sexta-feira, 27 de março de 2026

19 - A Segunda Metamorfose

 

19

Os meus sonhos evocam imagens de outras eras distantes, vejo olhares hostis, medonhos e perversos, ouço murmúrios, pareço ter um corpo sem corpo. Todos correm para um fim, incluindo eu, – disse Rita ao doutor Cinfuentes, balançando-se de um lado para o outro de forma suave, constante e uniforme. – Os meus pensamentos estão caóticos, são superabundantes e excessivos, são fantasmagóricos.

O médico conservava-se junto à sua paciente, observando-a. A expressão dela revelava uma ingenuidade imatura.

- Vejo seres famintos e errantes, – dizia, olhando através da janela para o horizonte.

Rita estava só e sentia-se recolhida em algo que não era seu. Quando não olhava para lá da janela inspecionava meticulosamente partes de si.

- Estou a desintegrar-me, – disse com paixão. – Sinto que vou partir, somos todos a mesma coisa.

O desconhecido parecia atrai-la, a aglutinação de obsessões incluía um ambicioso e imaturo desejo de passar pelo paraíso. A perturbação era indefinível e o sofrimento intolerável.

- Tenho uma noção clara da importância relativa das coisas.

Os olhos brilhavam na tensão das emoções deste jogo de conflito entre várias identidades.

- Rita, qual é o sentido de tudo isto para si?

- Estou confusa, as coisas confundem-me, perdi a noção da realidade. Parece que vivo um pesadelo.

- Um pesadelo ou um conto de fadas? – perguntou o médico aproximando-se e colocando-lhe carinhosamente a mão no ombro.

- Se fosse um conto de fadas a minha vida estaria muito melhor.

- E não está? Uns dias atrás a sua vida resumia-se a uma cadeira de rodas, imóvel.

- Mas não me lembro de ter alguma vez sofrido, não estava cá.

- Então, estava onde?

- Não sei, parece que não tenho passado, mas sim memórias confusas de vários passados. E nem ser do momento consigo.

O medo estava presente nas suas expressões, Rita parecia estar a jogar entre a vida e a morte.

- Doutor, o que é que vê no jardim?

O médico aproximou-se da janela e respondeu-lhe de imediato:

- Vejo um jardim vazio.

- Eu vejo imagens de pessoas que sobem e descem, gente de um tempo já cumprido, que não possui sombras. Vejo com extrema nitidez figuras que me são próximas.

- Quer ir até lá baixo?

- A minha vida é uma viagem contínua, - disse, encaminhando-se para fora do quarto.

Após sair pela porta principal parou junto ao primeiro degrau.

- Sinto-me ligada a uma corrente, vejo massacres, escravidão, pessoas a morrer de peste, tudo isto para que outros gozem de excelente saúde. Chama-se a isto “Ajustamento Divino” e chegou agora a minha vez de ser atraída para um buraco negro.

- O que vê mais, Rita? – perguntou o médico fascinado pelas descrições da sua paciente.

- Vejo ondas de luz geradas pela conexão entre os que morrem e os que nascem. Estou com medo de lidar com esta realidade, - agarrou-se ao médico e encostou a cabeça no seu ombro.

- Medo de quê?

- De confrontar-me com os meus medos, com a rudeza agreste do futuro. Vejo as pessoas com os pés no pó, nos detritos, na lama, só oiço zumbidos e silêncio, apetece-me gritar a ignomínia.

O médico observava com atenção a paciente. A sua mente estava estranha, levava-a a fazer coisas estranhas, como falar com pessoas imaginárias. Dizia a uma tia invisível, a tia Didi, que se sentia uma cobaia dos caprichos de Deus. Rita parecia refém de uma anarquia emocional. Apesar da mente desesperada, parecia ter uma imensa vontade de viver e ser feliz.

- Com o meu despertar do espaço solitário e mudo, acordaram também os meus próprios problemas.

Rita parecia estar numa luta feroz, que se deslocava do presente para o passado, como num passe de mágica, em direção a um mundo obscuro de ambiguidades e manipulações, que lhe dava acesso a pensamentos e memórias de outras pessoas, levando-a a um comportamento quase obsessivo e auto destrutivo, que lhe entreabria um mundo de fantasia, de pesadelos e demónios.

- Vejo um sol negro de onde só irradia uma noite muito escura. É a noite do mundo, chegou a minha vez.

Denotava sinais claustrofóbicos, estava exausta, tinha maneirismos, a cara era triste. Correu para o quarto, deitou-se e deixou de respirar.

quinta-feira, 26 de março de 2026

18 - A Primeira Metamorfose

 

18

- Doutor Lipiérre, consegui a ligação para o hospital de Mount Carmel, o doutor Cinfuentes está em linha.

- Obrigado senhora enfermeira.

O diretor do asilo de Salpêtriere poisou o álbum de fotografias na mesa e agarrou com força no auscultador.

- Doutor Cinfuentes, como está?

- Muito bem, muito bem, e o colega?

- Li o artigo do jornal acerca da vossa paciente, Rita. Aconteceu-nos o mesmo. Um dos nossos internos também despertou e era uma das vítimas da encefalite letárgica dos anos vinte e está aqui connosco há várias décadas – disse, ao mesmo tempo que olhava para a fotografia do recorte.

- Um acordar completo! - Exclamou o médico americano.

- Completíssimo, está a passear, mas muito perturbado.

- Há outro caso!

- Outro? Onde? – Perguntou o doutor Lipièrre.

