terça-feira, 5 de maio de 2026

65 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Hospital de Highlands

 

65

13 de Junho de 1969

A notícia correu depressa pela região, o paciente do quarto número cinco, o senhor Paulo Prestes, acordou do seu longo sono e passeia agora calmamente pelos bonitos jardins, na companhia da fiel enfermeira Margarete. São observados do alto, pelo director.

- Há quanto tempo é que ele está aqui, doutor Preston ?

- Segundo a ficha, o senhor Prestes entrou há vinte anos, com um parkinsonismo pós-encefalítico.

- A “Doença do Sono”?

- O senhor director conhece a doença!??

- O meu pai tinha seis irmãos, ele foi o único que não apanhou a encefalite letárgica. Todos morreram! Estava em Viena em 1916, o meu pai tinha sido nomeado embaixador. Apesar de nunca ter conhecido nenhum deles, quando vi pela primeira vez uma fotografia da família, aos 7 anos, disse o nome de todos sem me enganar. A “doença do sono” deixou marcas na família!

- Parece um milagre, o senhor Prestes ontem levantou-se normalmente e foi passear para o jardim. Parece não saber onde está, e nem pergunta, só se mostra preocupado com uns colegas, que desconhecemos quem sejam.

- Já viram nos arquivos?

- Rita Bouvalier, Narciso Baeta e John Covões nunca foram nossos pacientes.

- Deixem-no sentir o mundo, está perdido no tempo, tem de ser ele a encontrar-se!

64 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Mount Carmel

 

64

Nova Iorque, Hospital de Mount Carmel, 13 de Junho de 1969.

No pavilhão dos “ mortos-vivos “ reina a excitação. Os médicos correm apressadamente de um lado para o outro, levando a reboque as enfermeiras e os assustados estagiários. Todos esperam pelo doutor Cinfuentes, que acaba de entrar no edifício.

- O que é que aconteceu aqui de tão importante, para me acordarem a esta hora da manhã? - Pergunta o director, vestindo atabalhoadamente uma impecável bata.

- É a paciente do quarto nove, – responde-lhe a obesa enfermeira-chefe. - Hoje de manhã quando os auxiliares lhe foram dar o pequeno almoço, estava de pé junto à janela.

- A senhora Rita Bouvalier de pé!?? É impossível!

Entram de rompante no elevador e carregam no botão para o quarto andar. O silêncio é pesado. Os olhares perdem-se no vazio, como luzes descontroladas numa noite de nevoeiro. Os médicos recém-formados colam-se à parede do fundo, receosos pelo que vão encontrar. Uma campainha anuncia a chegada, ao mesmo tempo que as portas se abrem com estrondo. O quarto nove está entreaberto. O doutor Cinfuentes espreita cautelosamente, hesita, mas decide-se a entrar. Vê um vulto de mulher junto à janela gradeada, contempla-a carinhosamente por uns instantes e aproxima-se. A paciente olha para o horizonte e murmura baixinho uma frase:

- Transpus a porta, transpus a porta, transpus...

Observa-a fascinado, olha em redor, não ousa procurar por explicações porque sabe que não existem, e diz com um tom jocoso:

- “Só sei que nada sei”!

Rita volta-se. Os olhares encontram-se, o diálogo é fundo, bem fundo nos alicerces da alma, falam animados em silêncio e sem palavras, procuram desesperados a memória que descobriram ser comum, e soltam-se repentinamente assustados. No corredor uma multidão espera-o ansiosa.

- Então doutor, o que é que tem a dizer? - Pergunta a enfermeira, encostando-o à parede com a sua enorme barriga.

- Colega, – diz o médico, apontando para um dos estagiários. - Como se chama?

- Carlos, Carlos Tompson.

- Carlos, entre no quarto e diga-me que idade dá à paciente.

O jovem avança com receio, empurra a porta, entra cautelosamente e fica paralisado quando encontra o olhar da Rita, que avança para si.

- Transpus a porta, – diz-lhe, pondo as mãos nos seus ombros.

Os olhos azuis desbotados da paciente cravam-se bem fundo no seu interior, o cabelo cor de fogo atira-lhe com um perfume floral e a pequena boca continua a soltar as palavras:

- Transpus a porta, conseguimos descobrir a entrada para o passado.

