domingo, 5 de abril de 2026

24 - Da descoberta do Quarto do Filho que tinha o corpo vazio e fora a vítima de uma tragédia teatral

 

24

- A tua vida está a ser empurrada para a morte, – disse Lilith com uma voz doce e suave.

O detetive não ficou indiferente à beleza e à presença balsâmica da mulher.

- Neste mundo imenso o romance de Deus sou eu, porque fui a única que recusei o caminho da santidade e mesmo assim consegui chamar a atenção do Profeta, do Inatingível, do Santo, do Puro, – e apontou para o seu amado, desviando-o de uma herança de profecias sinistras, desfazendo o mito do assexuado, alterando a imagem do solitário.

- A minha solidão é essencial para a missão a que me destinaram, – confessou Deus, deixando escapar um olhar apaixonado para a sua deusa.

- Deixa o “Livre Arbítrio” tomar conta de toda a gravidade do Mundo. Porque é que me temes? – Gritou Lilith aproximando-se de Deus.

O detetive apercebeu-se da recusa de Deus entre o desejo e o temor de um encontro real.

- Tens medo de uma relação física, – disse Lilith saindo vertiginosamente da sala, através de uma parede.

O detetive sentia a cumplicidade entre os dois, ancorada numa grande vontade de continuarem a surpreender-se um ao outro. Deus tinha criado seres do extermínio e povoado o céu de anjos vingadores que o faziam viver de desculpas e a sacudir responsabilidades.

- Tu tens o privilégio de saberes que és mortal, – disse Deus apontando para o detetive, mostrando que o amor era o seu verdadeiro rosto.

- Deus só faz mal quando prejudica a realidade, – exclamou uma mulher sofrida, vestida de negro, com uma silhueta atípica, que os veio chamar para a sala de jantar.

O detetive levantou-se e reparou que estava sozinho na sala. A um sinal da senhora acompanhou-a. Quando ia a atravessar a porta, Lilith reapareceu com a força suficiente para voltar a fazer o espaço tremer, sinal de que vinha com ideias fortes.

- Deus carrega todo o peso do Universo, que O faz torcer-se sobre si próprio, representando diante de nós uma comédia indecifrável.

Era evidente para o perspicaz detetive que a dissociação de Lilith e de Deus era difícil de fazer, havia uma contaminação recíproca dos dois. Seguiram por um corredor estreito e pararam num quarto que tinha a porta aberta. O rosto do filho de Deus, que a obscuridade do quarto escondia, revelou-se na claridade de uma luz e mostrou alguém de uma elegância esguia e serena, em sono profundo. Fora aquele que agora dormia que cobrira o Centro do Universo com palavras. Tudo dissera mas fora impotente perante o contradito e assim a tragédia tornara-se inevitável.

- Não podemos pedir a Deus, nem o absoluto, nem a salvação das almas, – disse a senhora alternando entre uma expressão de exaltação e uma expressão de melancolia.

- O tempo e as suas contradições dão sempre razão à razão, – exclamou o detetive. – Sabemos que o Pai não tem limites mas tem deveres.

- O Filho tornou-se num ser carismático devido à sua precisão, audácia, convicção, que mostrou ter nervos de aço e espírito prático. O corpo dele está agora vazio e necessita de ser enchido. Há quem chore a morte deste profundo humanista, – exclamou Lilith encostando-se ao convidado.

- Com lágrimas de crocodilo, – retorquiu o senhor Narciso dando sinais de impaciência.

- E lágrimas autênticas. Perder um filho aos trinta e três anos também foi duro para Deus. Ele representou o símbolo de um Universo conturbado, foi um equívoco trágico, vítima da pequenez de seres banais, que lançaram uma interrogação sobre o dogma da sua imparcialidade, acusando-o de usar e abusar da informação, - disse a senhora.

- A crucificação foi uma tragédia teatral, de uma violência extrema, pouco realista, que deixou os espetadores entre a melancolia e o desconsolo, - exclamou Lilith fechando a porta do quarto com violência. – Continuemos a caminhar neste território inóspito, onde existe um amor belo de ir às lágrimas, que mantém a humanidade presa por um fio.   


sexta-feira, 3 de abril de 2026

23 - Da animada conversa à mesa no reino de Laputa até ao conhecimento do “Vírus de Deus”

 


23

- Quem és Tu? – Perguntou o senhor Narciso.

