sexta-feira, 22 de maio de 2026

170 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda - feira) - Barba e Cabelo

 

17

- Queres ir à cidade?

- Claro avô, tenho muita curiosidade em andar no famoso Ford Gordini.

- Famoso?

- O meu pai falou nele várias vezes.

- No teu tempo os carros já voam?

- Ainda não, mas não falta muito. No concelho onde vivo o presidente da câmara já vai construir um edifício para os estacionar. São táxis drones!

- Táxis drones?

- Veículos pilotados automaticamente para transporte público. Mas a moda agora são carros elétricos.

 Carros elétricos? Sem precisarem de gasolina?

- Sim!

- A eletricidade ainda não chegou aqui!

- A avó irá pagar o ramal em 1969 para haver eletricidade na Quinta de Palmazões.

- 1969? Daqui a vinte anos? Meu Deus! Vamos lá à Barbearia Central.

Entraram num carro preto de quatro portas, o avô rodou a chave e o motor começou a roncar.

- Parece o Dakota onde o meu pai teve de fazer as horas de voo na Ilha Terceira quando era comandante da zona aérea dos Açores.

- Muito me contas sobre o Jorge, vai longe na carreira.

O trajeto da estrada até Amarante era parecido com o do tempo do Miguel, mas em terra batida cheia de buracos, em vez de alcatrão, e com muitos peões a deslocarem-se nas bermas, e carroças de bois a circularem na via. O barulho da buzina foi uma constante, as pessoas paravam para cumprimentarem o “senhor doutor” tirando o chapéu. Até lá cruzaram-se unicamente com três automóveis, e a viajem demorou quarenta e cinco minutos. O hóspede aproveitou para filmar a aventura. Pararam no largo Conselheiro António Cândido.

- Esta estátua continua no mesmo lugar, - disse o Miguel.

- Dei o mesmo nome ao teu tio, Deus o tenha!

- Li um manuscrito com o título de “Águia do Marão” escrito pelo avô.

- Sabes quem é que deu esse nome ao conselheiro?

- Não!

- O Camilo Castelo Branco. E os jornais chamavam-lhe o “Boca d’ Oiro”.

- Vamos tirar uma selfie com o “Boca d’Oiro”!

A cena de dois homens de idade não passou despercebida aos olhares dos curiosos, era estranho aquele ritual com duas pessoas de costas para uma estátua, um desconhecido de cabelo grisalho e o “senhor doutor”, um homem com uma barba hirsuta pouco cuidada, capote com nódoas, botões de colarinho desbotados, de olhar doce e melancólico, que revelava fadiga, ambos a olharem para um espelho na mão do primeiro, com o braço em extensão acimas das caras.

- Isto tudo é uma loucura Miguel, e há de acabar um dia!

Quando se dirigiam para a “Barbearia Central” foram abordados por um homem bem-posto, camisa branca, fato e gravata de riscas brancas oblíquas, olhos claros, risco ao meio, 1,66m, com uma capa aos ombros.

- Bom dia senhor Doutor, desculpe incomodá-lo, mas não sei a quem mais recorrer.

- És o filho da Guilhermina da Toca Comprida?

- Sim senhor doutor, sou o Prudêncio.

- Irmão do Jacinto que morreu na epidemia da febre tifoide na Teixeira. A tua mãe como está?

- Sente-se fraca, mas não consegue um atestado para uma consulta gratuita. Pensei que o senhor Doutor como Subdelegado de Saúde conseguisse ajudá-la.

- Prudêncio tu sabes que é o presidente da Junta que passa os atestados de pobreza, ele é que vos conhece.

- Eu sei, mas quando vi o Joaquim Fernandes com um, ia-me passando, ele é um capitalista, tem tantos porcos.

- Essa é que é a doença do país, a aldrabice e a cunha. O presidente deve ter a casa cheia de presuntos. Vou ver o que posso fazer por ti, conheço as vossas dificuldades, que se agravaram com a morte do teu pai.

