segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

9 - Do encontro com Nossa Senhora e o carcereiro de nome Darik

 

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De tempos a tempos um cometa tocava em Plutão que, no espaço de um momento, ficava com o céu iluminado. Conheciam-no como o “cometa negro” e era lá que se situava a Torre de Darik, a mais torta do Universo, que trazia sempre uma colecção de monstros mimados. Quem teve o privilégio de estar perto, ouviu a voz arrastada e incompreensível do cantor, que não tinha pudores em revelar todas as suas fraquezas e o seu estado de negação contra a verdade, que lhe causava tristeza e ansiedade. Chorava e transmitia por música e palavras a cultura dos povos que o habitavam. Enquanto o cometa estava junto ao planeta, havia sempre romarias à torre para assistirem à sua falsidade tão bela. Aparecia sempre repentinamente nas ameias o espectro de uma mulher deitada. Momentos depois um homem vestido de preto aproximava-se e olhava para o corpo dela, morto há muito. Quando lhe tocava uma sombra bela abatia-se sobre a multidão e transformava os seus traços numa única cor. Diziam que era a alma da “Nossa Senhora”, cuja origem se perdia na noite dos tempos, e era nesses momentos que se podia admirar a sua poderosa e genuína voz.

- As confissões desta senhora são de uma autenticidade desarmante, – disse o Espírito Livre ao detective Narciso, interrompendo o silêncio contemplativo causado pela iluminação repentina que quebrou o céu, demasiado uniformizado pelo brilho permanente das outras estrelas. – A sua autenticidade é sedutora, é brutalmente honesta, é uma figura totémica belíssima e decadente, porque está em decomposição. É sempre um privilégio ouvi-la e ao canto dos seus corvos.

Darik enfrentava sozinho os seus demónios pessoais de vingança e de justiça. O filho morrera na sua presença atropelado por um médico que sofrera uma síncope cardíaca depois de ter assassinado toda a família. Para ele Deus não passava de um mentiroso porque fora Ele quem matara aquele que amava. Andava desesperado à procura das “ideias” que deram um dia forma ao seu rapaz e já descobrira algumas, que guardava religiosamente numa caixa de prata. Como todos os génios, vivia perto do precipício.

- Qual é a ligação entre Darik e a “Nossa Senhora”? – Perguntou o detective Narciso.

- Ela só renascerá se ele der a Laputa a última “ideia” que falta, que está escondida algures na torre. Dizem também que Darik guarda dentro de si partes de Lilith. 

Quem guardava a torre era o “Clã das Ilhas”, o primeiro povo que se formou depois do “BigBang”. Exprimiam-se através de conversas sobre a morte e a memória, porque só tinham conseguido sobreviver comendo todos os seus filhos, excepto um de nome Zeus, que comia pouco e por isso não tinha muita carne para oferecer.

- Inconscientemente Darik com a sua atitude está a criar buracos nas fronteiras e a encher espaços vitais com um ódio brutal a Deus. Já conseguiu tornar-se proprietário da sua própria alma, continuou o Espírito Livre. – Deus e Darik estão cada vez mais perto um do outro.

Quando a figura de Darik apareceu, todos sentiram um estremecimento, um ardor, um impulso, um ímpeto. Ele era um improvisador inesgotável e um experimentador compulsivo, cheio de memórias e de ruídos dos fantasmas do passado. Ele queria saber a razão do jogo cruel. Porquê estes laços através de um jogo de espelhos dum deus indiferente a eles? Este luto obstinado precisava de um fim porque Laputa estava a ser prejudicada. O Espírito Livre e o detective Narciso repararam que ele olhava para eles com uma intensidade que os parecia cegar, ao mesmo tempo que fazia gestos maníacos e meticulosos.

- Já há palavras a mais no mundo, – disse Darik levantando-se e encaminhando-se para uma janela larga, tocando com a cara na vidraça. – Ele anda por aí!

- Eles, – interrompeu o Espírito Livre. – O teu e os de muitos foram os escolhidos por serem os melhores. As missões que lhes foram confiadas são das mais nobres. Deves ter orgulho e não ódio!