- Sou o filho do Nada.

- Filho do nada?!

- Antes de mim existia o vazio, em oito dias criei o Universo.

- Apareceste do nada? Por geração espontânea, presumo? – Questionou o detetive com um sorriso trocista.

- Deus É! – Gritou, lançando um apocalipse de raios, relâmpagos e trovões. - Espero que não tenhas vindo aqui só para me fazer perguntas ridículas, cujas respostas nunca conseguirás perceber.

Nesse momento Lilith reapareceu e sentou-se à mesa. O detetive fitou-a e acenou com a cabeça. Ela tocou-lhe no braço, ele não sentiu os seus ossos, mas apercebeu-se da boca sensual da anja junto ao seu ouvido:

- Ele resistiu a todas as tentações carnais, é uma entidade povoada de aparições que lhe provocam um sentimento de revolta muito grande, - exclamou Lilith, deixando no ar um cheiro agradável e intenso.

- Tens razão, não ganho nada em saber a origem do Universo. Mas podes-me explicar porque é que a minha mulher morreu tão nova, com vinte e sete anos, um ano depois do nosso casamento, e a vizinha do segundo esquerdo, que só fez mal a vida toda, viveu até aos oitenta anos? Ás pessoas más nunca lhes acontece nada, à Pureza que eu amava acima de tudo e era uma mulher excecional com uma alegria de viver, teve um cancro fulminante.

- Os que os deuses amam morrem cedo. Tens alguma estatística que comprove que os “maus” vivem mais que os “bons”?

- Constato!

- Então, caro Narciso, constatas mal. Já ouviste falar em “Livre Arbítrio”? – Perguntou Deus olhando-o nos olhos.

- Regra essa que Tu quando queres desrespeitas, – respondeu o detetive mostrando um raio de lucidez sobre a confusão que o rodeava.

- Achas que eu consigo ser omnipresente neste Universo ilimitado? Por vezes interfiro, mas só quando posso. O “Mundo das Ideias” que construí serve para que o Universo seja belo e feliz, para que se perpetue a minha obra. Quando as “ideias” se encontram e dão forma a um indivíduo, este já tem um destino. Alterá-lo envolve tomar decisões difíceis.

- Para ti isso é uma ninharia, – exclamou, com uma atitude que parecia desproporcionada e sem sentido.

- Se tivesses tido esse poder no caso da Pureza, o que é que terias feito?

- Ela nunca teria morrido…

- …ia a vizinha do segundo esquerdo? – Perguntou Deus mostrando a sua beleza num grande sorriso.

- Isso mesmo! A velha nunca teria chegado a velha, – respondeu o detetive com raiva parecendo estar possuído por um demónio contorcionista.

- Mas isso não funciona assim. Tem de haver compatibilidade entre as “ideias”, só podes trocar um genoma por outro idêntico.

- Genoma?!

- Todos os seres do Universo têm a minha marca, a “Substância Negra”, que dá vida dupla às coisas, ao original e ao seu clone, em que cada um ficará sujeito ao “Livre Arbítrio”.

- Então eu para destruir a Pureza teria de destruir o seu clone.

- Ou o original, isso é irrelevante. Mas poderia ser também uma pessoa boa e a má continuaria a ficar.

- Mas Tu podes mudar isso. Porque não o fazes?

- Porque só assim é que o Universo funciona, com “ideias” más e boas, são ambas úteis, da eternidade à eternidade, é o melhor mundo possível, – respondeu Deus sem parar, subindo o tom, tornando a voz poderosa.

- Estás-me a dizer que a vizinha do segundo esquerdo foi mais importante para o Universo do que a Pureza?

- Uma má para dez boas. Foi muito útil.

- Nunca sentiste revolta por isto?

- Acredita que todos os dias sofro e por isso introduzi uma variante no mecanismo: o meu vírus!

