segunda-feira, 11 de maio de 2026

83 - Cordeiro Verde - O Papão - Dies Irae (parte 3)

 

83

Hospital de Mount Carmel, Nova Iorque, 17 de Junho de 1969.

 

A morte da paciente Rita Bouvalier apanhou todos de surpresa. O doutor Richard Cinfuentes estava no jardim a observar um dos doentes, quando lhe deram a triste notícia. Correu para o quarto e aí permaneceu, tentando compreender os estranhos caminhos do destino.

- Ainda ontem estava tão bem, falámos do futuro, disse-me que queria desenterrar o passado, tentar descobrir familiares, construir uma nova vida. Até já tinha escrito o documento a dar-lhe alta. E agora está aqui, a dormir para sempre.

- São os estranhos comportamentos perto da hora da morte, – diz a enfermeira-chefe dando uma festa ao cadáver. - Nós já estamos habituados a isto doutor, são muitos anos a fazer amigos e a vê-los desaparecer.

- Mas nem nos avisou, não tivemos tempo para nos despedir. Estes últimos quatro dias foram uma vida, vivemo-los intensamente.

- Doutor, quer que trate das formalidades?

- Trate, trate, mas ainda vou ficar aqui um pouco a falar com ela. Dizem que a alma fica três dias junto ao corpo.

A porta fechou-se sorrateiramente e o médico pegou com cuidado na mão fria da amiga.

- Rita, durante anos estiveste aqui esquecida, só falavas contigo, nós estávamos egoisticamente longe, só pensávamos no dia a dia, até que tu acordaste e exigiste a nossa presença. Viemos interessadamente explorar os teus sentimentos e tu deste-nos o teu amor. Não havia rancores nos teus actos, transmitiste-nos o que de mais profundo existe na alma humana, a amizade. Agora foste embora de mansinho e as minhas dúvidas tornaram-se gigantescas. Rita, o que eu vivi nestes dias não pode ter sido um sonho, eu sei que viajámos, para onde, só tu sabes, levaste essas memórias contigo. Os teus amigos Narciso e Paulo, são verdadeiros, ou não passam de personagens do imaginário? Mas se são do imaginário, como é que eu sei o nome deles? Porquê ires-te embora agora? És Tu, meu Deus, foi a Tua mão que pôs um ponto final na aventura que ia começar e aqui estou eu, perdido num tempo sem referências. Havemos de nos encontrar algures, até já Rita!

Há acontecimentos que, por pequenos que sejam, deixam marcas profundas na vida dos homens, a história da Humanidade é feita destes momentos insignificantes, que uma vez juntos lhe traçam o destino. Procurar respostas nas grandes evidências não passa de pura perda de tempo, pois aprende-se mais em poucos dias, do que em várias décadas.

- Vê, admira a beleza de Laputa, o sítio mais complexo do Universo, o primeiro a ser concebido por Deus, e de onde partiram os elementos primordiais que fizeram todos os outros planetas. A Água, o Fogo e a Terra, os donos da vida, – diz o Demónio do Meio-Dia, de nome Violeto Serra, agarrando a mão da sua amada Lilith, e depositando-lhe na palma a sua alma, guardada durante muito tempo por Rita Bouvalier e protegida pelo omnipresente Cordeiro de Deus.

As lágrimas escorriam pela face de Rita, era a força do espírito a brotar do inconsciente em catadupas de emoções e temores, que iam muito para lá da essência do ser.

- Chora, deixa esses vulcões expelirem o teu íntimo, sente a existência, a água que foge nas lágrimas não se perde, voltará um dia numa nuvem anunciando a bonança. O nosso amor é uma realidade, tudo se transforma sem sobressaltos de alma, em direcção a um novo ser infinitamente maior e mais profundo, capaz de se modificar dia após dia, até atingir o plano afectivo e espiritual, que agora é comum a todas as espécies, e se situa no centro da realidade.

