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- Reaja senhor Narciso, faça força, – gritava-lhe alguém com uma bata branca fazendo pressão no seu peito.
- Regressar? – Pensou, partilhando um silêncio e uma solidão breves.
Voltar agora que sabia que o fim da vida não significava um ponto final, vazio de existência? Tornou a olhar para o rio distante.
- Capta a essência deste momento, neste jardim nada é aquilo que parece ser, aqui compreendes finalmente a verdade de Deus, o Seu amor pelos outros. É isto que nos dá a certeza do Paraíso. Este é um mundo pisado, repisado e mais uma vez pisado. Este é o lugar do remorso, do arrependimento e da reconciliação, – disse-lhe o companheiro pondo-lhe uma mão no ombro. – A ascensão é lenta, andas perdido no mundo deambulando em busca de ti próprio, no meio de meandros confusos. A vossa separação não foi há muito, apenas um sono único, mas é como se fosse há muito.
O detetive viu que o olhavam à distância, adivinhava-lhes a paisagem mental e emocional, e que uns desafiavam os limites do seu corpo, exigindo-lhe uma escolha entre duas ordens de pulsões, uma ideal e cintilante e outra real e desbotada.
- Amor, - chamou Pureza com a sua inconfundível voz de timbre escuro e quente, a roçar o contralto.
- Uma parte da minha vida acabou naquele dia, – disse o senhor Narciso ao seu companheiro, que sabia agora chamar-se Václav, ao mesmo tempo que olhava com ternura para a sua amada, que não passava de uma silhueta no horizonte.
- Está agora nas suas mãos começar um novo dia. Só o futuro é eterno.
- A ideia que tenho deste lugar é que é caótico…
Foi interrompido por um beijo lento e demorado da mulher que amava, ao mesmo tempo que sentia um sol limpo no corpo. Ela estava mais serena, mais leve. Lembrou-se do amor terno e frágil que se escapara entre os dedos. Narciso nunca esquecera o mal que a vida lhe fizera e por isso poucas vezes praticara o bem, era um ser magoado em busca de um culpado. O ódio vinha-lhe das profundezas.
- Regressámos um ao outro, - exclamou Pureza. – O nosso caso não passou de uma trágica ironia da vida. Neste estado de transição é normal esta confusão de emoções. Precisamos de esquecer o mal para lembrar o bem.
- Falemos um pouco de si e do mundo, - interrompeu Václav.
- A minha vida foi uma grande mentira, - disse com emoção o senhor Narciso, para dar gravidade à afirmação. – Perdi a coisa mais séria da vida, a alegria, e por isso o meu tempo fechou-se. Deixei de gostar de amar, de conversar, de comer…de viver.
- Mas no entanto viveu até ao fim.
- Fim?! É uma opção vivi sempre atormentado pelos afetos, que guardava na memória, porque quando os chamava davam-me um imenso prazer. Senti desespero e humor. Desespero pelo acontecimento e humor por aquilo em que acreditava até ali, a vitória do Bem sobre o Mal. Afinal era tudo ao contrário, a vida era generosa para os maus e tirana para os bons, para a minha querida Pureza, a mulher com cara de anjo, que nunca fizera mal a ninguém.
- Deus também precisa de ajuda, - retorquiu Pureza. – A nossa relação com Ele não é unívoca.
- Ele precisou de ti?
- Para combater o Mal é necessário o Bem, que está em muitos lados, - respondeu Václav.
- Mesmo que para isso tenha de fazer mal a outros? – Perguntou o detetive Narciso olhando para a figura granulada e com ruído de Pureza.
- A tua presença aqui é sinal de que tudo se equilibra um dia.
- Foi por isso que dentro de mim esteve sempre uma luz intensa que me impediu de saltar para o abismo.
- Era eu o teu foco afetivo, sem ele o nosso amor teria sido impossível, - disse Pureza. – O nosso amor tornar-se-ia inviável caso o fizesses.
O grão e o ruído da imagem da mulher aumentaram.
- O que é que isto significa? – Perguntou o detetive, vendo que já não conseguia sentir a sua amada.
- Deus é a criatura mais importante e complexa do Universo. É um génio charmoso, cínico e calculista, com uma musicalidade infinita do verbo. É um ser terrificamente assustador, belo, comovente, dorido e perturbador, que nunca perde o sorriso dos lábios.
Narciso olhou para Pureza e achou-a bela, perfeita e linda. Fitou-a intensamente, mas ela desviou o olhar, mexendo com agilidade os dedos. Alguém sussurrou por cima, com uma voz poderosa e inconfundível, e uma serenidade que só aqueles que já viveram muito podem ter. Václav sabia que a relação entre estes dois seres não tinha sido atingida pela volubilidade do amor e o poder destrutivo da passagem do tempo e por isso Deus tomara a decisão certa ao juntá-los. Mas só Ele é que tinha o poder de ultrapassar as forças ocultas que manejavam, magoavam, decidiam e executavam a arbitrariedade gratuita de quem podia e mandava e tornava a vida num inferno.