Antes que o seu gesto aparecesse o vidro reflectiu esbatido o desejo de Darik e ficaram ambos frente a frente uma última vez, como num confessionário. Reparou que o filho já era um homem e estava feliz. O detective Narciso Baeta tinha uma característica peculiar. Quando se calava parava o olho direito, enquanto que o seu companheiro de viagem, o anjo que dava sopro às vidas, abanava as asas quando falava. A face sorridente de Darik indicava que acabara de cortar com o passado e pensava numa forma de se soltar da maldade absoluta e retornar à dura honradez. Abriu um armário e calçou uns elegantes sapatos de salto alto, tentando assim ultrapassar o invencível ressentimento contra a arrogância. Ao espelho apercebeu-se da rotundidade do corpo. Falou quase para dentro, trazendo de novo o belo para o seu mundo, dando de comer aos sentidos. Tinha acabado de ganhar paz e felicidade. O detective recebeu com prazer o pequeno cofre com a “ideia” de Lilith, despediu-se do Espírito Livre e abriu a porta do WC.

- Até amanhã!

Não ouviu o desabafo do seu companheiro:

- Culpam-no de tudo, mas não querem ser acusados de nada. A causa da morte do filho só poderia ser atribuída ao “Livre Arbítrio”. Darik levava uma vida impossível de ser vivida.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

8 - Do “Grande Silêncio” até à Porta do Reino de Deus, passando pelos Piratas de Plutão

 

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Percorreram cordilheiras, mares, desertos, florestas, estepes, selvas, até aparecer a vastidão da única cidade, Scarpia. O silêncio tinha tido um papel central em Plutão, porque antecedeu a chegada das grandes convulsões, das enormes tempestades, que trouxeram o sofrimento e a revolta. O mais importante foi o seu lado benigno, que fez com que fosse eleito para Porta do Reino de Deus, a mais alta condecoração que Laputa dava aos planetas.

- Os habitantes desta magnífica terra que são o fruto de conquistas e derrotas, rupturas e continuidades, de fusões e cisões, também se consideram filhos de Deus, – disse o Espírito Livre, interrompendo o silêncio.

Quando a ordem foi restabelecida, houve uma tumultuosa crise de consciência, porque todos se interrogaram como é que tinham chegado àquela loucura e àquele mal? O conflito tivera origem num dia quente de Verão, quando um deputado da comunidade de Zião, do pólo sul, resolveu proclamar no parlamento o falecimento de Deus, como sinal de protesto contra a morte acidental da sua jovem mulher por um meteorito que chocara contra o planeta, o primeiro desde a sua existência. Se Deus existisse nunca teria permitido que tal acontecesse, por ser fisicamente impossível algo natural atravessar a agressiva atmosfera do planeta. Os Patchéus do pólo norte, amantes fundamentalistas de Deus, a quem consideravam a Verdade Absoluta, declararam o povo de Zião subversivo e iniciaram uma guerra, que acabou por envolver todas as comunidades e muitos conceitos. Quando os amigos de Lilith restabeleceram a lei e a ordem, mostraram as provas definitivas de que Deus existia, pois deixara no cérebro, único órgão comum, de todos os seres do Universo a sua assinatura, que dava pelo nome de “substância negra”. “Deus” passou a ser uma verdade absoluta, indiscutível.

- Mas a “substância negra” não existe em todos os cérebros, – indignou-se o detective.

- Só nas criaturas falsas é que não existe!

-“Criaturas falsas”?!

- Seres que não têm clone, e como tal não foram feitos por Deus.

- “Clone”?!

- Algures no Universo há um clone teu, uma espécie de molde, para o caso de Laputa ordenar que tu renasças depois de morreres e das ideias que te davam consistência se terem desagregado e espalhado. O clone tem inscrito a sequência das tuas ideias, bastando para isso procurá-las e juntá-las, para que tu voltes. É o que estão fazendo com Lilith, Deus quer e o Cordeiro Verde anda à procura das suas partes.

- “Cordeiro Verde”?!

- O Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo e faz outras coisas.