Lilith foi levada pelo seu demónio para além do Tempo do Universo, para além do próprio limite mais estranho do seu ser, pois tinha a força necessária para enfrentar tal tarefa de dedicação e amor, de alguém que um dia foi condenado à dor e ao sacrifício constante de toda uma vida e cujo único consolo foi saber que parte da sabedoria era cósmica. Mas Lilith era uma cruel deusa sedutora que arrastava sem cessar os amantes numa caçada eterna, para ficar sempre inacessível por detrás de véus despedaçados na perseguição, até ao domínio do infinito. A relação entre estes dois seres era uma história apaixonada da alma. 

 


82 - Cordeiro Verde - O Papão - Dies Irae (parte 2)

 

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Asilo de Salpêtrière, Paris, 17 de Junho de 1969

- Não compreendo doutor, houve uma regressão, hoje de manhã estranhei não o ver no refeitório e vim ao quarto. Estava assim, sentado na cadeira de rodas, completamente imóvel.

- O seu olhar é calmo, parece estar em paz, – diz o neurologista Álan Lipiérre. - Estes últimos dias foram intensos para todos nós, eu tive sonhos maravilhosos, as personagens pareciam reais.

- O senhor Narciso está feliz!

- O corpo parou, mas no entanto a alma move-se, disso não tenho dúvidas.

A enfermeira retira-se e o médico senta-se junto do paciente, agarrando-lhe cuidadosamente numa das mãos.

- Caro Narciso, agora sei que não tem tormentos, a prisão onde se encontra é maior que o mundo, nada daquilo em que acreditamos tem valor junto do tesouro que descobriu. Nestes últimos quatro dias aprendi mais do que em toda a minha vida.

Lipiérre levanta-se, dirige-se para a janela e olha sofregamente para o jardim mal cuidado.

- Nos meus sonhos o relvado era lindíssimo, as flores pareciam o arco-íris e até havia um labirinto mágico, onde íamos dar de beber às nossas almas. Narciso, só nos sonhos é que alcançamos aquilo que desejamos, é um sentido reprimido nas nossas profundezas. Tu conseguiste descobrir o pote de ouro que se esconde no fundo do teu espírito, – um rápido silêncio põe os olhares frente a frente. - Que paz interior tu exalas, a tua felicidade é contagiante, quais são os teus sonhos?

Uma lágrima escorre pela face do doente, é a resposta da emoção ao silêncio do corpo.

- Obrigado meu amigo, vou em paz, agora sei que tens o espírito sereno.

Um novo planeta vem saudar os passageiros da “Air-Cabreiro”. Envolve-o uma auréola brilhante, as suas cores distribuem-se entre o castanho e o azul. Perto de si há um corpo celeste mais pequeno, luminoso e pelejado de crateras.

- Terra, este planeta chama-se Terra e é o destino de John.

- Mas afinal, para que é que serviu toda esta aventura? Vou ser despejado aqui, num sítio que não conheço, longe da família e dos amigos, para quê?

- Para arranjares um passado! Sem ele, ficarás à mercê da selectividade do Eterno Retorno, que é parecida com o que vocês chamam selecção natural.

- Uma selecção natural de ideias?

- Mais ou menos.

- Aquilo é o “Piolho-Um”? - Pergunta Rita, apontando para um objecto que se encontra atrás do autocarro.

- É, o vosso querido “Piolho-Um” vai levar John para a Terra.

A nave corporal aproxima-se e...

- Meu Deus, quem é que vem dentro dela?

- Não Rita, é melhores não olhares.

Em tempos de muitas dúvidas, tudo serve para procurar explicações que deem respostas apaziguadoras. Mas na ânsia de alcançar a verdade, muitas vezes descobre-se o que não se quer. Na nave “Piolho-Um”, que se encontra à deriva, perdida no Universo, enviada pelo Coração, o mais poderoso país do planeta Corpo, vai o que resta de toda a tripulação, dez corpos mumificados pelo tempo. Rita observa-se, em silêncio, sabe que não há respostas, ou talvez também não as queira. Vê John a entrar na nave e a desaparecer na atmosfera da Terra.

