quarta-feira, 11 de março de 2026

14 - Deus Moribundo

 

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O lago estava sujo e perdido para a alegria, tão triste e ausente. Deus existia mas estava com pouca vontade para tal, o Seu brilho desaparecera, tinha nódoas de sombra e poeira nas barbas, tentava lutar pela sua amada, mas os olhos revelavam-se surpreendidos e assustados. Havia um tremor nos que o rodeavam, tudo morria um pouco neles.

- Tudo flúi, há sempre mudança, - disse Arphaxat, encostando-se ao detetive Narciso Baeta, pelo lado esquerdo.

- Toda a mudança é uma ilusão, – exclamou Zoroem, aparecendo no lado direito.

- Se o senhor tivesse chegado aqui pelas vias normais, o seu retrato teria sido este, – e Araphaxat mostrou-lhe a imagem do momento da sua morte.

O detetive reparou que Deus estava numa espécie de casulo, era seco, frio, esquivo e melómano. Lilith tinha sido uma preciosa fonte de vida, de quem dependeu a criação de um punhado de planetas, alguns dos quais desdobraram-se e brotaram uns dos outros como cogumelos num bosque. Ela possuía a “alegria da vida” e enquanto viveu Deus fora perfeito, brilhante e sofisticado. Quando o senhor Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta entregou o cofre com algumas das ideias que tinha conseguido juntar, a água começou a ganhar cores e formas, e Deus desapareceu no meio de nostálgicas quedas de luz.

- O seu regresso vai ser feito através das memórias, pessoal, coletiva e reinventada, – explicou o Anjo Pipoca

Tudo se resumia a uma questão amorosa, que tinha de ser resolvida para que a salvação do Mundo fosse ainda possível. O detetive estava numa estrada escura sem fim, com uma mala de viagem junto a si. E quando pensava que não conseguiria sair daquele cenário lúgubre, onde tinha começado a chover, alguém o chamou:

- Senhor Narciso, estou aqui para o guiar nesta terra no limiar das trevas.

Viu uma mulher alta de aspeto oriental, com umas botas de biqueira de aço, um casaco de cabedal por cima de um vestido amarelo e um cinto com balas vazias.

- Nem toda a fé está perdida.

- Onde estou? – Perguntou, revelando um inconformismo perante o destino.

Moviam-se lentamente.

- Onde estamos? – Insistiu o detetive.

- De regresso a casa, - respondeu secamente a nova companheira.

- De regresso? – Narciso Baeta parou e agarrou-lhe no braço. – Bastava abrir uma porta e estava em casa.

- As portas que se abrem são só para a ida. É muito raro alguém regressar de Laputa, pois ela só tem um sentido. Eu vim contrariada de muito longe para o levar a casa, por isso não me faça perguntas, limite-se a acompanhar-me.

À medida que avançavam pela estrada que parecia não ter fim, o detetive notou que o cenário era de caos, anarquia, rebeldia e insurreição. Chegaram ao fim de algumas horas de silêncio absoluto a uma paragem de autocarro. Foi informado de que teria de esperar pelo próximo guia, que viria ao volante de um autocarro. O senhor Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua iria revelar-se um ser extraordinário, um sábio, uma pessoa dotada de uma verdadeira “cultura universal”, no sentido literal.

 

terça-feira, 10 de março de 2026

13 - A Casa de Deus

 

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Laputa era um exoplaneta muito rochoso, gélico, escarpado, calcinado, com lagos, com vales rasgados, escuro, molhado, que tinha dois oceanos e uma atmosfera muito espessa, que lhe dava uma temperatura ambiente de vinte e cinco graus em toda a superfície. O planeta produzia o seu próprio calor, era único. Só os anjos sabiam o caminho até ao pico do Universo. Era um planeta feito de boas vontades e bons sentimentos, forrado de uma felicidade possível, com habitantes que não passavam de feixes de luz, quase abstrações.

- Mas disse que era “gélico”?!

- É a inocência paradisíaca, que só a alma alcança, porque o corpo é limitado.

De repente apareceu em todo o seu esplendor um enorme corpo celeste.

- Parece um cérebro! – Gritou o detetive.