Afasta-se, perde o presente, retorna ao horizonte. Carlos sai desorientado e dá de peito com a enfermeira-chefe Zobáida Mercedes.

- A idade? - Pergunta embriagado.

- Sim, eu só quero um palpite, – responde Cinfuentes, acordando-o.

- Quarenta e cinco, talvez cinquenta.

- Quarenta e cinco?! Cinquenta?! - Exclama Zobaida, consultando uma ficha que tem na mão. – A senhora Rita Bouvalier tem sessenta e sete anos.

- Sessenta e sete, é impossível!

- Meus senhores, temos aqui algo que ultrapassa a ciência, tal como a conhecemos. Antes de avançarmos mais, é melhor acompanharem-me ao gabinete, para esclarecermos algumas ideias.

O grupo dirige-se em marcha forçada, comandados pelo doutor Cinfuentes, entram de rompante e cada um escolhe uma cadeira e sentam-se.

- Já ouviram falar da “Doença do Sono”?

- “Doença do sono”?!

- São muito novos, hoje em dia não lhes ensinam história na faculdade, – responde secamente a enfermeira-chefe.

- Não é com histórias que curamos as pessoas! - Exclama um dos novatos.

- Engana-se, – diz-lhe Cinfuentes. – É na História que muitas vezes se encontram as curas, porque ela repete-se indefinidamente. Mas o que nos traz aqui é a Encefalite Letárgica! Um dos maiores enigmas da medicina, uma doença terrível que aparece, dizima e evapora-se sem deixar rasto, aliás o único sinal da sua presença são os dezassete pacientes que temos aqui há várias décadas. Senhora enfermeira, conte a anamnese da Rita Bouvalier.

- Nasceu em 1902 em Viena e aos dez anos mudou-se com a família para Paris. Teve uma infância feliz e aos dezoito anos, quando se preparava para casar, foi acometida de uma doença súbita, que a deixou prostrada na cama. O médico que a assistiu, não conseguiu fazer nada e algumas horas depois declarou-a cadáver, devido a uma síncope cardíaca. Na noite do velório uma das criadas descobriu que a Rita estava a chorar. Afinal não estava morta! Foi internada num hospital e nunca mais regressou a casa. Permaneceu numa cadeira de rodas, imóvel, durante estes anos todos. Veio para aqui em 1945.

- E o que é incrível, é que apesar de ter estado como uma estátua durante décadas, com uma postura péssima, não há qualquer tipo de deformações, e o envelhecimento atrasou-se consideravelmente.

- Sessenta e sete anos?! - Interroga-se um dos assistentes, deixando escapar o pensamento.

- E apesar de tudo move-se, – continua o doutor Cinfuentes, cada vez mais entusiasmado. - Raramente os vimos moverem-se!

A altura mais interessante é a das refeições, todos são independentes nesta área, mas não os vimos comerem, temos de sair do refeitório. Quando voltamos, os pratos estão vazios.

- Doutor, – interrompe um dos colegas. - Mas a encefalite letárgica devia ser mortal, ainda por cima naquela altura.

- Em todo o mundo devem ter morrido milhões de pessoas, os poucos que sobreviveram devem ter sido aqueles a quem Deus protegeu, não sei para quê!

- Ou castigou! - Dispara a enfermeira Sobaida, sem levantar os olhos do processo.

- Depois da encefalite letárgica, quem ousou sobreviver, desenvolveu um parkinsonismo, que o deixou um morto-vivo. Eles são só alma, estão bem longe!

- No caso da senhora Rita Bouvalier, regressou ao corpo, – provoca de novo a enfermeira.

- Pode ter regressado, mas de dentro! - Ajuda um dos enfermeiros, que está escondido atrás da enorme silhueta da sua colega.

- O quê?! O colega se não tem nada para dizer, não diga disparates.

- Senhora enfermeira, não foi dito nenhum disparate, – diz Cinfuentes. - A discussão deve situar-se no plano metafísico, pois ao nível da medicina não vamos descobrir nada.

- Por amor de Deus senhor doutor, nós não somos padres!

- A alma não é exclusiva dos padres. Os médicos deviam compreender que muitas das doenças do corpo se devem a problemas na alma. Quando soubermos respeitá-la, então ela respeitar-nos-à ! O nosso trabalho com a senhora Rita Bouvalier vai ser de observação e registo. Alternamo-nos, vamos estar com ela vinte e quatro horas por dia, a registar tudo o que fizer e disser, incluindo os sonhos. Reunimo-nos uma vez por semana aqui e a esta hora. Bom-dia a todos!