Por momentos o outro lado do Atlântico ficou em silêncio, até que a voz pausada do doutor Cinfuentes se fez ouvir de novo:

- Em Highlands, ouvi na rádio. O caso é igual à da nossa Rita Bouvalier e ao seu…

- …Narciso Baeta. Com que idade é que a Rita foi internada?

- Aos 18 anos, – respondeu Cinfuentes.

- Dezoito anos! E esteve sempre internada?

- Nunca mais saiu, o parkinsonismo dela é, ou melhor, era uma autêntica masmorra. Está muda a olhar através da janela.

- Colega Cinfuentes, temos de nos encontrar.

- Aproveito a ocasião, vou passear até Paris e faço-lhe uma visita.

- Aguardo a sua vinda com ansiedade.

O doutor Charles Lipièrre diretor do Asilo de Salpêtrière acabara de ser informado que a perturbação do seu paciente Narciso Baeta se tinha agravado, procurava desesperado por uma senhora de nome Lilith em todos os cantos do estranho labirinto. O médico ficou parado, estático, preso a um pensamento que se desenrolava automaticamente, mas ao mesmo tempo consciente da importância do assunto.

- “Lilith”?

Levantou-se atordoado, olhou em redor, regressou à sua realidade e saiu apressado do gabinete, em direção ao vasto jardim onde estava o paciente do quarto nove. Aproximou-se em silêncio e descobriu-o dobrado, junto a uma pequena inscrição no meio das ervas. Observou-o com emoção e esperou, como de costume, pois sabia que o tempo era sempre um bom conselheiro nestes casos. O que estaria o senhor Narciso a ver? Numa pedra corroída pelo tempo alguém gravara um estranho nome: Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua! Pôs a mão no ombro do paciente e este limitou-se a olhar e a afastar-se. Encontrou-o um pouco mais à frente, envolto numa neblina espessa, parado junto a um bloco de pedra esverdeado devido ao musgo:

 

“ Presságios, Prevenções, Previsões e Prudências

Há uma violência boa?

Todo o mal terá uma entidade metafísica a fundamentá-lo?

O que é a vida?

Onde fica o Paraíso?

O que é maior que Deus?

O que é pior que o Diabo?”

 

O tempo encravara-se entre a manhã e a tarde e o detetive parecia estar numa paz satisfeita, pleno de confiança e vigor.

- Então senhor Narciso, já respondeu a tudo? – Perguntou o médico, sugerindo-lhe um sorriso, ao mesmo tempo que descobria o perfume de uma cerejeira em flor.

- A vida é tão frágil, - murmurou o detetive. – Sinto a intensidade excessiva da minha própria mortalidade. Saber não é pior do que não saber.

- As coisas nunca são como nós queremos, pois não?

Uma breve eternidade pareceu poisar nos raios luminosos que riscavam a escuridão áspera de um canto, quando o vento caía sobre eles.

- Ele diz tudo durante as ausências, - exclamou o paciente.

- Ele? Ele, quem?

- Estou numa encruzilhada, cai numa cilada e estou perdido, - respondeu com a tristeza no seu olhar e um lamento na sua voz. – Acenaram-me com joias e eu vendi-lhes a alma.

- Tem recordações do seu passado?

- Mais ou menos, mas não é só um, são vários. Aprendi que os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa, e que para eles ficção e realidade são uma só verdade.

O detetive parecia estar a fazer uma espécie de catalogação de factos, dir-se-ia que a sua ligação íntima com a vida perdera-se, o seu mundo estava a desfazer-se.

- A vida é efémera e irrepetível, – disse, apanhando uma flor amarela, a quem deu um nome impercetível.

Havia uma tensão entre a norma e o desvio, uma aberração de acontecimentos e comportamentos.

- Os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa e a ficção e realidade são uma e só uma verdade, - repetiu.

Parecia estar a agregar pessoas afetivamente importantes, à medida que ia colhendo flores de várias cores, e relacionava-as com lugares. Parecia misturar num mesmo sentido a alegria, a dor e a morte.

- Estou preparado, – e deu um passo em frente, especulando compulsivamente antes de cair desamparado no chão.

segunda-feira, 23 de março de 2026

17 - Buraco de Verme

 

17

O “Umbigo de Eva” era um “Buraco de Verme”, um atalho cósmico que permitia uma ligação com uma determinada região do Universo, mas isto o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, contratado por Deus para encontrar Lilith, não sabia. Começou por ver uma imagem desfocada de alguém que o chamava, dizendo o seu nome. A dimensão de tudo era desmedida, os sentidos confundiam, o nariz tacteava, os ouvidos saboreavam, os olhos ouviam, a boca cheirava. À medida que avançava iam-se abrindo portas, cada uma com um relógio e uma hora diferente, que davam acesso a salas cheias de memórias, de sonhos e de sombras que entravam e saíam, chamando-o por centenas de nomes. Viu-se rodeado de uma paz e tranquilidade tão puras, que inconscientemente sorriu. Apercebeu-se que a dimensão não era a sua quando se viu rodeado por fadas com dentes afiados, que lhe despertaram os sentidos. Lilith existia para desactivar a obra de Deus, e Este para a manter activa. Era por isso que os dois se completavam e eram importantes para que o Universo conseguisse avançar nesta profundidade de conflitos. Provocaram invejas, ciúmes, ódios e despeitos, na longa e tumultuosa história da evolução do Cosmos. A uma dada altura apareceu um duende que se apresentou como o “seu Anjo da Guarda”, que tinha como missão evitar que lhe roubassem a alma. Mas o perigo só era maior se ele tivesse nascido uma mulher bonita, o que não era o caso nem como homem.