- É o maior e o mais fascinante mistério que desde sempre tem sido objeto de constante busca, mas nunca completa resolução, o Cérebro, que está presente em todas as criaturas do Universo. É o bilhete de identidade para ter acesso à Eternidade, – explicou o Anjo Pipoca, olhando para a dor pesada e muda do seu passageiro. – Laputa representa a Medida, aqui não há sonsos vendavais, a Eternidade completa-se neste local. Chegámos na altura certa, Laputa tem um pôr-do-sol melodioso, que é um vivificante para todos os seres vivos, onde o seu silêncio é possuído por uma lentidão de eternidade.

- Pôr-do-sol?! Mas eu não vejo nenhum sol?!

- Mas no entanto ele existe! É a cidade espiritual das vossas almas, devidamente protegida pela humanidade dos seus anjos, os ícones dos vossos desejos mais profundos e às vezes inconfessáveis. Temos intempestivas decisões, a nossa arrogância é soberba a ditar sentenças, somos mestres na arte do egoísmo, representamos os demónios da ganância, o modo cósmico e global do sítio de onde viemos, a angústia da sua posse faz-vos sentir irremediavelmente atraído por nós. É a nossa inocência que te faz antever o Paraíso.

- Mas isso tudo que disse é horrível. Laputa parece ser um lugar desprezível.

- Um pouco de deboche ativa qualquer civilização. Laputa é um nicho de histórias fantásticas, porque os anjos têm um papel privilegiado como guardadores de sonhos, porque convivemos diariamente com demónios, e isso representa um hino à amizade. O nome “anjo” é de um íntimo universal, nós detetamos sempre os perigos e propomos sensatez. Nós temos uma sede de humanidade pelo divino!

Os Querubins estavam em greve e Deus deixou de ter cocheiros. Estava retido no seu palácio há já várias semanas. Esses pequenos anjos gordos, os únicos que conheciam os limites do Universo, pois tinham no seu código genético a “Alegria do Mundo”, eram adeptos fervorosos do “Criacionismo” e tinham extremado as posições. A cidade onde se instalaram chamava-se Clematara e situava-se entre duas grandes montanhas, sendo dividida ao meio por um lago, de cor azul celeste. As casas serpenteavam, multicolores, pela encosta acima. Dali o Universo era controlado por um tempo circular, guardião de ideias que faziam progredir a existência de todos. Mas a harmonia possível entrara em crise. Deus não conseguira corrigir as desigualdades de Leve, e Laputa queria imprimir a verdade e a vitalidade, assim como fundir as duas correntes numa só, arrojada e inovadora. O funcionário que um dia fora enviado ao Centro do Universo, revelara-se uma entidade com muito mau feitio, impossível de aturar que, ao mais pequeno pretexto, mostrara o poder e a fúria. O seu egocentrismo fora tão grande, que ousou um dia substituir-se a Deus e juntara as ideias que ressuscitaram um homem de nome Lázaro. E como os levenianos se tornaram criaturas de extremos, crucificaram-no. Mas a resposta de Deus a Sodoma e Gomorra também não foi proporcional, mostrou-se brutal e insensata.

- Deus não é Omnipotente nem Omnipresente, tem princípio e tem fim, – exclamou o Anjo Pipoca, apontando para um edifício num dos cumes, ao mesmo tempo que parava em frente a uma estátua. – Aqui está Mefistófeles, que comeu da Árvore da Sabedoria e derrotou o Príncipe Perfeito, um falso demónio. No fim de cada ciclo as sociedades espalhadas pelo Universo são sempre julgadas pelas suas exceções e os seus extremos. Chegou a vez de Leve.

- E onde está Mefistófeles?! – Perguntou o detetive.

- Eis o anjo! – Respondeu, tocando-lhe.

- Uma estátua, isto é uma estátua?!

- Esquece o Mundo Aparente e tem fé no Mundo Verdadeiro. Mefistófeles existe e é esta…estátua, – disse o anjo, aproximando-se doutra imagem. – Vê Oríade, a divindade que representa a força, ela é o ser vivo mais próximo de Deus, a segunda na hierarquia do Universo.

Dois vultos pararam junto a eles e olharam curiosos para o detetive. O mais alto tirou do bolso um instrumento e fez medições à sua cabeça.