- O Teu vírus?!

- Sim, o “Vírus de Deus”, mas o conceito é diferente do vosso. O “Genoma” aperfeiçoa-se com o “Livre Arbítrio”, reforça-se, ilumina-se, a política de Laputa faz-se de extremos e paradoxos, levando muitas vezes um indivíduo mau a fazer coisas boas, num sentido unívoco, do menos para o mais, e quando o meu “vírus” entra o indivíduo dá um salto substancial e as suas “ideias” mantêm-se unidas após a sua morte, num espaço diferente. São aqueles a quem vocês apelidam de “santos”, que adquiriram a capacidade de fazer “milagres”. Foi a forma que arranjei para dar a volta ao sistemas e poder ajudar alguns “bons”, os que conseguem aproximar-se mais de mim nos seus momentos de dor. Agora compreendes porque é que todos me gritam aos ouvidos?  

quinta-feira, 2 de abril de 2026

22 - A Última Ceia

 

22

Se o silêncio absoluto existisse era ali que ele se encontrava. O detetive reparou na frase que estava escrita, estilo grafiti, na muralha:

 

“Múltiplo, Deus não é uno, está sempre em contínua reconstrução e evolução”

 

Soube que Laputa convocara os anjos, fora por isso que escutara música durante toda a viagem.

- A sonoridade diz quais são aqueles com quem Ele quer falar, – explicou o Anjo Gabriel, abrindo a porta de entrada para o Palácio de Deus.

Lilith tivera uma vida vivida com intensidade. A sua morte fora simplesmente o nome dado para a sua segunda vida. Por não aceitar a existência de um ser superior, procurara no Universo respostas para as injustiças e crueldades dos vários deuses.

- Deus consegue organizar os nossos sentimentos e emoções, - disse alguém por detrás, com uma voz constante.

O detetive voltou-se e viu que um homem de meia-idade lhe estendia a mão.

- Bem-vindo senhor doutor, o meu nome é Pedro e sou o porteiro deste castelo. Acompanhe-me, tenho ordens para o conduzir até à sala de refeições.

Quando entraram um enorme quadro de cortiça cheio de notas e notícias de jornais chamou a atenção do visitante, que se aproximou.

 

“A minha religião é a partilha com os outros seres vivos, pois o único castigo do Mal é nunca acabar. É por isso que temos sempre de vaguear entre a nostalgia e a alegria. ”

Umbelino

 

O senhor Narciso apercebeu-se da presença de duas pessoas em cantos opostos da sala, que se contemplavam. O olhar minucioso e indagado de Deus cruzou-se com o olhar irónico e determinado de Lilith. A aparência da mulher escondia o seu interior animal, visceral, carnal. A fêmea que ela era no seu íntimo, contrastava com a imagem limpa de um anjo. A sua pele branca escondia uma alma desarrumada, excessiva, exagerada, irascível, impaciente, determinada, com pressa de viver. Lilith era uma sobrevivente, um ser camaleónico muito divertido, que passava a vida a roubar as almas dos amigos. Era uma deusa muito territorial, narcísica, que ambicionava sempre ser completa, universal. Era exímia em abrir portas por todo o Universo, deixando-as escancaradas. Deus era ao contrário, muito arrumadinho e decidira namorar à força com este amor da sua vida. Quem não a conhecia julgava-a distante, misteriosa, inacessível, intocável. Era por isso que os anjos a amavam. Quando Deus estendeu a sua mão ao detetive e ele a apertou, reparou que tinha esqueleto. Fez sinal para se sentarem num conjunto de sofás.

- Eu tenho um mundo muito próprio que tento partilhar, – disse Lilith.

- Tu sabes que eu amo a miséria bela, – exclamou Deus tentando tocar na sua deusa, esquivando-se para o lado do convidado, que gritou de dor quando ela se encostou e o queimou.

- Se não for amada aqui, será noutro lugar, noutro tempo, porque foi com este amor que eu sobrevivi a tudo, – retorquiu a anja abrindo demasiado os olhos.

- Eu deixo-te navegar sem restrições entre o passado e o presente. O que é que mais queres?