As bandeiras coloridas que abanavam ao sabor do vento em cima dos edifícios, indicavam os vários sectores da cidade. Os Piratas de Plutão tinham separado as forças em conflito e exerciam um controle absoluto sobre elas, para que a paz fosse possível. Estavam separados por crenças e convicções, e tentavam resolver os problemas em reuniões contínuas desde então. Mas a ideia principal que fora o motivo do longo conflito, mantinha-se: “Livre Arbítrio”. Para uns existia, para outros não passava de uma ilusão. Com a unanimidade na existência de Deus, logo surgiu outro problema: quanto tempo demorara Ele a fazer o Mundo?

- Para os vermelhos o número treze era a verdade, para os azuis os sete, para os verdes os vinte, – explicou o Espírito Livre, que estava atento às manobras de aproximação da nave.

- Afinal a política está em todo o lado!   

 

 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

7 - Do encontro com “Lorde Fantasma” também conhecido por o “Anjo Demónio”

 


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Todos aqueles que iam ao seu encontro, eram sempre recebidos com incerteza. Era o mais agressivo e minimal dos demónios, acabando sempre por gerar tanto amores como ódios. Ele encarava o “Livre Arbítrio” de uma forma espontânea, correndo muitas vezes o risco de não perceber muito bem o que se estava a passar à sua volta. O “Lorde Fantasma” tinha acesso às mais negras visões do mundo e aos subterrâneos onde estavam guardados os terrores nocturnos e os seres de outras dimensões. Era uma espécie de jardim zoológico. Aproximaram-se com precaução e curiosidade do seu ninho, que mostrava a alegria da cor. Pediu-lhes para esperar um pouco, fazendo sinal com o braço. Estava na parte final de uma corrida de lagartos, sentado numa cadeira e olhando para um tronco.

- Sou um viciado nestes jogos da quinta dimensão, que me distraem da guerra inacabada que Deus não conseguiu resolver, – explicou-lhes.

Tinha uma voz suave e meiga.

- Antes Deus criava as verdades, como o Tempo, mas agora apareceram outros com criativas controvérsias e novas Ideias, e o Caos está à espera do momento para atacar, – continuou, ajeitando um dos corredores que se tinha despistado. – Leve começou a exportar a intolerância, que tem afetado, e muito, a evolução das outras espécies. Deus não tem ilusões sobre as fraquezas, as demências e os crimes dos homens. Mas o Seu otimismo assenta no facto de eles serem capazes de criar o sublime, e assim conseguirem acalmar o nosso descontentamento. É por isso que é considerado um povo mitológico.

- Um povo mitológico?! – Perguntou o detetive Narciso, olhando fixamente para o Lorde. – A maioria é só bêbados e chungosos!

- Foram os únicos dotados por Laputa com comportamentos prescritos, mas com a evolução adquiriram outros, não previstos, que os tornaram sanguinários, ferozes, com uma ganância ilimitada, apesar de conservarem ainda as marcas de Deus, a música, a poesia e a matemática.

- A música há para todos os gostos, a poesia ainda escapa, agora a matemática! – Indignou-se o senhor Baeta.

- Mas o mundo deles tornou-se fechado e previsível, – acrescentou o Espírito Livre. – O seu Eterno Retorno deixou de ser seletivo.

- É a encenação do conflito e da desordem, mas no fim Leve terá de ficar pacificado, senão pelo castigo dos prevaricadores, pelo menos pela compreensão dos seus pecados, – explicou o Lorde. - Narciso, aqui tens o véu sagrado da deusa Lilith, onde terão de ser depositados os pedaços de Lilith, para que Deus os junte. O véu indica o caminho para Laputa.

O detetive sabia agora que estava perto do seu destino, mas a investigação ultrapassava tudo o que tinha imaginado. Teriam sido os honorários suficientes? Compreendia agora porque é que o Espírito Livre exigira uma gota do seu sangue para a assinatura do contrato. A sua alma já não lhe pertencia, estava algures cativa num qualquer canto do Universo. Só lhe restava ir descansar para o seu Mundo Aparente, onde abrira escritório.

