralhas e descobriu a verdade acerca dos senhores do Coração: o deus que proclamavam estava seco, o pó que o cobria tinha séculos. O ódio aumentou quando descobriram os tesouros que os falsos moralistas guardavam nos seus cofres. A comida e o luxo abundavam, enquanto eles proclamavam o seu amor, e o do seu deus, aos pobres que semeavam o Corpo. Os exércitos de analfabetos eram a garantia dos seus privilégios. Matavam todos aqueles que ousassem levantar o véu que os separava do real! Até chegaram a assassinar um dos seus monarcas, Helias I, que resolvera investigar a verdade. Só um mês reinou, até que lhe deram o chá maldito. O orçamento da monarquia do Coração era feito em função do número de fiéis e duma esmola média. Quanto mais fiéis mais luxos! A causa de todo este caos deveu-se ao divórcio que sempre existira entre o que os senhores do Coração pregavam e o que faziam. Foi esta a sua ruína, a ruína do Corpo, que levou à revolta das mentes, à loucura dos enganados. O povo preferiu destruir tudo, auto destruir-se, do que continuar a viver com a mentira e com os mentirosos. E eram maus porque os poderosos é que tinham meios para serem bons. Estou a tentar sobreviver apoiando incondicionalmente os chefes, que vão mudando.

                        Do teu, Narciso

41 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 2

 



41

O Memoh

 

 

Ventriculo Direito - Tempo sem data

 

 

Após esta breve conversa com um deus que eu já não sei quem é, descobri escrito numa das paredes duma antiga estação ferroviária um pensamento que te transcrevo:

“ Se o indivíduo não é livre para a realização da sua essência – que é verdadeira, boa e bela – se não é livre para ser memoh, jamais poderá ser são física, psíquica e espiritualmente; perecerá juntamente com a civilização que está em franco processo de destruição “.

Quando leres estas folhas já estarei convertido em pó e o mundo será outro, completamente diferente, mas sei que tudo é cíclico e que um dia nos encontraremos. A pouco e pouco fui-me apercebendo de que dentro de todos existia algo de muito maléfico, que nos empurrava para uma insaciável vontade de dominar os outros. Bem podíamos negar esse implacável desejo, pois quando tudo entrou em convulsão, eu vi com os meus próprios olhos indivíduos, que sempre mostraram benevolência, transformarem-se em autênticos tiranos na altura em que assumiram o domínio sobre os outros. Foi o desmascarar de imagens construídas por valores seculares. Tudo era uma questão de sobrevivência, tínhamos finalmente tomado consciência da nossa posição no planeta: unicamente éramos uma das inúmeras espécies. Se o respeito pelos outros tivesse sido o nosso lema, não estaríamos agora à espera do Juízo Final.

Lembro-me que quando o Dr. Opereta lançou a ideia de melhorarmos a nossa espécie, para a médio prazo termos uma população saudável e unida, todos o combateram. Acusaram-no de querer reinstalar ideias de civilizações antigas, que visavam racismos inaceitáveis nos dias de hoje. Hipócritas, idiotas, perdemos a grande oportunidade de nos modificarmos. Os sacerdotes, como sempre, detinham enorme poder e através dele continuavam a defender intransigentemente as suas nefastas ideias fixistas. Preferiam ter uma população demente e doente, pois assim conseguiam dominá-la com facilidade, conservando intactas as suas regalias. Deus, sempre o desgraçado Deus, era explorado até à última! Se tivessem controlado as populações tínhamos evoluído rapidamente para um Memoh novo, com um novo sangue e um espírito renovado. Mas a nossa espécie escolheu, mais uma vez, o caminho errado. Enquanto os casais sãos só tinham em média dois filhos, os casais mal formados, alcoólicos, doentes mentais, apresentavam a sua marca recorde de oito descendentes. Eram indivíduos muito atrasados mentalmente, que só viviam para si e para os seus prazeres. Partilhar não estava escrito no seu comportamento genético. Cada vez aparecia mais dependentes e a comida começou a escassear. A par com tudo isto um cancro social invadiu de surdina as cidades e foi dinamitando as mentes: o tumor político, um grupo de dirigentes mentalmente degenerado, que lentamente tomou conta do poder, modificando as leis, visando assim conquistar as mentes. O que restava da civilização estava completamente cercada, através do espírito e da carne. E estes dois grupos de poderosos acabaram por encontrar-se frente a frente, reclamando o espaço vital um do outro: uns queriam comida e os outros escravos. Foi então quando todos se aperceberam dos milhares e milhares de anos deitados para o lixo: o Memoh estava na mesma, mesquinho, arrogante, cobarde, explorador e temente a um deus.