81 - Cordeiro Verde - O Papão - Dies Irae (parte 1)

 

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Dies Irae – Dia de cólera, nesse dia, como David e a Sibila profetizaram, o mundo se transformará em cinzas. Então, que gritos, que tremores! Deus descerá do céu para julgar severamente”

                                                              Tommaso de Celano

 

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-á de um momento para o outro.”

Maomé

 

A passagem pelo Umbigo é rápida e silenciosa. Apenas um túnel que guarda uma noite muito escura.

- A escuridão foi feita para purificar as almas! - Explica o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

Logo depois luz, mas não uma luz qualquer, esta é brilhante, reconfortante, amiga, muito amiga.

- Só nos faltava isto, um Dies Irae, – diz o motorista-profeta. – E eu que queria abastecer neste planeta.

- Um Dies quê?! - Pergunta Paulo, vendo o horizonte bloqueado por uma muralha de unicórnios e respectivas montadas.

- Um Dies Irae, um dia de Juízo Final.

- O Juízo Final?

- Dona Rita, não há o “Juízo Final”, mas dias de Juízo Final. De tempos a tempos é necessário limpar os planetas, renovar as almas, e então Laputa envia os serviços de limpeza. Foi o que aconteceu neste planeta, está temporariamente fechado.

- Serviços de limpeza a planetas?! Assim sim, adoro este Universo, – grita John, com os olhos muito abertos, para não perder nem um bocadinho da cena. - Unicórnios, milhões de unicórnios brancos, é fantástico, vale a pena ter vivido para ver este espectáculo.

De repente, aparece um dragão enorme e pára junto à carrinha. Indescritível, um monstro multicolor, coberto com tufos de pinheiros mansos, tendo cada árvore na sua copa uma bandeira azul celeste. O seu olhar é terno, é meigo, é doce, enfim, apetece-nos cobri-lo de beijinhos, dizer-lhe que é a criatura mais meiga do Universo, logicamente a seguir à nossa mãe, se formos solteiros, ou à nossa mulher, se formos casados.

- Um Papão aqui? Laputa enviou um Papão? - Interroga-se o motorista-cicerone.

- Um Papão, este dragão com cara de menino, chama-se Papão?

- Sim Rita, este jovem que está aqui ao nosso lado, é um Papão, e isto quer dizer que algo de muito importante está a acontecer na Casa de Deus.

- Mas, o que é que pensa que está a acontecer?

- Uma mudança de Tempo ou Idade, como lhe quiserem chamar.

- Tempo ou Idade?

- Vamos aproveitar o Dies Irae, ou Juízo Final, para eu lhes contar um pouco da história do Universo.

- E o Papão?! Falou dele, mas não nos explicou o que é que faz?

- Coronel, o Papão papa ideias, o Cosmos, ou Universo, ou como lhe quiserem chamar, é constituído por ideias do Bem e do Mal, em permanente disputa. Quando há uma concentração excessiva de uma delas, este dragão vem e come-as, repondo o equilíbrio. Para as conseguir papar, elas têm de estar todas juntas, e é isso o que os funcionários do Dies Irae, o Departamento Ambiental de Laputa, estão a fazer neste planeta.

- Vamos à história do Universo! - Diz um dos presentes em tom de desafio, completando a meia-lua que se formou em frente do orador.

- Há um Universo, escrito com letra maiúscula, e universos, escritos com letra minúscula. Todos são peças fundamentais, como num relógio, capazes de parar o mecanismo. Senhor John, sabe porque é que não passou naquela gruta com os seus amigos? Porque não tem passado! Mas tem presente e tem futuro, e é nesses dois tempos que vive. No primeiro é um planeta e no segundo um habitante desse mesmo planeta. Dois momentos diferentes, num mesmo tempo. E para complicar ainda mais as coisas, ocupa o mesmo espaço com outro corpo celeste, ou seja, dois planetas distintos num único espaço, mas em dimensões diferentes. O cartógrafo cardíaco John Kovac’Olhões, habitante do planeta Corpo, ou Adão, figura bíblica, é também um planeta que existe junto ao Corpo, mas noutra dimensão. Perceberam?