Junto da grande janela do quarto número nove, a paciente fala para o horizonte:

- John, tu não vais passar, esta porta só dá para o passado, e tu não tens passado...

 

63 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Entrada

 

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O amanhecer acordou bem disposto, espalhando pela região uma luminosidade radiante, embora um pouco fria. Os quatro sobreviventes da missão “ Novo Olhar “ levantaram-se cedo e estão a ultimar os preparativos para mais uma viagem. Descobriram ao longe umas formações rochosas que parecem ser muralhas, sinais de que o destino está próximo. Os motores da “ Carraça “ já rosnam, o radar principal voltou a estar operacional e o engenheiro de sistemas Paulo Prestes acaba de se sentar aos comandos do veículo.

- Há problemas no sistema de refrigeração, – informa a engenheira Rita Bouvalier. - Temos de avançar com precaução e parar caso a luz de aviso acenda.

- Penso que o computador central resolverá rapidamente o problema, – diz o co-piloto Narciso Figueiredo Baeta.

As portas laterais são fechadas, o ruído aumenta e a “ Carraça “ põe-se lentamente em movimento.

- Já repararam que o radar acusa a presença do Piolho-Um em órbita do Corpo-Dois! - Exclama Rita.

- Agora tudo é possível, – diz, com uma voz rouca, John. - Os nossos sentidos estão embriagados, não sabemos o que é real e o que é fictício.

A viagem decorre sem incidentes, descendo a estrada que serpenteia pelas montanhas de várias cores, pois cada um dos ocupantes tem uma opinião diferente:

- A cor amarela das árvores é lindíssima, – diz Rita.

- Amarela?! É tudo azul! - Exclama Paulo.

- Azul!?! Amarelo!?? Cor-de-rosa, algum maluco andou a despejar aqui as latas de tinta que tinha no sótão. Poluidor! - Interrompe John.

- Fiquem com as cores que quiserem, que o meu encarnado ninguém me tira. Parece que as montanhas estão em fogo! - Grita Narciso, chorando emocionado.

Após a curva apertada, aparece uma enorme porta a barrar o caminho.

- Está fechada!

- Está alguém ali.

No lado inferior direito uma outra porta mais pequena está aberta e um vulto olha, imóvel, para os recém-chegados. Paulo tenta abrir a porta do seu lado e:

- Não consigo, está encravada.

- Deixa-me tentar, – diz Rita. – Não, também não consigo. Saímos pela porta do meu lado, – e roda a maçaneta. – Não, esta também não abre.

- Eu vou conseguir sair.

Narciso levanta-se, puxa a alavanca e a porta abre sem problemas.

- Eu também vou!

- Não venhas John, não vais conseguir.

- Então tu sais e nós não!??

- Há quem seja o preferido de Deus!

- Não brinques, não é altura para isso. Estamos colados aos assentos, algo nos obriga.

- Peguem nos binóculos e vejam quem está na porta.

Incrível! O vulto não é mais do que o coronel Narciso Figueiredo Baeta, ou melhor, um sósia.

- John, esta é uma das entradas da banda 2 do espectro, – esclarece o co-piloto. - Temos um tesouro nas mãos.

- Mas como é que tens tantas certezas?!

- Eu também fiz parte do projecto “ Tempo Novo “, não contaste tudo, John! Todos nós, direta ou indiretamente, estamos ligados a isso. Quem está ali é a minha imagem, e atrás dela estão as vossas. Para entrarmos no “ Tempo sem Data “, elas têm de sair, é a nossa segurança, é a segurança de Deus, Ele fez clones de todas as espécies.

O coronel aproxima-se da porta e a sua imagem sai e afasta-se. Quando se cruzam o original pára, obrigando a cópia a fazer o mesmo. Sorri para o seu clone e tem como resposta também um bonito sorriso.

- Felicidades amigo!

- Sedadicilef  ogima !

Enquanto ultrapassa a porta, cruzando-se também com outra engenheira Rita Bouvalier, o seu sósia entra calmamente na “ Carraça “. Um a um, os outros três fazem a mesma troca, e algum tempo depois a porta fecha-se, ficando no lado de dentro os originais da tripulação do Piolho-Um e no exterior, na “ Carraça “, os seus clones.

