domingo, 17 de maio de 2026

123 - A Miúda do Lenço (M) - (36)

 

36

Fátima, 4 de dezembro de 2012.

Olá Sesaltina. Espero que estejas bem. Quer dizer, melhor, que bem não deves estar ainda. Conta-me de ti, quando puderes. Como está o tratamento. Antes do Natal a ver se nos encontramos. Tipo encontro de incapacitadas. Para a semana vou ter que fazer uma mamografia, ecografia e biopsia. Estou com as pernitas a tremer. Pareço um franguito. Vais ver que tudo vai correr bem no final. Até lá, vai mantendo esse sorriso, menina do lenço. Beijocas

 

Sesaltina, 4 de dezembro de 2012.

Oi oi lindona, eu estou a começar a ficar bem! Já só faltam 5 tratamentos (yupi!!!) e esta fase está a ser mais fácil, comecei a fazer acupunctura no Pedro Choi em Carcavelos e de facto está a dar muito resultado na questão dos efeitos secundários, já me está a crescer o cabelo, as sobrancelhas e as pestanas... Começo a sentir-me mais eu outra vez! Biopsia a quê e porquê? Queres que vá contigo já que estou por aqui tenho carro, conduzo e faço muito gosto? Não me custa mesmo nada. Entendo perfeitamente que estejas com alguma ansiedade, mas vais ver que deve ser pura rotina e descartar a mínima remota suspeita seja do que for! Vou continuar a "pedir" por ti ainda com mais força se isso e possível. Acho que vou fazer rádio ao Champalimaud e disseram-me que eles tem um serviço oncológico muito mas mesmo muito bom! E tem acordo com ADSE que tu deves ter por parte do António, não? Eu ainda estou noutra fase muito atrás de ti, mas no final desta série vou marcar consulta e pedir para analisarem a amostra da anatomia patológica que decretou esta sentença e esse é um dos serviços que prestam: análise da análise até para ver se não falhou nenhum dado! Faço tratamento às sextas feiras de manhã por isso até lá dispõe da minha pessoa. Abraçinho com muito carinho e com TODA a minha energia positiva. Menina do lenço. Eu.

122 - A Miúda do Lenço (35)

 

35

Este capítulo é breve, o Vasco, irmão da Quitéria, tem uma passagem de raspão. Sempre cantou em tom maior, em fado corrido depois de dar sete voltas à língua. A sua voz, dorida e que vinha do fundo, era a sua fala. Andava sempre sujo. Recebia obscenidades, injúrias e insultos. Fora assim desde tenra idade. O seu lamento era tão negro mas tão belo. Esteve sempre derrotado e desaparecido, tudo morria um pouco nele. Almas silenciosas de olhos cerrados seguiam-no continuamente na penumbra da vastidão vazia, que era a sua existência. Quis o destino que o comboio onde sempre cantara fosse o seu carrasco, num dia de neblina espessa. Sentiu uma rajada de ar fresco.
– Foi por vontade de Deus!
Descobriu então que tinha uma vasta legião de admiradores, Ninfas, Sereias, Musas, Anjos, e tantos outros.
– Aqui, tens o Mundo como palco.
O céu tem lógicas cuja razão parece não poder ser exatamente determinada, foi por isso que o fado representou o lado mais irónico da sua vida. O dedilhar das cordas de uma guitarra portuguesa começou a ecoar pelo templo!

121 - A Miúda do Lenço (M) - (34)

 

34

Sesaltina, 8 de novembro de 2012.

Olá minha amiga! Cá estou eu ao fim do dia de mais uma sexta-feira carregada de químio, a semana passada não fiz tratamento porque estava com febre (apanhei um substituto) já que não tinha nenhum sintoma de nada, mas com antibiótico lá passou... Fiquei de rastos, já não acabo este ano está M@&D@....e eu queria muito, mas pode ser que esta tenha sido a única interrupção que fiz. Vou acreditar nisso. Uma coisa positiva deste tratamento é que já perdi uns 5 ou 6 kg e estou melhor, bem mas também não era preciso tanto para perder estes kilos extra não achas? Agora já está a voltar o sabor dos alimentos se calhar vou recuperar o peso, mas vou tentar que isso não aconteça, não que vá fazer dieta, não, já custa tanto o tratamento que não vou sujeitar-me a mais privações...mas pode ser que me mantenha. Sabes estou assexuada!?! Não me apetece homem (nem mulher cruzes credo) dai eu dizer que estou assexuada... Já falei com o médico e ele diz que vai passar... Acho bem.... Para a semana combinamos um cafezinho no Shoping  pode ser? Se estiver bom tempo até pode ser na praia Bem, vamos falando. Um beijo enormeeeeeee

 

Fátima, 10 de novembro de 2012.