 

Nova Iorque, Hospital de Mount Carmel, 13 de Junho de 1969.

No pavilhão dos “ mortos-vivos “ reinava a excitação. Os médicos corriam apressadamente de um lado para o outro, levando a reboque as enfermeiras e os assustados estagiários. Todos esperavam pelo doutor Cinfuentes, que acabara de entrar no edifício.

- O que é que aconteceu aqui de tão importante, para me acordarem a esta hora da manhã? - Perguntou o director, vestindo atabalhoadamente uma impecável bata.

- É a paciente do quarto nove, – respondeu-lhe a obesa enfermeira-chefe. - Hoje de manhã quando os auxiliares lhe foram dar o suplemento, estava de pé junto à janela.

- A senhora Rita Bouvalier de pé? É impossível!

Entraram de rompante no elevador e carregaram no botão para o quarto andar. O silêncio era pesado, os olhares perdiam-se no vazio, como luzes descontroladas numa noite de nevoeiro. Os médicos recém-formados colaram-se à parede do fundo, receosos pelo que iriam encontrar. Uma campainha anunciava a chegada, ao mesmo tempo que as portas se abriam com estrondo. O quarto nove estava entreaberto. O doutor Cinfuentes espreitou cautelosamente, hesitou, mas por fim tomou a decisão e entrou. Viu um vulto de mulher junto à janela gradeada, contemplou-a carinhosamente por uns instantes e aproximou-se. A paciente olhou para o horizonte e murmurou baixinho uma frase:

- Transpus a porta, transpus a porta, transpus...

Observou-a fascinado, olhou em redor, não procurou explicações porque sabia que não existiam, dizendo com um tom jocoso:

- “Só sei que nada sei”!

Rita voltou-se. Os olhares encontraram-se, o diálogo foi fundo, bem fundo nos alicerces da alma, falaram animados em silêncio e sem palavras, procuraram desesperados a memória que descobriram ser comum, e soltaram-se repentinamente, assustados. No corredor uma multidão esperava-o ansiosa.

- Então doutor? - Perguntou a enfermeira, encostando-o à parede com a sua enorme barriga.

- Colega, – disse o médico, apontando para um dos estagiários. - Como se chama?

- Carlos, Carlos Tompson.

- Carlos, entre no quarto e diga-me que idade dá à paciente.

O jovem avançou com receio, empurrou a porta, entrou cautelosamente e ficou paralisado quando encontrou o olhar de Rita, que avançou para si.

- Transpus a porta, – disse-lhe, pondo as mãos nos seus ombros.

Os olhos azuis desbotados da paciente cravaram-se bem fundo no seu interior, o cabelo cor de fogo atirou-lhe com um perfume floral e a pequena boca continuou a soltar as palavras:

- Transpus a porta.

Afastou-se, desligou-se do presente e retornou ao horizonte. Carlos saiu desorientado e foi de encontro à enfermeira-chefe Zobáida Mercedes.

- A idade? - Perguntou.

- Sim, eu só quero um palpite, – respondeu Cinfuentes, acordando-o.

- Quarenta e cinco, talvez cinquenta.

- Quarenta e cinco?! Cinquenta?! - Exclamou Zobaida, consultando a ficha que tinha na mão. – A senhora Rita Bouvalier tem sessenta e sete anos.

- Sessenta e sete, é impossível!

- Meus senhores, temos aqui algo que ultrapassa a ciência, tal como a conhecemos. Antes de avançarmos mais, é melhor acompanharem-me ao gabinete, para esclarecermos algumas ideias.

O grupo obedeceu dirigindo-se em marcha forçada para a sala, onde entraram de rompante e cada um escolheu uma cadeira e sentou-se.

- Já ouviram falar da “Doença do Sono”?

- “Doença do sono”?

- São muito novos, hoje em dia não lhes ensinam história na faculdade, – respondeu secamente a enfermeira-chefe.

- Não é com histórias que curamos as pessoas! - Exclamou um dos novatos.

- Engana-se, – disse-lhe Cinfuentes. – É na História que muitas vezes se encontram as curas, porque se repete indefinidamente. Mas o que nos traz aqui é a Encefalite Letárgica! Um dos maiores enigmas da medicina, uma doença terrível que aparece, dizima e evapora-se sem deixar rasto, aliás o único sinal da sua presença são os três pacientes que temos aqui há várias décadas. Senhora enfermeira, conte a anamnese da Rita Bouvalier.

- Nasceu em 1902 em Viena e aos dez anos mudou-se com a família para Paris. Teve uma infância feliz e aos dezoito anos, quando se preparava para casar, foi acometida de uma doença súbita, que a deixou prostrada na cama. O médico que a assistiu, não conseguiu fazer nada e algumas horas depois declarou-a cadáver, devido a uma síncope cardíaca. Na noite do velório uma das criadas descobriu que a Rita estava a chorar. Afinal não estava morta! Foi internada num hospital e nunca mais regressou a casa. Permaneceu numa cadeira de rodas, imóvel, durante estes anos todos. Veio para aqui em 1945.

- E o que é incrível, é que apesar de ter estado como uma estátua durante décadas, com uma postura péssima, não há qualquer tipo de deformações, e o envelhecimento atrasou-se consideravelmente.

- Sessenta e sete anos?! - Interrogou-se um dos assistentes, deixando escapar o pensamento.

- E apesar de tudo move-se, – continuou o doutor Cinfuentes, cada vez mais entusiasmado. - Raramente os vimos moverem-se! A altura mais interessante é a das refeições, todos são independentes nesta área, mas não os vimos comerem, temos de sair do refeitório. Quando voltamos, os pratos estão vazios.