- Quero também o futuro.

- Esse é exclusivamente meu! – Gritou Deus. – Não podes querer todo o meu poder, eu sou a estrela que te indica o caminho.

- Posso falar? – Perguntou timidamente o detetive.

O silêncio ficou tão profundo que ele assustou-se. Viu-se a voltar à infância, na Covilhã, estava a esgueirar-se numa janela, a olhar para as estrelas e a imaginar outros seres. Também ele era passado e presente. Só agora compreendia porque é que a face de Lilith fizera sempre parte dos seus sonhos, tinham estado sempre entrelaçados, possuíam laços pessoais indestrutíveis. Sentiu uma estranha leveza, um arrepio na espinha, a cabeça parecia estar a abrir-se. Lilith levantou-se, foi à frente e voltou atrás, pausadamente, com meio corpo transparente. A segurança do detetive não desapareceu quando se confrontou com Deus:

- Mas afinal, o que é que tu queres?

- Pedaços da vida de muita gente para os poder colar, – respondeu com uma serenidade encantadora e terrível, sinal de uma intensa manipulação, que possuía uma tristeza tão profunda que roçava a tragédia.

O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta sentiu-se uma criatura pequena e perdeu-se a olhar para a uniformidade do interior e para os retratos de pássaros proibidos de cantar, de onde saíam luzes tranquilas de perfeição estética, acompanhadas por um vento longo e curvo. Levantou-se repentinamente e correu para uma das portas. Estava fechada. Tentou outra e mais outra, mas as portas estavam fechadas e os corredores proibidos. Espreitou pela única janela e viu que a água do lago estava agitada e sombria e o céu escuro e fechado. Tornou a olhar para Deus e desta vez viu o centro dos Seus olhos, que aumentaram com intensidade o seu susto silencioso. O detetive sentia-se sem destino, estava triste. Lá fora a chuva era pesada, os pingos grossos até o ar lavavam. Encarou de novo Deus e outra vez afastou o olhar. Havia um estranho silêncio no ar. A sala foi lentamente envolta numa penumbra e por uma das paredes azuis começaram a descer estrelas.

- O que é que queres de mim? – Perguntou de novo o detetive.

- O que criei nasceu primeiro no coração das estrelas, - respondeu, batendo com força com um pé no chão.

A vibração que produziu chegou ao corpo do detetive.

- Eu sou os teus olhos, os teus ouvidos, a tua boca, as tuas pernas, - gritou Deus. – Para mim cada ser vivo é um mundo e tal como as estrelas, estão sempre a aparecer e a desaparecer.

De repente uma luz crua e rápida fez desaparecer Lilith e os dois ficaram frente a frente, aquele que iria ser sacrificado e o carrasco.

- Onde é que está a verdade de tudo isto? – Perguntou o detetive em desespero.

- O que é que as pessoas podem fazer levadas pelo sonho? Eu fiz uma obra justa, orgânica e inteira. Estes são os meus princípios, se não gostares paciência.

- Mas eu só quero resgatar o sentido da minha vida, – disse o senhor Narciso tornando a agarrar no braço de Deus e a sentir-lhe novamente os ossos.

- Então já somos dois. Mas quem se submete ao meu poder impaciente é sempre anulado.

quarta-feira, 1 de abril de 2026

21 - Do encontro com o “Anjo Gabriel”, o porteiro de Deus!

 

21

O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta tinha sido o único a ser chamado a Laputa por Deus e fora bem alimentado pelos anjos. Era a prova de que um simples grão de poeira perdido algures no Universo, poderia influenciar os destinos de todos e foi por isso que se tornou incandescente e se desintegrou quando o Anjo Gabriel o foi buscar ao Centro Comercial. A fórmula que dera origem ao detetive fora guardada no Céu, como um exemplo para os fabricantes da felicidade, pois era o resultado de um trabalho de paciência, destruição e crueldade. Narciso acordou entre quatro grossas paredes de pedra e apercebeu-se que a sua morte já fora anunciada. Mas ganhara experiência e por isso sabia que tinha créditos. Prometeram-lhe um último desejo e ele pediu um jantar com Deus e Lilith, “para matar a minha eterna curiosidade sobre o Céu”, explicou ao anjo. Conseguira complicar o processo criando uma rutura na inviolabilidade do esquema mental de Laputa. A ideia que o detetive tinha da “Casa de Deus” era grande, no tamanho, na qualidade, nos livros, nos quadros, nas canções. Foi uma enorme desilusão quando poisaram no planeta de uma só cidade.