Coitado de Deus! Quantos crápulas se aproveitaram do Seu bom-nome para escravizarem povos, para deterem durante séculos o poder. As suas vidas foram autênticas orgias pagas pelos espíritos imbecis dos dominados. E tudo isto tudo isto em nome de Deus e do desgraçado que crucificaram. Alguns tentaram alertar para o perigo que se aproximava, mas a idiotia tinha invadido as almas e agarrava-se a elas como a lapa à rocha. Pagaram-lhes a ousadia com uma fogueira que lhes derreteu as carnes. Apesar de tudo as ideias foram-se espalhando, até que o seu peso abriu os olhos dos humilhados e com eles veio a revolta. Olho para o horizonte e só vejo uma terra devastada pelos ódios, uma terra cansada de ser enganada, que prefere a morte à falsidade, o respeito ao egoísmo.

Nós, os “caminhantes”, quando nos encontramos atualizamos a vida. Ontem encontrei pela terceira vez o “Olho de Peixe”, que me contou ter visto numa cidade um pregador a fazer milagres e a caluniar os governantes. A populaça seguiu-o com veneração e apupou os seus chefes. Espero que desta vez a sua mensagem faça a apologia do Bom e do Forte e consiga assim encaminhar as gentes. Soube que Deus está revoltado com todos nós porque O tornámos um pedinte. A Sua mensagem foi desvirtuada por uma espécie que não O merecia, por animais destituídos de almas, que impuseram a si próprios, e principalmente aos outros, valores de dominadores. Agora Deus teve de vir pessoalmente repor a verdade! Os que O viram dizem que está cansado e triste. Anda à procura dos enganadores, daqueles que deram uma imagem errada da Si, e que construíram palácios com o dinheiro dos outros. Quando os encontrar vai castigá-los implacavelmente, pois não merecem qualquer tipo de perdão. Então Ele só é o Deus dos egoístas e dos piedosos, desprezando os bons e os fortes? Não, os misericordiosos não eram nem o Bem nem o Mal, as rezas não salvavam ninguém, tudo era falso, os oportunistas tinham-No ludibriado e enriquecido à custa dos céus. Era mentira que Ele tivesse alguma vez perdoado aos assassinos dum dos Seus filhos. Mas os negociantes de céus depressa aproveitaram o acontecimento e o negócio montado foi próspero durante muitos séculos. Deus presente em todo o lado, ao mesmo tempo!?? Como era isso possível!?? Só os idiotas é que acreditaram nisso e foi para eles que os vigaristas se voltaram. E assim Deus está na nossa terra, algures à procura destes negreiros da alma, que levaram à ruína do Corpo. O “Olho de Peixe” disse que Ele ia cheio de ódio pelos Seus bajuladores e que tem um raio para atirar sobre cada um deles. Criaram um povo medricas, em vez de um forte, como tinha pedido! Tinham feito do sofrimento do corpo uma virtude, em vez da alegria da vida, da paz e da serenidade...Adorava continuar a escrever-te, mas tenho de me deslocar. Neste paraíso que criámos quem estiver mais do que alguns minutos parado morre! É a tirania do Tempo!

                                           Do teu, Padre Narciso Baeta

40 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 1

 

40

“ Cansados das tentativas eternas para forçarmos o caminho

pela matéria rude, escolhemos um outro caminho

e procurávamos atingir o infinito. Entrámos em nós

mesmos e criámos um novo mundo “

 

Henrik Steffens

 

 

Monólogo com um Deus

 

Cidade Coronária – Tempo sem data

 

Como já te apercebeste, esta é uma data sem significado para quem está abandonado num tempo que não é o seu e com uma mensagem ininteligível para quem não conhece o Mentino. Sinto-me um universo!