Quando entraram na barbearia a porta fez tocar um sino, Miguel ouviu o som das tesouras e navalhas, misturadas com o burburinho de conversas animadas e risadas dos clientes. Ali a barba fazia-se a pincél, creme e navalha, ao som fanhoso de uma telefonia. Sentiu o aroma a sabão de barbear e a loções que não conseguiu identificar. As prateleiras estavam repletas de produtos, desde cremes e pós, até pentes requintados.

- Boa tarde meus senhores, - cumprimentou o dr. Mário de Miranda, que parecia estar sempre com pressa, tirando um relógio que estava arrumado no bolso do casaco, preso por uma corrente, vendo as horas. - São10 horas e 45 minutos!

Miguel confirmou no telemóvel. Tinha uma intuição especial para fixar instantes únicos do fluxo da vida quotidiana. O senhor Amadeu cumprimentou gentilmente o cliente, chamou-o com um gesto, rodou a cadeira, e este sentou-se, sendo de imediato protegido por um babete para adultos. A cadeira foi reclinada, um pincél distribuiu a espuma pelo maxilar inferior, o cliente fechou os olhos e a navalha encontrou a barba através da lenta rouquidão do corte. Quem diria que às vezes o encostar de uma navalha ao pescoço de alguém, o relaxava. Miguel encostou-se a um canto e observou com deleite o ambiente. Riu-se quando ouviu o ronco do avô. Quem diria que aquele senhor participara em 1917 e 18 em combates em Moçambique contra o invasor alemão que viera da região de Tanganica. Em tempos de paz escrevera um extenso relatório sobre a doença do sono, e a distribuição do seu vetor, a mosca Tsé-Tsé, tendo para isso percorrido uma área com uma extensão de mil quilómetros. Num sofá vermelho desbotado e gretado, um cliente de fato escuro e chapéu poisado no colo, que lia atentamente um jornal, comentou em voz alta:

- Os lampiões deram 4-3 ao Torino, e depois foi a desgraça.

- Foi o destino para os jogadores italianos, - disse outro.

- Aqui estamos vivos, e podemos morrer lá fora atropelados por essas engenhocas, que não se afastam de nós como os cavalos, - exclamou outro.

- Com estas estradas andam mais devagar que os bichos, - interveio o dr. Mário de Miranda, abrindo os olhos.

- Mas só os ricos é que os podem ter, - exclamou o leitor.

- Eu não sou rico, farto-me de trabalhar no consultório e na quinta, e gasto o dinheiro na educação dos meus filhos e não na taberna.

- Dizem que a Santa Casa de Baião tem muito dinheiro, que vai para os bolsos de alguns! – Provocou alguém dum dos cantos.

O cliente levantou-se furioso, agarrou na bengala, mas foi travado:

- Calma avô, não vê que o estão a provocar?

- São uns ignorantes, têm inveja de tudo, fartei-me de trabalhar de borla para montar a Santa Casa e o Hospital de Baião, e é assim que me agradecem. Podia ter-me dedicado à medicina privada e aí sim, estava rico.

- Não se arrependa, um dia haverá uma estátua sua na região a agradecer-lhe eternamente o gesto.

- Avô? Um velho a chamar avô a outro, e nós é que bebemos? – Investiu o provocador.

A notícia do desastre do avião Fiat-G212 contra uma parede da Basílica de Superga, no dia 4 de maio, com 31 pessoas a bordo, 18 delas jogadores do Torino, após um jogo amigável com o Benfica em Lisboa, em homenagem ao Ferreira que ia pendurar as botas, acabara de chegar a Amarante, à Barbearia Central.

- E comparam aqui o capitão do Benfica ao Severino Varela! – Exclamou outro, tentando resfriar os ânimos.

- O do Boca Juniores, o que jogava com boina?

- O “La Boina Fantasma” esse mesmo, que marcou um golo fabuloso ao River Plate.