- É daquela espécie que tem o cérebro curto, porque o hemisfério esquerdo é um tirano, e é por isso que um simples segundo os faz, e um simples segundo os destrói, – e afastou-se rindo às gargalhadas.

O olhar do detective Narciso para um elefante que se encontrava aninhado num galho de uma árvore, mostrava que ele estava perdido onde tudo era constituído por ideias, que formavam células, nervos, músculos, ossos, pensamentos, memórias, e a morte não passava de um desagregar dessas ideias, que se iriam encontrar algures noutro lugar, com uma nova combinação. E tudo dentro de um Eterno Retorno de um Tempo que era circular e dotado de uma seletividade controlada por Laputa. No horizonte uma tempestade de raios e trovões riscou o céu e ruídos silenciosos abanaram o ar.

- O Vácuo quer Laputa! – Disse o Anjo Pipoca, contemplando o espetáculo de cores desconhecidas. – Quando a ordem subverte a legalidade do Universo, só o caos sabe repor o movimento verdadeiro.

- E agora magia, magia para todos, – gritou um anão azul interpondo-se entre os dois. – Vejam senhores, os maiores mágicos do Universo.

Duas explosões, seguidas de colunas de fumo, assustaram o visitante da Terra, e levaram o seu acompanhante a encolher os ombros.

- Eu sou Zoroem, o Príncipe do Coração, – e fez aparecer um céu avermelhado.

- Eu sou Arphaxat, o Rei dos Rins, – e mudou a cor.

- Malandro, – gritou Zoroem, transformando-se num dragão e atirando-se com raiva sobre Arphaxat.

- Calma, calma meus senhores, – interveio o anão. – Temos uma visita.

- Tudo é magia, – exclamou Arphaxat, levantando o braço esquerdo e mostrando a cabeça risonha e ensanguentada do colega. – Tudo é espetáculo, o Universo é a cartola de Deus. - E desapareceram!

- Deus fala por ideias que se juntam momentaneamente, e a que vocês chamam “Aparições”. Na balança política o Mal pesa muito mais do que o Bem, porque por cada Zoroem que nasce para iluminar o Universo, temos que aguentar e sofrer umas dezenas de Arphaxat. A banalidade do Mal em Leve é muito mais dramática que a raridade do Bem.

Um bando de anjos passou apressadamente, deixando uma brisa que lhes acariciou as faces.

- Parecem umas libelinhas gigantes.

- São Serafins, anjos muito rápidos, com seis asas, que guardam permanentemente o Palácio de Deus, desde o nascimento até à morte, sem pararem.

Um sol começou a espreitar no horizonte. A sua cor alaranjada salpicou a região, pintando as montanhas com um tom escuro e misterioso. O lago cessou de se agitar e bramir. Era estranho vê-lo convertido em cadáver, mudo e imóvel. De um momento para o outro o bando de Serafins começou a surgir dos penhascos, indo juntar-se compacto no Palácio de Deus, lá em cima, muito em cima. Um raio rasgou o ar e despertou o lago, que se levantou com vagas enfurecidas, que começaram a bramir em torno das margens, até se transformarem em dois castelos de nuvens cerradas, que subiram pelas montanhas, até as taparem.

- Deus acordou! Este lago é a Sua biblioteca, e só Ele sabe abri-lo. As suas águas são de diferentes densidades, que se misturam para guardarem as fases desencontradas da história do Universo. Ele sabe que o pior junta-se sempre ao melhor e por isso nunca existiu um Jardim do Éden. O Mal e o Bem são dois poderes impertinentes, que sempre estiveram no meio de nós e só não os viu quem não quis.

 


domingo, 8 de março de 2026

12 - Do Anjo Pipoca amante incondicional da violência mais funda

 

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Na terra sob jurisdição do Anjo Pipoca os dias eram largos e os sóis, que eram três, muito altos, e ele gostava de morangos e champanhe. Tinha uma elegância natural e uma tolerância inata, que pedia sempre a perfeição e um diálogo exato. O detetive Narciso reparou que o Espírito Livre ficara feliz.

- A maldade deste anjo é a mais horrenda, tem um nível de sofisticação maravilhoso. Ele é uma figura mitológica, é o único ser que criou o seu passado, – disse no momento da separação.