- Aqui os lugares vão ao encontro das pessoas e é por isso que não é necessária ostentação, – explicou Gabriel, interrompendo a caminhada silenciosa.

- Mas a paisagem é triste, – disse o detetive.

- Os seus pensamentos é que a fazem. Para mim é bela.

O horizonte mostrava uma penumbra de eclipse, sinal de um estado de espírito. Surgindo do nada apareceu um grandioso palácio, semeado de colunas e cúpulas. O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta sentia-se sufocado, engolido pela cidade que era ao mesmo tempo um planeta. Foi apresentado ao Anjo da Saudade, que era horrível, sujo, sanguinário, mas também uma tentação porque oscilava entre o mundo onírico e o estado de vigília, que modelava a seu bel-prazer a realidade e o sonho, numa luxúria amoral. Tinha sido uma peça do tabuleiro de Lilith no jogo com Deus e estava agora ali reduzido a uma estátua abandonada num jardim povoado de ervas.

sábado, 28 de março de 2026

20 - A Terceira Metamorfose

 

20

O paciente do quarto número cinco do Hospital de Highlands encontrava-se sentado na cama da divisão do lado, numa animada conversa com o doente que se encontrava em coma profundo.

- É a pessoa mais lúcida que o mundo produziu. Tem pensamentos profundos, cavernosos, imperfeitos, foi ele que construiu as verdadeiras estradas de abnegação à causa universal, - disse, quando o Doutor Preston chegou junto dele. – Sempre foi assim, nos dias de sombra e nos de luz.

O médico aproximou-se e mediu a pulsação do acamado.

- Aposto que o pulso está lento e triste, - exclamou o senhor Paulo Prestes com os olhos a cantar.

- Praticamente está sem pulso. É uma vela que está a chegar ao fim.

- O coração dele saltita na ponta da língua. Os seus sussurros enchem a alma de qualquer um, - retorquiu Paulo. – Encoste o ouvido na boca dele, como fazemos com os búzios, e em vez de ouvir o mar, ouve o respirar do Universo. A sua voz tem magia!

O médico deitou um rápido olhar ao nome do paciente , que estava escrito na cama, e disse:

- Vamos lá ouvir o seu sussurro senhor Maximiliano, - e sentou-se junto a ele, inclinando a cabeça.

Afastou-se de imediato.

- O senhor Maximiliano é a ponte entre o Céu e a Terra, papel que já coube um dia a outros. Não tenha medo doutor, aproveite e faça as perguntas que sempre quis fazer.

O médico sentiu afeto, devoção e admiração pelo moribundo, que parecia estar forte e feliz. Havia uma compaixão genuína e uma estranha empatia por aquele homem. Sentia um pânico moral, por isso foi sem rodeios nem subtilezas que fez a pergunta:

- Senhor Maximiliano, e não Maximiano como todos, há vida depois da morte? – E encostou o ouvido na boca do doente, entre o riso e o ar sério.

- Acontecem coisas, - respondeu uma voz vinda de muito longe, como o som do mar num búzio. – Não é preciso ter medo e com tudo o que isso implica. Olhe à sua volta e verá como tudo se altera constantemente. Deus é soberano, tem o Seu núcleo, o Seu tempo e o Seu espaço, a Sua vida é errante e solitária. O que pensa agora?

- No meu papel como médico.

- É assistir ao passar do tempo e das coisas. Vá ao fundo da consciência e descubra um sentido para a sua existência. Quem pensa que é?

- Sou parte da Natureza.

- As nossas ações não bastam para definir o nosso destino. O imponderável intromete-se sempre, subvertendo os acontecimentos, bastando um erro para que tudo se altere. As “ideias” que entram em cada corpo dependem do instante em que vimos ao mundo. Nada acontece por acaso, a genética está sempre presente. Esta é a vossa ligação com Deus.