Na Nuca da Eva, Helias II recebe uma informação:

- Majestade, eles acabaram de entrar!           

 

62 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Diário de Bordo da Nave Piolho-Um - Dia 6

 

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A nave desintegrou-se, os nossos companheiros de viagem que optaram por regressar às suas casas ficaram pelo caminho, traídos por aqueles que se julgam deuses e que um dia hão-de ser julgados pelos crimes que cometeram. Com a nossa determinação todos estarão presentes e se a verdade for descoberta, estou convicta de que os havemos de reencontrar, e todos juntos regressaremos para as nossas famílias. A experiência que ontem vivemos, fez-nos ver a vida de outra maneira, acreditamos agora que o Tempo não é horizontal, mas sim circular, e quando o conseguirmos compreender, poderemos recuperar muitos passados. Por qualquer razão até agora desconhecida, o radar começou a detetar muitas formas, que se aproximam mas não se concretizam. O engenheiro Paulo Prestes diz que é a essência do Tempo, tudo se cria e nada desaparece! O Universo não é infinito, tem princípio e tem fim, e estes juntam-se num círculo eterno.

Pela primeira vez acendemos uma fogueira e dormimos ao relento. É tão bom sentir o Mundo! John contou-nos que há dez anos atrás participou numa experiência secreta em Lóxis, tendo como objectivo descobrir a mecânica do Tempo e cartografá-lo. O projeto foi inteiramente financiado pelo Coração e baseava-se em documentos da Biblioteca Tricúspica, pertencentes aos apêndicedianos. Segundo eles havia locais de entrada e saída no Tempo, e uma vez utilizados, o passado, o presente e o futuro uniam-se num só espaço, as distâncias deixavam de ter utilidade, pois pura e simplesmente não existiam, tudo estava ali, condensado.

A equipa encarregue do projecto “ Tempo Novo “, construiu uma máquina, o Dímetro, capaz de detetar quatro diferentes dimensões. Neste campo, os conhecimentos eram abundantes, havia a confirmação da existência de dimensões, o Corpo e a sua Aura, dois planetas praticamente sobrepostos, separados por um mícron, distância suficiente para criar ambientes distintos. Inicialmente enviaram sondas para explorarem a Aura, mas surgiram sempre problemas, os aparelhos não conseguiram regressar, restando só as imagens, que não diferiam muito das do Corpo. Algum tempo depois partiu a primeira missão tripulada, de que John fez parte. A viagem foi muito atribulada, estiveram um ano ausentes. Alguns dias após a partida e já dentro da Aura, esta afastou-se grandemente e a nave não tinha condições para regressar. O Coração empenhou-se na construção de um veículo interplanetário para os ir recolher. Durante este tempo fizeram inúmeras explorações e acabaram por descobrir uma cidade magnífica, ou seja, a Nuca. O Aura era pura e simplesmente o Corpo-Dois, a Eva. Aura, Corpo-Dois e Eva, três nomes para um só corpo celeste. Na altura prevista foram recolhidos e receberam ordem para não divulgarem as descobertas. Nunca mais se falou do assunto.

Quando contactaram Jonh para a missão “ Novo Olhar “, ele foi instruído de que esta era a primeira missão oficial ao Corpo-Dois e que devia comportar-se como tal. Foram as revelações do major que o fizeram optar por ficar. Havia algo de muito importante que o Coração queria ocultar!

O projecto “ Tempo Novo “ teve curta duração, conseguiram detetar duas entradas na banda  2  do  espectro,  mas  a  exposição  desta era de muita curta duração, não havendo meios técnicos que conseguissem colocar pessoas para além delas. O processo foi arquivado, esperando-se então que a tecnologia progredisse, para assim poderem avançar com os estudos.

Adormecemos ao relento, embalados por uma brisa quente de verão.

 

Assinado, Rita Bouvalier, comandante da missão.

61 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Destino Alterado

 

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A “Carraça” avança determinada por um caminho sinuoso. A engenheira Rita Bouvalier vai aos comandos, as potentes luzes rasgam a escuridão e iluminam uma chuva miudinha que cai como raios, há várias horas. De repente, um vulto atravessa-se no caminho, a travagem é brusca, o veículo derrapa no terreno lamacento, precipitando-se por uma encosta.