- No Estádio Monumental de Nuñez, - interrompeu o Miguel, mostrando à assistência o filme no Youtube, onde Severino voava e desviava a bola, que todos pensavam que já tinha saído pela linha de fundo, para dentro da baliza adversária, no dia 26 de setembro de 1943.  

Um silêncio sepulcral abateu-se sobre o espaço, todos olhavam para o estranho aparelho, onde se jogava misteriosamente à bola, e alguns afastaram-se com medo.

- Vamos embora Miguel, - disse o avô puxando-o pelo braço.

Riram-se!

- Eles estavam a merecer, agora vão-se benzer o resto do dia, e se contarem a cena vão chamar-lhes bêbados.

- São sempre os mesmos estes indígenas, até quando o teu pai passa aqui de avião há falatório a dizer mal. Acho que ele faz muitas vezes de propósito. Amanhã queria ir ao Porto, mas vai chover! Tenho pena do provocador, está na miséria. Era relojoeiro até a visão o trair e o filho enlouquecer, e ter ido para o Manicómio Bombarda. Teve doze filhos, sobram-lhe quatro, a mulher morreu há muito, de ataque cardíaco.

Miguel olhou para o telemóvel e leu que previsões de bom tempo para o dia seguinte.

- Avô, amanhã não chove!

- O Borda d’Água diz que sim.

- O Serviço Meteorológico Nacional dá céu limpo

- Veremos, qual deles está certo.      

- Um satélite ou um agueiro.

Riram-se!

169 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda-feira) - Na Cama do Massena

 

16

Miguel tocou na porta do quarto do tio Fernando e esperou.

- Tio, posso entrar? – Perguntou, após algum tempo de espera e alguma insistência.

Rodou a maçaneta e ela abriu-se.

- Posso? – Insistiu.

Nada, o quarto estava vazio. Uma folha manuscrita sobre a cama chamou-lhe a atenção. Era uma carta dirigida ao sobrinho Miguel, para ser lida no futuro, quando alguém a encontrasse algures na biblioteca. O afilhado sentou-se na cama e quando se preparava para a ler, começou a ouvir uma sinfonia caótica de gritos raivosos em francês e em português, misturados com tiros, que desencadearam um turbilhão de emoções dentro dele, viu-se no cimo de uma colina verdejante, sentiu o vento de uma turbe de civis que se lançava com uma ferocidade agressiva, e sagrada, sobre um grupo de inimigos com fardas esfarrapadas, que tinham acabado de sair de uma curva, e ouviu o barulho de dentes de metal a penetrar na carne de um deles.

- Menos um, ó Maneta! – Gritou alguém em português.

- Au revoir maman, je vais mourir! – Retorquiu o soldado agarrando-se ao cabo da forquilha.

Mas um puxão rápido do português separou-os, e ele partiu rapidamente de encontro a outro. Os portugueses, alimentados por um ódio inabalável aos invasores, avançavam com uma coragem inegável.

- A cama do Massena! – Exclamou Miguel, rindo-se.

Lembrou-se da estória da cama onde o general francês dormira na noite em que acampara com o seu exército na margem do rio Ovelha, numa das extremas da Quinta de Palmazões, em Padronelo. Mais tarde o Miguel descobriu, numa das idas à casa das batatas com o pai, três bacamartes enferrujados escondidos atrás de uma porta, que o pai recuperou e pendurou na entrada da casa de Paço de Arcos.

- Agostinho, ajuda-me, - pediu alguém.

- Estou a caminho Claudemiro, - respondeu um vulto, saindo de trás de uma árvore.

-  Agostinho Clemente de Miranda?

- Quem me chama? – Perguntou a figura imponente, com uns olhos ardentes de paixão pela liberdade, como se a própria vida dependesse disso, parando e olhando para todos os lados.

