terça-feira, 21 de abril de 2026

35 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Leve

 


“Tarde de mais para os homens, cedo de mais para os deuses”

 

Heidegger



35

1

O padre Narciso dirigiu-se, mais uma vez, para a pequena igreja situada numa verdejante colina. Durante trinta anos, trinta longos anos, fizera aquele mesmo trajeto e nada mudara. Sentia-se espiritualmente vergado pela tirania dos seus valores, que já nada significavam para si e que a pouco e pouco lhe tinham corroído a alma. Já nem mesmo sabia se tinha alma! À medida que se aproximava da casa de Deus fazia a retrospetiva de toda a sua vida, tentando encontrar algo de seguro que o ajudasse a compreender as dúvidas que o assaltavam, agora aos setenta e cinco anos. Para trás ficava uma estrada íngreme, semelhante à sua vida, rodeada de árvores de grande porte, parecidas com os seus valores, testemunhas de um passado sem escrúpulos. Era esta estranha angústia que se abatia a pouco e pouco sobre o padre e o fazia recear entrar na igreja. Nunca antes tivera tão estranha sensação e isto assustava-o. Mas a coragem fazia parte da sua personalidade e como em muitas ocasiões, entrou decidido a dar a missa. O rebanho nem se mexeu, pois quase todos eram fósseis, uns devido à idade, outros devido ao espírito. Sabiam que o seu pastor dispensava o cumprimento, preferindo em vez disso que lhe enchessem a caixa das esmolas, base do sustento do seu devorador apetite. Se as rezas destes fiéis valessem dinheiro, já há muito tempo que o templo estava transformado num palácio, em vez da caverna com cheiro a mofo, espelho dos seus clientes. A hierarquia da devoção estava presente, sendo a primeira fila ocupada por treze velhotas muito feias, que passavam a vida a massacrar o espírito do padre e a criticarem os outros sobre aquilo que nunca tiveram coragem para fazer, mas sempre o tinham desejado nos pensamentos mais íntimos. A única consolação do padre era que Deus sabia disto tudo e de que um dia iria atirar com estas verdades à cara destas bruxas. Na sexta e última fila sentavam-se os menos devotos, mas mais honestos, aqueles que no dia-a-dia faziam o que ali proclamavam. O pastor nunca ousara pôr em dúvida o seu rebanho, pois necessitava dele para dominar a região. E assim tudo lhes era permitido em nome duma fé alterada ao sabor das conveniências. Mas algo estava diferente na sua alma, a revolta tomara conta de si e não aguentava mais aquela farsa. Apetecia-lhe rugir como o leão, clamar a sua liberdade e abandonar tudo e todos. Dentro de si desenrolava-se uma batalha decisiva, uma luta entre o presente estagnado e o futuro luminoso. A escolha talvez fosse difícil naquela idade, pois o presente dava mais garantias de sobrevivência do que o futuro incerto. Mas o futuro era mais leve! Com ele ganharia uma alma nova, sem o peso dos valores que o asfixiava lentamente. Durante toda a vida fora obrigado a desprezar as coisas sensíveis, visíveis, finitas, fora obrigado a defender algo sobrenatural, infinito, rodeado de ideias implacáveis que lentamente lhe tinham curvado a alma e lhe desviaram o olhar da verdade. Agora tudo seria diferente! O padre Narciso sentia algo a nascer dentro de si, que lhe dava uma força sobre humana. Isto tudo talvez fosse uma grande verdade, mas no entanto nunca tinha ouvido falar de alguém que tivesse conseguido sobreviver sem comer, e a alma era um animal de muita comida. A missa começou com as ovelhas a responderem-lhe em coro aos seus berros. Até nisto havia uma hierarquia no tom das vozes, tendo as múmias da primeira fila direitas a um maior volume.