- Doutor, – interrompeu um dos colegas. - Mas a encefalite letárgica devia ser mortal ainda por cima naquela altura.

- Em todo o mundo devem ter morrido milhões de pessoas, os poucos que sobreviveram devem ter sido aqueles a quem Deus protegeu, não sei para quê!

- Ou castigou! - Disparou a enfermeira Sobaida, sem levantar os olhos do processo.

- Depois da encefalite letárgica, quem ousou sobreviver, desenvolveu um parkinsonismo, que o deixou um morto-vivo. Eles são só alma, estão bem longe!

- No caso da senhora Rita Bouvalier, regressou ao corpo, – provocou de novo a enfermeira.

- Pode ter regressado, mas de dentro! - Ajudou um dos enfermeiros, que estava escondido atrás da enorme silhueta da sua colega.

- O quê? O colega se não tem nada para dizer, não diga disparates.

- Senhora enfermeira, não foi dito nenhum disparate, – disse Cinfuentes. - A discussão deve situar-se no plano metafísico, pois ao nível da medicina não vamos descobrir nada.

- Por amor de Deus senhor doutor, nós não somos padres!

- A alma não é exclusiva dos padres. Os médicos deveriam compreender que muitas das doenças do corpo se devem a problemas na alma. Quando soubermos respeitá-la, então respeitar-nos-à! O nosso trabalho com a senhora Rita Bouvalier vai ser de observação e registo. Alternamo-nos, vamos estar com ela vinte e quatro horas por dia, a registar tudo o que fizer e disser, incluindo os sonhos. Reunimo-nos todos os dias aqui e a esta hora. Bom-dia a todos!

Junto da grande janela do quarto número nove, a paciente falou para o horizonte:

- John, tu não vais passar, esta porta só dá para o passado, e tu não tens passado...

 

Hospital de Highlands 13 de Junho de 1969.

A notícia correu depressa pela região, o paciente do quarto número cinco, o senhor Paulo Prestes, acordara do seu longo sono e passeava agora calmamente pelos bonitos jardins, na companhia da fiel enfermeira Margarete. Eram observados do alto pelo director.

- Há quanto tempo é que ele está aqui, doutor Preston?

- Segundo a ficha, o senhor Prestes entrou há vinte anos, com um parkinsonismo pós-encefalítico.

- A “Doença do Sono”?

- O senhor director conhece a doença?

- O meu pai tinha seis irmãos, ele foi o único que não apanhou a encefalite letárgica. Todos morreram! Estava em Viena em 1916, o meu pai tinha sido nomeado embaixador. Apesar de nunca ter conhecido nenhum deles, quando vi pela primeira vez uma fotografia da família, aos 7 anos, disse o nome de todos sem me enganar. A “doença do sono” deixou marcas na família!

- Parece um milagre, o senhor Prestes ontem levantou-se normalmente e foi passear para o jardim. Parece não saber onde está, e nem pergunta, o único nome que menciona é Rita, que desconhecemos quem seja.

- Já viram nos arquivos?

- Há muitas Ritas no nos nossos registos

 - Deixem-no sentir o mundo, está perdido no tempo, tem de ser ele a encontrar-se!

 

Asilo de Salpêtrière 14 de Junho de 1969.

- Qual é o nome do paciente? - Perguntou o doutor Charles Lipiérre.

- Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, é dos pacientes mais antigos, está connosco há trinta e um anos, e quando entrou tinha setenta e cinco, – responde o seu assistente.

- Cento e seis anos? E está muito activo!?

- Neste momento passeia-se no jardim, aliás, foi lá que o descobrimos. Nunca pensámos que um homem daquela idade e há tanto tempo imóvel, já entrou para aqui naquele estado, parecia uma estátua, se levantasse e andasse com tanta energia.

- Deixe-me o processo, vou dar-lhe uma olhadela.

O doutor Lipiérre deu uma espreitadela rápida pela janela, na esperança de conseguir ver o “ressuscitado”, mas ficou-se por um bando numeroso de pombas, que executava na perfeição manobras temerárias. Sentou-se na poltrona cor-de-azeitona, puxou dum cachimbo já carregado e abriu o processo que estava em cima da mesa, ao mesmo tempo que tentava arrancar com a fumaça.

 

Nome: Narciso Serapitola Figueiredo Baeta

Data de nascimento: 13 de Janeiro de 1863

O paciente nasceu em Nova Iorque, sendo o filho mais velho de uma grande família de classe média. Aos dez anos de idade mudaram-se para a Europa, mais precisamente para a cidade de Paris, de onde nunca saíram. Durante a infância nunca sofreu de doenças sérias, o seu aproveitamento escolar foi brilhante e quando concluiu a licenciatura em medicina e cirurgia decidiu enveredar pela carreira eclesiástica. O seu espírito ávido levou-o a percorrer os quatro cantos do mundo, em missões evangélicas, que cumpriu com brio e determinação. Em 1908 um incidente veio mudar-lhe o rumo da vida. Um incêndio na vivenda do seu pai, durante a festa anual da família, acabou em tragédia. Todo o clã Baeta pereceu, excepto o padre Narciso, que se encontrava ausente no Vaticano. A notícia causou-lhe um choque tremendo. Nos dias seguintes começou a sofrer de pesadelos aterrorizadores, imaginava-se a cair num poço sem fundo, não fazia movimentos, era uma estátua, queria acordar mas não conseguia, chamava desesperado pelo pai, que aparecia e desaparecia, até que era desperto pelos seus companheiros. A conselho de um médico seu amigo, retirou-se para uma abadia nos Alpes. Aí permaneceu durante cinco meses, até conseguir recuperar a lucidez por completo. Decidiu então refugiar-se numa capela de uma aldeia perdida numa floresta francesa e pediu ao Papa para exercer aí o seu magistério. O pedido foi aceite e ficou até 1938, ano em que o imprevisto aconteceu, durante a celebração da missa da manhã. Quando levantou os braços para agradecer a Deus o bom ano agrícola, caiu desamparado por cima do altar. Voltou a si acompanhado com movimentos súbitos e imobilizou-se por completo. Virou ainda os olhos para o altar e assim ficou. O médico local foi rápido no diagnóstico: “catatonia”. Trouxeram-no para esta instituição e aqui esteve imóvel, excepto durante as refeições, até agora.