- Nítido, cristalino como o vinho tinto, – responde John, provocando uma gargalhada geral.

- Não se ria muito Rita, que o seu caso também é complicado, – avisa o orador, colando os seus olhos na alma da engenheira.

- Com esse seu olhar até fico assustada!

- Rita Bouvalier, menina no passado, engenheira cardíaca no presente, guardiã dum Genátomo no futuro, senhora de três tempos. É raro, muito raro, de certeza que vai ser um anjo.

- Como o gato? - Pergunta, com um ar vivo e trocista.

- Como o gato, como uma aranha, como um pássaro, como um pinheiro, como qualquer ser vivo. O Universo é limitado, os destinos estão escritos, qualquer ser vivo serve para que eles sejam cumpridos. Rita, só o seu futuro restará, o seu passado e o seu presente não pertencem mais ao Eterno Retorno, foram vítimas da sua selectividade. E agora é a sua vez coronel Narciso Figueiredo Baeta.

- Já estava a achar estranho, também sou assim tão complicado?

- A sua atracção é pelo passado, o seu presente é ténue e o seu futuro não foi escrito.

- E eu, não me disse para onde vou?

- John, não tem passado, não tem futuro, tem dois presentes e é somente com um deles que ficará.

Uma luz brilhante interrompe o debate, é o fim do Dies Irae, o movimento torna-se obrigatório e o Papão mistura-se com a poeira do Cosmos. A carripana já se move, deixando atrás de si um rasto de fumo branco.

- Lá somos mais um cometa, daqueles que os entendidos dizem passar de mil em mil anos, – parodia o motorista, aproximando-se da zona gravitacional.

- Qual é o nome deste planeta? - Pergunta Paulo Prestes.

- Leve, o centro do Universo!

- Leve? Que nome estranho.

- Leve de ideias e de virtudes, é o local onde o senhor engenheiro vai ficar.

- O quê, vou ficar aqui neste planeta primitivo? - Indigna-se Paulo, olhando pela janela e vendo casas feitas de pedras e barro.

- A sua missão é levar-lhes as palavras e as leis do Código de Conduta de Laputa.

- Mas eu nem sei qual é esse Código!

- Tome, aqui tem os dez artigos do Código de Conduta de Laputa, – e entrega-lhe uma folha.

- Só isto?! E depois, regresso?

- Sim, é só isso, depois vimo-lo buscar, – responde o motorista-profeta, rindo-se e dizendo baixinho. - Mal tu sabes o trabalhão que vais ter!

Poisam num deserto, um dos passageiros sai e partem de imediato. É estranho ver ali, no meio daquele mar de areia vermelha, o engenheiro de sistemas Paulo Prestes. Lançam-lhe um último adeus, e é isso mesmo, um último adeus.

Estão de novo mergulhados nos oceanos escuros do Cosmos, conduzidos por um senhor que conhece os seus limites. O silêncio é total, só o barulho dos cinquenta cavalos se faz ouvir, mas não é o suficiente para quebrar a contemplação dos presentes. Os últimos dias, se de dias se trataram, foram terríveis e maravilhosos para estes simples mortais, habituados às horas certas e aos destinos calculados.

Uma bola de fogo aparece de repente no lado direito e cruza-se com a “nave”.

- Chegou o seu tempo coronel Narciso, o passado espera-o, a porta do círculo está aberta, – informa o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, abrindo a porta da frente. – A carruagem espera-o.

80 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (9ª Parte)

 

80

- Meu Deus, afinal isto é tudo verdade! - Exclama Rita, indo para junto do motorista.

- Então e agora, já acredita? Deus tem um plano para cada ser vivo.

- Não tenho outra hipótese, há evidências a mais.

- Rita, isto não é um sonho, não há sonhos tão grandes a não ser o Real. Tudo tem o seu lugar, no passado e no presente. O futuro é influenciado pelo passado, mas o passado também é influenciado pelo futuro. Um destino está ligado ao outro. Tudo permanece.

- O real?

- O Sonho Real, só se sai das Casa de Deus através dum Sonho Real. Meus senhores, vamos acorporar.