Mas foi por poucos segundos, o tetravô paterno do Miguel correu de novo em direção ao amigo, e o viajante do tempo olhou para o telemóvel e viu a data, 10 de fevereiro de 1809. Começou a filmar. Agostinho Clemente de Miranda tinha umas feições marcadas pela determinação, a sua atitude misturava coragem e a cautela de quem já conhecia os meandros da zona que agora se transformava em campo de batalha. Na curva da estrada surgiu um francês que se destacava pelo uniforme impecável e a confiança de quem foi treinado para a guerra, dando passos calculados com a precisão de um soldado disciplinado, com uma expressão que misturava determinação e dever, refletindo a lealdade ao seu exército e à causa que o trouxera para aquelas terras desconhecidas. Miguel riu-se sem parar, o francês era a alma gémea do senhor Manuel, o jardineiro da casa dos pais.

- Cuidado Agostinho, - gritou.

A lâmina da espada do inimigo rasou a cabeça do familiar, que teve tempo para se virar com uma destreza de um felino, enterrando as quatro pontas afiadas no tronco do atacante.

- Morre francês, Quintela nunca será vossa, nunca tocarão na minha Eva!

Miguel ainda viu o pai e o avô materno Mene deitados na cama do tio Fernando, a pedido deste, que registou para memória futura os nomes dos generais que se tinham deitado ali.

- Estás à minha procura? – Interrompeu o tio irrompendo pelo quarto.

- Nem imagina onde estive, - exclamou o Miguel levantando-se e olhando para o telemóvel, que indicava o dia 21 de novembro de 1949, segunda-feira.

- Aposto que viajaste!

- Estive em Quintela a ver o Agostinho Clemente de Miranda a enfrentar as tropas francesas.

- Diziam que era um lutador duro!

- Gritou pelo nome Eva enquanto matava o francês.

- Eva Maria Luiza da Fonseca, a prima com quem se casou no dia 30 de agosto de 1807.

- Quase ia morrendo, se eu não o tivesse avisado, nós provavelmente não existiríamos. Olhe!

E o hóspede mostrou ao engenheiro Fernando Miranda o filme do telemóvel.

168 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 4 - 21 de novembro de 1949 (segunda-feira) - Visita Aérea

 

15

- Rápido lá para fora, o teu pai vem aí, - gritou o avô Mário de Miranda agarrando na mão do neto e puxando-o para o pátio da entrada.

Miguel correu para o exterior e foram para junto da avó Maria da Glória que acenava com um lenço branco na mão. Nem teve tempo de olhar para cima, o barulho ensurdecedor de um Hurricane a rasar as copas das árvores e a provocar uma tempestade de folhas e pó fez o Miguel rir de alegria, tentando tocar no avião, ao mesmo tempo que o avô acenava com os braços e a avó punha as mãos na cabeça. Conseguiu ver o Jorge a rir-se através da carlinga aberta e reparou que lançou um papel que esvoaçou até cair no campo de milho. O sol estava alto e quente, o ar poeirento provocava um cheiro intenso a terra revolvida.

- Mário tens de lhe dizer para não passar tão baixo, assusta-me tanto, - disse Maria da Glória entrelaçando o braço no do marido, ao mesmo tempo que viam o avião precipitar-se para uma nuvem nas alturas e desaparecer.

- Estou farto de queixar-me nas cartas que escrevo, mas tens de compreender que é um jovem com sangue nas guelras.

- Mas é meu filho e não quero perder mais nenhum, já bastou o António.

O neto aproximou-se dos avós, abraçou-os e exclamou:

- Não se preocupem, nunca irá acontecer nada, a vida do meu pai irá ser longa, e será feliz.

Pela primeira vez Maria da Glória não se afastou do intruso, olhou para ele, sorriu e fez-lhe uma festa na cara:

- Se tu o dizes, eu acredito, - retorquiu.

Foram interrompidos pelos gritos duma das criadas que acabara de sair do campo de milho:

- Minha senhora o menino deixou-lhe uma carta – e acenou com ela no ar.