- Não há dúvida, o corpo está submetido à alma, – exclamou o doutor Lipiérre, atirando para a mesa o dossier.

Foi interrompido pelo barulho de alguém a bater à porta com insistência.

- Entre, está aberta.

Um enorme enfermeiro, com um volumoso bigode, entrou de rompante e pediu ao director para o acompanhar à fonte velha. Precipitaram-se pela escadaria numa corrida louca e embrenharam-se pelo labirinto de sebes, uma obra fantástica feita por um jardineiro local. Ao passarem pela “curva-das-cebolas-nuas”, o espectáculo apareceu-lhes de frente. Em cima da “sereia-verde”, que “chorava desalmadamente”, palavras do jardineiro, o senhor Narciso Baeta gritava para a vasta assistência, que se sentara para o ouvir.

-...eu passei a porta, sou o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta e fui contratado por Deus para procurar a sua amada, Lilith. Tudo depende de Dele, não só aqueles que vivem, mas também a lei, a ordem, a vontade, as verdades eternas, o meu cão, as vossas doenças, tudo, tudo... Deus conserva-nos e é por isso que existimos... Passei a porta com duas pessoas, a senhora Rita Bouvalier e o senhor Paulo Prestes. Alguém os viu? E alguém conhece um motorista com um nome esquisito, Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua?

- Cento e seis anos? Este paciente teve o corpo parado, mas a sua alma parece ter viajado muito, – disse o director, fazendo uma festa numa grande flor amarela. – Sabe que esta planta deve ser única no planeta e que em termos genéticos a sua existência é teoricamente impossível?

- Mas no entanto existe.

- E como é que terá vindo parar aqui?

- Poeira cósmica. Li há pouco tempo um artigo muito interessante sobre o tema. Entre biliões de grãos de pó que caiem na Terra todos os dias, estatisticamente é provável que um traga uma semente.

- E haveria logo de ser aqui e germinar?

- Em algum lado teria de cair. E se resistiu a tudo, as probabilidades de vingar eram quais cem por cento. É como este labirinto, será por acaso que terá a forma de um cérebro ou foi intencional?

- Pergunte ao jardineiro.

- É nosso paciente do pavilhão quatro.

domingo, 22 de março de 2026

16 - O Umbigo da Eva

 

16

A passagem pela porta, com o nome técnico de “Banda 2 do Espectro”, era conhecida como “O Umbigo da Eva”, foi rápida e silenciosa. Apenas um túnel que guardava uma noite muito escura.

- A escuridão foi feita para purificar as almas, disse o Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua.

- Vem comigo?

- Estou a esconder-me do Papão.

- Mas afinal, quem é o Papão? – Perguntou o detective puxando as golas largas do motorista.

- Dies Irae, vem fazer um “Juízo Final”. O Universo precisa de uma manutenção contínua, renovar almas, recolher “ideias”. O Papão é um ambientalista fervoroso.

O detective espreitou por uma janela e viu, fascinado, o horizonte repleto de unicórnios brancos. Um dragão aproximou-se da porta e olhou curioso para o senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta que recuou assustado. O motorista contou que se escondia do Papão, pois se fosse revistado ele descobriria as suas “ideias” ilegais, que seriam confiscadas e a “vida deixaria de ter piada”, confessou.

- Detective, neste Universo imenso há seres de vários tempos, dotados de “genátomos”, “ideias” que têm ao mesmo tempo o passado, o presente e o futuro, e flutuam entre eles.

As lágrimas escorriam pela face do senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, que encostou a cabeça no colo do motorista Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua. Era a força do espírito a brotar do inconsciente em catadupas de emoções e temores, que iam muito para além da essência do ser.

- O que é que irá ser de mim? – Perguntou o detective angustiado.

- Chora, deixa esses vulcões expelirem o teu íntimo, sente a tua existência, a água que foge nas tuas lágrimas não se perde, voltará um dia numa nuvem anunciando a bonança, e tu estarás lá para recolhê-la. O teu temor é uma realidade, tudo se transforma em sobressaltos da alma, em direcção a um novo ser infinitamente maior e mais profundo, capaz de se modificar dia após dia, até atingir um plano afectivo e espiritual, que será comum a todas as espécies e se situará no centro da verdadeira realidade.

Lilith fora levada um dia pelo seu demónio, para além do “Tempo do Universo”, para fora do limite mais estranho do seu ser, pois tinha a força necessária para enfrentar tal tarefa de dedicação e amor, de alguém que um dia fora condenado à dor e ao sacrifício constante de toda uma vida e cujo único consolo foi saber que parte da sabedoria era cósmica. Mas Lilith era uma cruel deusa sedutora que arrastava, sem cessar, os amantes numa caçada eterna, para depois ficar inacessível por detrás de véus despedaçados na perseguição, até ao domínio do infinito. A relação entre os dois seres mais importantes do Universo era uma história apaixonada da alma.  