Na superfície do planeta duas luzes cintilantes dão-lhes as boas-vindas.

- Comité de recepção à vista!

- Um gato sorridente e um monarca sem reino, até onde é que irá toda esta loucura? - Pergunta o coronel, abrindo a porta de trás e saindo.

- Bem-vindos à utopia, é o regresso dos magníficos, – grita Helias II, abraçando efusivamente o militar. - Já estava farto deste felino falador.

- És sempre o mesmo, falas, falas, mas não dizes nada.

O motorista sai logo a seguir e o Gato-do Sorriso-de-Ouro prostra-se a seus pés.

- Senhor, recebe este teu humilde servo que nasceu para servir Laputa.

- Não abuses nas vénias ó siamês. Agradeço-te a tua fidelidade e nomeio-te Anjo do Universo. Vai e junta-te aos outros!

Duas majestosas asas brotam do dorso do animal e este eleva-se, desaparecendo na abóbada celeste, ao mesmo tempo que o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-  Mensageiro-da-Lua abre os braços e proclama:

- Que o Tempo volte a ter data, para que o Universo se mova!

Uma chuva de meteoritos rasga a noite e uma coluna de fogo ergue-se em direção ao Céu.

- A espada de Deus assinala sempre o caminho para a Sua morada. Nada é em vão, nenhuma respiração, nenhum passo, nenhuma palavra, nenhuma dor, tudo é um milagre eterno do Senhor.

Tornam a entrar no veículo e avançam para o seu destino. Pelo caminho encontram John sozinho na Carraça e recolhem-no. Param junto do Umbigo e contemplam-no por uns instantes. O motor ronca, as rotações aumentam e um chiar infernal de quatro pneus a riscar o solo pedregoso, faz a máquina precipitar-se velozmente para a cratera.

domingo, 10 de maio de 2026

79 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (8ª Parte)

 

79

O engenheiro Paulo Prestes despede-se do pessoal e sai calmamente pela porta da frente, apanhando um autocarro que, por coincidência ou talvez não, está parado no portão do hospital.

- Bem-vindo a bordo, Paulo - cumprimenta o coronel.

- Narciso?! Eu sabia que os haveria de reencontrar, algo me dizia que andavam perto.

- “Algo te dizia “, eu sei, eu sei - resmunga baixinho o motorista.

A velocidade do autocarro começa a aumentar vertiginosamente, as árvores são testemunha disso, pois passam de simples figuras que se cruzam com as janelas de segundo em segundo, a um traço contínuo verde. Até a cor do ar muda, de uma luminosidade e transparência raras, para um branco opaco, parecido com fumo. De um momento para o outro começa a ter-se uma sensação de inclinação, dir-se-à que vão a subir.

- Ó senhor motorista Cabreiro, levantámos vôo? - Pergunta Rita Bouvalier, espreitando pela janela à procura de alguma referência que confirme a sua dúvida.

- Minha querida senhora, antes de responder à sua questão gostaria, mais uma vez e as que forem precisas, de lhe pedir que quando se dirigisse a mim, o fizesse em termos correctos. “Cabreiro” não é nada, não existe ninguém com esse nome, essa palavra dita isoladamente perde-se no ar e...

- Deixe-se de filosofias senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua e responda à minha pergunta, – interrompe Rita, já muito exaltada. - Nós é que temos motivos para estarmos fartos desta palhaçada . Envolveram-nos nisto tudo sem pedirem licença.

- Rita, todos nós já estamos cansados de sermos os peões dum confronto que se joga muito lá em cima, mas penso que agora que nos encontramos perto do fim, nada justifica perdermos a calma, – diz o coronel, agarrando-lhe carinhosamente nas mãos bem tratadas e beijando-as.

- Narciso, tudo isto mói, foi penetrando lentamente dentro de nós, bem fundo do íntimo, estava planeado até aos mais ínfimos pormenores, a nossa vida foi sempre um jogo nas mãos deste senhor, ele manipula-nos, somos as peças de um jogo de xadrez, que vão sendo retiradas à medida que as jogadas avançam. Porquê todos estes mistérios, será que não temos o direito de saber para onde vamos?