A um dado momento teve a estranha sensação de ter parado, de se ter tornado uma estátua por dentro, com movimento por fora. Um silêncio agradável envolveu-o e uma luz radiante levou-o para bem longe dali. Viu-se rígido e imóvel a ser transportado, com a cabeça atirada para trás, para um palco. Aí permaneceu durante algum tempo, sendo contemplado por uma vasta multidão e temido pelas estrelas. Uma imagem esbatida passou junto a ele e bateu-lhe suavemente nas costas. De imediato deu-se no seu corpo uma explosão de movimentos, acompanhado de um hiper discurso incontrolável vindo das suas profundezas. A aceleração do pensamento e das palavras atirou sucessivas rajadas sobre a assistência que o ouvia atentamente. O tempo e o espaço eram agora dons individuais que permitiam aos espectadores ouvir o discurso. Todo o corpo do padre Narciso participava freneticamente através de mímicas, tiques, esgares, carregados de uma energia intensa que afectava e hipnotizava a plateia. Esta, como que contagiada, entrou numa ebulição de gestos e ruídos, tal como um vulcão. Repentinamente foi puxado por criaturas monstruosas do inconsciente para abismos nas alturas, caindo desamparado do céu. Tentou mover a cabeça mas esta não lhe obedeceu. Aliás, nada lhe obedecia no seu corpo torcido. Estava algures, bem longe da vida e da morte.            

- Então Padre Narciso, como está?

- Onde estou? Quem é o senhor?

Tentou desesperadamente levantar-se, olhando desconfiado para o estranho. Quem é que seria este rapaz de calças de ganga, rabo-de-cavalo, brinco na orelha direita, camisola com um desenho que parecia ser de um dos muitos conjuntos de música moderna, que há muito lhe infernizavam a vida, desviando os jovens da sua paróquia. O rosto era equilibrado, a pele amendoada, estatura média, olhos azuis, delicadeza e afabilidade. Fez de novo um esforço para se sentar, mas não passou de uma intenção. O corpo não obedecia.

- O que é que estou aqui a fazer? O que é que me aconteceu?

- Não tenha medo padre Narciso. Teve um pequeno problema de saúde, nada que não se resolva.

- É médico?

- Nesta altura já não são necessários médicos. As doenças são caminhos que são atribuídos aos indivíduos. O nosso encontro vai ser breve e tem um nome, Manifestação. Só através dela é que nos podemos encontrar. Estamos aqui para conversar um pouco, – e olhou fixamente para o padre Narciso, mas desta vez com o rosto desequilibrado, aproximando-se. – Chegou a altura de construirmos a sua memória, e tirarmos de lá a palavra que procuro.

- “Construir a memória”?!

- O senhor nasceu num estado de esplendor psicadélico, ou seja, com uma “pedrada”, a gritar no meio da multidão, viveu com a multidão a berrar-lhe aos ouvidos, rodeaste-te sempre por uma pletora de riquezas, entre o torpor e a zanga, sempre de “trombas” e por isso não aproveitaste nada, foi um embaraço para ti, porque o conforto sempre te impossibilitou de mudar. Estás agora aqui mergulhado no silêncio, pois chegou o tempo para a construção da tua memória, que te dará a vida eterna. A Omnipresença está na memória de cada indivíduo, que é exposta quando chega ao Limbo, um local de análise, que decide as etapas seguintes. Pelo que vejo o senhor está cheio de egocentrismo e narcisismo, e por isso sempre se achou dotado da fonte infalível da verdade. E porque as convicções são contagiosas, contaminou muitos, desviou-os do caminho certo. Tentaste esconder aquele dia em que te revelaste o mais selvagem e vergonhoso da tua natureza, mas as memórias não se controlam.

O rapaz pegou num espelho e confrontou o padre com o seu próprio rosto.

- Tens uma alma torturada! “Leve” é a palavra que trazes escondida.