 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

6 - Do encontro com o “Demónio da Cruz” também conhecido pelo amante das “Heroínas Angélicas”

 

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Este demónio sabia exaltar primorosamente a escuridão e a tragédia, gostava de belas catástrofes impregnadas de horror e adorava dar um bom mergulho nas profundezas das intrigas abençoadas. Foram recebidos por um anão com um olho na testa, que os conduziu para uma floresta cerrada, onde a cor azul predominava.

- Não tenham receio deste demónio, pois ele é o único com coragem e audácia para fazer o trabalho desejado.

- Mas que “trabalho desejado” é esse? – Perguntou o detective.

- Limpar Leve!

- Limpar?!

- O projecto “Adão e Lilith”. Estava destinado ao sucesso, mas devido ao “Livre Arbítrio” Laputa não quis interferir e repor a trajectória da nave, que fora atraída inesperadamente pelo planeta Loga. Lilith morreu, porque o Demónio do Meio-Dia cumpriu as ordens de Deus, protegendo o planeta da força destruidora dela, que foi injusta, interesseira e excessiva. Matou-a por fidelidade a Deus e perdeu para sempre o amor desta deusa inteligente, divertida e subversiva.

A conversa foi interrompida porque chegaram a uma clareira, onde alguém os esperava, acompanhado por um cordeiro verde.

- Sejam bem-vindos ao meu domínio, – cumprimentou o Demónio da Cruz. – Sei que a vossa missão é importante para Laputa e para Leve, caso contrário o leveniano não tinha sido contratado. Precisam de chegar à Casa de Deus, e pelo caminho encontrar as “ideias” de Lilith. Os projectos mal acabados nunca foram uma grande escolha.

- Sabe onde estão essas “ideias” de Lilith? – Perguntou diretamente o senhor Narciso, olhando em redor.

- Esconderam-nas numa das ilhas do Espírito Santo, uma leveniana com o nome de Rita Bouvalier, divorciada do senhor Darik proprietário de uma torre, e distribuíram-nas pelas quatro pequenas salas da sua alma, correspondendo a cada uma delas um leveniano anónimo, – respondeu o Demónio da Cruz, e continuou. – Uma deusa não pode morrer, mas sim ser dividida. O Demónio do Meio-Dia dividiu-a e atirou os seus pedaços ao ar, que foram recolhidos pelo Cordeiro Verde, mais conhecido pelo “Cordeiro de Deus”, que lhes tirou os pecados, e agora protege-a da sua própria vingança. A perda afetiva do Demónio do Meio-Dia que teve de escolher entre Deus e a sua amada, agravou-lhe o lado negro e isso ele não quer aceitar. E Lilith é uma deusa enlouquecida pelos maus-tratos. É por isso que no planeta Veri irão encontrar o véu sagrado da deusa Lilith, protetora de Leve, que vos indicará o caminho para Laputa. Lilith não teve sorte, porque o tempo não se aliou a ela e porque ela também desprezou o tempo. Entrem com cautela na cidade, porque ela está com medo de si mesma e é escrava dos fantasmas que a assombram e que são de outras eras e pertença do Lorde Fantasma.

- Então o animal que está ao seu lado tem a Lilith? – Interrompeu o detetive.

- Ele está no Mundo Real e num tempo muito remoto e não aqui, - explicou o Espírito Livre.

- O leveniano tem poderes para juntar Lilith, sinto-lhe o ardor da sobrevivência pura, – disse o Demónio do Meio-Dia, tocando no ombro do Espírito Santo, e desaparecendo de seguida.


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

5 - Burocracia da Morte - Do encontro com o “Anjo do Fogo” também conhecido por Chasmal

 


