sexta-feira, 15 de maio de 2026

111 - A Miúda do Lenço (24)

 

24

- Como está?

Quando as pessoas lhe faziam a pergunta, a mãe Joana sabia que elas não queriam uma resposta, por isso não lhes respondia. Precisaria a partir deste momento de redescobrir a vida, que agora se apresentara sem mentira e sem ilusão. Viver o instante era inútil, pois a vida é duração. Será que ainda poderia ser feliz? A sua vida misturava verdade e sofrimento, amor e solidão, por isso não sabia se estava disposta a continuar a amá-la como ela agora se apresentava. E se a estória tivesse sido outra? Parte da manhã seria passada no Tanque de Recuperação, por isso o ambiente era o equivalente aos 35 graus centígrados da água. Havia vapor no ar, e um amigo à sua espera lá dentro. Trinta minutos de liberdade, com a nuca apoiada num “chouriço”, e um fato de banho azul claro, alternavam com um embalar de dois braços, e um diálogo em que o professor usava palavras e a aluna gestos corporais, que muitas vezes se confundiam com tentativas desesperadas que imploravam para uma fuga à dor. Ele acreditava que havia mundos maiores do que ele conhecia, mas desconhecia que a mente e o corpo deveriam estar alinhados para que algo acontecesse. O professor caminhava então no limiar entre dois mundos, embalando nos braços a sua aluna. Imaginava a presença do espírito que, com um simples gesto, daria a Sofia uma nova vida, que os sapientes diziam ser impossível. Contava-lhe que esperava que alguém acenasse com uma mão do outro lado do tanque, no meio do nevoeiro, “talvez um hippie com uma túnica branca, cabelo comprido e uma barba desalinhada”, que lhe diria:

- Levanta-te e anda!

E depois imaginava o desenrolar dos acontecimentos, tentando faze-la vomitar o fantasma que a assombrava. E como a cada pessoa é-lhes dada um desafio conforme as suas possibilidades, a nova Sofia seria entregue a caminhar à pessoa mais próxima que seria envolvida nos acontecimentos posteriores, e transmitir à mãe qual era a primeira vontade que a filha manifestara: ir fazer compras para a “Zara”! Porque o professor tinha entendido a dor alheia, aceitara-se a si próprio, com lacunas e vulnerabilidades, abrindo assim a janela por onde entrou a inesperada transparência da Graça. Margarida ouviu tocar, e disse:

- Entre!

A porta do gabinete abriu-se lentamente e uma figura feminina esguia apareceu. A terapeuta arregalou os olhos, benzeu-se cinco vezes, ao mesmo tempo que se ajoelhava, juntando as mãos em devoção àquela Sofia, que parecia a sua Sofia, mas que era impossível ser a Sofia. Tinha sete anos quando se confessou pela primeira vez, e lembrava-se ainda do pavor com que estava por não ter matéria pecaminosa na alma. Ao aperceber-se disso o padre pegou-a ao colo, e sugeriu que se lembrasse de alguma falta escolar.

- Menti à minha mãe, - respondeu, corando.

Lembrou-se de imediato de uma estória do livro de leitura, em que uma rapariga tirara um rebuçado à mãe e acusara a irmã. Quando chegou aos treze anos, a confissão foi mais arrojada:

- Dei um beijo na boca do meu namorado.

- Mas isso não é pecado, - disse-lhe o padre contra todas as espetativas, - é amor.

- Meti-lhe a língua na boca, - retorquiu.

A partir desse momento ir ao confessionário tornou-se raro, a religiosidade foi transferida para o dia a dia.

Tudo o que acontece deixa uma marca no espaço, no tempo e em nós. Por isso as preces tinham sido ouvidas, Deus insistia em continuar a escrever certo com linhas tortas, por isso deixou um recado no chão junto ao caixão, para ser lido por uma única pessoa, a terapeuta Margarida: uma etiqueta da “Zara”!

Talvez um dia a mãe Joana voltasse a sorrir, mas só pela metade!

110 - A Miúda do Lenço (23)

                                          

110

Sara deu uma olhadela rápida ao caderno da Bisavó e leu em voz alta:

- “O segredo dos meus hóspedes não está neles, mas sim na perceção que temos dos objetos da casa. Consegui desenvolver a sensibilidade mínima para descobrir as visões localizadas, é tudo uma questão química e hormonal”.

- “Visões localizadas”?! – Exclamou Isabel, uma adolescente frágil, de dentes encavalitados, com um olhar risonho.