O padre Narciso adormeceu, e do silêncio interior, agudo, assustado, lançou a dor do último grito, mas quando acordou não passava tudo de um inquietante sonho, em que a única imagem que ficara fora a de um cordeiro verde junto à porta do quarto, solitário, inexplicável, sem continuidade. Abriu os olhos e viu que estava numa sala com vários idosos, todos sentados em cadeiras de rodas, com uma tabuleta ao colo.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

34 - Fim e Princípio

 

34

Raios de sol incidiram no quarto, penetrando na cama. O detetive viu que estava só, nesta manhã de profundo silêncio, rodeado de astros, deuses, demónios, santos e relâmpagos. Sentiu a cidade de Deus, ao mesmo tempo que o beijo de Pureza. Foi um convite à perdição, que conseguiu desfazer a sua aflição, destruir o seu pânico. Mas  reparou que a voz da sua amada ainda lhe era alheia e o seu olhar refletido no vidro mantinha-se frio. Apercebeu-se que algo lhe estava vedado, havia um pacto com qualquer coisa de inconfessável, pois viu flashbacks sucessivos de estranhas violências, com afetos, raivas e esperanças à mistura. Chorou e Pureza viu-lhe as lágrimas, sinal de que lhe conhecia a alma. Era serena e contida, singela, subtil, elegante, de uma beleza inusitada onde sobressaiam os olhos profundos e felinos com uma maquilhagem discreta. O senhor Narciso não sabia se concordava com os princípios, mas estava de acordo completo com os pormenores. O dia tinha sido enorme, o ar estava cada vez mais rarefeito que já doía. Parecia que pouco a pouco as paredes do seu quarto se tinham tornado os limites do seu mundo. Até aqui acreditara mais na razão do que nas forças obscuras da terra. Por isso estava agora a tentar varrer a culpa, a dor e o desespero que toda esta cerimónia solene remexia.

- Meu amor, deixa-te penetrar pela ambivalência, - disse-lhe Pureza, encostando-lhe à cara o decote ligeiramente malandro. – Não tentes encontrar uma explicação lógica para os eventos. A vida pode ser recuperada.

A madrugada ruidosa do hospital chegou a todos os cantos. Cada barulho deu-lhe uma informação e ele ouviu-os sempre com atenção e emoção. Olhou o reflexo da luz na janela e ficou triste, pois já não podia sonhar o nada ou o tudo, apesar de sentir uma efervescência típica dos momentos de grande entusiasmo e antecipação. Para trás ficara uma noite sem luz, cruel, tensa, violenta, que só com uma disciplina severa de prisioneiro conseguira ultrapassar.

- Deus é uma potestade rabugenta, responsável pelo Universo, este caos probabilístico onde nunca ninguém tem a certeza de coisa alguma, - disse Pureza, pondo os braços sobre ele, ao mesmo tempo que os olhos de ambos brilhavam a mesma luz fixa.

Entrou então num longo corredor escuro, que se tornou claro à medida que avançava, lento e leve, revirando-se, vendo-se, vendo luzes e sombras, olhando para pessoas que o olhavam com um olhar miudinho e metódico. Só ele se ouvia, só ele se via. O seu rosto estava ausente, sentiu alguém a aproximar-se de si, com uma alegria leve. Apercebeu-se que estava a desconhecer-se, tornara-se inútil, naquele quarto de hospital cabiam agora todos os seus sonhos. Era um mundo à parte, vazio, rigoroso, com emoções carregadas de imagens. Delirava agora entre o real e o irreal, o tempo estava distorcido e incompreensível, a única luz existente iluminava os sapatos, que estavam esquecidos num canto, junto à máquina que o conservava, não sabia bem aonde. O detetive adensou a profundidade do seu pensamento, abstraindo-se em relação ao corrupio infindável de gente e tralha. Sucederam-se sonhos pequenos, um pouco mais longos. Viu os locais por onde passou, as pessoas com quem se cruzou, o que pensou, o que ouviu, o que sentiu. A alma passou a ter uma representação física, sentiu a urgência de encontrar um refúgio para a nova realidade do silêncio total. O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta sentia-se agora um fantasma em fuga do mundo, desmaterializado, um ser imóvel que se movia, voando apesar de estar parado. Apercebeu-se dos paradoxos da morte, dos seus contornos, da sua matéria imaterial, imaginou muitos futuros, fechou os olhos e ofereceu-se ávido ao céu. O sítio era um espaço cheio de coisas e cheio de gente, agora compreendia porque era um ser de razão, que via os enigmas da vida e o estado do mundo através de Deus, onde o Bem já não era uma utopia porque tinha agora um rosto e um sujeito por trás. Remeteu para os sonhos dos homens a responsabilidade dos males, e por isso estava agora com a serenidade daqueles que a alcançam, neste movimento ascendente que dá tudo a quem não tem nada. Um desconhecido aproximou-se e ele viu-lhe nos olhos uma inteligência rara e bondosa, apesar de sorrir uma simpatia vaga de ar ausente. Tudo era lento e parecia medido.