- Rita, nós dirigimo-nos para o Corpo-Dois! - Exclama o Paulo.

- Para o Corpo-Dois?!

- Sim, para o Corpo-Dois, temos de trocar com os clones, a missão “Novo Olhar” ainda não terminou. Sabes quem é que esteve comigo no hospital? Helias II, o monarca da Cidade Tricúspica.

- Helias II, no teu quarto?!

- Ele mesmo, entrou por engano na gruta onde estava o clone dele, ia atrás do John.

- John, esqueci-me dele, prometi-lhe que o contactava, mas esqueci-me.

- Tu consegues contactar com o John? - Pergunta o coronel.

- Esqueceste que sou eu que escrevo o diário de bordo? O meu clone regista tudo o que eu escrever!

- Registava, senhora engenheira - informa o motorista - Esse seu dom foi-lhe retirado.

- Retirado, por quem?

- Por mim, eu detenho todos os poderes do Universo, sou o mensageiro de Deus, fui encarregado de prosseguir com a missão “Novo Olhar” até ao fim. Vocês desenterraram poderes que vos estavam vedados, nem imaginam as consequências se os tivessem manipulado erradamente. Engenheiras Rita Bouvalier, no Cosmos existem átomos errantes, com afinidades por determinados genes, que são raríssimos. As probabilidades de se encontrarem, são praticamente nulas, mas no seu caso deu-se o impossível. Aliás, foi com o seu pai que tudo aconteceu. Um desses átomos fundiu-se com um dos genes dele, formando um Genátomo, um dos elementos que deram origem ao Universo. Após Deus realizar a Sua obra, Ele descansou e os anjos separaram os Cinco Genátomos da Criação e guardaram-nos no Umbigo da Eva. Um dos átomos e um dos genes escaparam-se e desapareceram. Milhões de anos depois encontraram-se no planeta que deu forma ao seu pai. Nada aconteceu, até a senhora nascer! A Rita carrega uma informação que está para além da sua compreensão. Tem dentro de si a lei da existência de Deus, o direito do “Tempo do Espírito Santo”, que até agora tem sido negado, a última prova de que Laputa necessita para entregar os desígnios do Universo. Vejam meus senhores, vejam à vossa frente, acreditem que o tempo é linear, que ele avança eterna e uniformemente até ao infinito, e a diferença entre passado, presente e futuro não é mais nada do que uma ilusão. Ontem, hoje e amanhã não se seguem uns aos outros, Estão ligados num círculo eterno. Tudo está ligado! 

Ocupando o horizonte, mais bela do que nunca, aparece Eva, irradiando uma luz maravilhosa.

78 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (7ª parte)

 

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Os excursionistas entram e sentam-se confortavelmente. A máquina arranca, fazendo um peão poeirento e atravessa novamente o portão, que permanece fechado.

- Senhor motorista, Highlands fica na Escócia, do outro lado do Canal da Mancha. Como é que vamos passar?

- Vamos pelo túnel!

- Pelo túnel?! Mas não há nenhum túnel!

- Daqui a alguns anos haverá um túnel. Doutor Cinfuentes, se gostasse de filosofia, saberia que alguém já tinha descoberto que a essência precede a existência, e é esse o meio de viajar pelo Tempo.

Mar, túnel, Highlands, espaço do tamanho dum átomo, percorrido num tempo que não pode ser medido.

O engenheiro Paulo Prestes olha para a enorme janela panorâmica do quarto andar e vê que o Céu está mais estrelado do que nunca. O colete-de-forças não o deixa acompanhar o ritmo do pensamento com gestos abstractos. A sua memória encontra-se muito longe, está na quinta da família, que se situava na maravilhosa província do Antro, uma das zonas mais ricas da República do Estômago. Todos os domingos de manhã era acordado cedo pelo avô e ambos percorriam os trilhos dos cabreiros, os criadores da célebre Cabra- -Antral, um animal possante e saboroso. Iam à cabana do senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua. Enquanto o avô e o amigo ficavam a conversar, ele ia ver os brinquedos mágicos que habitavam a casa. Lembra-se que adorava brincar com os “três tempos”.