- É melhor irmos dormir, amanhã temos de estudar a porcaria da matemática, não te esqueças dos TPC, - disse Sara levantando-se.

- Descansem meninas, amanhã levo-lhes o pequeno almoço à cama, - prometeu Adelaide, fechando o diário de Matilde.

As únicas provas dos acontecimentos que tinham conseguido resistir à erosão do tempo era o livro de registos da bisavó, vestígio físico e afetivo do passado. A meio da noite Isabel foi acordada por um suspiro sofredor e sonoro. Sentou-se na cama e começou a olhar com os seus olhos perscrutadores.

- Quem és tu? – Perguntou, com uma voz lenta e baixa.

As janelas abriram-se com estrondo, levadas por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro do quarto. E ao contrário do que era previsível, Isabel riu-se com satisfação, deixando cair uma lágrima. Só uma, que caiu indefinidamente, fazendo-a aperceber-se do seu amor pelas coisas. Havia uma alquimia em que não era fácil reconhecer se se brincava ou se era a sério.

- Afinal existes, e eu quero ser tua amiga! – Disse, ao mesmo tempo que agarrou numa caneta que estava na mesa de cabeceira para tirar apontamentos visuais e registar reflexões, com pequenas letras negras impressas em pequenas folhas brancas.

De repente tudo ficou calado, o vento, o pó e a rapariga. A figura esguia de Isabel levantou-se com uma gentileza leve e um gesto ritmado, aproximou-se das janelas e fechou-as. Sentia um amor que nunca fora vivido, que estava suspenso.

- Queres que eu me constipe?

Uma sombra vaga rodeou-a e a rapariga controlou a ansiedade com um sorriso no rosto e uma calma no corpo, ao mesmo tempo que se aproximava de um quadro pendurado na parede, onde uma fruta vermelha cintilava. Ouviu um sussurro, que pairou durante breves segundos, e depois voou. Isabel estava decidida a passar pela porta interdita. Da maçã brilhante saiu uma pequena luzinha com a forma de um pirilampo, que caminhou com passos vagarosos para o centro do quarto, que era uma sombra. Quando viu a mão estendida da rapariga, que estava ao seu lado, avançou para o corredor vazio e apagado, parando junto de uma janela com uma cortina de cor branca em fuga, marcada numa ponta com um borrão vermelho. Foi nesse momento que Isabel ouviu uma tosse surda, seguida de um silêncio denso. Esperou. Ao longe, junto de uns sofás, havia uma estante com livros. Um Tolstói destacava-se e um papel sobressaía. A rapariga aproximou-se e reparou que tinha algo escrito. Era uma mensagem com palavras escritas com uma tinta inquieta:

- “Os meus mortos continuam a mudar dentro de mim. Continuam a inquirir-me. Ando à procura de um rosto em fuga, com uma beleza tão natural que parece sobrenatural”.

Ouviu um silêncio cheio de gritos.

Sara sonhou com palavras, imagens e cores de um tempo a preto e branco, onde um fantasma, que emergiu súbita e gentilmente da leveza do ar, lhe sussurrava ao ouvido, com frases que corriam, paravam, recuavam, avançavam, desapareciam e reapareciam. Viu uma luz, seguida de uma sombra. Foi acordada por uma canção acerca de coisa nenhuma. Estava tudo desfocado, desproporcionado. Sentiu uma entidade estranha, não corpórea, porque não podia tocar, mas que podia escutar e encarar como um ponto de luz. Viu então um mulher lívida, de sorriso estampado na cara. O seu olhar era doce e perspicaz. Sara chorou, talvez de medo, talvez comovida.

- Olá, - disse, com graça e gentileza, tateando no escuro.

Foi rodeada por uma aura de luz fantástica, com cores e brilhos. Sentiu forças e energias novas, que lhe deram uma sensação de superior serenidade. Uma tinha uns olhos azuis penetrantes enquanto que a outra tinha uns olhos pretos pequeninos.

- Bisavó? – Perguntou timidamente.

Respondeu-lhe “sim” com a boca e “não” com a cabeça. A noite espessa voltou. Sara tentou encontrar algum interruptor que lhe acendesse uma luz. Pediu ajuda para o ar. As emoções espontâneas fizeram-na gritar frases soltas. Isabel entrou de rompante no quarto e ambas abraçaram-se com força, sentindo abraços frios. No chão do quarto estava um pequeno papel escrito que caíra de um velho livro do Eça: “Um quarto para as seis. Que hora tão improvável”.