domingo, 19 de abril de 2026

33 - Parte cinco Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

33

O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta era um homem minucioso, perscrutador e subtil, com uma cultura requintada e infinita. Estava de novo em silêncio à espera do encontro com a mais alta e criadora especulação. Os olhares fixaram-se e ficaram presos por um sorriso. Um mar de serenidade espelhava agora o rosto do detetive. O tempo estava a ser manipulado por meros jogos vazios, seria alucinação ou realidade? A mulher aproximou-se do vidro embaciado e começou a escrever, com o corpo, com os lábios e com a respiração:

“Apega-se a minha vida a ti; em mim aperta a tua direita”

Foi coberto por um nevoeiro que alastrou e cerrou, sentiu um peso pesadíssimo sobre o corpo e viu no reflexo da janela que tinha uma sombra no rosto. A porta do quarto abriu-se e uma gótica com vestes negras e olheiras profundas espreitou, deixando-lhe no ar cheiros soberbos e sabores deliciosos. Uma sedução vinda de longe, como uma carta de amor, encheu-lhe a boca de gosto e de gozo, despertando-lhe uma vontade de beijar. Sentiu então o peso inexorável do destino. As pessoas do passado tornaram-se figuras reais, acreditou então que já não tinha um começo, estava sim num tempo de epílogo. Iria ser o grande e definitivo confronto com o destino. A sua vida teria valido mais pelas noites ou pelos dias? Viu que à sua espera, na ponta da cama, estava o primo Ambrósio, altivo, elegante e com o ar doce que a sua memória guardara, e que agora se abria para os sentidos desconhecidos da memória. Atrás, numa poltrona de napa bege, estava a tia Leopoldina a baloiçar-se com o Pessoa, o sempre fiel gato rafeiro, companheiro de charros e bagaços. O detetive Narciso era refém de um eficaz processo de sabotagem, composto por níveis de percepção diferentes. Apercebeu-se que o seu tempo ainda não se afastara, apesar de já estar num mundo que não era o seu. Sentiu uma emoção profunda quando uma velha vestida de escuro, talvez de luto por ele e por toda a gente, envolta numa aura luminosa, entrou no quarto com passos pequeninos , silenciosa e fugidia, deixando-lhe um olhar superior, piedoso e sentimentalista. Era a irmã, Luciana Baeta. Tornou a sentir uma respiração sexual.

- Pureza? – Perguntou, passeando pelo quarto uns olhos ávidos, perdidos no meio de tantos signos.

O tempo onde estava já não era linear, as regiões profundas dos seus sentimentos estavam agora à vista de todos. O barulho da chuva a cair, que tudo levava e tudo lavava, trouxe-o de novo à realidade que ainda julgava ser a sua. Sentiu uma embriaguez, um torpor. O quarto ficou sob uma sombra escura e tensa, sentiu um frio, que lhe deu um alívio, uma consolação, uma felicidade leve. Reparou que estava a flutuar no quarto por cima de todos. Primeiro estranhou, depois deslumbrou-se com o ambiente obscuro e onírico que o rodeou.

- Calma Náná, tudo é preparado com tempo e realizado com vagar, - disse-lhe a irmã Luciana.

“Náná”, há tanto tempo que não lhe chamavam por esse nome carinhoso, que já se tinha perdido no passado longínquo. Ouviu as horas a baterem pausadamente num relógio de corda que estava algures.

- Então rapagão, até que enfim que nos conhecemos, - disse-lhe alguém junto a si.

Voltou levemente a cabeça, não fosse um movimento brusco modificar-lhe a posição do novo corpo, que era tão leve, e deu de caras com o modelo do retrato que vira durante anos pendurado na sala da casa da avó Miquelina.

- Avô Teófilo?