Olá miúda do lenço. Tudo vai correr bem. Isto é mesmo assim, aprendermos a viver um dia de cada vez. Depois basta não doer nada para ficarmos felizes e até o sol parecer mais brilhante e o céu mais azul. Vamos tomar o café, claro que sim, mas não sei se nesta ou na outra semana vai dar. Vou inclusive ao senologista e vou saber mais pormenores sobre as diferenças do nosso tratamento, que eu sou muito bisbilhoteira. Mas eu depois digo-te algo, talvez nesse dia te apeteça. Não te preocupes com o peso, desde que o médico diga que está bem. Há quem ganhe 20 quilos, há quem perca muitos. Não te prives de nada. Faz o que te apetecer e te fizer feliz. Ou seja, pensa em ti. És tu que estás doente. Tu é que tens que te cuidar. Quanto a estares assexuada, claro que passa. Também com a carga de merdas que nos metem em cima, isso é o que menos apetece. Mas vai apetecer. Não te preocupes. É claro que se entraste em menopausa as coisas vão ser diferentes, vais ter atrofia e vai doer um bocadito por vezes. Mas eu penso que no teu caso, se não levares substituição hormonal, pelo menos podes usar cremes com estrogénios, que ajudam muito. Eu não posso, lá meto uns hidratantes manhosos e uso a boca e outras partes menos usuais do corpo humano para ajudar nas crises ahahah. Mas os homens também não dão valor a isso, para eles até parecem fantasias, por isso relaxa. É só diversificar. A nossa imaginação não tem limites Soube agora que uma grande amiga minha também está com cancro da mama, porra. Mas ela baldou-se, não ia ao médico há anos. E agora está com uma enorme depressão, nem o marido nem os filhos quer ver. Que chatice. Eu depois falo contigo, embora vá contando com os teus boletins informativos. Na praia ou no Shoping, o que interessa é que seja. Vai continuando com essa força. As coisas ficam diferentes, apenas. Mas quando melhoram, vais ver que dás valor a coisas a que nem ligavas. É assim, deve haver um fdp algures a querer testar-nos. Um grande beijinho às três heroínas. E ao Gonçalo. Um beijinho.

120 - A Miúda do Lenço (33)

 

33

Filipe e Quitéria não choraram, pois nunca tinham feito figura de coitadinhos como tantos na vila. Eram uns sobreviventes que tinham perdido quase tudo, e já só arranjavam forças para defenderem os seus próprios corpos da crueldade da vila. Embora autónomos, estavam imbricados um no outro, tinham vasos comunicantes. O casamento era um poço de ressentimentos, por isso decidiu exibir o espetáculo em público, entregando-se a jogos de indiscrição, humilhação e injúrias, passando do insulto mais inflamante à gargalhada, aos empurrões e às ternuras. Ambos tinham nascido com umas noções de liberdade muito complicadas, em tempos muito complicados.

Quitéria estava descalça, mal se tinha nas pernas. Não pediu tolerância para as previsíveis consequências de ter ingerido uns copos para lá da sua conta, pela simples razão de que a consciência já não passava por ali. Casara-se com um amante cujo desejo significava quezília, de beijos indiferentes e palavras azedas. O marido aproximou-se com um pastel de bacalhau em riste, lábios roxos de ódio, olhos molhados, baba espumosa, e gritou-lhe:

- Come! – Ele sofria porque via a amada sofrer.

- Não, prefiro isto, - respondeu a mulher com um sorriso alarve, engolindo de um só trago um copo de vinho, descendo mais um degrau até ao eclipse total.

- Não é preciso colher, - disse, tirando o bacalhau à Brás com as mãos, que foram limpas pela língua da sua fiel companheira de nome Laurinda e raça indeterminada.

