“Tarde de mais para os homens, cedo de mais para os deuses”
Heidegger
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O padre Narciso dirigiu-se, mais uma vez, para a pequena igreja situada numa verdejante colina. Durante trinta anos, trinta longos anos, fizera aquele mesmo trajeto e nada mudara. Sentia-se espiritualmente vergado pela tirania dos seus valores, que já nada significavam para si e que a pouco e pouco lhe tinham corroído a alma. Já nem mesmo sabia se tinha alma! À medida que se aproximava da casa de Deus fazia a retrospetiva de toda a sua vida, tentando encontrar algo de seguro que o ajudasse a compreender as dúvidas que o assaltavam, agora aos setenta e cinco anos. Para trás ficava uma estrada íngreme, semelhante à sua vida, rodeada de árvores de grande porte, parecidas com os seus valores, testemunhas de um passado sem escrúpulos. Era esta estranha angústia que se abatia a pouco e pouco sobre o padre e o fazia recear entrar na igreja. Nunca antes tivera tão estranha sensação e isto assustava-o. Mas a coragem fazia parte da sua personalidade e como em muitas ocasiões, entrou decidido a dar a missa. O rebanho nem se mexeu, pois quase todos eram fósseis, uns devido à idade, outros devido ao espírito. Sabiam que o seu pastor dispensava o cumprimento, preferindo em vez disso que lhe enchessem a caixa das esmolas, base do sustento do seu devorador apetite. Se as rezas destes fiéis valessem dinheiro, já há muito tempo que o templo estava transformado num palácio, em vez da caverna com cheiro a mofo, espelho dos seus clientes. A hierarquia da devoção estava presente, sendo a primeira fila ocupada por treze velhotas muito feias, que passavam a vida a massacrar o espírito do padre e a criticarem os outros sobre aquilo que nunca tiveram coragem para fazer, mas sempre o tinham desejado nos pensamentos mais íntimos. A única consolação do padre era que Deus sabia disto tudo e de que um dia iria atirar com estas verdades à cara destas bruxas. Na sexta e última fila sentavam-se os menos devotos, mas mais honestos, aqueles que no dia-a-dia faziam o que ali proclamavam. O pastor nunca ousara pôr em dúvida o seu rebanho, pois necessitava dele para dominar a região. E assim tudo lhes era permitido em nome duma fé alterada ao sabor das conveniências. Mas algo estava diferente na sua alma, a revolta tomara conta de si e não aguentava mais aquela farsa. Apetecia-lhe rugir como o leão, clamar a sua liberdade e abandonar tudo e todos. Dentro de si desenrolava-se uma batalha decisiva, uma luta entre o presente estagnado e o futuro luminoso. A escolha talvez fosse difícil naquela idade, pois o presente dava mais garantias de sobrevivência do que o futuro incerto. Mas o futuro era mais leve! Com ele ganharia uma alma nova, sem o peso dos valores que o asfixiava lentamente. Durante toda a vida fora obrigado a desprezar as coisas sensíveis, visíveis, finitas, fora obrigado a defender algo sobrenatural, infinito, rodeado de ideias implacáveis que lentamente lhe tinham curvado a alma e lhe desviaram o olhar da verdade. Agora tudo seria diferente! O padre Narciso sentia algo a nascer dentro de si, que lhe dava uma força sobre humana. Isto tudo talvez fosse uma grande verdade, mas no entanto nunca tinha ouvido falar de alguém que tivesse conseguido sobreviver sem comer, e a alma era um animal de muita comida. A missa começou com as ovelhas a responderem-lhe em coro aos seus berros. Até nisto havia uma hierarquia no tom das vozes, tendo as múmias da primeira fila direitas a um maior volume.