A informação que o anjo possuía fora arrancada à noite mais funda da história do Universo. Viera das entranhas da sua terra, de onde extraiu a linfa vital que lhe mantinha os poderes.

- Deus não é o Todo-Poderoso que vocês pensam, - avisou.

Ouviu-se um grito rouco das aves, no meio de uma grande paisagem iluminada sobre a claridade dum sol.

- Senhor Narciso, acha que é mau morrer? – Perguntou o anjo aproximando-se do detetive.

- Depende.

- Depende?!

- Depende do trabalho que Deus me der. Pensei sempre que a morte era o fim de tudo, mas já vi que não e que pode trazer-nos muitos problemas.

- Quando andei pelo Universo acumulei ira e ódio, vi que as pessoas eram melancólicas, porque tinham medo de morrer. A violência muitas vezes é generosidade e neste caso é uma experiência estética, – disse abrindo uma porta.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

11 - Do Anjo do Tempo, amo da Águia Tipilina que carrega o Livro de Bordo

 


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O Anjo do Tempo era conhecido por fazer muitas perguntas e assentar sempre as respostas no seu Livro de Bordo. O Espírito Livre suspeitava que estariam lá algumas menções a Lilith. Quem o guardava era uma águia de nome Tipilina que só levantava voo de Bactria ao entardecer. Por isso deveriam consultá-lo antes dessa hora

- O livro é um labirinto e para conseguirmos lê-lo precisamos de atravessar um desfiladeiro estreito.

Para o Anjo do Tempo a guerra era um lugar turístico interessante, porque era lá que se ouvia com toda a nitidez o som do corpo, que era feito de pequenos gestos e expressões do rosto, que mostravam que Deus era o extremo exercício da beleza. O anjo era o fruto do que vira, vivera e aprendera, numa época saturada pelo Mal, onde o terror tinha cabeça, tronco e membros.

- Tens a certeza de que estamos a ir em direção ao Céu? Parece-me mais o Inferno, – perguntou o detetive Narciso à medida que se ia informando acerca daquele que iriam visitar.

- Deus não joga aos dados, – respondeu o Espírito Livre. – O Anjo do Tempo vai fazer-te umas perguntas a quem deseja entrar em Laputa e as respostas que deres decidirão o teu destino.

- Mas quem me contratou decerto que quererá falar comigo.

- E tu julgas que todos estes anjos andaram a fazer o quê?

- Assessores? Eles são assessores de Deus?

- O Anjo do Tempo irá tentar abrir brechas no teu inconsciente, desapossando-o das suas defesas, a razão. Ele é um demónio de culto que canta sempre a favor da marijuana. Mas eu tenho aqui as perguntas, – deu-lhe um papel.

- Cunhas?

- Tenho os meus contactos.

- Assim sim, até dá vontade de ser crente.

 

Há uma violência boa?

Todo o Mal terá uma entidade metafísica a fundamentá-lo?

O que é a vida?

Onde fica o paraíso?

O que é maior que Deus?

O que é pior que o Diabo?

 

A intenção do inquérito desenvolvia-se em torno da ideia da “sensação de medo”, dentro de uma tónica da destruição contínua. Todos passavam por esta fase, e muitos pensavam que tinham vivido e convencido para serem os eleitos, mas as respostas repunham sempre a verdade. Havia quotas no Céu e a seleção era rigorosa. Mas o caso do detetive era diferente. Deus tinha contratado os seus serviços, e ele teria de entrar provisoriamente em Laputa, passando pelos crivos do Anjo do Tempo, para não dar nas vistas. O interrogatório iria desenrolar-se numa sala cujos cantos eram abaulados, com uma mesa no centro, com uma enorme maçã vermelha, lisa e luminosa. Uma janela deixava entrar o brilho e a névoa dum mar distante, para dar um pouco de calor a este jogo frio. O anjo possuía um olhar límpido, transparente, perfeito, representava a beleza pura. No passado tinha tido um desgosto de amor por uma ninfa. Foram separados com irresistível violência e após suicidar-se, Deus tinha-lhe dado este árduo trabalho.