 


sexta-feira, 13 de março de 2026

15 - Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua

 

15

A camioneta chegou dentro do horário previsto e quando as portas se abriram o detetive reparou que havia dois passageiros. O motorista tinha uma elegância natural e um sorriso contagiante.

- Entre senhor…, – e olhou para uma lista que estava colada no vidro, – … Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta.

- Boa-noite a todos, – cumprimentou, olhando.

A mulher que se sentava numa das cadeiras da frente, estava silenciosa, discreta, com um olhar que não se sabia se severo ou reflexivo. Ao fundo, deitado num banco corrido um homem dormia. A entrada do veículo presenteou-o com uma corrente de ar fresco e doce. Escolheu ao acaso um lugar e saiu-lhe o número treze.

- Regressa a casa? – Perguntou o motorista fechando as portas.

- Já estou com saudades.

- Todos nós temos saudades, mas infelizmente estamos condenados a longos, lendários e solitários passeios. O problema é quando Laputa nos contrata. Pensamos que é ir e voltar num pulinho, mas o regresso pode não ser ao mesmo lugar.

- O que é que quer dizer com isso senhor…

- Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua, – completou.

- Senhor Maximiliano…

- O nome todo, e sempre pela mesma ordem.

- Senhor Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua, o que quer dizer com um regresso a um lugar diferente?

- Não ligue, é filosofia minha. O Universo é um poço cheio de culpa e acasos dolorosos. Veja o senhor Paulo Prestes que ressona ali atrás. Está aqui há tanto tempo que já notei que perdeu as restrições filosóficas, éticas e morais indispensáveis para um funcionamento regular e saudável da vida social. A Rita Bouvalier veio depois e sofre uma devastação emocional que a está a empurrar para o limiar do abismo. Felizmente já não há mais ninguém para entrar, o senhor é o último.

O motorista explicou que a mitologia grega fora a que se aproximara mais da verdade do Universo, desenhado e criado por Laputa. Deus definira Leve, a Terra, como o centro e enviara Adão e Lilith para a povoarem. Mas os anjos interpretaram as coisas à sua maneira e erraram, tendo dado origem a uma tragédia. Tentaram disfarçar com Eva, esquecendo-se da omnipresença de Deus. Cnossos, um dos labirintos de Creta, fora feito à imagem do Cérebro, o bilhete de identidade de todos os seres do Cosmos, cujo modelo era Laputa. Assim como tínhamos de habituar os olhos ao escuro, no labirinto os homens eram obrigados a recriar na sua alma, através dos seus pensamentos secretos, a imagem de Deus.

- E Lilith?

- Está quase a regressar a Deus, falta somente entregar as três últimas “ideias” e a seguir renascerá a nossa deusa mais querida. Haverá uma violência boa?

- Essa foi uma das perguntas que o Anjo do Tempo me fez, antes de entrar em Laputa.

- São as “Chaves de Laputa”.

- Respondi que a violência boa é aquela que repõe a ordem.

- E o que é a vida?

- A vida é isto, é a coerência da criação.

- Chegámos, – gritou o motorista, – finalmente chegámos ao destino.

Paulo e Rita saíram e passaram por uma porta, desaparecendo na escuridão. O sentimento de abandono e de solidão tinha-os tornado uns autómatos. O detetive ficou à conversa com o motorista, ambos fumando pensativos um cigarro.

- Senhor Narciso, o senhor conheceu o meio do Universo, irá agora conhecer as extremidades.

- Tenho de passar aquela porta?

- Sim, é esse o seu destino. O Mundo está desequilibrado e a Humanidade ferida de vícios insanáveis, mas brevemente haverá concórdia e apaziguamento. Lilith mimava Laputa e é disso que vocês sentem falta.

Subitamente sentiram um cheiro adocicado, penetrante, fétido e nauseabundo.

- Aproxima-se um Papão.

- Um Papão?

- Sabe senhor Narciso, o melhor truque do Diabo foi convencer o pessoal de que não existia.

- Isto é tudo tão obscuro e sem lógica. Porque é que Deus me contratou?

- Da mesma forma que só recorda, não as palavras dos seus inimigos, mas o silêncio dos amigos. O senhor saiu do estado amorfo da sua existência para um mundo fantástico, a que só alguns têm direito. O seu inconsciente estava tão cheio de fatalismo, que a única ligação que arranjou, enquanto pôde decidir, para ir ao encontro dos anjos, foi um WC de um Centro Comercial. A Banda 2 do Espectro chama por si!  

 

quarta-feira, 11 de março de 2026

14 - Deus Moribundo

 

14

O lago estava sujo e perdido para a alegria, tão triste e ausente. Deus existia mas estava com pouca vontade para tal, o Seu brilho desaparecera, tinha nódoas de sombra e poeira nas barbas, tentava lutar pela sua amada, mas os olhos revelavam-se surpreendidos e assustados. Havia um tremor nos que o rodeavam, tudo morria um pouco neles.

- Tudo flúi, há sempre mudança, - disse Arphaxat, encostando-se ao detetive Narciso Baeta, pelo lado esquerdo.

- Toda a mudança é uma ilusão, – exclamou Zoroem, aparecendo no lado direito.

- Se o senhor tivesse chegado aqui pelas vias normais, o seu retrato teria sido este, – e Araphaxat mostrou-lhe a imagem do momento da sua morte.