A um dado momento teve a estranha sensação de ter parado, de se ter tornado uma estátua por dentro, com movimento por fora. Um silêncio agradável envolveu-o e uma luz radiante levou-o para bem longe dali. Viu-se rígido e imóvel a ser transportado, com a cabeça atirada para trás, para um palco. Aí permaneceu durante algum tempo, sendo contemplado por uma vasta multidão e temido pelas estrelas. Uma imagem esbatida passou junto a ele e bateu-lhe suavemente nas costas. De imediato deu-se no seu corpo uma explosão de movimentos, acompanhado de um hiper discurso incontrolável vindo das suas profundezas. A aceleração do pensamento e das palavras atirou sucessivas rajadas sobre a assistência que o ouvia atentamente. O tempo e o espaço eram agora dons individuais que permitiam aos espectadores ouvir o discurso. Todo o corpo do padre Narciso participava freneticamente através de mímicas, tiques, esgares, carregados de uma energia intensa que afectava e hipnotizava a plateia. Esta, como que contagiada, entrou numa ebulição de gestos e ruídos, tal como um vulcão. Repentinamente foi puxado por criaturas monstruosas do inconsciente para abismos nas alturas, caindo desamparado do céu. Tentou mover a cabeça mas esta não lhe obedeceu. Aliás, nada lhe obedecia no seu corpo torcido. Estava algures, bem longe da vida e da morte.
- Então Padre Narciso, como está?
- Onde estou? Quem é o senhor?
Tentou desesperadamente levantar-se, olhando desconfiado para o estranho. Quem é que seria este rapaz de calças de ganga, rabo-de-cavalo, brinco na orelha direita, camisola com um desenho que parecia ser de um dos muitos conjuntos de música moderna, que há muito lhe infernizavam a vida, desviando os jovens da sua paróquia. O rosto era equilibrado, a pele amendoada, estatura média, olhos azuis, delicadeza e afabilidade. Fez de novo um esforço para se sentar, mas não passou de uma intenção. O corpo não obedecia.
- O que é que estou aqui a fazer? O que é que me aconteceu?
- Não tenha medo padre Narciso. Teve um pequeno problema de saúde, nada que não se resolva.
- É médico?
- Nesta altura já não são necessários médicos. As doenças são caminhos que são atribuídos aos indivíduos. O nosso encontro vai ser breve e tem um nome, Manifestação. Só através dela é que nos podemos encontrar. Estamos aqui para conversar um pouco, – e olhou fixamente para o padre Narciso, mas desta vez com o rosto desequilibrado, aproximando-se. – Chegou a altura de construirmos a sua memória, e tirarmos de lá a palavra que procuro.
- “Construir a memória”?!
- O senhor nasceu num estado de esplendor psicadélico, ou seja, com uma “pedrada”, a gritar no meio da multidão, viveu com a multidão a berrar-lhe aos ouvidos, rodeaste-te sempre por uma pletora de riquezas, entre o torpor e a zanga, sempre de “trombas” e por isso não aproveitaste nada, foi um embaraço para ti, porque o conforto sempre te impossibilitou de mudar. Estás agora aqui mergulhado no silêncio, pois chegou o tempo para a construção da tua memória, que te dará a vida eterna. A Omnipresença está na memória de cada indivíduo, que é exposta quando chega ao Limbo, um local de análise, que decide as etapas seguintes. Pelo que vejo o senhor está cheio de egocentrismo e narcisismo, e por isso sempre se achou dotado da fonte infalível da verdade. E porque as convicções são contagiosas, contaminou muitos, desviou-os do caminho certo. Tentaste esconder aquele dia em que te revelaste o mais selvagem e vergonhoso da tua natureza, mas as memórias não se controlam.
O rapaz pegou num espelho e confrontou o padre com o seu próprio rosto.
- Tens uma alma torturada! “Leve” é a palavra que trazes escondida.
O padre Narciso adormeceu, e do silêncio interior, agudo, assustado, lançou a dor do último grito, mas quando acordou não passava tudo de um inquietante sonho, em que a única imagem que ficara fora a de um cordeiro verde junto à porta do quarto, solitário, inexplicável, sem continuidade. Abriu os olhos e viu que estava numa sala com vários idosos, todos sentados em cadeiras de rodas, com uma tabuleta ao colo.