- “Avô” já era, não em carne e osso mas uma espécie de mamífero gasoso, mais resistente ao tempo, - respondeu, dando-lhe uma palmada no ombro, que ele sentiu.

- O avô ainda é o modelo da família, - gracejou o detetive.

O frio da sua respiração condensou-se numa nuvem de vapor, ao mesmo tempo que sentiu um cheiro a lavado, acre e sadio.

- Quem sai cedo de cena só deixa virtudes, porque não tem tempo para acumular mais nada.

O acontecimento estava visível nos rostos, nos gestos e nos passos inquietos e irregulares dos que se cruzavam no quarto. A cena oprimiu-o e asfixiou-o. Falavam para nada dizer.

- Narciso, as fronteiras formais já não existem, este caos é uma necessidade, - explicou-lhe Pureza. – Tens de estar em face dos desastres, dos dramas, dos dilemas, das alegrias, do Sol, do Mar, dos gatos, precisas perseguir a morte com paciência, para conseguires agarrá-la.

sábado, 18 de abril de 2026

32 - Parte quatro Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

32

Narciso estava de novo no meio de uma hecatombe de sentimentos, confrontando-se com os mais perfeitos e belos demónios internos. Apesar de haver sol, ele sentiu o frio da sombra e um vento vazio. A quietude assustou-o, e era por isso que os seus sentidos estavam mais atentos e minuciosos. Espreitou a vida, escutou um ruído, sentiu um arrepio e uma tristeza pequena, e foi de novo envolto num turbilhão de gotas, vendo o céu e a terra, balbuciando raiva, mas reparando que tudo estava diferente, já não tinha só um corpo, as pessoas já se riam, apesar dos sorrisos serem curtos, e uns apontarem para cima e outros para baixo. Havia uma mudança. Encontrou-se com as suas emoções, e por isso riu e chorou alarvemente num íntimo recanto de sofrimento. Apercebeu-se de que há muito tempo não via o seu rosto. Teve uma vertigem, seguida de uma obsessão, depois um medo e por fim sentiu uma carícia deliciosa.

- Acredita, isto agora é a tua realidade, - disse-lhe Pureza com amor, com muito amor. – Esquece os segredos velhos, tens de exorcizar o passado, não existe uma só verdade.

Os olhares procuraram-se. O detetive sentia uma necessidade obsessiva de descobrir a pura e bruta realidade.

- Minha querida e amada Pureza, mas isto tudo não será apenas um desejo, que não tem nada a ver com a realidade?

Quando ela abriu a cortina sentiu-se abençoado pelo sol e viu uma luz intensa e constante. O movimento dela era seguro e tinha graça, a sua força vinha muito lá de dentro, das entranhas. Narciso reparou que estava deitado numa cama, sem conseguir encontrar uma posição que lhe permitisse sossegar o pensamento, que dava voltas e mais voltas.

- Pureza, - chamou!

Do silêncio insuportável saiu um ruído estragado e viu ao longe uma televisão ligada. Sentiu um vazio pesado. Apercebeu-se que estava acompanhado de cuidados e por isso ficou inseguro e inquieto.

- Pureza, - tornou a chamar, agarrando-se à almofada.

Apareceu-lhe à frente a imagem de uma mulher a preto e branco, junto à janela, que estava embaciada.

- Os anjos são ciumentos, por isso entre vocês há aqueles que morrem cedo…e os outros, - disse-lhe a desconhecida. – Com eles a verdade parece ser sempre mentira e a mentira parece ser sempre verdade. Vê tudo isto como uma cerimónia que marca a passagem, pela paz dos que passam e dos que vivem. A verdade não é um valor relevante, tens de pensar na vida de uma maneira nova.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

31 - Parte três Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

31

Narciso e Pureza estavam num impasse existencial, ali naquela terra de paz, de amores e de ódios. Os seus gestos cruzavam-se e colidiam. O detetive viu-se de novo longe do Paraíso e ouviu conversas que caíam umas sobre as outras, viu gestos que se cruzavam e se cortavam à sua frente, num clima de tensão no limite do insuportável. Quem lá estava não queria desistir e ele apercebeu-se disso.