- Estes três bonecos de madeira não gostam de mudar de posição, – explicou-lhe um dia o senhor Cabra, como lhe costumava chamar. - Tenta mudá-los.

O rapaz agarrou nos das pontas e trocou-os.

- Agora temos de esperar um pouco!

Poucos minutos depois começou a vê-los estremecer e de repente voltaram às suas posições iniciais.

- Mas isto é magia? - Perguntou-lhe a criança, meio sorridente, meio assustada.

- Não Paulinho, isto não é magia, é verdade. Cada um destes bonecos é o dono de um Tempo. O encarnado e o azul já gastaram os deles e agora querem ficar com o do amarelo.

- E o amarelo vai deixar?

- O que é que tu fazias se fosses o amarelo, Paulinho?

- Não dava o meu Tempo, os outros já usaram os deles!

- Mas o azul não quer dar. O que é que fazias?

- Se for preciso luto, vou defender o que é meu.

- É isso mesmo o que está a acontecer Paulinho, o amarelo resolveu ir à luta.

À hora do almoço regressaram a casa e ainda se recorda de ter passado o resto do dia a fazer perguntas ao avô sobre os “três tempos”. Seria verdade? Agora algo lhe diz que sim, estas recordações não lhe vieram à memória por acaso.

- Senhor Paulo Prestes, agora dedica-se a atirar cadeirões pela janela? - Pergunta o médico de serviço, interrompendo-lhe a viagem ao passado.

- Tive de fazer aquilo, senão o meu amigo não conseguia sair.

- O seu amigo?

- O monarca Helias II.

- Ah, um rei! Tem um amigo que é rei, mas que fino. E ele conseguiu sair?

- Sim, atirou-se.

- Sabe que morreu um homem, o nosso cozinheiro-chefe, que ia a passar naquela altura por baixo da janela?

- Foi uma ilusão, doutor. Ninguém morreu!

- Ilusão?! Senhor Paulo Prestes, a polícia está aqui à espera que eu lhes diga se é ou não o responsável pela morte daquele infeliz. Basta-me dizer-lhes que você estava na posse das suas faculdades mentais, para o levarem preso.

- Doutor, ninguém morreu e eu já não vou ficar aqui por muito mais tempo.

- Eu confirmei o óbito do pobre cozinheiro. O senhor é que fez a sua opção, vou chamar o delegado e dizer-lhe que você agiu conscientemente.

Entretanto, na capela mortuária o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua aproxima-se do corpo.

- Detesto ter que fazer isto outra vez, tinha jurado que nunca mais usaria os meus poderes, mas as circunstâncias a isso me obrigam, – e aproxima-se do cadáver, coloca-lhe a mão na cabeça e prossegue, – Júlio Meia-Lua, levanta-te e anda!

Um feixe de luz, vindo de cima, incide sobre o cozinheiro gorducho e este abre os olhos.

- O que é que eu estou aqui a fazer? Esta brincadeira foi longe de mais, adormecerem-me e deitarem-me aqui, hei-de descobrir os responsáveis.

A porta do gabinete do director abre-se e o médico entra.

- Delegado, pode levar o senhor Paulo Prestes, ele é o responsável pelo crime. Aqui tem o documento que lhe dá alta hospitalar.

De repente, uns gritos quebram o silêncio nocturno e todos se precipitam para o congestionado corredor. Qual não é o espanto dos presentes, quando vêem o Meia-Lua.

- Meu Deus, mas isto é milagre, – diz uma senhora muito idosa, ajoelhando-se.

- Eu, eu.... Eu, eu confirmei a sua morte, eu, eu... fiz-lhe a autópsia.

- Então foi o senhor doutor que os mandou colocarem-me na capela?

A cena é dramática, o médico tem um ataque cardíaco fulminante. Os papéis mudaram radicalmente, o morto está vivo e o vivo está morto, estranhos são os caminhos do destino.