- Quando se passa por aquela porta percorre-se dez mil anos da História. Laputa é absolutamente fascinante, ali frutificaram as ideias mais sublimes, é o local onde os pormenores são muito importantes, – explicou o anjo resgatador de almas.

O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta passou no exame com “Distinção”, a única classificação possível para entrar no Reino de Deus e foi imediatamente separado do Espírito Livre e entregue ao Anjo Pipoca que o iria conduzir até Laputa.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

10 - Do encontro com o Anjo Confuso de nome Tátá e com um medo profundo

 

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Foi um encontro curioso quanto inesperado. Tátá era um anjo patético e confuso, defensor dos seres destituídos de afetos, com uma obsessão alucinante pela vida. Era considerado um ser notável, que transmitia energia e poder. Sentia-se a vibração no ar porque a frequência que emitia era forte. Estava sentado numa secretária junto à porta de acesso à Casa de Deus, e tinha por detrás de si, pendurado na parede, um quadro de grandes dimensões. E foi a pintura que primeiro chamou a atenção do detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta.

- Magnífica, que obra de arte!

- Representa Deus e foi pintado pelo único ser do Universo que O conseguiu representar: Da Vinci!  - Explicou o Espírito Livre.

O detetive imaginou-O em si. A pintura de Deus era a pintura do medo, do esplendor, do amor, da promessa, da ameaça. Ele sabia que por debaixo da claridade de Deus havia sempre uma escuridão.

- Eu nunca o imaginei assim, com uma forma. Sempre pensei em algo…gasoso, rodeado de luxos e extravagâncias.

Tátá nem levantou a cabeça, ignorou-os.

- Está a desenhar micróbios, - disse o Espírito Livre quando reparou que o detetive olhava para o anjo.

- Desenhar micróbios?

- É a função dele.

Do lado esquerdo havia uma enorme escadaria e foi por lá que seguiram. O detetive reparou que as paredes estavam cheias de “graffitis”, com representações da morte, da vida e dos sentimentos, que no seu caso estavam à flor da pele.

- Um momento, – chamou alguém quando o detetive se preparava para abrir a Porta de Deus.

Era o Anjo Confuso, que odiava e amava demasiado as pessoas ao mesmo tempo. Odiava-se a si mesmo, odiava a sua essência interna, a sua ternura, a gentileza extrema, a fragilidade. Pertencia a uma família de diabos de cauda curta, que o tinham renegado. As suas inseguranças e fraquezas perseguiam-no, desafiava a morte como incentivo para a vida, e isso era muito doloroso e triste para este anjo dotado de uma vontade indómita de viver. Acreditava que os momentos de solidão, reflexão e de tristeza eram fundamentais para se descer ao mais íntimo, ao mais profundo e ao mais negro, para assim se retirar de lá os impulsos para a vida.

- Cuidado com os efeitos perversos destes desenhos, – disse Tátá com uma voz cristalina, sem conseguir encarar os estranhos.

O Anjo Confuso tinha uma história tão longa e aventurosa como o território que representava.

- Senhor, sei o que procura. Consta que na “Colina de Ouro” em Bactria vive lá alguém com cinco “ideias” de Lilith.

- Bactria?

- É por aí, – respondeu Tátá, apontando para uma portinhola do lado esquerdo da grande.

Quando o detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta a abriu, viu que do outro lado o mar corria para eles enlouquecido e elegante, cheio de fluxos e refluxos, de correntes e remoinhos. Estava na cabine com os pés dentro de água.

- Meus senhores, houve uma rotura dum cano e a casa-de-banho vai ser encerrada.

O dia tinha chegado ao fim ia agora meditar e trincar qualquer coisa num dos fast-foods.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

9 - Do encontro com Nossa Senhora e o carcereiro de nome Darik

 