- Livre Arbítrio com moderação, - disse o médico esboçando um sorriso e levantando a cabeça.

- Muitas vezes o que nos parece num determinado momento, pode não estar realmente ali mas apenas já ter estado, - exclamou o Paulo.

- É um Deus que não soube desistir, mesmo depois de o terem traído, castigado e morto, – gritou o médico, abrindo os braços e espreitando através da janela.

- E é único, – retorquiu Paulo Prestes com uma voz seca e lenta.

- Como eu e você! – Disse o doutor Preston em voz baixa, sorrindo para o paciente.

- Não doutor, isso não. Cada “ideia” que nos faz regressará um dia para dar origem a outra voz.

A conversa prosseguia, era agora usada a linguagem universal, o Mentino, de que o Demónio do Meio-Dia falara ao detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta. O médico estava tão animado que nem se apercebera que já não precisava de encostar o ouvido ao moribundo para o ouvir. O senhor Maximiliano explicou que Deus era uma cintilação física tumultuosa, era sombra e desafio, tudo Nele era o resultado de um esforço, de uma construção e de uma arte intuitiva, feitos com sabedoria e humor. Os projetos de Deus dependiam dos elementos que os constituíam. A Terra, conhecida por Leve, fora um falhanço porque, inesperadamente, tinham aparecido umas vedetas a proclamarem-se parentes e porta-vozes Dele, tendo a sua estupidez e incompetência causado muitos estragos.

- Doutor Preston, eu vejo pessoas mortas, – confessou o senhor Paulo Prestes, mostrando uma inquietante estranheza, ao mesmo tempo que lhe puxava o braço.

Estava mentalmente desgovernado, num limbo da vida, semiconsciente. Passou a utilizar uma língua estranha, incompreensível.

- Ele está a falar em sânscrito.

Dizia que a função do Diabo era sofrer e fazer sofrer, e nisto ele era assíduo e muito competente, pois praticava sempre todos os crimes disponíveis, ao mesmo tempo que mantinha uma aura de virtude, que o levava a destruir só quando tinha a certeza que Deus lhe iria perdoar. Era um especulador sem limites. Deus tinha os seus equívocos e dilemas, Ele era o cerne de um Universo único, que existia simultaneamente dentro e fora de nós.

- Se eu contasse a história da vida do detetive Narciso Baeta, vocês não iriam acreditar, – disse Paulo, abrindo muito os olhos.

- Está a delirar, – diagnosticou o médico.

O óbito foi confirmado duas horas depois.

sexta-feira, 27 de março de 2026

19 - A Segunda Metamorfose

 

19

Os meus sonhos evocam imagens de outras eras distantes, vejo olhares hostis, medonhos e perversos, ouço murmúrios, pareço ter um corpo sem corpo. Todos correm para um fim, incluindo eu, – disse Rita ao doutor Cinfuentes, balançando-se de um lado para o outro de forma suave, constante e uniforme. – Os meus pensamentos estão caóticos, são superabundantes e excessivos, são fantasmagóricos.

O médico conservava-se junto à sua paciente, observando-a. A expressão dela revelava uma ingenuidade imatura.

- Vejo seres famintos e errantes, – dizia, olhando através da janela para o horizonte.

Rita estava só e sentia-se recolhida em algo que não era seu. Quando não olhava para lá da janela inspecionava meticulosamente partes de si.

- Estou a desintegrar-me, – disse com paixão. – Sinto que vou partir, somos todos a mesma coisa.

O desconhecido parecia atrai-la, a aglutinação de obsessões incluía um ambicioso e imaturo desejo de passar pelo paraíso. A perturbação era indefinível e o sofrimento intolerável.

- Tenho uma noção clara da importância relativa das coisas.

Os olhos brilhavam na tensão das emoções deste jogo de conflito entre várias identidades.

- Rita, qual é o sentido de tudo isto para si?

- Estou confusa, as coisas confundem-me, perdi a noção da realidade. Parece que vivo um pesadelo.