109 - A Miúda do Lenço (M) - (22)

 

109

átima, 23 de julho de 2012

Minha querida, hematomas no braço são normais, basta um esforço. Tens que perceber que esse braço mudou e ter muito cuidado. Mas pode haver muito inchaço e isso é melhor ser visto. Felizmente só tiraste um gânglio. Se continuar a doer, vai ver. Vamos ainda falar antes de terça. Aproveita o fim de semana. Não penses demais. Não vale a pena. Não é nada do que imaginas. Nem tão mau. Ouve tudo o que os médicos ou enfermeiros te disserem. E cumpre. Mesmo que aches estúpido, cumpre. Eles têm razão. Ficas muito gira de cabelo curto. Até lá...um beijinho

 

Onde é que vais fazer a quimio e sabes que quimio é?

 

Fátima, 10 de agosto de 2012.

Ainda bem que correu tudo bem. Vais ver que te habituas a tudo. Nós somos mesmo assim. Nem sei de onde nos vem a força, mas pronto, de algum lado deve ser. Agora descansa uns dias, faz o que te apetecer, e depois diz qualquer coisa. Ou pede à tua Carlota que diga. Se precisares de falar, de dizer qualquer coisa, de não dizer nada, já sabes que podes contar comigo. Apesar de que tens um anjo da guarda, e que anjo, enorme, que é a Natália. E as tuas filhas. E o teu Gonçalo. E tu. Que és forte para caraças. Disseram-te do cabelo? Mandaram-te tomar muiiiiiiiiiiiiiiiiiita água? Faz tudo certinho. Eles sabem do que falam. É muito bom se não fores "vomitadeira", eu era um horror. Mas depois aprendi e sabia exactamente o que comer e não comer. E as coisas vão correndo. Quando é a próxima quimio? Daqui a duas semanas, não é? Demora muito? A minha eram cerca de 3 horas, 3 horas e meia, conforme os enfermeiros estavam com pressa para ir ver o Benfica. Vais dar valor a tanta coisa. E vais perceber quem é mesmo teu amigo. E olha que vais ter surpresas. Muito boas e algumas menos boas. Mas as boas vão ser mesmo muito boas. Se quiseres, fazemos assim: tu mandas sms, eu depois dou um toque para o teu telemóvel, e isso é sinal que respondi via facebook. Vai-me dizendo coisas, quando quiseres e se quiseres. Pensa sobretudo em ti. Eu penso. Ainda hoje pensei. E ontem. E estava à espera que dissesses algo. Conta das tuas filhas. E manda um beijinho à matulona da Natália, quem tem uma amiga assim, tem Deus ao lado.

Um grande beijinho

108 - A Miúda do Lenço (21)

 

21

Quando a noiva ia a atravessar a rua, um gato preto atravessou-se no seu caminho e pediu-lhe uma festa, sendo prontamente correspondido. Lembrou-se da experiência mística em Vila Fria, que a marcara para toda a vida, um encontro imediato com Mefistófeles. Só que a estória ficava sempre pela metade e a parte do tinto nunca mencionava. Era agora uma sofrida mulher de branco, com uma silhueta atípica, senhora de uma voz sem paz e de um amor profundo por um gato preto vadio, que escolhera por residência um buraco no telhado da primeira barraca que habitara com o Filipe. Nesse tempo Quitéria guardara uma cautelosa distância desse felino, que todas as madrugadas miava junto à roupa estendida. Mas uma noite acordou sobressaltada com o desespero do gato a bater-lhe freneticamente na cabeça, ao mesmo tempo que gritava desesperado. Sentiu pavor e deslumbramento. Pavor do fogo que se aproximava vindo da porta do quarto, aceso pelos vizinhos, e deslumbramento por aquele gato preto que tanto temia, tudo isto acompanhado por memórias sensoriais da infância. Diante dos dois seres vivos desenrolou-se uma comédia indecifrável, que os contaminou e tornou a dissociação dos dois impossível de fazer. Nasceu assim um amor belo de ir às lágrimas, a preto e branco, milagroso, que teve a força dos acontecimentos. Por isso quando vieram viver para Paço de Arcos, o Eusébio veio com eles. No fim da vida, na Torre da Aguilha, um lar de freiras no Arneiro em Carcavelos, já cega, pedia sempre às amigas que a iam visitar para alimentarem o gato que ficara. 