- Deixem-me ir, por amor de Deus, - gritou contente e cansado, tentando fugir para dentro de si, do labiríntico meandro emocional onde tinha caído.

Mas estava ali e fora dali, distante com proximidade, revelando um universo fragmentado no tempo e no espaço, cuja limpidez ocultava obscuridades.

- Meu amor, apesar de termos vivido num mundo difícil para se ser bom, tu foste sempre bom. Por isso não precisas de desculpas. – Disse Pureza abraçando o seu amado e dando-lhe um beijo ternurento no pescoço. – Deus existe para que tudo não seja permitido.

- A tua ausência foi como se me tivessem roubado parte da minha vida, - exclamou Narciso retribuindo a carícia.

O estado caótico dos seus sentidos assombrava-lhe a razão. O que era afetivo estava agora a emergir, ele olhava para ela e admirava a sua pureza e a sua inteligência.

- Mostra-Te para que eu acredite em Ti, - gritou desesperado quando se apercebeu que ela estava novamente a perder os seus contornos, tornando-se distante e próxima

Distante porque parecia estar a ser enrolado por acontecimentos contraditórios; próxima porque lhe sentia o cheiro único. Estaria a história da sua vida condenada a desaparecer da memória, levada pelo pó? Mas Pureza jamais poderia desaparecer da sua memória, porque estava agora ali naquele caminho sinuoso, de trevas e luz, um em frente do outro, acompanhados por um desconhecido engravatado e diletante, de olhar medroso. O detetive sabia que não aguentaria outra ruptura brusca e dolorosa. Era uma relação visceral e afetiva. Ela olhava lúcida e serenamente para o seu amado. Ali, onde se encontravam, era um lugar curioso que vivia de muitos mitos. Ele estendeu-lhe as mãos e quando ela as apertou puxou-o com violência. Narciso recuperou as memórias da infância, paisagens e histórias do seu percurso. E eis que o homem engravatado explicou que Deus nunca aceitaria Isaac, o filho de Abraão, mas também nenhum cordeiro em vez dele. O Paraíso era um lugar que vivia muito de mitos. O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta viu nuvens escuras recuando no Céu e pássaros negros chocando no ar, reconheceu o seu rosto contorcido pela dor, sentiu os olhos cheios de água, descobriu rostos incertos e fascinantes com histórias horrendas recheadas de vítimas chorosas de tristes casos de vida. O espaço e o tempo estavam agora condensados e geravam tensões afetivas. Havia meios-olhares, meias-palavras sussurradas, meias memórias, acompanhadas pela presença invisível do passado. Tornou a ver muitas paisagens e muitos mundos, as dúvidas desfilavam na sua memória como reflexos do passado. Narciso ouviu a sua voz, sentiu a sua alma e tocou o fluxo da vida. Com a mão tentou alcançar a superfície da pele de Pureza, mas não a sentiu. Devorou-a com os outros sentidos e perdeu-se nessa entrega.

- Tenho urgência neste amor - disse, olhando para o desconhecido de olhar medroso.

- Estes momentos são sempre assim, confusos – exclamou o homem alto, com o olhar vivo e um sorriso irónico. – Não deves ter pudores nem complexos, pois não há regresso.

O silêncio ficou ferido.

- Não há regresso? – Perguntou o detetive.

- O teu futuro está traçado, as tuas memórias vão-se apagando, mas vais ganhar outras.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

30 - Parte dois Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

30

- Reaja senhor Narciso, faça força, – gritava-lhe alguém com uma bata branca fazendo pressão no seu peito.

- Regressar? – Pensou, partilhando um silêncio e uma solidão breves.

Voltar agora que sabia que o fim da vida não significava um ponto final, vazio de existência? Tornou a olhar para o rio distante.

- Capta a essência deste momento, neste jardim nada é aquilo que parece ser, aqui compreendes finalmente a verdade de Deus, o Seu amor pelos outros. É isto que nos dá a certeza do Paraíso. Este é um mundo pisado, repisado e mais uma vez pisado. Este é o lugar do remorso, do arrependimento e da reconciliação, – disse-lhe o companheiro pondo-lhe uma mão no ombro. – A ascensão é lenta, andas perdido no mundo deambulando em busca de ti próprio, no meio de meandros confusos. A vossa separação não foi há muito, apenas um sono único, mas é como se fosse há muito.