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Para se entrar no ninho de Chasmal passava-se através de uma caixa que reproduzia os sons do fundo do mar, mostrando a história de Plutão Antigo desde as dinastias que prepararam os faraós de Leve, até ao aparecimento do “Naos das Décadas”, o Calendário Astrológico de Deus, com nichos para os tempos de todos os Anjos e Demónios do Universo. Preservava um relato único, escrito em Mentino, sobre a criação do Mundo. Chasmal gostava muito de contos de fadas e, devido ao lugar fantástico que era o Mundo criado pelo Senhor, das histórias do Noddy. Era muito erótico, meio cínico, meio ingénuo. Tinha um sonho, jantar com Lilith à luz das estrelas, mas sabia que isso nunca se concretizaria, pois era muito beato, e para ele a deusa era tão louca quanto sonhadora e dominadora no território dos sentimentos. Como Chefe Supremo nunca poderia prender-se a um dos maiores poços de egocentrismo pois o cargo exigia-lhe rigidez e austeridade, mas por vezes tinha encontros fortuitos com ninfas, onde se davam práticas satisfatórias e outras meiguices. Todos o respeitavam porque havia sempre uma inteligência, uma seriedade, uma sabedoria nas suas decisões e acima de tudo uma relação afetiva fortíssima com os seus soldados. Tinha como companheira fiel uma garça insuflável, oferta de um leveniano em transição para Laputa. Cuscuz simbolizava para ele a liberdade, sensualidade, a força sexual que lhe transmitia sensações ao corpo. Através deste anjo conhecia-se o que estava oculto, pois ele não se detinha nas barreiras do espaço e do tempo. Fora ele que resgatara o funcionário enviado muitos anos antes para Leve, após os levenianos o terem crucificado. O Anjo do Fogo era o Comandante Supremo das Dominações, cento e trinta milhões, trezentos e seis mil e seiscentos e sessenta e oito anjos formavam o seu exército, cuja missão era proteger Leve. Este Anjo-Chefe era muito poderoso, assim como o seu exército profissional. Chasmal sabia que os soldados do outro lado tinham-se embrenhado lentamente por todos os recantos de Leve, através de nuvens negras, deixando pensamentos cheios de trovoadas pesadas e longínquas, que pareceram suspender-se no céu de todas as vidas. Ele sabia que o fim do Quarto Império se aproximava. Este anjo era fluído e exuberante, capaz de sugerir o dramatismo dos acontecimentos de forma exemplar, sendo um ícone para os querubins. Nos tempos livres adorava tocar harpa e pertencia a um quarteto único no Universo, formado por Kronos, o guarda da Torre de Darik, Hapi e Hathor, que se reuniam uma vez por ano em Laputa para comemorarem o aniversário de Deus.

- Todos os seres vivos são constituídos por ideias, e quando os seus destinos se cumprem, as ideias desagregam-se e regressam novamente ao limbo, para serem outra vez juntas, em novas combinações. Acontece o mesmo aos deuses, porque o “Livre Arbítrio” assim o obriga, mas o novo processo é diretamente dirigido por Deus que, de um modo geral, e usando o poder que o “Criacionismo” lhe dá, reconduz as mesmas ideias, e dá outra vez vida ao mesmo deus. Laputa quer de novo Lilith, e esta missão é da vossa responsabilidade. Até lá a dissolução mantém-se, até Deus intervir e alterar o percurso existencial da deusa. Precisam de ir diretos para Atuá encontrar-se com o amante das “Heroínas Angélicas”!

 

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

4 - Burocracia da Morte - Do encontro com o “Anjo dos Lírios”, de nome Joshua Mahmud Bantu

 

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Durante a viagem até ao planeta Santo, que o detetive Narciso conhecia como Saturno, o Espírito Livre falou-lhe de outro conceito, o de “Tempo”, que os fazia diferentes do resto do Universo. Enquanto o “Tempo de Leve” era retilíneo, o “Tempo do Universo” era circular.

- Mas isso em termos práticos, o que significa? – Perguntou o investigador, olhando fascinado para Santo, que acabara de aparecer num dos cantos do horizonte.

- Significa o eterno retorno das ideias. Todos os seres vivos são constituídos por ideias, que um dia se desagregam e que vocês chamam “morte”, e tornam a espalhar-se, indo depois juntar-se em novas ou na mesma combinação, caso Laputa o deseje, algures noutro campo do Universo. O “Eterno Retorno” é a chave que abre a “Razão”. Muitas das nossas vivências desenrolam-se entre dois mundos distintos, o Real e o Aparente. O satélite natural do planeta Santo, Cister, é considerado um organismo vivo, e é tratado como tal. Nele a natureza é o único árbitro, o seu ambiente é fresco e permite o cultivo do alimento mais raro do Universo, a maçã. Para nos darmos bem com o satélite, é preciso seduzi-lo através da Irmandade dos Produtores de Maçã. Mas para isso temos de saber ler o Tempo. Santo foi um país que naufragou nos seus erros e vícios, – exclamou o Espírito Livre, dando uma volta apertada para a esquerda. – Tenho no meu dorso o peso e a leveza da lua.