- Um pesadelo ou um conto de fadas? – perguntou o médico aproximando-se e colocando-lhe carinhosamente a mão no ombro.

- Se fosse um conto de fadas a minha vida estaria muito melhor.

- E não está? Uns dias atrás a sua vida resumia-se a uma cadeira de rodas, imóvel.

- Mas não me lembro de ter alguma vez sofrido, não estava cá.

- Então, estava onde?

- Não sei, parece que não tenho passado, mas sim memórias confusas de vários passados. E nem ser do momento consigo.

O medo estava presente nas suas expressões, Rita parecia estar a jogar entre a vida e a morte.

- Doutor, o que é que vê no jardim?

O médico aproximou-se da janela e respondeu-lhe de imediato:

- Vejo um jardim vazio.

- Eu vejo imagens de pessoas que sobem e descem, gente de um tempo já cumprido, que não possui sombras. Vejo com extrema nitidez figuras que me são próximas.

- Quer ir até lá baixo?

- A minha vida é uma viagem contínua, - disse, encaminhando-se para fora do quarto.

Após sair pela porta principal parou junto ao primeiro degrau.

- Sinto-me ligada a uma corrente, vejo massacres, escravidão, pessoas a morrer de peste, tudo isto para que outros gozem de excelente saúde. Chama-se a isto “Ajustamento Divino” e chegou agora a minha vez de ser atraída para um buraco negro.

- O que vê mais, Rita? – perguntou o médico fascinado pelas descrições da sua paciente.

- Vejo ondas de luz geradas pela conexão entre os que morrem e os que nascem. Estou com medo de lidar com esta realidade, - agarrou-se ao médico e encostou a cabeça no seu ombro.

- Medo de quê?

- De confrontar-me com os meus medos, com a rudeza agreste do futuro. Vejo as pessoas com os pés no pó, nos detritos, na lama, só oiço zumbidos e silêncio, apetece-me gritar a ignomínia.

O médico observava com atenção a paciente. A sua mente estava estranha, levava-a a fazer coisas estranhas, como falar com pessoas imaginárias. Dizia a uma tia invisível, a tia Didi, que se sentia uma cobaia dos caprichos de Deus. Rita parecia refém de uma anarquia emocional. Apesar da mente desesperada, parecia ter uma imensa vontade de viver e ser feliz.

- Com o meu despertar do espaço solitário e mudo, acordaram também os meus próprios problemas.

Rita parecia estar numa luta feroz, que se deslocava do presente para o passado, como num passe de mágica, em direção a um mundo obscuro de ambiguidades e manipulações, que lhe dava acesso a pensamentos e memórias de outras pessoas, levando-a a um comportamento quase obsessivo e auto destrutivo, que lhe entreabria um mundo de fantasia, de pesadelos e demónios.

- Vejo um sol negro de onde só irradia uma noite muito escura. É a noite do mundo, chegou a minha vez.

Denotava sinais claustrofóbicos, estava exausta, tinha maneirismos, a cara era triste. Correu para o quarto, deitou-se e deixou de respirar.

quinta-feira, 26 de março de 2026

18 - A Primeira Metamorfose

 

18

- Doutor Lipiérre, consegui a ligação para o hospital de Mount Carmel, o doutor Cinfuentes está em linha.

- Obrigado senhora enfermeira.

O diretor do asilo de Salpêtriere poisou o álbum de fotografias na mesa e agarrou com força no auscultador.

- Doutor Cinfuentes, como está?

- Muito bem, muito bem, e o colega?

- Li o artigo do jornal acerca da vossa paciente, Rita. Aconteceu-nos o mesmo. Um dos nossos internos também despertou e era uma das vítimas da encefalite letárgica dos anos vinte e está aqui connosco há várias décadas – disse, ao mesmo tempo que olhava para a fotografia do recorte.

- Um acordar completo! - Exclamou o médico americano.

- Completíssimo, está a passear, mas muito perturbado.

- Há outro caso!

- Outro? Onde? – Perguntou o doutor Lipièrre.