- Este arquivo, que é da Humanidade, não tenho chaves para esta porta! - Explica, para quem o pode ouvir, o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

77 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Fusão (6ª Parte)

 

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- Não doutor Lipièrre, já não vai fazer mais nada, agora sou eu que decido. Meus senhores, tenho de ir preparar-me para a viagem, ela vai exigir muito de mim!

Narciso e Rita levantam-se e vão passear para o vasto relvado que cerca a instituição. As próximas horas serão decisivas para os seus futuros, irão encontrar a paz de que desesperadamente precisam? O tempo parou para eles, não tem data, e espera algures encerrado num espaço anónimo, que alguém o empurre e o encaminhe para a hora certa. Os doutores Cinfuentes e Lipièrre permanecem sentados, em silêncio. Um casal de pardais namora atarefadamente numa poça de água, aproveitando os últimos raios de sol, que teimam em ficar na planície. Ela canta, com esforço, para o seu amado, que pica freneticamente a terra.

- Será que eles sabem onde estão? - Pergunta o médico americano.

- Devem ter mais certezas do que nós! Nascem, crescem, reproduzem-se e morrem, nada tão simples e ao mesmo tempo tão complexo.

- Mas nós também nascemos, crescemos, reproduzimo-nos e morremos, nisso somos todos iguais.

- Pensamos, Richard, no meio disso tudo pensamos, e é esse o nosso mal, o nosso grande pecado. Sócrates e Platão falaram, falaram e não disseram nada, mas no entanto explicaram tudo. As suas ideias duram há séculos e séculos, e na altura em que pensávamos estarem a ser enterradas para sempre, eis que chega um jardineiro, que só devia perceber de plantas, e nos promete levar até à Eva.

- Nesta fase das nossas vidas, devemos acreditar em tudo ou não acreditar em nada.

- Sempre o maldito do Sócrates a assoprar-nos aos ouvidos o “só sei que nada sei”! Passámos parte da vida a tentar curar os males das almas dos outros e agora são as nossas que se desfazem nas mãos.

- Álan, não temos nada a perder, só vamos ganhar!

- Ganhar, ganhar o quê?

- Ganhar os mistérios do Mundo, perceber de vez o que é a alma e isto tudo oferecido por um jardineiro cabeludo e barbudo.

- E nós a pensarmos que só os homens de fato e gravata eram os detentores do saber.

- Deuses também eram cabeludo e barbudo!

- Richard, estás a querer-me dizer que o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua é....

- Não, não, mas deve estar tão perto!

De novo o silêncio, cúmplice e aterrador, belo e feio, feito de contrastes impossíveis e de sonhos vazios. Pensar uma vida e descobrir o nada, olhar para o horizonte e ver a harmonia. Quanto é que verão aquele Céu impávido e sereno, no meio de um anfiteatro rodeado de mundos, o ínfimo e o grandioso abraçado no mesmo espaço e em tempos diferentes. Deus, Tu que nos contemplas orgulhoso, como serão os Teus pensamentos? Estamos tão longe e tão perto de Ti, povoas-nos os sonhos e os pesadelos, és o Bem e o Mal, crias-Te as coisas simples e tornámo-nos tão complexos.

A Lua já vai alta, bonita e brilhante, lançando pela região uma cor aconchegante. O relógio da torre da igreja acaba de lançar para o ar as dez badaladas ensurdecedoras. Um autocarro ferrugento entra pelo portão principal, que está fechado, e detém-se junto da escadaria, onde quatro pessoas o esperam. A porta da frente abre-se e sai o jardineiro mais famoso de França, agora promovido a motorista, o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, vestindo uma exuberante túnica branca da casa de Pedro Battatini.

- Senhores passageiros, bem-vindos a uma fabulosa excursão a Laputa, com passagem pelo hospital de Highlands e pelo planeta Eva.

- Mas que chique que o senhor está, – elogia a engenheira Rita Bouvalier.

- A esperança veste-se de branco, a cor mais fascinante do Universo! - Exclama o motorista, dando uma volta com os braços abertos.