O detective privado ficou a saber que o seu companheiro desde que tinha mudado para a condição de anjo  carregava em si uma enorme tristeza, porque perdera o seu centro.

- Estou agora em todos os sítios e em sítio nenhum. É tudo tão relativo e tão inconstante e as escolhas que muitas vezes tenho de fazer vão de encontro aos meus princípios. Sei que agora sou um cidadão do Universo e um soldado de Deus., – confessou o anjo, embrenhando-se na atmosfera ruidosa de Santo.

Após poisarem no planeta, o Espírito Livre falou sobre o Anjo dos Lírios, dizendo ser uma grande figura que pertencia à Constelação Eterna, grupo este que fazia parte de um outro tempo e se situava numa estrela que já explodira há milhares de séculos. A missão da Constelação Eterna era manter actualizada a Parede, um local onde estavam inscritos todos os nomes, de todos os seres do Universo. O anjo tinha como morada Cister, o Reino dos Lírios, e como função controlar o crescimento das maçãs.

- Só deus e os loucos gostam de estar sozinhos. O Anjo dos Lírios tem como missão manter bem alimentado o Cordeiro Verde.

- Cordeiro Verde?! – Perguntou o detective, olhando para o rasto luminoso que cortou a noite cerrada, desaparecendo para os lados de um grande lago, que se via no horizonte.

- O Cordeiro Verde é aquele que tira os pecados do Universo, e Leve está cheio deles, tornou-se uma lixeira, porque os seus habitantes tornaram-se seres piegas, que pensam que a penitência é o bilhete de entrada para Laputa. Por isso o Cordeiro Verde anda à procura das “Más Ideias”, escondidas algures nos genes de vários levenianos. Tem sido um trabalho árduo, e é por isso que ele regressa com frequência a Cister para se alimentar.

O encontro com o Anjo dos Lírios, que nunca se chegou a mostrar, mas que estava ancorado numa estrela, traduziu-se pela oferenda de um saco com maçãs e com o mapa da rota até Mínio, o último planeta real do Sistema Solar de Leve, e domínio de Chasmal.

- Depois de um último, há sempre outro, é este o mistério do Universo.

 

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

3 - Burocracia da Morte - Do encontro com o “Demónio do Meio-Dia”, em Phobos, de nome Violeto Serra.

 


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Phobos significava “terror” e quem o descobriu enlouqueceu. Era um dos satélites do planeta Loga e, segundo a lenda, artificial. Quando Laputa resolveu criar a espécie leveniana, enviou para o planeta Leve um casal especialmente dotado para a procriação: Adão e Lilith, a fêmea mais bonita do Universo, dotada de genes escolhidos pelo próprio Deus. Phobos foi enviada, mas algo não correu como o planeado, e quando a nave passou junto a Loga, uma tempestade solar empurrou-o para a órbita do planeta e ficou presa. O Centro de Comando de Sulis quis intervir, mas como as desavenças entre os dois partidos mais poderosos de Laputa, os “Criacionistas” e os do “Livre Arbítrio”, estavam ao rubro, Deus não deixou. O casal ficou à mercê do Demónio do Meio-dia que matou Lilith e pôs Eva no seu lugar. Mas Lilith, a Princesa Perfeita, já tinha tido seis filhas durante a longa viagem, as Lilim, hermafroditas, que fugiram de Phobos com a ajuda do pai, sendo enviadas clandestinamente para Leve. Com o tempo Adão acabou por afeiçoar-se a Eva e esta conseguiu convencer o Demónio do Meio-Dia, dando-lhe uma maçã, a fruta mais rara do Universo, a levá-los para Leve, pois o domínio que o casal tinha do Mentino, a linguagem universal, permitir-lhes-ia coexistir com as outras espécies do Centro do Universo e manter o fornecimento de maçãs regular. Foram os dias do Paraíso. Mas Eva não conseguiu engravidar e Adão nunca mais teve notícias das suas adoradas Lilith, que acabaram por conviver com as outras espécies, excepto Perséfone, a mais velha. Nasceu assim uma nova raça sem o sentido do Mentino, e sem este dom a luta pela sobrevivência depressa tomou conta dos destinos de todos aqueles que habitavam o planeta Leve. Foi uma vitória para os adeptos do “Livre Arbítrio”.