- Está descontrolado, não consigo aguentá-lo!

- Aciona o manípulo de segurança, – grita Paulo, ao ser puxado violentamente do seu sonho.

A “Carraça” rebola freneticamente, os sucessivos embates aumentam a confusão, durante alguns minutos, que parecem eternos, só se ouve o chiar estridente dos aparelhos descontrolados. Um som seco anuncia o fim da atribulada viagem.

- Parámos! Os sistemas deixaram de funcionar.

- Empurra o manípulo.

As luzes ligam-se, o painel torna a brilhar.

- Estamos numa estrada, – informa o coronel. - É a estrada que nos leva direitinhos ao destino.

As portas abrem-se e os ocupantes saem, ansiosos por abraçarem o espaço exterior. Um nevoeiro leitoso mistura-se com a noite e tapa o céu estrelado.

- É estranho, o ambiente parece pesado.

Um raio muito luminoso rasga o ar e ao longe aparece um objeto cintilante, cheio de cores. Rita agarra nos binóculos e aponta-os na sua direcção. Tira-os repentinamente e dão-os a um dos colegas.

- É impossível! Paulo diz-me o que vês.

- É o Piolho-Um, não é possível, nós vimo-lo sair da atmosfera.

A nave descreve uma curva e passa a poucos metros dos incrédulos espetadores, que gesticulam aterrorizados.

- Não nos vêem, ignoram-nos.

- Estão a circundar-nos, têm de nos ver!

O círculo aperta-se, a nave está agora muito perto e fica transparente. Lá dentro pode-se ver nitidamente toda a tripulação. Aos comandos vão Mac Macléu Ferreira e Alfredo Mávida, o capelão Graise agarra com força o terço e a bióloga Mary Holmes grita desesperada.

- Comando Central, aqui Piolho-Um, estamos com problemas no piloto automático, não o conseguimos desligar, pedimos apoio urgente, – grita o piloto.

- Eles estão com problemas, temos de os ajudar, – diz Rita, correndo para o veículo.

- Rita, eles não nos podem ouvir, nem ver, olha o que está por cima da nave.

Ao longe, mas perto, a silhueta do planeta Corpo aparece esplendorosa, envolta no seu manto azul celeste, tão serena como sempre.

- Comando Central, aqui Piolho-Um, saímos do rumo de aproximação, ajudem-nos, a nave acelera, estamos nos limites.

- Eles não nos ouvem, nem nos vêem porque estão no passado.

A cena é dramática. Por qualquer razão desconhecida algo lhes trouxe o que já passou, as datas misturam-se, é a descoberta da verdade para além do Espaço e do Tempo, tudo retorna, tudo se repete... uma explosão salpica o horizonte e repõe a legalidade do presente.

- Morreram, os nossos companheiros ficaram reduzidos a cinzas, malditos, era esse o nosso destino, – e Rita chora, lançando a sua raiva sobre a superfície metálica da “Carraça”.

- O nosso destino foi alterado, manipularam-nos a existência! - Exclama John Kovac’Olhões.

60 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Diário de bordo da nave Piolho-Um - Dia 5

 

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A vista da zona do Queixo é fabulosa! À nossa frente erguem-se duas montanhas que parecem querer ouvir cantar as estrelas. Entre elas corre um estreito profundo, e ontem o Paulo disse ter visto vários vultos negros a desfilarem lentamente por um dos caminhos. O silêncio é redentor, as estrelas que nos contemplam curiosas, parecem ter orelhas e ontem vimos meteoritos a precipitarem-se na zona da Nuca. A “Pulga” está com problemas num dos eixos centrais e isto tem atrasado a marcha. Os aparelhos registaram uma grande trovoada na zona do Umbigo, que está em deslocação para o Pólo Norte, e para a evitarmos teremos de andar mais depressa. Optámos por abandonar o veículo e prosseguir na “Carraça”. Os nossos companheiros que regressaram ao Corpo já devem ter chegado e ontem, durante toda a noite, estivemos à escuta, mas não conseguimos captar qualquer contacto entre eles e o Comando Central.