O detetive viu que o olhavam à distância, adivinhava-lhes a paisagem mental e emocional, e que uns desafiavam os limites do seu corpo, exigindo-lhe uma escolha entre duas ordens de pulsões, uma ideal e cintilante e outra real e desbotada.

- Amor, - chamou Pureza com a sua inconfundível voz de timbre escuro e quente, a roçar o contralto.

- Uma parte da minha vida acabou naquele dia, – disse o senhor Narciso ao seu companheiro, que sabia agora chamar-se Václav, ao mesmo tempo que olhava com ternura para a sua amada, que não passava de uma silhueta no horizonte.

- Está agora nas suas mãos começar um novo dia. Só o futuro é eterno.

- A ideia que tenho deste lugar é que é caótico…

Foi interrompido por um beijo lento e demorado da mulher que amava, ao mesmo tempo que sentia um sol limpo no corpo. Ela estava mais serena, mais leve. Lembrou-se do amor terno e frágil que se escapara entre os dedos. Narciso nunca esquecera o mal que a vida lhe fizera e por isso poucas vezes praticara o bem, era um ser magoado em busca de um culpado. O ódio vinha-lhe das profundezas.

- Regressámos um ao outro, - exclamou Pureza. – O nosso caso não passou de uma trágica ironia da vida. Neste estado de transição é normal esta confusão de emoções. Precisamos de esquecer o mal para lembrar o bem.

- Falemos um pouco de si e do mundo, - interrompeu Václav.

- A minha vida foi uma grande mentira, - disse com emoção o senhor Narciso, para dar gravidade à afirmação. – Perdi a coisa mais séria da vida, a alegria, e por isso o meu tempo fechou-se. Deixei de gostar de amar, de conversar, de comer…de viver.

- Mas no entanto viveu até ao fim.

- Fim?! É uma opção vivi sempre atormentado pelos afetos, que guardava na memória, porque quando os chamava davam-me um imenso prazer. Senti desespero e humor. Desespero pelo acontecimento e humor por aquilo em que acreditava até ali, a vitória do Bem sobre o Mal. Afinal era tudo ao contrário, a vida era generosa para os maus e tirana para os bons, para a minha querida Pureza, a mulher com cara de anjo, que nunca fizera mal a ninguém.

- Deus também precisa de ajuda, - retorquiu Pureza. – A nossa relação com Ele não é unívoca.

- Ele precisou de ti?

- Para combater o Mal é necessário o Bem, que está em muitos lados, - respondeu Václav.

- Mesmo que para isso tenha de fazer mal a outros? – Perguntou o detetive Narciso olhando para a figura granulada e com ruído de Pureza.

- A tua presença aqui é sinal de que tudo se equilibra um dia.

- Foi por isso que dentro de mim esteve sempre uma luz intensa que me impediu de saltar para o abismo.

- Era eu o teu foco afetivo, sem ele o nosso amor teria sido impossível, - disse Pureza. – O nosso amor tornar-se-ia inviável caso o fizesses.

O grão e o ruído da imagem da mulher aumentaram.

- O que é que isto significa? – Perguntou o detetive, vendo que já não conseguia sentir a sua amada.

- Deus é a criatura mais importante e complexa do Universo. É um génio charmoso, cínico e calculista, com uma musicalidade infinita do verbo. É um ser terrificamente assustador, belo, comovente, dorido e perturbador, que nunca perde o sorriso dos lábios.

Narciso olhou para Pureza e achou-a bela, perfeita e linda. Fitou-a intensamente, mas ela desviou o olhar, mexendo com agilidade os dedos. Alguém sussurrou por cima, com uma voz poderosa e inconfundível, e uma serenidade que só aqueles que já viveram muito podem ter. Václav sabia que a relação entre estes dois seres não tinha sido atingida pela volubilidade do amor e o poder destrutivo da passagem do tempo e por isso Deus tomara a decisão certa ao juntá-los. Mas só Ele é que tinha o poder de ultrapassar as forças ocultas que manejavam, magoavam, decidiam e executavam a arbitrariedade gratuita de quem podia e mandava e tornava a vida num inferno.

terça-feira, 14 de abril de 2026

29 - Parte um Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

29

- A tua vida está a ser empurrada, – disse Lilith com uma voz doce e suave. – Morre num momento de graça quem amou e foi amado.