 

“… que tenhas sorte e sejas feliz é o nosso maior desejo. Que a padroeira dos aviadores te seja propícia” – Mário de Miranda, Baião 29/02/1948.

“Não desças, há arvoredo e o terreno é acidentado. Além disso o indígena assusta-se e comenta. Por exemplo, que a mãe te disse adeus muito alto e que lhe deitaste uma carta. E afirmam que foi certo. Bem, mas isto não importa. Todavia a descida é ou pode ser perigosa para ti. E isso importa e muito.” – Mário Miranda, Baião, 23/11/1948.

“As tuas visitas aéreas têm sido devidamente apreciadas. O voo mais perfeito, porém, pareceu que foi aquele em que vieram dois aviões: serenidade, comando, distâncias guardadas como que marcadas por uma régua. E, também, altura razoável.” – Mário de Miranda, Baião, 7/12/1948.

“Cá recebemos a tua visita e dum teu colega, decerto, há uns oito dias. Estava eu, e o Fernando comigo, e o resto do pessoal em Palmazões. Por cá frio bastante. Apreciamos sobretudo o facto de não teres descido muito aqui por cima das árvores.” – Mário de Miranda Baião, 14/1/1949.

“Estava sentado à secretária a escrever a várias pessoas, entre elas a ti e aos teus irmãos, quando ouvi o ruído do motor de avião que me pareceu ser dos Hurricanes em que costumas voar. Efetivamente, interrompendo o meu trabalho e saindo de casa, verifiquei não me enganar. A mãe e a avó também suspeitaram e saíram para verem o aparelho. Eu acenei com o braço e com o chapéu e a mãe com um pano branco. Vimos os movimentos do teu braço. Na 3ª volta pareceu-nos que desceste muito perto dos pinheiros. Isso está fora da tua promessa.” – Mário de Miranda, Baião, 22-2-1949.

“Há dias recebemos, a mãe em Palmazões e eu aqui, a tua visita aérea. Devo prevenir-te de que à tardinha fui encontrar a mãe doente porque lhe deixaste a impressão de que voaste a baixa altura. Deves poupa-la a essas impressões fortes porque lhe dão como resultado dores de cabeça e falta de apetite. Há muitas árvores e teem-lhe dito, creio mesmo que tu também, que são perigosos os voos feitos nessas condições.” – Mário de Miranda, Baião, 11-10-1949.

 O médico aproximou-se do hóspede pôs-lhe o braço nos ombros:  

- Meu querido neto, eu vivo cada dia que me for concedido, mas tu podes partir, tens escolhas, podes viver em qualquer mundo.

- O avô está a falar com uma pessoa que está para vir, mas que nunca conhecerá.

- Nunca conhecerei? Não te vou conhecer? Queres dizer que vou morrer antes de nasceres?

Miguel apercebeu-se do erro, era complicado olhar pela porta do tempo, ver pessoas do passado e não lhes poder falar do futuro, ou ser prudente não o fazer, pois poderia ele próprio pôr em risco a sua própria existência. Estava confuso, o avô sabia ou não da sua situação?

- Gostava de saber qual será o futuro dos meus filhos, ainda preciso de continuar a trabalhar para eles, as despesas são grandes.

 “Queria melhorar porque preciso ainda de trabalhar para os teus irmãos”. – Mário de Miranda, Palmazões, 03/05/1950, última carta para o filho Jorge.


167 - O Bisneto do Padre Joaquim - Dia 3 - 20 de novembro de 1949 (domingo) - A Avozinha

 

14

Miguel estava sentado junto à lareira com o tio Fernando ao seu lado, ambos a verem fotografias guardadas numa caixa, quando ouviu o “Ford Bébé” do avô a chegar. Parou junto à porta principal e viu um vulto vestido de negro a sair do automóvel, com a ajuda dos avós e a subir lentamente as escadas. O soalho rangeu e Maria da Glória anunciou, com uma voz alta:

- Rapazes vejam quem chegou e vai passar uma temporada connosco!