Segundo os nossos cálculos, devemos chegar à zona central esquerda dentro de vinte horas. A viagem vai ser ininterrupta e vamo-nos revezar nos comandos. As condições atmosféricas estão inconstantes, chove de noite e durante o dia o céu está limpo. O coronel Narciso Baeta já definiu a rota, e afirma ter descoberto uma via artificial. As provas da existência de vida vão-se acumulando e estamos convencidos de que dentro em breve vai haver um contacto definitivo. Ontem o radar detectou durante alguns minutos o voo de um objecto, que poisou algures no sítio para onde nos dirigimos.

 

Assinado, Rita Bouvalier, comandante da missão.

59 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - A Reflexão de Helias II

 

59

Na cidade sagrada Tricúspica o tempo já não é bom conselheiro, os últimos acontecimentos obrigaram Helias II a uma reflexão profunda. O monarca convocou o Conselho dos Sábios e, por isso, todos sabem que algo de grave está a passar-se. A azáfama é grande, entram carros azuis de minuto a minuto, a zona está interdita à população e há muitos grupos de contestatários nas fronteiras marcadas com grades pintadas de um amarelo vivo. Sente-se a tensão, as portas tricuspianas são fechadas com estrondo. Junto à carrinha duma das estações televisivas, um jornalista acaba o seu trabalho com uma estranha pergunta:

- Haverá alguma relação entre a tragédia que vitimou toda a tripulação do Piolho-Um e o nervosismo da corte de Helias II?

Na Sala dos Profetas o monarca assusta-se.

- Até onde é que eles sabem?

- Não se preocupe alteza, eles não sabem nada, é apenas um desabafo dum jornalista perspicaz. As notícias que saíram sobre o acidente foram aquelas que nós achámos convenientes.

- Já analisaram a imagem do espectro da tripulação da nave?

- Sim, os técnicos detectaram a ausência de quatro elementos, alguém ficou na Eva!

- Meu Deus, algo me diz que eles tiveram acesso à caixa, como é que isso foi possível?

- Há forças estranhas naquele planeta, alguém lhes facilitou o caminho, temos de enviar outra missão.

- O governo cardíaco lançou-nos um ultimato, não querem mais nenhum voo, dizem que vão fazer mais atrasos no metabolismo.

- Atrasar ainda mais o metabolismo!?? É impossível! Com o fracasso da operação nos Pulmões, o Cancro está em todo o lado, tornou-se impossível manipular o Corpo. E o Cérebro, o Coração ainda consegue controlá-lo?

- A crise também se estendeu ao Cérebro, o seu governo decretou o estado de sítio em Lóxis, a Federação está com enormes problemas, vários Neurónios revoltaram-se.

A conversa entre o monarca e o delegado da República do Estômago é interrompida pela chegada dos outros membros. Um a um cumprimentam afectuosamente Helias II e ocupam os seus lugares. As grandes portas de ouro maciço fecham-se e os guardas selam--nas, deixando bem à vista os símbolos com a águia das três cabeças.

Algures na capital do reino do Coração, Diástole, uma forte explosão faz estremecer o ar, ao mesmo tempo que provoca uma intensa chuva de vidros e pedras. Por momentos o silêncio é total, só uma nuvem de pó vai abraçando, com pantufas, a cidade da luz, transformada agora num lugar cheio de trevas. Gritos tímidos rasgam a noite, aumentados por coros de sirenes que cintilam por toda a parte, perseguidos por vultos ensanguentados que forram a noite.

- O rei morreu, – informa friamente o jornalista da emissão especial. – D. Sístole II sofreu um atentado e não resistiu aos ferimentos. O Coração está de luto, foi decretado o recolher obrigatório em todo o país, as forças armadas são agora o garante da lei e da ordem.

- Só Deus nos pode agora salvar – diz em pânico o delegado da República dos Rins.

- Deus!?? Agora não é altura para falar de Deus, os acontecimentos precipitaram-se, temos de pensar na eventualidade de abandonarmos a cidade Tricúspica.

- Abandonar a nossa cidade!??

- O caos vai tomar conta de tudo, é a profecia anunciada há mil anos pelo profeta Castor: “ Quando o monarca da cidade luz desaparecer no meio de uma tempestade de fogo e trovões, é o sinal do Juízo Final, e os filhos do Espírito Santo devem fugir para os territórios sagrados “.

- “ Territórios Sagrados “?! Nunca soubemos que territórios eram esses, nem nos preocupámos em saber, as profecias só servem para dominarmos os outros.