Quitéria vivia sem esperança, e ninguém podia viver sem ela. Sentia uma mágoa em surdina, um pressentimento antecipava a crueldade do mundo. Tinha uma capacidade inesgotável para andar em espiral à volta de um mesmo arbusto, à procura da garrafa de tintól que havia escondido, e cujo líquido era muitas vezes substituído por outros, gentilezas dos vizinhos da pequena aldeia com o nome de Terrugem de Cima, que os acolhera com carinho, depois de alguém ter deitado fogo à barraca que tinham em Vila Fria. Filipe era arcaico nas suas devoções, às vezes gentil, afável, tendo encontrado em Paço de Arcos aquilo que nunca pensou, aquilo para que nunca fora preparado. No meio dos convidados destacava-se outra figura pública da linha, o adolescente Ratinho Blanco, que falava de um tempo que não conhecera, de uma memória que não tinha, mencionando nomes de loiras curvilíneas, transpirando charme, razão porque nunca precisara de transpirar. Regressaram à casa de divisão única, banhada pelo negrume, tão cerrada pela desgraça e pelo absurdo, que não havia Deus que espantasse, da essência alucinatória dos moradores, tanto sofrimento, tanta angústia, tanto mal. Eles sentiam na pele o cheiro entranhado da pobreza familiar, que os colocava permanentemente num estado de suspensão. Filipe abriu a porta e a claridade transparente daqueles dias em que o sol sai depois da chuva, entrou na penumbra, ao mesmo tempo que saiu o cheiro a urina. Encenaram uma noite deplorável, numa festa etílica que só acabou, exausta, ao romper da aurora, onde Quitéria tanto foi melosamente beijada, como amorosamente agredida. Acordou submersa na mais completa melancolia, amargurada, mergulhada numa dolorosa ressaca. A impossibilidade de cumprir os rituais do luto, tornaram ainda mais penoso o processo de despedida. Filipe chegou a casa com uma peça de carne encontrada dentro do contentor onde o supermercado costumava deitar fora os produtos fora de prazo. Despejou a panela que estava em cima da mesa, que servia de penico, abriu o plástico, e não sentiu o cheiro que se confundia com o dele. Saiu da barraca para ir pedir sal grosso à vizinha, ao mesmo tempo que entravam varejeiras sedentas de bicar na carne putrefacta. A refeição foi feita à fogueira, a fome apertava, e o vinho ajudava. Quitéria estava sem apetite, e desta vez não foi obrigada a comer à força de uma colher de pau que lhe arranhava a garganta. De madrugada ouviu o som muito baixo da sua respiração e os órgãos a funcionar. Fechou os olhos, tentando adormecer definitivamente. Não conseguiu. Olhou para o chão e fitou o teto. Iria para cima ou para baixo? Sentiu que as palavras estavam a ficar fora do lugar, por breves instantes ouviu a música de uma trombeta. Relacionou tudo, sons, imagens, palavras, coisas, pessoas, atmosferas, ideias, sentimentos, vestígios, miragens. Uma volta na cama pô-lo cara a cara com sorrisos e formas há muito desaparecidos, que lhe fizeram acenos subtis e trocaram olhares cúmplices. Deu uma ordem ao corpo, mas ele não obedeceu. Procurou um pensamento mais forte, pensou no ontem e no amanhã, mas o ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. Teve uma fúria lenta. Deu um salto e sentiu-se uma bola de sabão a elevar-se no ar. Apercebeu-se que estava a atravessar um espelho, porque viu a mão a cruzar o espelho. Reconheceu-se como alma. A partir daquele momento iria ser um viajante na noite, em busca de um alvorecer clarificador.

119 - A Miúda do Lenço (32)

 


32

"A vida é um sonho, é o despertar que nos mata"

Virgínia Woolf

Só teve tempo para gritar palavras impróprias, muito comuns quando estava dominado pelos efeitos do vinho tinto.

- Idade da senhora Quitéria da Conceição? – Perguntou o padre.

- Quarenta e sete anos, - respondeu baixinho ajeitando os sapatos brancos e bicudos nos pés já doridos.

Um fragmento do passado iluminou-lhe as memórias do dia em que chegou à sua barraca na Terrugem de Cima aflita dos pés, e pediu ajuda ao futuro marido, que se prontificou de imediato a ajudá-la, trazendo um alguidar, onde ela colocou os pés, e ele uma panela de água a ferver. Teve um desejo impossível de voltar à infância, mas já não tinha fé, nem crença, apenas atividade.

Nascera em Paço de Arcos em 1924.

- Idade do senhor António Filipe?

O rosto do Filipe estava imobilizado, os olhos estavam fixos, de um modo vago, na Cruz pendurada na parede à sua frente. Durante alguns segundos permaneceu assim, imóvel. Até que um velho com a impaciência apoiada numa bengala disse:

- Craveiro Lopes!