Por momentos o outro lado do Atlântico ficou em silêncio, até que a voz pausada do doutor Cinfuentes se fez ouvir de novo:

- Em Highlands, ouvi na rádio. O caso é igual à da nossa Rita Bouvalier e ao seu…

- …Narciso Baeta. Com que idade é que a Rita foi internada?

- Aos 18 anos, – respondeu Cinfuentes.

- Dezoito anos! E esteve sempre internada?

- Nunca mais saiu, o parkinsonismo dela é, ou melhor, era uma autêntica masmorra. Está muda a olhar através da janela.

- Colega Cinfuentes, temos de nos encontrar.

- Aproveito a ocasião, vou passear até Paris e faço-lhe uma visita.

- Aguardo a sua vinda com ansiedade.

O doutor Charles Lipièrre diretor do Asilo de Salpêtrière acabara de ser informado que a perturbação do seu paciente Narciso Baeta se tinha agravado, procurava desesperado por uma senhora de nome Lilith em todos os cantos do estranho labirinto. O médico ficou parado, estático, preso a um pensamento que se desenrolava automaticamente, mas ao mesmo tempo consciente da importância do assunto.

- “Lilith”?

Levantou-se atordoado, olhou em redor, regressou à sua realidade e saiu apressado do gabinete, em direção ao vasto jardim onde estava o paciente do quarto nove. Aproximou-se em silêncio e descobriu-o dobrado, junto a uma pequena inscrição no meio das ervas. Observou-o com emoção e esperou, como de costume, pois sabia que o tempo era sempre um bom conselheiro nestes casos. O que estaria o senhor Narciso a ver? Numa pedra corroída pelo tempo alguém gravara um estranho nome: Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua! Pôs a mão no ombro do paciente e este limitou-se a olhar e a afastar-se. Encontrou-o um pouco mais à frente, envolto numa neblina espessa, parado junto a um bloco de pedra esverdeado devido ao musgo:

 

“ Presságios, Prevenções, Previsões e Prudências

Há uma violência boa?

Todo o mal terá uma entidade metafísica a fundamentá-lo?

O que é a vida?

Onde fica o Paraíso?

O que é maior que Deus?

O que é pior que o Diabo?”

 

O tempo encravara-se entre a manhã e a tarde e o detetive parecia estar numa paz satisfeita, pleno de confiança e vigor.

- Então senhor Narciso, já respondeu a tudo? – Perguntou o médico, sugerindo-lhe um sorriso, ao mesmo tempo que descobria o perfume de uma cerejeira em flor.

- A vida é tão frágil, - murmurou o detetive. – Sinto a intensidade excessiva da minha própria mortalidade. Saber não é pior do que não saber.

- As coisas nunca são como nós queremos, pois não?

Uma breve eternidade pareceu poisar nos raios luminosos que riscavam a escuridão áspera de um canto, quando o vento caía sobre eles.

- Ele diz tudo durante as ausências, - exclamou o paciente.

- Ele? Ele, quem?

- Estou numa encruzilhada, cai numa cilada e estou perdido, - respondeu com a tristeza no seu olhar e um lamento na sua voz. – Acenaram-me com joias e eu vendi-lhes a alma.

- Tem recordações do seu passado?

- Mais ou menos, mas não é só um, são vários. Aprendi que os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa, e que para eles ficção e realidade são uma só verdade.

O detetive parecia estar a fazer uma espécie de catalogação de factos, dir-se-ia que a sua ligação íntima com a vida perdera-se, o seu mundo estava a desfazer-se.

- A vida é efémera e irrepetível, – disse, apanhando uma flor amarela, a quem deu um nome impercetível.

Havia uma tensão entre a norma e o desvio, uma aberração de acontecimentos e comportamentos.

- Os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa e a ficção e realidade são uma e só uma verdade, - repetiu.

Parecia estar a agregar pessoas afetivamente importantes, à medida que ia colhendo flores de várias cores, e relacionava-as com lugares. Parecia misturar num mesmo sentido a alegria, a dor e a morte.

- Estou preparado, – e deu um passo em frente, especulando compulsivamente antes de cair desamparado no chão.