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13 de Junho de 1969
- Qual é o nome do paciente? - Pergunta o doutor Charles Lipiérre.
- Narciso Figueiredo Baeta, é dos pacientes mais antigos, está connosco há trinta e um anos, e quando entrou tinha setenta e cinco, – responde o seu assistente.
- Cento e seis anos? E está muito ativo!??
- Neste momento passeia no jardim, aliás, foi lá que o descobrimos. Nunca pensámos que um homem daquela idade e há tanto tempo imóvel, já entrou para aqui naquele estado, parecia uma estátua, se levantasse e andasse com tanta energia.
- Deixe-me o processo, vou dar-lhe uma olhadela.
O doutor Lipiérre dá uma espreitadela pela janela, na esperança de ver o “ressuscitado”, mas fica-se por um bando numeroso de pombas, que executa na perfeição manobras temerárias. Senta-se na poltrona cor-de-azeitona, puxa dum cachimbo já carregado e abre o processo que está em cima da mesa, ao mesmo tempo que tenta arrancar com a fumaça.
Nome: Narciso Figueiredo Baeta
Data de nascimento: 13 de Janeiro de 1863
O paciente nasceu em Nova Iorque, sendo o filho mais velho de uma grande família de classe média. Aos dez anos de idade mudaram-se para a Europa, mais precisamente para a cidade de Paris, de onde nunca saíram. Durante a infância nunca sofreu de doenças sérias, o seu aproveitamento escolar foi brilhante e quando concluiu a licenciatura em medicina e cirurgia decidiu enveredar pela carreira eclesiástica. O seu espírito ávido, levou-o a percorrer os quatro cantos do mundo, em missões evangélicas, que cumpriu com o brio e determinação. Em 1908 um incidente veio mudar-lhe o rumo da vida. Um incêndio na vivenda do seu pai, durante a festa anual da família, acabou em tragédia. Todo o clã Baeta pereceu, excepto o padre Narciso, que se encontrava ausente no Vaticano. A notícia causou-lhe um choque tremendo. Nos dias seguintes começou a sofrer de pesadelos aterrorizadores, imaginava-se a cair num poço sem fundo, não fazia movimentos, era uma estátua, queria acordar mas não conseguia, chamava desesperado pelo pai, que aparecia e desaparecia, até que era desperto pelos seus companheiros. A conselho de um médico seu amigo, retirou-se para uma abadia nos Alpes. Aí permaneceu durante cinco meses, até conseguir recuperar a lucidez por completo. Decidiu então refugiar-se numa capela de uma aldeia perdida numa floresta francesa e pediu ao Papa para exercer aí o seu magistério. O pedido foi aceite e ficou até 1938, ano em que o imprevisto aconteceu, durante a celebração da missa da manhã. Quando levantou os braços para agradecer a Deus o bom ano agrícola, caiu desamparado por cima do altar. Voltou a si acompanhado com movimentos súbitos e imobilizou-se por completo. Virou ainda os olhos para o altar e assim ficou. O médico local foi rápido no diagnóstico: “catatonia”. Trouxeram-no para esta instituição e aqui esteve imóvel, excepto durante as refeições, até agora.
- Não há dúvida, o corpo está submetido à alma, – diz o doutor Lipiérre, atirando para a mesa o dossier.
É interrompido pelo barulho de alguém a bater à porta com insistência.
- Entre, está aberta.
Um enorme enfermeiro, com um volumoso bigode, entra de rompante e pede ao director para o acompanhar à fonte velha. Precipitam-se pela escadaria numa corrida louca e embrenham-se pelo labirinto de sebes, obra fantástica erguida pelo jardineiro mais famoso de França, o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua. Ao passarem pela curva-das-cebolas-nuas, o espectáculo aparece-lhes de frente. Em cima da sereia-verde, que chora desalmadamente, o senhor Narciso Baeta inflama a vasta assistência que se sentou para o ouvir.
-...eu passei o espectro, sou o coronel Narciso Figueiredo Baeta do exército cardíaco, co-piloto da nave Piolho-Um, da missão “Novo Olhar”... Passei a porta da banda 2... Tudo depende de Deus, não só aqueles que vivem, mas também a lei, a ordem, a vontade, as verdades eternas, o meu cão, as vossas doenças, tudo, tudo... Deus conserva-nos e é por isso que existimos... Rita, procuro a engenheira Rita Bouvalier, a comandante, algum dos senhores a viu?
- Cento e seis anos? Este paciente teve o corpo parado, mas a sua alma parece ter viajado muito, – diz o director. - Está perdido, o tempo dele é outro.
- Coronel Narciso, o senhor por aqui? - Pergunta alguém do cimo de uma árvore.
O doutor Lipiérre vira-se e reconhece o jardineiro.
- Só faltava agora aparecer este artista - desabafa o enfermeiro.
- O senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua! - Exclama o director – Sabia que este é o seu verdadeiro nome? Está escrito no bilhete de identidade.
- É um maluco, cada vez que aparece dá espectáculo.
- Então agora já são dois, não podemos perder a festa.
- Ainda ontem estava a dar uma lição sobre Descartes à rosa multicolor que está no vaso da entrada.
- A minha mulher diz que essa planta deve ser única no planeta, é teoricamente impossível a sua existência.
- Mas no entanto existe e foi ele que a concebeu!
