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- Como está?
Quando as pessoas lhe faziam a pergunta, a mãe Joana sabia que elas não queriam uma resposta, por isso não lhes respondia. Precisaria a partir deste momento de redescobrir a vida, que agora se apresentara sem mentira e sem ilusão. Viver o instante era inútil, pois a vida é duração. Será que ainda poderia ser feliz? A sua vida misturava verdade e sofrimento, amor e solidão, por isso não sabia se estava disposta a continuar a amá-la como ela agora se apresentava. E se a estória tivesse sido outra? Parte da manhã seria passada no Tanque de Recuperação, por isso o ambiente era o equivalente aos 35 graus centígrados da água. Havia vapor no ar, e um amigo à sua espera lá dentro. Trinta minutos de liberdade, com a nuca apoiada num “chouriço”, e um fato de banho azul claro, alternavam com um embalar de dois braços, e um diálogo em que o professor usava palavras e a aluna gestos corporais, que muitas vezes se confundiam com tentativas desesperadas que imploravam para uma fuga à dor. Ele acreditava que havia mundos maiores do que ele conhecia, mas desconhecia que a mente e o corpo deveriam estar alinhados para que algo acontecesse. O professor caminhava então no limiar entre dois mundos, embalando nos braços a sua aluna. Imaginava a presença do espírito que, com um simples gesto, daria a Sofia uma nova vida, que os sapientes diziam ser impossível. Contava-lhe que esperava que alguém acenasse com uma mão do outro lado do tanque, no meio do nevoeiro, “talvez um hippie com uma túnica branca, cabelo comprido e uma barba desalinhada”, que lhe diria:
- Levanta-te e anda!
E depois imaginava o desenrolar dos acontecimentos, tentando faze-la vomitar o fantasma que a assombrava. E como a cada pessoa é-lhes dada um desafio conforme as suas possibilidades, a nova Sofia seria entregue a caminhar à pessoa mais próxima que seria envolvida nos acontecimentos posteriores, e transmitir à mãe qual era a primeira vontade que a filha manifestara: ir fazer compras para a “Zara”! Porque o professor tinha entendido a dor alheia, aceitara-se a si próprio, com lacunas e vulnerabilidades, abrindo assim a janela por onde entrou a inesperada transparência da Graça. Margarida ouviu tocar, e disse:
- Entre!
A porta do gabinete abriu-se lentamente e uma figura feminina esguia apareceu. A terapeuta arregalou os olhos, benzeu-se cinco vezes, ao mesmo tempo que se ajoelhava, juntando as mãos em devoção àquela Sofia, que parecia a sua Sofia, mas que era impossível ser a Sofia. Tinha sete anos quando se confessou pela primeira vez, e lembrava-se ainda do pavor com que estava por não ter matéria pecaminosa na alma. Ao aperceber-se disso o padre pegou-a ao colo, e sugeriu que se lembrasse de alguma falta escolar.
- Menti à minha mãe, - respondeu, corando.
Lembrou-se de imediato de uma estória do livro de leitura, em que uma rapariga tirara um rebuçado à mãe e acusara a irmã. Quando chegou aos treze anos, a confissão foi mais arrojada:
- Dei um beijo na boca do meu namorado.
- Mas isso não é pecado, - disse-lhe o padre contra todas as espetativas, - é amor.
- Meti-lhe a língua na boca, - retorquiu.
A partir desse momento ir ao confessionário tornou-se raro, a religiosidade foi transferida para o dia a dia.
Tudo o que acontece deixa uma marca no espaço, no tempo e em nós. Por isso as preces tinham sido ouvidas, Deus insistia em continuar a escrever certo com linhas tortas, por isso deixou um recado no chão junto ao caixão, para ser lido por uma única pessoa, a terapeuta Margarida: uma etiqueta da “Zara”!
Talvez um dia a mãe Joana voltasse a sorrir, mas só pela metade!