- Avozinha – disse o Victor Hugo correndo para a senhora.

Maria da Purificação era mãe da avó, e após uma consulta rápida ao pdf da família Miranda, da autoria do Miguel, era viúva do Rodrigo Brochado desde 1939, e iria falecer na Casa da Barroca no dia 11 de fevereiro de 1958, com 76 anos.

- Mãe este é o senhor Miguel um amigo do Mário que é nosso hóspede por uns dias, espero eu.

- É filho do Jorge – interveio de novo o tio Victor.

Dois dos rapazes riram-se, Miguel reparou que o tio Mário Augusto não expressou alguma reação. Ficou impávido e sereno.

- Filho do Jorginho? – Indignou-se Maria da Purificação.

- Disparate mãezinha depois contou-te as novidades, estes dias têm sido uma loucura.

A senhora sentou-se à mesa e tirou dum prato uma castanha pilada.

- Estão muito boas Glórinha, as da tua irmã Isaura são muito duras dão-me cabo dos dentes.

- Pus em água de manhã.  

Alguém bateu na porta principal e ouviu-se o barulho de um ferrolho a abrir.

-São os tios – informou Maria da Glória.

- Boa tarde Dona Dulce e senhor Amador – cumprimentou a criada.

- Olá Adelaide como é que estás?

- Vou andando, minha senhora.

- Soube do teu irmão Agostinho que se viu aflito com a varíola.

- Graças a Deus curou-se …

- … a Deus não, ao senhor Dr. Mário de Miranda, que fez mais um trabalho exemplar, como na epidemia de febre Tifoide que levou a tua irmã Rosa …

- … que Deus a tenha – e benzeu-se.

- Vocês eram doze irmãos?

- Sim, minha senhora. Restamos quatro!

- Bem-vindos mais uma vez cunhados, - interrompeu a dona da casa. – Esta ciática vai-me matando. Estava a ver que não conseguia subir as escadas.

- A Maria da Glória devia ter ficado lá em baixo, a Adelaide levava-nos lá.

- Viemos despedirmo-nos, vamos passar uns dias ao Vidago.

- Ainda bem que vieram, tenho cá a mãezinha que tem perguntado muitas vezes à Isaura por vocês.

- Olá madrinha – disse o Mário Augusto dando um beijinho rápido na tia paterna Dulce Augusta de Miranda.

- Estás um rapagão tão bonito. Dezassete anos, como cresceste. Parabéns, sei que dispensaste dos exames orais de admissão à faculdade.

- Treze valores, é um menino muito aplicado, lá conseguiu superar as dificuldades no latim e no inglês, - elogiou a mãe.

Mário Augusto limitou-se a fazer um pequeno sorriso de ocasião.

- Toma rapaz, trouxe-te um presente.

Mário Augusto recebeu o embrulho e escondeu-o atrás das costas.

- Abre filho, a tia quer saber se gostas.

Descruzou os braços, puxou-os para a frente e desembrulhou o pacote. Era uma caneta azul.

- Outra Parker? – Exclamou Maria da Glória. A cunhada anda a gastar muito dinheiro com eles, pode fazer-lhe falta.

- Eu tenho e eles merecem. O meu irmão Mário, está em Baião?

- Não, está é surdo desde que apanhou a gripe. Encontra-se na biblioteca, já o chamei, mas não ouviu.

Riram-se e desceram para a sala.

O batizado de Mário Augusto ocorrera no dia 17 de abril de 1933, na igreja de Padronelo, e os padrinhos tinham sido o tio paterno Augusto Adelino de Miranda e a tia Dulce, que fora representada por procuração, por estar no Brasil, pelo irmão Aflalo, que nascera quando o bisavô paterno do Miguel fizera 55 anos.

- O teu Jorge fez-me uma visita lá em cima, a população veio toda para a rua, e ficaram enfeitiçados com as manobras do avião.

- Fico sempre muito ralada quando ele aparece, corre muitos riscos.