Ó Deus, quem és Tu? A única coisa que sei a Teu respeito é-me contado por negociantes de almas obscuros, silhuetas que dizem representar-Te e até há um embaixador Teu aqui no Corpo. Vejo que têm um cosmos privativo e com ele dominam o nosso mundo. Até quando é que Tu o permites? Será que Tu também és propriedade deles, será que eles são os Teus negreiros? Até quando é que eu vou acreditar na Tua existência? Sinto que caí dentro de mim mesmo. Estou confuso, muito confuso!

Universo, caixa onde se guarda toda a nossa existência, saco onde se amontoam as infindáveis ideias dos seres que o habitam, guardião do caos, panela onde ferve o sangue das lamentações, onde a paisagem se faz e desfaz, espaço controlador de rebanhos formados por nuvens electrizadas, descendentes de partículas abandonadas por deuses brincalhões. Universo, elemento estrutural dum universo, sítio aglutinador de pensamentos vaidosos, onde a ignorância e a mentira fazem lei, magoados com a sua própria vitória.

Esta é a história dum planeta chamado Corpo, que existiu algures num canto dum universo, sendo habitado por seres que se agruparam em vários países. Cada individuo era naturalmente dotado duma necessidade de espaço vital, sendo capaz de fazer tudo para conservá-lo. E o espaço vital de cada país era a soma dos espaços vitais de todos os seus habitantes. Os países mais importantes eram o Coração, o Cérebro e os Pulmões, sendo o equilíbrio mundial distribuído pelas influências destes três povos. Mas era o Coração, a impiedosa monarquia cardíaca, que mais poder detinha, visto ser a única que possuía um cosmos privativo, um deus exclusivo. Era o reino da moral, durante muito tempo dirigiram moralmente as outras nações, controlando-lhes as mentes e definindo-lhes os conceitos. O seu poder era tal que chegaram a determinar o tempo do metabolismo de todas as raças, uniformizando-o ao seu, conseguindo assim dominar o esquema de pensamento dos outros povos, atrasando-o. Devido a isto os cardíacos pensavam mais depressa. O Coração pregou a crueldade contra os outros e contra si, o indivíduo devia impor a si próprio regras rígidas que, segundo eles, eram impostas por um ente superior que os criara e com isso os queria pôr à prova, para um futuro além corpo. Enquanto isso os nobres do Coração viviam com todos os vícios e sonhos que os outros desejavam na intimidade. Para o Coração o Corpo estava acima das estrelas, era o centro do Universo. Mas houve um individuo que o desafiou, provando que ele estava unicamente no meio de muitos outros corpos e a justiça cardíaca atuou rapidamente, condenando-o à morte por sabotagem do conhecimento. Para alguém ser talentoso precisava de ter o consentimento do Coração. Mas um dia a revolta contra os valores chegou e o planeta entrou em convulsão.