O detetive reparou que Deus estava numa espécie de casulo, era seco, frio, esquivo e melómano. Lilith tinha sido uma preciosa fonte de vida, de quem dependeu a criação de um punhado de planetas, alguns dos quais desdobraram-se e brotaram uns dos outros como cogumelos num bosque. Ela possuía a “alegria da vida” e enquanto viveu Deus fora perfeito, brilhante e sofisticado. Quando o senhor Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta entregou o cofre com algumas das ideias que tinha conseguido juntar, a água começou a ganhar cores e formas, e Deus desapareceu no meio de nostálgicas quedas de luz.

- O seu regresso vai ser feito através das memórias, pessoal, coletiva e reinventada, – explicou o Anjo Pipoca

Tudo se resumia a uma questão amorosa, que tinha de ser resolvida para que a salvação do Mundo fosse ainda possível. O detetive estava numa estrada escura sem fim, com uma mala de viagem junto a si. E quando pensava que não conseguiria sair daquele cenário lúgubre, onde tinha começado a chover, alguém o chamou:

- Senhor Narciso, estou aqui para o guiar nesta terra no limiar das trevas.

Viu uma mulher alta de aspeto oriental, com umas botas de biqueira de aço, um casaco de cabedal por cima de um vestido amarelo e um cinto com balas vazias.

- Nem toda a fé está perdida.

- Onde estou? – Perguntou, revelando um inconformismo perante o destino.

Moviam-se lentamente.

- Onde estamos? – Insistiu o detetive.

- De regresso a casa, - respondeu secamente a nova companheira.

- De regresso? – Narciso Baeta parou e agarrou-lhe no braço. – Bastava abrir uma porta e estava em casa.

- As portas que se abrem são só para a ida. É muito raro alguém regressar de Laputa, pois ela só tem um sentido. Eu vim contrariada de muito longe para o levar a casa, por isso não me faça perguntas, limite-se a acompanhar-me.

À medida que avançavam pela estrada que parecia não ter fim, o detetive notou que o cenário era de caos, anarquia, rebeldia e insurreição. Chegaram ao fim de algumas horas de silêncio absoluto a uma paragem de autocarro. Foi informado de que teria de esperar pelo próximo guia, que viria ao volante de um autocarro. O senhor Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua iria revelar-se um ser extraordinário, um sábio, uma pessoa dotada de uma verdadeira “cultura universal”, no sentido literal.

 

terça-feira, 10 de março de 2026

13 - A Casa de Deus

 

13

Laputa era um exoplaneta muito rochoso, gélico, escarpado, calcinado, com lagos, com vales rasgados, escuro, molhado, que tinha dois oceanos e uma atmosfera muito espessa, que lhe dava uma temperatura ambiente de vinte e cinco graus em toda a superfície. O planeta produzia o seu próprio calor, era único. Só os anjos sabiam o caminho até ao pico do Universo. Era um planeta feito de boas vontades e bons sentimentos, forrado de uma felicidade possível, com habitantes que não passavam de feixes de luz, quase abstrações.

- Mas disse que era “gélico”?!

- É a inocência paradisíaca, que só a alma alcança, porque o corpo é limitado.

De repente apareceu em todo o seu esplendor um enorme corpo celeste.

- Parece um cérebro! – Gritou o detetive.

- É o maior e o mais fascinante mistério que desde sempre tem sido objeto de constante busca, mas nunca completa resolução, o Cérebro, que está presente em todas as criaturas do Universo. É o bilhete de identidade para ter acesso à Eternidade, – explicou o Anjo Pipoca, olhando para a dor pesada e muda do seu passageiro. – Laputa representa a Medida, aqui não há sonsos vendavais, a Eternidade completa-se neste local. Chegámos na altura certa, Laputa tem um pôr-do-sol melodioso, que é um vivificante para todos os seres vivos, onde o seu silêncio é possuído por uma lentidão de eternidade.

- Pôr-do-sol?! Mas eu não vejo nenhum sol?!

- Mas no entanto ele existe! É a cidade espiritual das vossas almas, devidamente protegida pela humanidade dos seus anjos, os ícones dos vossos desejos mais profundos e às vezes inconfessáveis. Temos intempestivas decisões, a nossa arrogância é soberba a ditar sentenças, somos mestres na arte do egoísmo, representamos os demónios da ganância, o modo cósmico e global do sítio de onde viemos, a angústia da sua posse faz-vos sentir irremediavelmente atraído por nós. É a nossa inocência que te faz antever o Paraíso.

- Mas isso tudo que disse é horrível. Laputa parece ser um lugar desprezível.

- Um pouco de deboche ativa qualquer civilização. Laputa é um nicho de histórias fantásticas, porque os anjos têm um papel privilegiado como guardadores de sonhos, porque convivemos diariamente com demónios, e isso representa um hino à amizade. O nome “anjo” é de um íntimo universal, nós detetamos sempre os perigos e propomos sensatez. Nós temos uma sede de humanidade pelo divino!