Todos riram. O noivo começou a mover-se um pouco, estalou os lábios, e os olhos deslocaram-se para o local de onde tinha saído o grito. O rosto não tinha qualquer expressão. A noiva deu-lhe um puxão com o braço. Ficara com alcunha de presidente, pois este um dia visitara a vila e ambos estavam vestidos com fatos irrepreensíveis e ostentavam formosos bigodes, que levou o visitante, para desanuviar o clima, a dizer que tinha à sua frente o seu irmão gémeo. Multiplicaram-se os ruídos: tosses, passos, espirros, respirações, zumbidos. Filipe era um homem tão carismático quanto invulgar, com uma solidão sem alívio, a lidar com a sua culpa e o ódio aos outros. Olhou para a mesa e uns bombons trouxeram-lhe mais um fragmento do passado. Ouvia agora alguém bater-lhe à porta da barraca. Era a Natividade, outra das suas musas, que lhe vinha trazer um presente, uma caixinha de bolinhas de chocolate. Riu-se e agradeceu:

- Um dia ainda hás-de ser minha, - respondeu, tentando agarrá-la, sinal de que não conseguia controlar as emoções e as paixões.

Mas a moça fugiu. Foi o que ela fez de melhor. Quando Filipe trincou o primeiro doce, apercebeu-se que o pasteleiro tinha sido o Ánhuca, mais precisamente as suas ovelhas. Saiu irritado de casa e atirou com raiva a caixa à porta da sua outra paixão, chamando-lhe nomes feios e prometendo coisas horríveis. Craveiro Lopes era um homem bem parecido, mas andava desgrenhado, mal pronto, mal lavado, que vagueava sem eira nem beira, dormia em qualquer lugar, como se tivesse um contacto muito ténue com o mundo dos vivos.

- O senhor é natural de Aveiro? – Perguntou o padre, trazendo-o de novo à realidade.

- Aveiro, Requeixo.

A data do nascimento era 1918, e a cerimónia iria convocar memórias.

- Eu vos declaro marido e mulher, - disse o padre, aproximando os braços elevados para a assistência, fundindo aquelas almas uma na outra, numa união tão absoluta que apagou a sutura que as juntou.

118 - A Miúda do Lenço (31)

 

31

Desconfiava que Filipe a enfeitiçara. Olhou para as figuras de dois anjos colocados numa parede, como se fossem guardiões de mistérios e encantos, que cruzavam a tranquilidade e o desespero, e sentiu os demónios interiores que não lhe davam sossego. Quitéria era uma personagem complexa, completa, assombrada por ecos de um paraíso perdido, talvez apenas inventado ou desejado. A vida impeliu-a para o lado mais negro da existência, que a tornou vítima da dependência, experimentando no seu dia-a-dia um certo caos afetivo e existencial. E este era só mais um dia. Tentou recompor uma série de pensamentos quebrados, mas foi em vão. A sua memória era um labirinto fechado, obscuro e sem horizonte, mas onde, por vezes, se abriam pequenas frestas de reconhecimento, que a deixavam vislumbrar breves sequências, vagas lembranças de acontecimentos esquecidos. Lembrou-se então que tivera um dia outro noivo e que quase se casara, mesmo estando em continentes diferentes. A procuração substituíra a distância. O olhar parecia terno e sugeriu um esboço de sorriso atrás do véu. Mas quis o destino que tudo não tivesse passado de um sonho. Havia uma beleza singular, muita força e, possivelmente alguma candura, como se dissesse “mais do que poder ser, agora sou, de facto”.

- Estado civil?

- Viúvo, - respondeu como uma tempestade, mordendo os lábios e corando com intensidade, como se o mundo lhe devesse alguma coisa, ao mesmo tempo que batia os calcanhares.