Esta é a história dum habitante do Universo revoltado com os seus valores mais sagrados, depois de se ter apercebido da falsidade dos seus ideais. Encontro-me algures zangado com Deus, até já ameacei escrever o Seu nome com letra pequena. Foi na rua que conhecemos o Olhar do Anjo e o amámos até ao fundo da nossa alma. Mil alegrias, mil cumplicidades passámos contigo na dificuldade da nossa vida. Foi tudo tão bonito! Transmitistes a tua boa loucura à nossa esperança, enchestes de amor o bater dos nossos grandes corações. De repente as fontes secaram e o mar da vida retirou-se! Ventos de silvos agudos trouxeram as palavras mais silenciosas e com elas as tempestades. Por cima de nós a má lua sorriu por maldade, mostrando a cumplicidade do patrocinador da vida. Proclamei a loucura! Gritei a canção da loucura! Do túmulo quis ouvir risos infantis a despertarem-me do pesadelo que queria estar a sonhar. Desejei asas para me transportarem a remotos passados. Quem és Tu que dás aos maus e tiras aos bons? És o Bem, que a tantos mandas proclamar, que imagens sem graça despejam palavras desnecessárias à vida? Gritos roucos de cólera Te oferecem! Para que a paz retorne à nossa amizade preciso que a Tua palavra chegue aos meus ouvidos e me acalme a alma. Peço-Te em nome da vida! Dá-nos o Olhar do Anjo, ele é a nossa harmonia. Até o Teu filho entregaste à má lua, mas depressa lhe patrocinaste a vida. Faz isso connosco, manda um mensageiro com a palavra mágica e eu amar-te-ei para sempre. As minhas lágrimas percorrem-me a alma. Não percebeste a cumplicidade! Aliás, só percebes aquilo que queres. Passes de mágica distribuíste aos necessitados quando não Te conheciam, mas depois disso só com os poderosos é que falas. Porque é que persegues os bons e ignoras os maus? Dá-nos o Olhar do Anjo, pois ele é a nossa alegria. Que me interessa o Teu reino, ó patrocinador da vida, se aqui me tiras o pouco que tenho. Ter que sofrer para depois receber mil sorrisos luminosos, não, não quero. Fala comigo, explica-me as Tuas razões, deixa-me dar-Te as minhas e ambos chegaremos a um acordo de amor. Raios atravessam-me a alma, matando a bonança do meu espírito, semeando dúvidas nas minhas certezas, escurecendo o céu virtuoso do meu viver. Quem és Tu ó patrocinador da vida? És falso? És verdadeiro? És bom? És mau? Porque é que não abriste o espírito nas horas difíceis? Os amigos não são para isso? Não passamos de bonecos nas Tuas mãos, de palhaços de barro que moldas com desprezo. Jogaste nessa noite com os Teus dados viciados que só o amor destrói e rejubilaste de alegria quando o ás apontou para o Olhar do Anjo. Tantas vezes pedi a alegria para a vida, mas Tu só dás aos que muito têm. A corda da nossa grande amizade está frouxa e decerto se partirá, pois de Ti já pouco espero. Só não o fazes se não quiseres! Basta um dedo Teu para me dar a alegria da vida. Uma música suave abana-me a alma e aviva-me as inúmeras recordações.

Torno a gritar, as estrelas estão por cima de Ti, já nada Te peço, porque não acredito. Roubaste-me o Sol, tapaste-me o Céu, baralhaste-me os ventos, as lágrimas percorrem-me a alma, tento imitar a Tua maldade, mas confesso-me impotente para tal, pois falta-me a coragem. Falo-Te com raios, ó patrocinador da vida, porque a dor que me deste nunca mais desaparecerá, ficará guardada dentro das minhas profundezas, junto aos meus dragões. Pensavas que eu me esquecia com o passar das luas? Louco, és um louco com um poder infinito, que brinca com as almas do Universo, que até os Teus amigos desprezas! Para me dares a semente quiseste em troca o Olhar do Anjo. Pedia-Te muito? Muito têm aqueles que Te dizem representar, aqueles parasitas que tudo fazem para aclamar a Tua mentira. A Tua palavra é falsa, porque nada do que dizes cumpres, a Tua palavra é negra como a noite mais escura, porque até o simples e pequeno amor destróis. Nunca lês-te o Teu livro?...E o tempo passa! Trinta, trinta sóis de recordação, trinta luas de esperança, amor e saudade, mas o Teu desprezo é total. Duvido que oiças os meus apelos! Ó patrocinador de algumas vidas, com a que Te peço nada ganhas e por isso nada fazes. És um egoísta, será que Te falta a coragem para falar comigo? Tens medo, ó Poderoso entre os poderosos? Agora sei que as palavras que mandaste o Teu filho proclamar são ventos falsos, que sopram em direções invisíveis. Ó Olhar do Anjo, onde quer que tu estejas amar-te-emos para sempre, pois tu foste o calor que nos aconchegou nos momentos difíceis. Aparece-nos ao menos uma vez a dizer que estás bem! Olho para os Teus palhaços, ó patrocinador da vida, e descubro a Tua falsidade. A desgraça dos outros é o Teu jogo preferido, eu não posso perdoar, porque Tu sabes o que fazes. Pela segunda vez jogaste aos dados e reacendeste a minha dor.