Os Querubins estavam em greve e Deus deixou de ter cocheiros. Estava retido no seu palácio há já várias semanas. Esses pequenos anjos gordos, os únicos que conheciam os limites do Universo, pois tinham no seu código genético a “Alegria do Mundo”, eram adeptos fervorosos do “Criacionismo” e tinham extremado as posições. A cidade onde se instalaram chamava-se Clematara e situava-se entre duas grandes montanhas, sendo dividida ao meio por um lago, de cor azul celeste. As casas serpenteavam, multicolores, pela encosta acima. Dali o Universo era controlado por um tempo circular, guardião de ideias que faziam progredir a existência de todos. Mas a harmonia possível entrara em crise. Deus não conseguira corrigir as desigualdades de Leve, e Laputa queria imprimir a verdade e a vitalidade, assim como fundir as duas correntes numa só, arrojada e inovadora. O funcionário que um dia fora enviado ao Centro do Universo, revelara-se uma entidade com muito mau feitio, impossível de aturar que, ao mais pequeno pretexto, mostrara o poder e a fúria. O seu egocentrismo fora tão grande, que ousou um dia substituir-se a Deus e juntara as ideias que ressuscitaram um homem de nome Lázaro. E como os levenianos se tornaram criaturas de extremos, crucificaram-no. Mas a resposta de Deus a Sodoma e Gomorra também não foi proporcional, mostrou-se brutal e insensata.

- Deus não é Omnipotente nem Omnipresente, tem princípio e tem fim, – exclamou o Anjo Pipoca, apontando para um edifício num dos cumes, ao mesmo tempo que parava em frente a uma estátua. – Aqui está Mefistófeles, que comeu da Árvore da Sabedoria e derrotou o Príncipe Perfeito, um falso demónio. No fim de cada ciclo as sociedades espalhadas pelo Universo são sempre julgadas pelas suas exceções e os seus extremos. Chegou a vez de Leve.

- E onde está Mefistófeles?! – Perguntou o detetive.

- Eis o anjo! – Respondeu, tocando-lhe.

- Uma estátua, isto é uma estátua?!

- Esquece o Mundo Aparente e tem fé no Mundo Verdadeiro. Mefistófeles existe e é esta…estátua, – disse o anjo, aproximando-se doutra imagem. – Vê Oríade, a divindade que representa a força, ela é o ser vivo mais próximo de Deus, a segunda na hierarquia do Universo.

Dois vultos pararam junto a eles e olharam curiosos para o detetive. O mais alto tirou do bolso um instrumento e fez medições à sua cabeça.

- É daquela espécie que tem o cérebro curto, porque o hemisfério esquerdo é um tirano, e é por isso que um simples segundo os faz, e um simples segundo os destrói, – e afastou-se rindo às gargalhadas.

O olhar do detective Narciso para um elefante que se encontrava aninhado num galho de uma árvore, mostrava que ele estava perdido onde tudo era constituído por ideias, que formavam células, nervos, músculos, ossos, pensamentos, memórias, e a morte não passava de um desagregar dessas ideias, que se iriam encontrar algures noutro lugar, com uma nova combinação. E tudo dentro de um Eterno Retorno de um Tempo que era circular e dotado de uma seletividade controlada por Laputa. No horizonte uma tempestade de raios e trovões riscou o céu e ruídos silenciosos abanaram o ar.

- O Vácuo quer Laputa! – Disse o Anjo Pipoca, contemplando o espetáculo de cores desconhecidas. – Quando a ordem subverte a legalidade do Universo, só o caos sabe repor o movimento verdadeiro.

- E agora magia, magia para todos, – gritou um anão azul interpondo-se entre os dois. – Vejam senhores, os maiores mágicos do Universo.

Duas explosões, seguidas de colunas de fumo, assustaram o visitante da Terra, e levaram o seu acompanhante a encolher os ombros.

- Eu sou Zoroem, o Príncipe do Coração, – e fez aparecer um céu avermelhado.

- Eu sou Arphaxat, o Rei dos Rins, – e mudou a cor.

- Malandro, – gritou Zoroem, transformando-se num dragão e atirando-se com raiva sobre Arphaxat.

- Calma, calma meus senhores, – interveio o anão. – Temos uma visita.

- Tudo é magia, – exclamou Arphaxat, levantando o braço esquerdo e mostrando a cabeça risonha e ensanguentada do colega. – Tudo é espetáculo, o Universo é a cartola de Deus. - E desapareceram!

- Deus fala por ideias que se juntam momentaneamente, e a que vocês chamam “Aparições”. Na balança política o Mal pesa muito mais do que o Bem, porque por cada Zoroem que nasce para iluminar o Universo, temos que aguentar e sofrer umas dezenas de Arphaxat. A banalidade do Mal em Leve é muito mais dramática que a raridade do Bem.

Um bando de anjos passou apressadamente, deixando uma brisa que lhes acariciou as faces.

- Parecem umas libelinhas gigantes.

- São Serafins, anjos muito rápidos, com seis asas, que guardam permanentemente o Palácio de Deus, desde o nascimento até à morte, sem pararem.

Um sol começou a espreitar no horizonte. A sua cor alaranjada salpicou a região, pintando as montanhas com um tom escuro e misterioso. O lago cessou de se agitar e bramir. Era estranho vê-lo convertido em cadáver, mudo e imóvel. De um momento para o outro o bando de Serafins começou a surgir dos penhascos, indo juntar-se compacto no Palácio de Deus, lá em cima, muito em cima. Um raio rasgou o ar e despertou o lago, que se levantou com vagas enfurecidas, que começaram a bramir em torno das margens, até se transformarem em dois castelos de nuvens cerradas, que subiram pelas montanhas, até as taparem.

- Deus acordou! Este lago é a Sua biblioteca, e só Ele sabe abri-lo. As suas águas são de diferentes densidades, que se misturam para guardarem as fases desencontradas da história do Universo. Ele sabe que o pior junta-se sempre ao melhor e por isso nunca existiu um Jardim do Éden. O Mal e o Bem são dois poderes impertinentes, que sempre estiveram no meio de nós e só não os viu quem não quis.