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De tempos a tempos um cometa tocava em Plutão que, no espaço de um momento, ficava com o céu iluminado. Conheciam-no como o “cometa negro” e era lá que se situava a Torre de Darik, a mais torta do Universo, que trazia sempre uma colecção de monstros mimados. Quem teve o privilégio de estar perto, ouviu a voz arrastada e incompreensível do cantor, que não tinha pudores em revelar todas as suas fraquezas e o seu estado de negação contra a verdade, que lhe causava tristeza e ansiedade. Chorava e transmitia por música e palavras a cultura dos povos que o habitavam. Enquanto o cometa estava junto ao planeta, havia sempre romarias à torre para assistirem à sua falsidade tão bela. Aparecia sempre repentinamente nas ameias o espectro de uma mulher deitada. Momentos depois um homem vestido de preto aproximava-se e olhava para o corpo dela, morto há muito. Quando lhe tocava uma sombra bela abatia-se sobre a multidão e transformava os seus traços numa única cor. Diziam que era a alma da “Nossa Senhora”, cuja origem se perdia na noite dos tempos, e era nesses momentos que se podia admirar a sua poderosa e genuína voz.

- As confissões desta senhora são de uma autenticidade desarmante, – disse o Espírito Livre ao detective Narciso, interrompendo o silêncio contemplativo causado pela iluminação repentina que quebrou o céu, demasiado uniformizado pelo brilho permanente das outras estrelas. – A sua autenticidade é sedutora, é brutalmente honesta, é uma figura totémica belíssima e decadente, porque está em decomposição. É sempre um privilégio ouvi-la e ao canto dos seus corvos.

Darik enfrentava sozinho os seus demónios pessoais de vingança e de justiça. O filho morrera na sua presença atropelado por um médico que sofrera uma síncope cardíaca depois de ter assassinado toda a família. Para ele Deus não passava de um mentiroso porque fora Ele quem matara aquele que amava. Andava desesperado à procura das “ideias” que deram um dia forma ao seu rapaz e já descobrira algumas, que guardava religiosamente numa caixa de prata. Como todos os génios, vivia perto do precipício.

- Qual é a ligação entre Darik e a “Nossa Senhora”? – Perguntou o detective Narciso.

- Ela só renascerá se ele der a Laputa a última “ideia” que falta, que está escondida algures na torre. Dizem também que Darik guarda dentro de si partes de Lilith. 

Quem guardava a torre era o “Clã das Ilhas”, o primeiro povo que se formou depois do “BigBang”. Exprimiam-se através de conversas sobre a morte e a memória, porque só tinham conseguido sobreviver comendo todos os seus filhos, excepto um de nome Zeus, que comia pouco e por isso não tinha muita carne para oferecer.

- Inconscientemente Darik com a sua atitude está a criar buracos nas fronteiras e a encher espaços vitais com um ódio brutal a Deus. Já conseguiu tornar-se proprietário da sua própria alma, continuou o Espírito Livre. – Deus e Darik estão cada vez mais perto um do outro.

Quando a figura de Darik apareceu, todos sentiram um estremecimento, um ardor, um impulso, um ímpeto. Ele era um improvisador inesgotável e um experimentador compulsivo, cheio de memórias e de ruídos dos fantasmas do passado. Ele queria saber a razão do jogo cruel. Porquê estes laços através de um jogo de espelhos dum deus indiferente a eles? Este luto obstinado precisava de um fim porque Laputa estava a ser prejudicada. O Espírito Livre e o detective Narciso repararam que ele olhava para eles com uma intensidade que os parecia cegar, ao mesmo tempo que fazia gestos maníacos e meticulosos.

- Já há palavras a mais no mundo, – disse Darik levantando-se e encaminhando-se para uma janela larga, tocando com a cara na vidraça. – Ele anda por aí!

- Eles, – interrompeu o Espírito Livre. – O teu e os de muitos foram os escolhidos por serem os melhores. As missões que lhes foram confiadas são das mais nobres. Deves ter orgulho e não ódio!

Antes que o seu gesto aparecesse o vidro reflectiu esbatido o desejo de Darik e ficaram ambos frente a frente uma última vez, como num confessionário. Reparou que o filho já era um homem e estava feliz. O detective Narciso Baeta tinha uma característica peculiar. Quando se calava parava o olho direito, enquanto que o seu companheiro de viagem, o anjo que dava sopro às vidas, abanava as asas quando falava. A face sorridente de Darik indicava que acabara de cortar com o passado e pensava numa forma de se soltar da maldade absoluta e retornar à dura honradez. Abriu um armário e calçou uns elegantes sapatos de salto alto, tentando assim ultrapassar o invencível ressentimento contra a arrogância. Ao espelho apercebeu-se da rotundidade do corpo. Falou quase para dentro, trazendo de novo o belo para o seu mundo, dando de comer aos sentidos. Tinha acabado de ganhar paz e felicidade. O detective recebeu com prazer o pequeno cofre com a “ideia” de Lilith, despediu-se do Espírito Livre e abriu a porta do WC.