A igreja de Paço de Arcos estava pejada de homens, mulheres e crianças, quase sem espaço para respirar, o ar estava espesso com toda aquela respiração excitada, todos à espera que começasse o magnífico entretenimento. Quando Filipe viu Quitéria atravessar a rua na sua direção reviu a sua antiga mulher, benzeu-se. Nunca conseguira molda-la à sua fantasia. Os noivos deram um abraço, entregando as saudades que tiveram um do outro, e entraram de braço dado. Ela tinha uma figura humilde, sorriso tímido, olhos magoados, com receio de se fazer grande, ele ia sempre muitíssimo além dos limites, tinha sentimentos reativos muito instáveis, exterminaria sempre as suas personagens se deixado sozinho com elas.

107 - A Miúda do Lenço (20)

 

20

Porque vivia num mundo difícil para se ser boa, Leonilde deu um gole com força no gargalo da garrafa de tintól que comprara no “Severino Seco”, não sem antes ter pedido 10 tostões de manteiga, meia-quarta de café, uma quarta de arroz, pondo com brusquidão uma garrafa fazia em cima do balcão, tendo o senhor Fernando perguntado com um ar de gozo:

- É para pôr petróleo?

O líquido entrou de rompante na garganta. Ouviu murmúrios que caiam uns sobre os outros, atordoados pelo turbilhão de sentimentos do antes, do durante e do depois. Viu olhares hostis, medonhos e perversos, os pensamentos ficaram caóticos, excessivos, fantasmagóricos, estava ali e fora dali, distante com proximidade, num universo fragmentado no tempo e no espaço, com um clima de tensão no limite do insuportável, cheio de pássaros negros chocando no ar. Protestou desesperada quando se apercebeu que estava a perder os contornos, tornando-se distante e próxima, distante porque parecia estar a ser enrolada por acontecimentos contraditórios, próxima porque sentia o seu cheiro único. Foi coberta por um nevoeiro que alastrou e cerrou, sentiu um peso pesadíssimo sobre o corpo, viu no reflexo da janela do café do “Manuel da Leitaria “que tinha uma sombra no rosto. A porta abriu-se e uma gótica com vestes negras e olheiras profundas espreitou. Leonilde sentiu então o peso inexorável do destino, as pessoas do passado tornaram-se figuras reais, acreditou então que já não tinha um começo, estava sim num tempo de epílogo. Iria dar-se o grande e definitivo confronto com o destino. Caiu desamparada aos pés da noiva.

- Que grande cadela, - gritou um jovem adulto que estava no passeio oposto. – Aproveita Quitéria Barbuda, ainda há leitinho na garrafa.

O Tubarão nascera num bairro popular, onde habitavam ladrões e polícias, e por isso hesitou durante muitos anos que lado haveria de escolher. Como ladrão seria o maior, o mais provocador, o mais inspirado. Como polícia seria o mais criativo, o mais inovador, o mais inspirador. Vivia assim numa tensão, num conflito, num desespero, na dor. Parecia que o céu inteiro se juntara para o tramar. Ele sabia que o desastre era inevitável, que acabaria por chegar até que o tempo o apagasse da memória. Teve meditações viscerais sobre a natureza da violência urbana, lembrou-se do grupo de adolescentes aparentemente fraternais, quando não estavam a lutar uns contra os outros. Se optasse pela polícia, que grau de traição seria? Não queria trair os amigos, mas por outro lado esse respeito impunha-lhe a sua submissão. Sentiu uma tensão e o sentido da ameaça, viu pesadelos no horizonte com criaturas sinistras, era uma luta entre o real e a fantasia. Não tinha aprendido a ser autêntico. O trapézio onde se encontrava não tinha rede. Estava a ir longe de mais para quem já tinha testemunhado o pior. Nunca poderia fingir ser o que não era. 

106 - A Miúda do Lenço (19)

 