Fora com esta prontidão militar que um dia se apresentara ao senhor Silvino Valente, o responsável pela procissão da Nossa Senhora dos Navegantes, disposto a ajudar no que fosse preciso. Não percebeu o pânico que se apoderara dos presentes, com o Craveiro Lopes na comitiva iria ser farrabadó para o povo, e uma festa séria poderia descambar num arraial, e talvez  para a violência, caso o Filipe viesse com um grão na asa, como era habitual. Deram-lhe o papel de segurança, mas afastado mais de cem metros do andor, lá para a frente, abrindo as “hostilidades”. Mas quando entrava na igreja alterava-se por completo, não sabia viver sem rezar, e era sempre nestas alturas que se elevava em júbilo e louvor, tornando-se um homem diferente, com a personalidade reorganizada, digna e decente. O comportamento foi exemplar, e quando no fim bateu de novo os calcanhares, para saber como tudo tinha decorrido, levou nota máxima. Filipe perdera a esposa e o espetro da defunta perseguia-o noite e dia. Era um homem melancólico, um pouco preguiçoso, utópico e com queda para a pinga. Conhecia de trás para a frente a vila, o seu olhar era sombrio, duro. O passado tornou a apoderar-se dos seus pensamentos, e desta vez viu-se a descer o monte, em direção à vila, a empurrar o carrinho que fizera, onde levava a mercadoria do costume, linhas, panos, pensos rápidos e outro material, para o ponto de venda do costume, junto ao mercado na praceta Dionísio Matias, nome de um jovem que morrera há muito vítima da gripe espanhola. Mas desta vez levava com orgulho escrito na carreta o que julgava ser o seu nome, “Craveiro”, uma gracinha dos vizinhos, mas cuja realidade dizia “Caralho”, facto que o levou a ter problemas com a autoridade. Quando se ajoelhava para rezar, não se sabia se era a Deus ou a Satanás. A temperatura do salão estava invulgar. Parecia ter morrido quando a mulher morreu. Atrás de uma coluna o senhor Carlos Ribeiro de Porto Salvo, famoso sapateiro na Travessa do Forno, esboçou um sorriso. Filipe lembrou-se do dia em que os seus olhos, o nariz e a boca, só viam, cheiravam e saboreavam a vizinha Natividade, aquela que ele queria tornar sua amante, nem que fosse à força, ou à custa de parte da sua reforma, que muitos pensavam ser militar devido aos seus comportamentos marciais, e à farda da legião portuguesa e às medalhas com que aparecia vestido nos dias festivos. Por isso acompanhou-a até ao comboio, que ia em direção a Lisboa, e também entrou, ajudando as filhas pequenas. Eram tempos de miséria em que se matava por causa de um caminho desviado meia dúzia de metros. Foram comer a um café lá para os lados do Rossio. Filipe bebeu metodicamente, e quando a conta veio quiseram saber quem a pagava:

- Este senhor, - disse a vizinha, agarrando nas filhas, fugindo do local e dele.

sábado, 16 de maio de 2026

117 - A Miúda do Lenço (30)

 

30

Deus infinito, Deus misericordioso, Deus eterno, um dia ficaremos diante Dele e obteremos as respostas a todas as nossas perguntas sobre tudo o que se passa no Seu universo. O noivo entrou com o ego perfumado, ornamentado, penteado e barbeado, que cresceu à medida que entrou na igreja, batendo os calcanhares quando parou no altar. A noiva olhava através da janela para um futuro onde não descortinava esperança alguma. A seguir olhou para o noivo e sentiu uma atração estranha, como um contágio. O silêncio ficou absoluto, as pessoas curvaram-se nas cadeiras. A sala estava povoada por pequenos risos que afloravam mais ironia do que alegria. O espaço era muito preciso quanto aos olhares e aos movimentos. O padre falou de “consolação e alegria” à sua congregação, mas percebia-se que muitos não conheciam esses conceitos. Na comunidade religiosa de Paço de Arcos a ideia de irmandade estava longe de ser digerida, por isso quando se iniciava o ritual do beijo nos pés do Senhor, tudo terminava após o Craveiro Lopes os lambuzar. E muitas foram as vezes em que a sua querida Laurinda tentou assistir ao ritual, porque naquele lugar de tantos santos também havia um para a sua fiel companheira de quatro patas mas, como tudo na vida, aqui também havia filhos e enteados, apesar da “igualdade” e “piedade” serem as palavras mais proferidas nas homilias, sinal de que entre a teoria e a prática há um fosso que vai diretamente para o inferno.

- Deus é o amor e o amor é Deus, - e olhou para os noivos, que expunham as feridas da comédia trágica das suas vidas, com uma mistura de pensamentos instáveis.

Mesmo estando na comunhão mais profunda e sentimental das suas vidas, não se comoveram com aquelas palavras. Era a dor de Filipe, física e moral, que permitira à vila aceitá-lo. Quitéria lembrou-se do seu território sentimental, o bairro onde crescera, muito pobres em tudo menos em tipos humanos, ao mesmo tempo que lançava aos convidados um sorriso tímido, com um indelével toque de desassossego. Não julgavam ninguém e ignoravam o julgamento dos outros. Como era olfativa, as memórias de infância eram os cheiros dos cozinhados da mãe, e da garrafa, que escondera numa árvore na Terrugem de Cima, longe dos olhares reprovadores e violentos do seu Filipe, com um tinto que aquecia a alma mais desassossegada. Estes dois pensamentos provocaram-lhe uma lágrima fácil.

- Estado civil?

Quitéria tinha os neurónios preguiçosos, por isso demorou algum tempo a responder. Este era o momento mais feliz, mas ela não sabia. Passados tantos anos tornara-se fatalmente numa mulher diferente. O Filipe representava uma paixão sofrida, por isso mais intensa. A cumplicidade de um dia era a distância do outro.

- Solteira, - respondeu com um sorriso ríspido e rouco, desprovido de sentimentalismo, apática, olhar distraído e ânimo sufocado.