- Meus senhores, nós somos os eleitos, – diz Helias II, levantando-se e tentando acalmar os presentes. – A hora é de reflexão, todos esperam muito de nós, e o exemplo que dermos marcará a atitude do povo.

Palavras bonitas para quando o presente era radioso, mas que não passam de frases soltam para um futuro que desaparece à medida que chega. A multidão está cega, já ninguém a contém no assalto à cidade sagrada, os valores precipitam-se como um baralho de cartas, é a chegada do caos para quem não soube gerir a ordem. As estátuas veneradas há séculos caiem dos pedestais, empurradas por hordas traídas, feridas de morte por negreiros das suas almas, que fizeram da luxúria e da orgia suas cúmplices, renegando para catacumbas escuras as essências da vida universal. Algures na vastidão do cosmos, viajando a velocidades muito para além da luz, vão ideias perdidas que um dia deram forma a um rei, juízos julgados por ideias que nessa mesma hora deram consistência a uma máquina que se desagregou, desagregando. É este o pulsar de Deus, a morte é sempre a causa da vida!

Salão após salão, tudo é consumido pela multidão que avança enlouquecida pelas entranhas do palácio, que até há pouco tempo era considerado sagrado, e que agora não passa de um covil de ladrões que ousaram um dia negociar as almas.

- Alteza, está tudo preparado, – informa o secretário de Helias II, entrando de rompante na assembleia.

- Meus senhores, as naves estão à nossa espera, temos de abandonar a cidade. O nosso destino é a Nuca da Eva!

Francisco Sá, sucessor daquele que um dia quis repartir as verdades com o seu povo, farto das hipocrisias dos governantes, subiu ao poder depois de um golpe silencioso que vitimou Helias I. Como troféu escolheu o mesmo nome e apareceu às janelas do palácio como Helias II, aquele que iria repor as mesmas verdades.

A eterna aliança entre a monarquia cardíaca e a cidade-reino reforçou-se e a existência do Corpo-Dois manteve-se no segredo dos deuses. Mas a ciência é incontrolável e os Olhos acabaram por detectar a boa nova: existia outro planeta próximo do Corpo. Uma verdade já há muito descoberta pelos “sábios do cosmos”, os profetas do povo do Apêndice.

Os apêndicedianos eram os mais evoluídos do planeta, sabiam o Mentino e isso permitia-lhes navegar pelo Universo. Criaram uma colónia na Nuca da Eva e conheceram as “seis magníficas”, os anjos de Deus. Receberam como missão divulgar a linguagem universal e enviaram uma expedição às “terras nobres”. O rei Babuino recebeu-os como heróis e apresentou-os aos profetas da cidade Tricúspica, os governantes do Coração. Estes registaram pacientemente os ensinamentos dos estrangeiros e como paga ofereceram-lhes um fabuloso dragão de ouro, “tão grande que nele cabiam todas as terras do Pólo Norte”.

Puro engano! Quando o presente chegou à península do Apêndice, as suas entranhas abriram-se e de lá saiu o maior exército jamais visto, que dizimou aquele povo de gente pacífica e lhes roubou todos os bens e toda a ciência.

Os tricuspianos consideram-se uma parte de Deus e a sua filosofia de vida baseia-se na obtenção, por todos os meios, dos conhecimentos necessários para a glorificação do “Tempo do Espírito Santo”. São pacientes, para eles a morte não existe, e estão sempre preparados para mudanças bruscas, mesmo que isso signifique mudar de planeta. “Andamos à frente da História”, costumava dizer o rei. A acumulação de riquezas fez parte dos seus planos de defesa, eles sabiam que o seu reinado não seria eterno, e então colocaram estrategicamente o ouro e as jóias, pois quando o povo viesse em fúria seria distraído pelo fabuloso tesouro e eles teriam tempo para fugir e levar a verdadeira fortuna: o Conhecimento. Também dominam com mestria o espaço físico. Enquanto lhes foi útil governarem o Coração não hesitaram, mas quando os problemas surgiram, reduziram-se à cidade Tricúspica e arranjaram quem ficasse no seu lugar. Agora sabem que estão a mais no Corpo, que já aprenderam tudo, e então preparam-se para o abandonarem. Mas este tipo de política fez-lhes muitos inimigos! Os apendecidianos são os mais implacáveis, e juraram combater em todo o lado contra o “Tempo do Espírito Santo”.