- Até amanhã!

Não ouviu o desabafo do seu companheiro:

- Culpam-no de tudo, mas não querem ser acusados de nada. A causa da morte do filho só poderia ser atribuída ao “Livre Arbítrio”. Darik levava uma vida impossível de ser vivida.


domingo, 22 de fevereiro de 2026

8 - Do “Grande Silêncio” até à Porta do Reino de Deus, passando pelos Piratas de Plutão

 

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Percorreram cordilheiras, mares, desertos, florestas, estepes, selvas, até aparecer a vastidão da única cidade, Scarpia. O silêncio tinha tido um papel central em Plutão, porque antecedeu a chegada das grandes convulsões, das enormes tempestades, que trouxeram o sofrimento e a revolta. O mais importante foi o seu lado benigno, que fez com que fosse eleito para Porta do Reino de Deus, a mais alta condecoração que Laputa dava aos planetas.

- Os habitantes desta magnífica terra que são o fruto de conquistas e derrotas, rupturas e continuidades, de fusões e cisões, também se consideram filhos de Deus, – disse o Espírito Livre, interrompendo o silêncio.

Quando a ordem foi restabelecida, houve uma tumultuosa crise de consciência, porque todos se interrogaram como é que tinham chegado àquela loucura e àquele mal? O conflito tivera origem num dia quente de Verão, quando um deputado da comunidade de Zião, do pólo sul, resolveu proclamar no parlamento o falecimento de Deus, como sinal de protesto contra a morte acidental da sua jovem mulher por um meteorito que chocara contra o planeta, o primeiro desde a sua existência. Se Deus existisse nunca teria permitido que tal acontecesse, por ser fisicamente impossível algo natural atravessar a agressiva atmosfera do planeta. Os Patchéus do pólo norte, amantes fundamentalistas de Deus, a quem consideravam a Verdade Absoluta, declararam o povo de Zião subversivo e iniciaram uma guerra, que acabou por envolver todas as comunidades e muitos conceitos. Quando os amigos de Lilith restabeleceram a lei e a ordem, mostraram as provas definitivas de que Deus existia, pois deixara no cérebro, único órgão comum, de todos os seres do Universo a sua assinatura, que dava pelo nome de “substância negra”. “Deus” passou a ser uma verdade absoluta, indiscutível.

- Mas a “substância negra” não existe em todos os cérebros, – indignou-se o detective.

- Só nas criaturas falsas é que não existe!

-“Criaturas falsas”?!

- Seres que não têm clone, e como tal não foram feitos por Deus.

- “Clone”?!

- Algures no Universo há um clone teu, uma espécie de molde, para o caso de Laputa ordenar que tu renasças depois de morreres e das ideias que te davam consistência se terem desagregado e espalhado. O clone tem inscrito a sequência das tuas ideias, bastando para isso procurá-las e juntá-las, para que tu voltes. É o que estão fazendo com Lilith, Deus quer e o Cordeiro Verde anda à procura das suas partes.

- “Cordeiro Verde”?!

- O Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo e faz outras coisas.

As bandeiras coloridas que abanavam ao sabor do vento em cima dos edifícios, indicavam os vários sectores da cidade. Os Piratas de Plutão tinham separado as forças em conflito e exerciam um controle absoluto sobre elas, para que a paz fosse possível. Estavam separados por crenças e convicções, e tentavam resolver os problemas em reuniões contínuas desde então. Mas a ideia principal que fora o motivo do longo conflito, mantinha-se: “Livre Arbítrio”. Para uns existia, para outros não passava de uma ilusão. Com a unanimidade na existência de Deus, logo surgiu outro problema: quanto tempo demorara Ele a fazer o Mundo?

- Para os vermelhos o número treze era a verdade, para os azuis os sete, para os verdes os vinte, – explicou o Espírito Livre, que estava atento às manobras de aproximação da nave.

- Afinal a política está em todo o lado!