Quando o Espírito Livre poisou no satélite de Loga, levando no seu dorso Narciso, o seu detective particular, estremeceu e sentiu um abraço frio, que o fez experimentar o excesso, o terror do seu próprio tempo. Ele sabia que estavam numa linha de risco.

- Este demónio também é canibal? – Perguntou o passageiro, limpando o pó do cosmos que se tinha acumulado nas golas, dando um aspecto de caspa.

- Não, o Demónio do Meio-Dia anda há séculos numa demanda sem fim, por amor de uma dama. Nessa viagem já conviveu com grandes deuses, conhecidos e desconhecidos. É um visionário que pretende a junção do “Criacionismo” com o “Livre Arbítrio”, num só ideal, que traga paz ao Universo e dê descanso a Deus. Este demónio só é terrível aos olhos da ignorância. E ao pé dele todos parecemos ignorantes, – respondeu, em estado de alerta, o Espírito Livre.

- Estás com medo dele?

- Medo não diria, respeito. O Universo está cheio de criaturas que julgam saber tudo, e com essas ele sempre foi implacável.

- E tu pensas que sabes tudo?

- O que Deus procura é a perfeição, nada menos. Mas este problema está a acordar coisas que ninguém quer enfrentar.

À medida que conversavam, resolveram explorar o ambiente. Não precisaram de andar muito até descobrirem um vulto ajoelhado junto de um túmulo.

- Vê o Anjo do Meio-Dia a chorar junto do túmulo da sua amada Lilith.

- Amada?! Então ele não a matou?

- Matou-a por amor a Deus. Phobos nunca deveria ter encontrado Marte. Lilith sugou-lhe a atmosfera para conseguir alimentar as suas filhas. O Demónio do Meio-Dia tinha aceite a missão de Deus, que era proteger o planeta Loga, e falhara, e tudo por causa da sua eterna amada, que um dia conhecera em Laputa. Teve de fazer a mais terrível das opções. Procura agora a alma de Lilith, guardada algures pelo Cordeiro Verde nos confins do Universo.

- Alma de Lilith? Fui contratado para procurar um fantasma? – Perguntou exaltado o detective Narciso.

- Disseste que por aquele preço até procuravas uma agulha num palheiro. E Lilith não é bem um fantasma.

Bastou o barulho seco de uma bota a desfazer um pedaço de rocha, para fazer com que o Demónio do Meio-Dia se voltasse e abrisse as asas em aviso, deixando à vista as últimas palavras de Lilith, que ficaram gravadas na pedra, antes de morrer:

 

“Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu, e alimenta-se de maçãs, entre os lírios”.

 

- Quem são vocês que ousam pisar o território obscuro e incompreensível, onde Adão e Eva andaram de calções?

- Uns simples viajantes à procura do caminho para Laputa. Levo no meu dorso um leveniano que foi contratado para descobrir uma mulher, – respondeu o Espírito Livre saudando-o com as suas majestosas asas.

- Cada um de nós tem um pedaço de caminho e, todos juntos, chegamos a Laputa. O meu vai dar a Cister, o reino dos lírios.

- Fico-te muito grato pela informação, e desejo-te todo o amor do mundo na demanda pela tua querida amada. Sinto que aquele que levo no dorso, ser-te-á um dia muito útil.

Cister, conhecida dos terrestres por Io, era um dos dezasseis satélites do maior planeta do Universo, Santo, e o mais interior, constituído por planaltos e planícies cobertos de vegetação.

Combinaram um novo encontro para o dia seguinte e cada um seguiu para o seu espaço, o Espírito Livre para o Mundo Real e o detetive Narciso Baeta para o Mundo Aparente, cuja porta de acesso era a da cabine do WC do Centro Comercial.