19

Quando ia a passar pela “Maria das Bicicletas” Quitéria sentiu duas emoções, uma boa e outra má. A primeira teve como causa um casal de pombos que se beijava afincadamente por cima da papelaria “Dáni”. Veio-lhe à memória o seu primeiro beijo. O tema ainda a atormentava. Afinal o quotidiano não era assim tão normal como pensava, e o beijinho que dera na boca de um rapaz alto, robusto e simpático, numa tarde de chuva num canto qualquer no Bairro dos Corações, depois do vigésimo olhar, com o reflexo dos pensamentos na ponta das línguas, que se enrolaram com fúria, deixou saudades do que não teve e do que não foi. Ela tinha-lhe posto os braços sobre ele, e nos olhos de ambos brilhara a mesma luz fixa. Não houve tempo para a sedução e a conversa. Viu-se longe, de perfil, na imaginação que tinha de si, grávida e só. Quitéria estava triste e contente, suspensa no seu alheamento, esquecida do tempo e de si própria, impessoal. A paixão tinha sido bela, simples e frágil. A vida afinal era mais imprecisa do que parecia. Quitéria vibrou e tremeu como os pássaros antes de gritarem, correu sem tempo e sem fôlego, enterrando os pés na terra cansada de chuva. No seu rosto havia uma fixação, uma obsessão. Escutou um susto. Era o jornaleiro a apregoar as notícias do dia. A emoção má veio do café “O Papagaio”, que lhe relembrou a tragédia do Carlos, o Pinguim. Tudo começara com pequenas derrotas diárias que tentou superar com esforços rápidos. Descobriu que a vida era mais imprecisa do que parecia e a sociedade pouco amistosa, porque não dava tréguas aos perdedores. Aquele rapaz enfrentara o desafio dos limites, que o empurrara para um estado de desespero, onde nada encaixava em nada. Deixara-se embalar pelo estribilho do mar de Paço de Arcos. Vira as nuvens encastelarem-se e as torres das muralhas da Direção de Faróis, instalações do antigo Grupo de Defesa Submarina da Costa, enegreceram até ao impossível. Um dia, quando estava no seu café “O Bachil”, pôs as mãos na nuca e pensou no caos probabilístico da vida onde ninguém tinha a certeza de coisa alguma. Lembrou-se dos vícios e dos incontáveis ridículos, olhou para a porta do armazém, uma tempestade rugiu com ventos e o céu desfez-se em água. Foi o sinal de uma coisa mais alta, e viu nele a forma indecisa de felicidade. Esvaziou o coração das mágoas e dos medos, rasgou um sorriso, pôs a corda ao pescoço e, antes de saltar do banco, o céu abriu para deixar surgir os últimos raios de uma luz lenta e leve, ouviu vozes vindas de uma raiva sem centro e apercebeu-se que a sua vida continha em si a sua própria negação. A mulher do Russo trouxe-a à realidade com uma palmada violenta nas costas:

- Acorda Quitéria, estás mais para lá do que para cá.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

105 - A Miúda do Lenço (18)

 

18

Era uma cena que doía. Todos sentiam na alma a dor da mãe, doíam-lhes nos corações as lágrimas que pingavam ininterruptamente dos seus olhos de cor azul celeste, e sentiam nas almas o lume de fogueiras iluminadas por luzes azuis, acesas na noite negra que caíra à traição. A vida de Sofia fora apenas um sono sem sonhos.

- Eu era a única pessoa no mundo que a conhecia, - desabafou a mãe Joana. – Tudo isto é injusto, os filhos devem sobreviver aos pais.

A grande preocupação dos pais com filhos deficientes tinha a ver com o seu futuro, quando eles não estivessem presentes, devido à lógica da vida. Mas para a Joana este pensamento nem se punha, porque para ela a filha era igual a todas as outras.

- A Sofia não precisava de mais tempo para a vida, pois nunca recebeu vida ao tempo, - tentou consola-la uma amiga, abraçando-a.

- Não percebo? – Perguntou a mãe com o corpo todo, deixando escapar um suspiro que se alongou, e se suspendeu, e se tornou a alongar.

A sensação da sua interioridade era tão intensa, que incomodou. Sentia a catacumba escusa para onde fora atirada. Não percebia ela, nem a própria, mas estas eram alturas em que as pessoas tentavam ganhar pontos perante o portador da dor, usando a maior parte das vezes as palavras mais caras, assim como as flores. A imortalidade é um luxo a que a Natureza não se pode permitir, tal como a esperança de vida de uma menina deficiente profunda é curta. Por isso as nossas vidas não são realmente nossas, e são feitas com as mortes dos outros.

- Muitas destas estranhas amigas da mãe Joana substituíram o meu confessionário pelo psiquiatra, - ironizou o padre. – Regressam agora cheias de cruzes à feira de vaidades em que se transformou o velório.

- Mais tarde ou mais cedo hão-de regressar, - disse outro. – As consultas estão caras e as pessoas vão ter com os padres para desabafar.

Para a mãe Joana, a Sofia seria sempre uma pessoa única e irrepetível, com um corpo feito de exterioridade e interioridade, uma menina frágil de um silêncio único dentro de uma bolha, que lhe ensinara a olhar para o tempo das coisas de outra perspetiva, e lhe dera o valor que ela precisava para deixar de ter medo dos silêncios. Foram dias demasiado longos, para uma vida demasiado curta.