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O avô acompanhou-o até aos limites da casa e desejou-lhe uma boa-tarde, pedindo-lhe educadamente para que não os voltasse a incomodar.
- Dá-me uma última oportunidade para tentar esclarecer as dúvidas, Dr. Mário de Miranda? Ou será Mário Joaquim Ribeiro Alves de Miranda, como sempre desejou, mas que o seu pai não registou?
- O que é que o senhor quer dizer com isso? – Perguntou, já um pouco transtornado.
- Sei que o avô ….
- Não me chame de “avô”, o senhor é mais velho que eu. Não posso estar a perder tempo com fantasias, tenho mais em que pensar!
- No seu cancro do pâncreas?
- Como é que sabe disso? É confidencial, não contei a ninguém, os rapazes não podem saber.
- Avô, é tudo verdade, venho de 2023, sou o seu neto Miguel, filho do Jorge. Vim visitar-vos, o meu pai morreu no dia 2 de abril de 2022. Não me peça explicações sobre isto tudo, porque eu também não sei dá-las. Mas esteja descansado, o destino de todos não será revelado, eu não vim aqui para mudar o passado.
Mário de Miranda sentou-se num muro, tirou um lenço do bolso esquerdo do casaco, ajeitou os óculos, e limpou a testa.
- Fantástico! – Exclamou, olhando pela primeira vez para o neto. – Mas ainda tenho dúvidas!
- Ambos temos, e muitas, - retorquiu Miguel mostrando-lhe uma foto de 1943.
- Os meus versos para o António? Mas como é que os conseguiu? Não mostrei a ninguém, tenho-os guardados na escrivaninha!
“Filho perdido!
Cobriu-se-me de sombra o claro dia
Por onde a frágil vida me levava;
Por ele venturoso caminhava
Dos meus entre o amor e a alegria.
Ao meu filho querido eu já o via
No meio dos triunfos que sonhava!...
Passou a asa da morte e transformara
Curta manhã de sol em noite fria.
Como relíquia nesta solidão
Deixou-me n’ alma o derradeiro beijo
Da sua primavera inda em botão,
O adeus supremo o último lampejo.
E chamo: - António! Filho!.. Mas em vão
Ansioso o vou buscando e não o vejo.
Penaventosa
Abril 1943”
O Miguel sabia que o tio António tivera uma vida efémera, nascera em Baião, a 20 de abril, dois dias depois dele, em 1930, dia de Páscoa, às 0H30 em Penaventosa, freguesia de Campelo, e morrera no dia 31 de janeiro de 1943 de sarampo com broncopneumonia e abcesso pulmonar na casa de família na rua Fernandes Tomaz, 242, Porto. Doze anos, somente doze anos! No ano seguinte a Penicilina foi introduzida em Portugal pela Cruz Vermelha.
- Fantástico aparelho, como é que disseste que se chama?
Miguel esboçou um sorriso ao se aperceber que o avô Mário o tratara agora por “tu”.
- Telemóvel, chama-se telemóvel, e serve para muita coisa, mas é principalmente um telefone.
- Como é que o texto sobe?
O neto aproximou-se do visor e arrastou-o com os dedos, passando para o outro verso.
“Angústia
Em sonhos o meu filho bem amado
Veio aquecer a minha solidão:
Entrei no mundo irreal da ilusão
Do seu límpido olhar iluminado!
Contra o peito o seu peito magoado
Cingi a dar-me alento ao coração!
Meiga cara era sol! Com seu clarão
Deixou-me por instantes deslumbrado!
Acorre a mãe dorida de ternura
E o nosso amor o vai acalentando …
O doce sonho teve pouca dura
E foi-se, como sonho, dissipando …
Se me havia de fugir a visão pura
Ai! – porque não continuei sonhando?!!
Penaventosa
Maio 1943”
- Foi duro avô, perder um filho assim tão novo. O meu pai praticamente nunca falou dele, aliás falou muito pouco de vocês, optou por escrever.
- Não se recupera de uma perda destas. Ainda tenho uma sensação visceral de que ele está vivo. Em breve estarei com ele, não é? Sinto a presença do António, é como se ele tivesse acabado de sair para a escola.
- Não sei, não sei!
- Não sabes? Mas estás aqui, sabes mais do que eu!
- Sei que estou aqui, mas não sei como.
- Gostava de adormecer como tu e rever o António. Se alguma vez souberes onde fica a passagem para esse mundo paralelo diz-me. Houve uma coincidência estranha no dia da morte, 31 de janeiro, em 1943, pois foi o mesmo dia e mês do nascimento do meu pai, teu bisavô, em 1838.
Fez-se o silêncio das memórias, até que Mário de Miranda se levantou, abraçou o neto e convidou-o:
- Vem, ficas por cá o tempo que quiseres, temos muito para conversar, e uma coisa é certa, estamos os dois no mesmo dia, que é o sítio onde ambos estamos obrigados a viver. A tua viagem tem uma razão ou propósito. Talvez a energia do António ande por aí, e a sua substância material esteja com ele. O teu aparelho já conserva algo, a imagem. Será que podíamos ir mais longe? Fica, fica o tempo que quiseres, espero que seja muito. Talvez conheças mais um tio!
- Se deixar ir o António, ele libertar-se-á e talvez regresse com mais facilidade. Em 1956 uma ambulância que irá ser oferecida à Santa Casa da Misericórdia de Baião terá como madrinha a avó!
- A minha viúva! Tenho de ir tratar dela, está outra vez cheia de dores.
- É a ciática da avó?
- Como é que tu sabes?
Miguel abriu os braços com as palmas das mãos viradas para a frente e levantou os ombros, ao mesmo tempo que sorria.
- Esquece, tens razão. Estou-lhe aplicando umas injeções nas veias, diariamente, que parece a vão curando, embora lentamente.
O hóspede abriu a bolsa que trazia pendurada à cintura e tirou 4 comprimidos.
- Dê dois à avó!
O dr. Mário de Miranda olhou para o remédio e leu:
- “Algimate”?
- É para as dores!
- E como é que os tiro daqui?
- Carregue no comprimido.
Quando se despediram o neto ainda reforçou:
- Sei que o avô salvou um rapaz de morrer afogado no rio Teixeira, no verão de 1904. E em 1921, dia 30 de março salvou outro na praia da Polana, em Lourenço Marques reanimando-o.
- Como é que sabes? Que pergunta estúpida!
- Li a carta que escreveu em 1932 ao Diretor do Instituto dos Socorros a Náufragos a candidatar-se a uma medalha. A propósito, como é que o processo andou, não descobri qualquer registo nos papéis do meu pai?
- Nem me respondeu!
- A notícia no “Lourenço Marques Guardian” do dia 30 de março de 1921 ficou para a posteridade, a medalha seria só mais uma carica.
- Carica?
- Uma rolha! Um exemplar do jornal está arquivado na Torre do Tombo em Lisboa.
O homem só é forte pelas pessoas que o rodeiam, pela comunidade que serve e pela família que se comprometeu proteger. A força vai busca-la a eles, e por eles tem de estar preparado para dar tudo. A sua vida através do seu sangue, senão tudo o que fez não servirá para nada. Ele é nada. Mário de Miranda, como homem da ciência, ficou a pensar em tudo e em nada, por isso foi à biblioteca e escolheu dois livros, que levou para o quarto. Não disse que revia o seu filho Jorge no hóspede. Uma coisa o bisneto do padre Joaquim já notara, a energia do seu telemóvel conservava-se nos cem por cento, e a data estava atualizada: 18 de novembro de 1949!
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