Esta é a história de um grupo de exploradores em busca duma civilização desaparecida, algures no meio de um oceano. O pior que lhes aconteceu foi tê-la encontrado! Descobriram que tudo era Universo e que não eram naturalmente superiores à fauna e à flora. Assustaram-se quando souberam que a moral tinha desistido em favor da ciência e do progresso, tendo os habitantes sacrificado os seus deuses em nome da felicidade. E os vapores do cérebro ferveram quando descobriram que os deuses estavam dentro deles e tinham sido ultrapassados. Só o retorno à Natureza, ao respeito por ela, poderia abrir de novo os horizontes dum futuro radioso. Descobriram que a queda duma civilização dá-se quando os princípios cósmicos são desrespeitados e uma chuva de rãs banha os infratores. Chuva de rãs? Sim, chuva de rãs, um fenómeno celestial que nunca passou pela cabeça dessa civilização, que não se conseguiu alcançar, apesar de tentar atingir um estádio superior. As grossas muralhas do Tempo e do Espaço não deixavam os relâmpagos iluminarem as suas almas e por isso não sabiam a dimensão da grandeza nem o limite da pequenez. Esquadrinharam os céus à procura do sentido do Tempo e descobriram horrorizados um macaco e um anjo a estudarem juntos. Bandas celestiais tocavam na mesma sala, acompanhadas pela bela voz de um assaltante dos céus. Era o caos, a frustração cósmica fizera explodir a harmonia e a civilização perdera o Tempo. Então soaram os sinos da derrocada. Todos se atiraram uns contra os outros por terem cheiros diferentes, apesar de há milénios viverem juntos. E o Corpo tombou para sempre, vítima da sua própria ignorância....

Amigo, vi saírem de dentro de mim todos estes dragões, que só nos aparecem nos sonhos. Foi tudo tão rápido, mas ao mesmo tempo tão nítido!

segunda-feira, 27 de abril de 2026

39 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - O Efeito de Eva

 


39

Ivone estava a ver a telenovela, quando de repente umas terríveis dores abdominais a obrigaram a cair desamparada no chão. Viu-se a voar, rodeada de horizontes de voo de águia e de pássaros gordos, com as almas atafulhadas de humanidade.

- O que tens ó mulher?! – Perguntou a mãe, entrando de rompante na sala, depois de ter ouvido o estrondo do embate da filha no soalho.

Durante uns largos minutos abanou desesperadamente o corpo inanimado, que se contorcia violentamente. Estava só com um destino a cumprir.

- A barriga mexe, - gritou a Ivone num segundo de lucidez.

- Estás “prenha” outra vez?! Mas o teu primo não faz outra coisa senão saltar-te para cima?! E eu é que tenho de cuidar depois dos teus ratos. Não, desenrasca-te, - avisou a mãe, batendo com a porta, e deixando para trás aquele mundo gélido, escuro e molhado.

Ivone sorriu, sorriu, sorriu porque sabia que era dotada da sabedoria de usar os outros e os seus recursos eram uma fonte de invenções e mentiras delirantes. O sorriu permaneceu quando voltou a perder os sentidos.

- Abandonaste o nada para chegares ao nenhures, – disse alguém, fazendo-lhe uma festa na cara feia e gorda. – O “Efeito da Eva” tem destas coisas, é implacável. Não podemos subestimar o seu poder.

Quando voltou a abrir os olhos, viu o rapaz e o animal verde junto a si.

- Travaste uma luta inglória contra o vício, foi esse o destino que Laputa te deu. O teu carácter afirmou-se com traços muito puros, mas duros. É por isso que estamos aqui, para reorientarmos a missão que recebeste.

- Mãe, onde está a minha mãe?! – Perguntou, com os olhos esbugalhados, tentando levantar-se da cama.

- Ela já vem do “Tempo dos Elementos”, foi Fogo, foi Água e foi Ar, foi Senhora das Tempestades, dos Fluxos e dos Movimentos, – disse o rapaz para o cordeiro verde. – No “Tempo dos Deuses” pertenceu às Neimeres. Começou perfeita e acabou desmembrada, ilegal. Está cansada. Será que exagerámos? – Olhou para o animal e continuou: Lilith merece todos os sacrifícios. Já temos as cinco partes da nossa deusa mas temos de saber a qual dos hospedeiros pertence a fechadura da chave que Laputa nos deu.