O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta ainda teve tempo de se aperceber da azáfama deste fim do mundo. Viu tudo, ouviu tudo, conheceu tudo. Atravessou corredores longos e galerias largas com paisagens abstratas. Ouviu o som muito baixo da sua respiração. Fechou os olhos, tentando adormecer definitivamente. Não conseguiu. Olhou para o chão e fitou o teto. Sentiu que as palavras estavam a ficar fora do lugar, por breves instantes ouviu a música de uma trombeta. Relacionou tudo, sons, imagens, palavras, coisas, pessoas, atmosferas, ideias, sentimentos, vestígios, miragens. Viu desfilar episódios de uma vida, uns difusos, outros mais precisos. Uma volta na cama pô-lo cara a cara com sorrisos e formas há muito desaparecidos, viu Pureza, que lhe fez acenos subtis. Trocaram olhares cúmplices. Deu uma ordem ao corpo, mas ele não obedeceu. Procurou um pensamento mais forte, pensou no ontem e no amanhã, mas o ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. Teve uma fúria lenta. Apercebeu-se que a alma deixara de coincidir com o corpo pois este estava parado, distorcido, com o rosto alterado. Atravessou um espelho, porque viu a mão a cruzar o espelho. Chamou com uma voz funda a sua eterna amada, beijando-a a meio de uma frase. O amor era lúcido e louco, insubmisso e ilimitado. Tentou chorar, mas já não tinha lágrimas. A partir daquele momento iria ser um viajante na noite, em busca de um alvorecer clarificador. Estava num mar enorme, instável, de um azul sem luz, com perigos e abismos. Soltou um sorriso aberto, alto e alegre depois de receber um beijo noturno, vindo de uma memória longínqua que o fez esquecer as tragédias, desilusões e falhanços. Deixou escapar um soluço no silêncio da noite. Ouviu uma voz a chamá-lo, lenta, nítida e exacta. Pureza tinha guardado para este dia, que nunca fora calculado, o que de mais profundo se lhe atravessou na vida, sentimentos e sensações, que oscilavam agora entre a força e a fragilidade, por isso o beijo foi arrebatador e visceral. Afinal, onde residiria o Mal, seria nos incondicionados atos de violência dos homens ou nos condicionados atos de violência de Deus?

- Não tenhas medo de seguir a felicidade, aproveita este tempo e este lugar para confirmares os teus sonhos mais desejados, - disse um homem de barbas dando-lhe uma festa na mão.

- E quais são os meus sonhos mais desejados?

- A única coisa que vejo em ti são emoções espontâneas e muitas frases soltas.

- O que desejo é resgatar o amor mais desejado, – exclamou o detetive, baixando os olhos.

- Deus não está só encostado ao Universo, a agarrar com força as suas paredes, faz parte dele e sente-o – retorquiu o interlocutor, usando as mãos e os olhos.

Tornou a ouvir vozes que já tinham partido e voltavam agora com a eternidade, no meio de um silêncio concreto. Ouviu uma voz magnética como um íman. Era uma hora em que o Sol ainda não se via. Sentiu uma tranquila serenidade. Despiu o manto negro da desesperança e sentiu um desejo intenso de agradecer. A verdade era instável e os tempos misturavam-se. Parou num monte de pedras, que o seu acompanhante dizia estarem carregadas de histórias, que os separavam de um rio que corria, brilhante, ao longe. Exigiu que o levassem a sério:

- Mas que balda é esta? – Gritou.

Estava desassossegado e ansioso, a imaginação não parava. Tudo isto que estava a viver, representava para si a vitória de Deus e a sua própria por ter acreditado Nele. Sabia que aqueles silêncios estavam habitados. Por breves instantes reencontrou rostos, lugares estranhos e tempos, que o ofuscaram com o seu brilho e fluência.