A cúpula do palácio tricuspiano abre-se perante a multidão que saqueia avidamente os inúmeros tesouros e todos recuam. Um raio rasga o céu e ouvem-se dez estrondos ensurdecedores, seguidos de um silêncio duvidoso. A luz desaparece, as bocas fecham-se, os olhos tornam-se a virar para o chão e a carnificina recomeça. Lá de cima, Helias II contempla serenamente a cena e exclama:

- O tempo encarregar-se-à de nos tornar um mito.

- No livro da História só os mais fortes têm direito a escrever os seus nomes.

- A minha sucessão deverá ser a nossa próxima tarefa.

- Sucessão!?? Mas, é só com a morte...

- Tenho uma missão muito importante para cumprir.

- Missão!??

- Há problemas para resolver na Eva. Ignorá-los é pôr em risco o “Tempo do Espírito Santo”, a causa da nossa existência. Já ouviste falar nas “Quatro Magníficas”?

- As deusas dos sonhos, que foram enviadas por Laputa para juntarem Eva a Adão, – respondem o fiel e confidente secretário de Helias II.

- As guerreiras enviadas pelo Pai para atrasarem o “Tempo do Espírito Santo”. Este preciso do Universo curto para começar o Seu “tempo”, enquanto que as deusas têm como missão aproximar Eva de Adão e levá-los a procriarem, conseguindo assim aumentar o Cosmos. A grandeza prejudica-nos!

- Mas elas já não estão todas reunidas!??

- Conseguimos quebrar-lhes a unidade, temos de aproveitar as suas fraquezas para as destruir.

- E Adão, qual vai ser o seu futuro?

- Adão tem de morrer!

- Destruir Adão!?? Laputa não vai deixar!

- Laputa não poderá reagir, Adão não é o centro do Universo, é unicamente uma poeira em movimento, e neste jogo nós podemos entrar.

Das janelas da nave principal, o Corpo não passa de um ponto com uma aura azul, hoje mais luminoso do que nunca, lançando para o Cosmos o seu último desejo, um grito lancinante que lhe vem das profundezas da alma, à procura da sua amada que já há muito saiu da oposição e que ruma agora em direcção ao desconhecido.

- Objectivo à vista, – informa o piloto.

- Eva, a nossa Eva, – desabafa Helias II - Ela vai ser a nossa próxima companheira, os conhecimentos que lhe conseguirmos extrair vão ser vitais para a nossa nobre missão.

As cinco naves poisam suavemente na região da Nuca e as luzes apagam-se, deixando aparecer da penumbra a bela cidade, a frondosa Cicerine.

No Corpo os acontecimentos precipitam-se. A cidade Tricúspica está em chamas, a multidão grita “o metabolismo é do povo, abaixo os tiranos”, a revolução está imparável, o governo cardíaco exilou-se no instável Cérebro, na Crossa da Aorta o caos é total. Os arsenais do exército foram saqueados, é o regresso às origens, o tribalismo faz a lei, os inimigos mudam ao sabor das necessidades.

Nas altas montanhas do Queixo dois vultos contemplam serenamente o horizonte, rodeado por um manto de neve muito branca.

- Somos uns privilegiados, deram-nos a grande oportunidade de assistir à História ao vivo – diz o historiador motorista Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, apontando os binóculos.

- O Memoh é incompatível com a liberdade! - Exclama o seu colega de grupo, o doutor Abiron ou o senhor Joanito-Faz-de-Conta, roubando uma longa fumaça ao seu teimoso cachimbo.

- Liberdade!?? O que é isso? Ninguém pode ser livre no Universo, felizmente Deus nunca teve dessas ideias. O que aqueles bárbaros fazem é obedecer às suas pulsões, estão agora mais subservientes do que nunca.

- Vê como tudo se repete, o retorno é inevitável. Primeiro destruíram o poder, depois tornaram-se nesse poder e de seguida aniquilaram-se entre si.

- Afrodite ainda acredita no Memoh!

- O quê, ainda não desistiu!?

- Informou-me de que vai continuar o trabalho e que tem o apoio das outras três.

- E Laputa, já disse alguma coisa?

- Laputa está cega, só tem olhos para estas meninas, e enquanto elas não desistirem, seremos os seus vigilantes.