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“Uma coisa não deixa de ser verdadeira só porque não é aceite por muitos”
Espinosa
Somos todos descendentes de nobres, vadios e padres, e apenas na morte podemos ser imortais, mas antes de morrermos todas as recordações e sentimentos da vida regressam com o mesmo deslumbramento da primeira vez, através de portas que se fecham e de outras que se abrem em lugares inesperados. No momento da morte a nossa mente esforça-se mais um pouco para sobreviver, e a última coisa que vê é o rosto dos seus entes queridos. Através dos filhos persistimos para sempre, por isso nunca nos conseguimos desprender daquilo que perdemos porque estamos impedidos de perecer. As coisas aconteceram, mas não se propagaram, estão desde sempre num lugar que não se pode definir, nem ressuscitar, nem reparar. As nossas vidas são feitas com a morte dos outros, quer sejam pessoas ou células, é por isso que vivemos várias vidas. Amamos pessoas que morreram, qual é a utilidade social disso? Nada! Ou tem um significado que não podemos compreender no mundo dos vivos, como a prova da existência de algo superior. O amor é a única coisa que transcreve o tempo e o espaço. Na noite de 5 de abril de 2023 Miguel sentiu uma entidade estranha, não corpórea, porque não podia tocar, mas podia escutar e encarar como um ponto de luz, o estranho candeeiro da parede do quarto que sempre tivera vida própria. Viu a imagem limpinha de um homem, sem espessura. E foi através de um sussurro saído de um sonho, onde as oscilações quânticas dos eletrões espalhados pelo quarto se emaranharam com as partículas dos núcleos de fósforos das suas células que o Miguel, cujo pai se chamava Jorge, deu de caras com um dos nove filhos, Mário de Miranda, de três mulheres, Ana Miranda, Maria de Barbosa e Rosa Pinto, do pároco das freguesias de Gestaçô e Teixeira, Joaquim Ribeiro Alves de Miranda, Senhor da Casa de Quintela, que nascera no dia 31 de janeiro de 1830 e falecera no dia 17 de setembro de 1912.
- O que distingue os homens dos animais é a capacidade de fazer o sinal da Cruz, - proclamava com frequência nas suas homilias, destreza que dizia ser fundamental na primeira triagem do São Pedro para o Paraíso, pois quem não o fizesse corretamente iria para outra freguesia.
Todos tinham sido criados com a ajuda preciosa da tia Eufrásia Clemente de Miranda, a “minha santa irmã”, como costumava dizer o prior de cada vez que se referia a ela, sepultada na Igreja de Gestaçô perto da porta lateral esquerda, dias depois de falecer com 60 anos em 1897. A questão com que cada um se debate é como vivemos com a nossa sobrevivência? Como damos uso a esta vida que ainda temos? Com as memórias, carregamos a alegria e a dor de muitos, o passado diz-nos como sobreviver, e quando se junta ao acaso forma o elemento básico da evolução.
No dia 1 de junho de 2023, Miguel nunca imaginaria que, durante a visita à igreja de Gestaçô, iria ser transportado para a porta da Quinta de Palmazões no ano de 1949, dia 18 de novembro, sexta-feira. E tudo porque na capela-mor, perto da cadeira paroquial, havia uma deformidade quântica, com uma membrana tão fina na sepultura de Agostinho Clemente de Miranda que, juntamente com o efeito da gravidade, que pode atravessar todas as dimensões, incluindo o tempo, uniu inesperadamente duas pontas do Universo, devido a uma anomalia nos impulsos eletromagnéticos na igreja, e o ADN comum de ambos forçou a sua passagem. Caiu desamparado num buraco que se abriu no chão, a escuridão iluminou-se com uma explosão de luz e de pó das estrelas, a girar à sua volta, e à medida que esvoaçava deixava um rasto de fumo, que ia mudando constantemente de forma. A família, que a pouco e pouco se apagara, estava ali renascida como uma fénix.
Os sentimentos são livres, mas são raras as vezes que as pessoas se atrevem a obedecer, o que não era o caso do Miguel. Por isso disse em voz alta ao ver o Jorge encostado à mãe no topo da escada:
- Pai!
Todos ficaram estáticos, atónitos, Miguel sentia o peso do olhar do grupo sentado nos degraus da porta de entrada da casa da Quinta da Telheira, ninguém possuía as ferramentas para superar este teste do tempo. Miguel, de 62 anos, olhava emocionado para o Jorge de vinte. Deixou cair uma lágrima, só uma. Ao lado da avó paterna estava o marido, Mário de Miranda, com óculos, médico, 61 anos, que o Miguel sabia que iria morrer no ano seguinte, no dia 22 de junho de 1950 às dez e meia da noite, no Hospital da Ordem do Terço, no Porto, onde seria submetido a uma operação a um cancro pancreático.