- Olá mana – cumprimentou o dr. Mário de Miranda irrompendo pela divisão.

Atrás dele entrou o filho Fernando e o neto Miguel.

- Este senhor ainda está aqui? – Perguntou a Dulce, baixinho, junto ao ouvido da cunhada.

- Infelizmente, o Mário continua a acreditar que é o neto vindo do futuro…

- … do Inferno …

- … e só tem dito disparates. Imagina que agora convenceu-o que vai ressuscitar o António.

- Meu Deus, não merecias este tormento.

- Quando estivermos sozinhas conto-te mais!

O hóspede parou a meio da sala e cumprimentou as visitas, que lhe responderam com desdenho.

- O Amador está muito caladinho, - notou a Maria da Glória.

- Tem uma dor de cabeça muito forte, e os remédios não fazem nada.

- Mário, ainda tens aqueles comprimidos milagrosos?

- Os do Miguel?

- Agora o hóspede também médico? – Indignou-se a tia Dulce.

- Tirou-me a dor da ciática.

- Mas disseste-me que estás com dores?

- Não tomei mais, mas que me fez bem na altura, fez. Mário, eu também tomo um.

- Eu tomo qualquer coisa que me tire as dores, - desabafou o Amador.

- Tens dois? – Perguntou Mário Miranda ao neto, um ano mais velho do que ele.

- Aqui estão, - respondeu Miguel, tirando dois comprimidos “Algimate” do bolso esquerdo traseiro das calças de ganga.

- Não será veneno? Exaltou-se a visita.

- Dulce, por favor? – Respondeu o irmão.

- Avô, deixe estar, eu compreendo as dúvidas da tia Dulce, - disse Miguel pondo a mão esquerda no ombro direito do avô.

Tia? Eu não sou sua tia, caro senhor!

O tio Amador tomou, sem hesitação, o comprimido, após ter sido ajudado pela cunhada a tira-lo da prata, e a mostrá-lo à Dulce Augusta, antes de o engolir com a ajuda do chá.

Miguel despediu-se e regressou à biblioteca, para ler as mensagens de WhatsApp que iam estranhamento chegando. O pensamento do avô estava distante dos convidados, Mário de Miranda imaginava a possibilidade de reativar um mecanismo de rejuvenescimento das células, e bastava uma, na campa do seu filho António haveria material necessário para inverter o processo, para o ressuscitar, como acontecera a Lázaro. Com a visita do neto, o avô tivera a impressão de começar a sentir uma harmonia entre o seu ser interior e o Universo. Estavam num espaço e temporalidade próprios, onde se cruzavam os dois mundos, o presente e o passado, só visíveis através dos pensamentos dos intervenientes, unidos pela essência invisível do Universo, a poeira inteligente. Mas não ficou muito tempo sozinho:

- E se utilizaste uma máquina para chegar até aqui, uma espécie de nave do tempo? Perguntou o avô entrando, mais uma vez, de rompante, e continuou. - Podes recuar e levar os remédios que salvariam o António. O “Algimate” tem tirado muitas dores aqui por casa, o teu tio Amador está aliviado.

- Mas que máquina???

- Talvez essa, - e apontou para o telemóvel.

- Isto é um telefone, faz o mesmo que o dos correios onde costuma ir falar com o meu pai.

- Tenta telefonar para alguém, à tua mulher.

Telefonar para o futuro? Nunca lhe tinha ocorrido essa possibilidade. E se atendessem? O que é que diria? “Estou a falar de Palmazões … em 1949, tenho aqui o meu avô, que nunca conheci, estive com o meu pai,…”? Mas era um facto que recebia as notificações das mensagens do “WhatsApp”! Foi com relutância, e medo, que procurou o ícone do “telefone”, escolheu a opção “recentes” e ligou à “Aninhas”, a sua mulher. Por breves segundos o silêncio tomou conta do espaço, até que o sinal de chamada se tornou audível.

- Diz? - Atendeu a Ana Miranda.