Os dois espectadores sentam-se confortavelmente num dos bancos e preparam-se para assistir ao acto. O “ressuscitado” olha impávido e sereno para aquele que ousou reconhecê-lo e mexe os lábios silenciosos.
- Então coronel, essas palavras estão com medo de sair? - Provoca o jardineiro.
- O senhor conhece-me?
- E quem é que não conhece o célebre coronel do exército cardíaco, o co-piloto da nave Piolho-Um , o pioneiro da missão “Novo Olhar”, eu vi-o partir do Centro Espacial Auricular!
- Esteve no Centro Espacial Auricular!?? - Pergunta o militar, aproximando-se do jardineiro.
- Eu estou em todo o lado!
- Você está a gozar comigo, ouviu-me falar sobre isso e agora quer aproveitar-se, – diz Narciso, afastando-se.
- E a “Nuca da Eva”, a “Carraça”, a engenheira Rita Bouvalier, o cartógrafo John, que não passou pela porta...
- É impossível, o senhor sabe muita coisa! - Interrompe o “descongelado”, voltando-se repentinamente.
- Eu sei tudo senhor coronel, a minha missão é observá-los, foi Deus que me mandou. De vez enquanto Ele tem destas ideias!
O director ajusta-se no banco de madeira e comenta o estranho diálogo:
- Estes dois falam de coisas sem nexo, mas que parecem ser verdadeiras.
- Verdadeiras doutoram?! Tudo o que dizem é um perfeito disparate, até o jardineiro é maluco. Na semana passada o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua (risos alarves!), quis-me convencer que falava com as formigas, e que elas são mais evoluídas do que nós.
- A minha mulher também partilha dessa opinião! - Exclama secamente o doutor Lipiérre.
- As formigas mais espertas do que nós!?? Posso esmigalhá-las quando quero.
- Mais forte não quer dizer mais esperto!
- Senhor doutor, se me dá licença vou-me embora, tenho de ir ao pavilhão oito.
- Vá, vá.
O enfermeiro levanta-se, acena com a mão e afasta-se.
- Idiota, só sabes dar injecções... e mal, – pensa baixinho o médico.
- Cuco... e ainda por cima director.
- Senhor.... senhor...., – chama o coronel.
- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua ! - Responde com orgulho.
- Senhor Maximiliano...
- O nome todo, é a totalidade que dá forma aos seres!
- Senhor Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, se sabe tudo, diga-me por favor onde estão os meus amigos?
- Paulo Prestes e Rita Bouvalier passaram, John não conseguiu.
Narciso afasta-se em silêncio, enquanto que o jardineiro mais famoso do norte de França desaparece, embrenhando-se na sua obra-prima. O doutor Lipiérre assenta numa agenda os dois nomes que ouviu, levanta-se e inspira profundamente o mundo.
- Paulo Prestes e Rita Bouvalier, vão ser vocês que me hão-de levar ao coronel.
Todos os que entram no labirinto de sebes encontram um aviso: “ Se tens a Alegria do Mundo, não temas as encruzilhadas, deixa ser ela a levar-te até à saída “. O enfermeiro Olímpio, o gigante de bigode, já lá ficou várias vezes, aliás, sempre que entra sozinho só sai com ajuda. O director costuma dizer que “ para se aventurar naquele quadrado é necessário pelo menos ter um neurónio, no sítio onde o matulão só tem areia “. Mas não é só ele que se perde. Segundo um estudo elaborado pelo psiquiatra da ala três, o doutor Désiré Fuo, cinquenta e quatro por cento dos funcionários passam na perfeição e os outros quarenta e seis precisam que os vão lá buscar. Em relação aos pacientes, todos entram e saem sem problemas! O doutor Lipiérre quando recebe candidatos para o quadro técnico, leva-os para o jardim e quem se perde é de imediato afastado. A melhor companhia para os pacientes que estão em crise é, sem dúvida, o jardineiro. Recorre-se sempre a ele porque sabe falar-lhes na mesma linguagem, bastam alguns minutos de passeio no labirinto, para que encontrem a paz. Muitos dos técnicos tentam boicotar os seus serviços, pois sentem-se profissionalmente ultrapassados por uma pessoa que consideram hierarquicamente inferior. “ É preciso falar-lhes para a alma, e para isso devemos entrar no seu tempo “, explicou uma vez o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, ao director. Umas simples palavras são melhores do que dúzias de comprimidos. O espírito não tem tamanho, é feito dum espaço e dum tempo, que se alteram constantemente, e é com esta inconstância que temos de trabalhar.
O cartógrafo John Kovac’ Olhões entra na sala vazia e só vê paredes. Ninguém, nenhum dos seus colegas se encontra lá dentro. Dirige-se novamente para a porta e repara que o seu clone está fora da “Carraça” e que olha para si, imóvel. Torna a entrar. Tudo permanece na mesma. Espera uma hora, até que se decide a sair. Cruza-se com a sua imagem e entra confuso no veículo. Os seus novos colegas estão estáticos, parecem estátuas. Fala com eles, mas não reagem. Aponta o radar para a porta e os dados confirmam o que tinha visto. Está sozinho! A clone da Rita Bouvalier tem o diário de bordo aberto, parece ter estado a escrever. Dá uma espreitadela e repara que há registos. Passa para trás, empurra com violência o coronel Narciso, deixando-o com as pernas para o ar e tira o livro à engenheira.