- Bom dia caro senhor, o que podemos fazer por si? – Perguntou o avô, que ele sabia que gostava de caçar codornizes, tinha lido numa nota que o pai deixara escrita, e que escrevera numa carta, enviada do Gerês, no dia 13 de agosto de 1928, para a mulher Maria da Glória, “eu animo pouco porque não danço, no entanto gosto de ver dançar”, mexendo somente os lábios, esforçando-se para se manter sereno perante tão invulgar situação.
A normalidade do tempo não existe, é apenas a forma como os homens se defendem da ideia da morte. Tudo pode acontecer por uma razão. Os minutos estavam divergentes, diferentes em algo, estranhos. Diferentes na maneira de viver no mundo, e especiais em casos como este, pois tudo indicava que tinham estado sempre ali. Miguel fechou os olhos procurando refúgio na escuridão. Beliscou-se, mexeu-se, gritou, mas quando os abriu viu-os de novo.
- Um maluquinho! – Exclamou o Jorge com a sua voz “saloia, fanhosa, ridícula”, como a iria definir dois anos depois, após a ouvir numa gravação feita durante uma visita aos estúdios da BBC, no decorrer das filmagens do filme “Angels one five”, onde iria participar como figurante aos comandos dum Hurricane MK II C, integrado numa esquadrilha de 5 aviões portugueses.
Miguel tentava agora compreender uma parte do mundo que antes não entendia, a possibilidade de regressar ao passado, uma possibilidade do eterno retorno, que só pensava ser possível após a morte, mas que neste caso acontecia em vida. Sentia-se bem vivo numa união com tudo e todos.
- Que brincadeira é esta? – Perguntou o Vítor, de 21 anos, com um olhar provocador, gravata às riscas e meias brancas.
Miguel olhou para o futuro campeão nacional de rugby e futuro especialista em “isótopos radioativos”, e limitou-se a encolher os ombros.
- Que disparate, - interveio a tia Dulce, cujo sobrinho Victor a fora esperar ao vapor que atracara no porto de Lisboa, juntamente com o marido, Amador, mãe do Joaquim e nora da Ilda, também ali sentados. – A moda do Brasil já chegou aqui, malandros a fazerem-se passar por familiares.
O tio Mário estava de camisa clara, e a única recordação era o carro de brincar que lhe dera na visita que futuramente, mais de dez anos depois, iria fazer-lhes a Moçambique, já como médico. De resto, só guardava um fragmento da irmã Teresa a chorar copiosamente na casa da Dona Aninhas, que fazia uns saudosos biscoitos de canela, cujo rés-do-chão estava alugado à Bá e ao Mene, avós maternos, na rua Lino de Assunção, em Paço de Arcos, após serem informados do suicídio do “potencial” cardiologista no dia seis de setembro de 1967 às 10H30, no Hospital de Santa Maria, de “fratura do crânio com laceração de encéfalo”.
- Que idade é que o senhor tem? – Perguntou, fixando o olhar no desconhecido.
- 62!
- 62?? E chamou pai ao meu irmão Jorge?
- Sim, ele é o meu pai!
- Até a idade é mentira, - gritou exaltada a convidada. – O meu primo Mário, aliás Dr. Mário de Miranda, tem 61, e o senhor, nem sei se lhe posso chamar isso, diz que é mais velho e nem uma ruga tem. Tenha paciência, vá enganar outros.
- Calma Duce, não te zangues, - tentou o marido.
- Gostou da estadia em Vidago, tia Dulce? – Perguntou o Miguel, tentando desanuviar o ambiente. – Sei que se casou no dia 6 de agosto de 1916, e os padrinhos foram o meu tio avô António, filho da Rosa Pinto, casado com a tia Eva. O registo civil foi em casa e o ajudante cobrou cinco escudos por esta cerimónia. À noite decorreu na igreja. O tio Aflalo contou, numa carta que enviou para o meu avô Mário, que estava como tenente médico no Hospital de Lourenço Marques, que tinha tido problemas à saída com os irmãos do Eduardo Miranda. Sei também que é madrinha do meu tio Mário, que no dia do batizado, a 17 de abril de 1933, por estar no Brasil foi representada por procuração pelo meu tio avô paterno Aflalo de Miranda.
- Isso é tudo muito bonito meu caro senhor – retorquiu a tia Dulce com o indicador apontado ao desconhecido. - Leu as datas nos livros das igrejas e agora debita-as.
- Pergunte tia Dulce, mas não espere que eu saiba tudo!
- Qual foi a data do batizado do meu filho Joaquim?
Miguel procurou por breves momentos no telemóvel, e respondeu:
- 1 de março de 1920, no Brasil. Tinha 2 anos, e na carta que enviou ao meu avô a 10 de março de 1920 para Lourenço Marques, dizia que ele estava “muito atrasado no falar, mas chama-te «doudô»”.
A cadela branca escondeu-se atrás do tio Fernando
- Meu Deus - exclamou o Amador, benzendo-se.
- O que quer que possa acontecer, acontece! – disse o tio Fernando.






