segunda-feira, 4 de maio de 2026

57 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Missão Cancelada

 

57

Nunca tantos esperaram ansiosamente por tão poucos! Maria Brocas, John Kovac’Olhões e Mary Holmes saíam triunfantes da Carraça, iluminados por potentes holofotes, trazendo um deles nas mãos uma minúscula caixa de metal cúbica, causadora de angústias e insónias, sinais de fantasmas nunca esquecidos. A multidão de sete elementos, olha, muda e receosa, a responsabilidade é pesada, decidir o futuro da espécie e do planeta já é trabalho para um deus e não para simples mortais, formados pelo pó de alguma estrela que se desintegrou há milénios. O som metálico do objecto desconhecido de encontro à mesa, desperta toda a tripulação do transe em que se encontra.

- O Centro de Comando cancelou a missão e ordenou-nos a regressar imediatamente, – informa Rita, abraçando com ternura John.

- Regressar?! Agora nesta fase tão importante?!

- Temos de pensar, pensar muito.

Por momentos o silêncio ameaça tomar conta, novamente, das dez almas que contemplam o cubo.

- Vamos ao trabalho, há muito para fazer! - Exclama Alfredo, puxando uma cadeira.

- Façamos o ponto da situação.

- Esta caixa é um arquivador de imagens idêntico aos nossos, – explica Paulo Prestes, engenheiro de sistemas, e prossegue. - Foi sem dúvida fabricada no Coração e eles não estavam à espera que a encontrássemos. Desta missão só esperavam uma confirmação de que todos os indícios tinham sido destruídos, mas enganaram-se. O lago dourado fica no estado líquido quando a distância ao Sol é a normal.

- É o que acontece agora, – interrompe o meteorologista Danci Cisto.

- Mas houve uma tempestade solar, e esta foi especial porque esteve, pela primeira vez nos últimos dez séculos, a lançar grandes quantidades de fumos, que formaram uma espessa camada de nuvens. Com isto a temperatura desceu, e durante um dia e meio o lago de ouro solidificou e nós passámos calmamente sem nos apercebermos de que aquela cratera tinha-nos sido destinada como túmulo. Quando comunicámos o sucesso da operação, ficaram em pânico.

- Como é que sabes isto tudo?

- O Cancro sabe tudo, Rita.

- Cancro!?? Tu pertences àquele grupo de terroristas?

- Se regressarmos ao Corpo desapareceremos sem deixarmos rasto. Rita, ninguém sabe que estamos aqui, lembras-te que nos obrigaram a mentir às nossas famílias, tu neste momento estás em treinos no deserto do Pé Esquerdo.

- E eu na República do Fígado! - Exclama Narciso Baeta.

- Cada um de nós está num sítio diferente e vai sofrer um acidente mortal. As nossas famílias receberão depois todo o apoio e nós seremos eternamente heróis nacionais. Lembram-se do major Clemente Bouvalier?

- O meu pai? O que é que sabe sobre o meu pai? - Pergunta Rita levantando-se.

- Tudo, sei tudo! Quando a sua mãe recebeu a notícia, disseram-lhe que o major tinha morrido no cumprimento de uma arriscada missão na República do Baço. Mas essa não é verdade.

- Não é a verdade!?? Mas então qual é a verdade acerca do meu pai.

- O seu pai foi um verdadeiro herói, pilotou a primeira nave enviada para o Corpo-Dois, o que sucedeu não se sabe.

- E para que região foi?

- Joelho Direito!

- Quem é que nos diz que não está a mentir? - Questiona o capelão Graise.

- Não lhe posso provar nada, a única coisa que pode fazer é ir-se embora. Eu por mim fico, quero ir até ao fim.

- Eu não, quero regressar a casa, – diz o navegador Alfredo Mávida. - Se nos ordenaram para abortar a missão, eu obedeço.

- Meus senhores, – interrompe Rita. - Quem quiser ficar fica, quem quiser regressar, regressa. Temos veículos, para continuar não vamos precisar da base, há mantimentos para meio ano, a partir daí o planeta fornecerá tudo.

Só quatro elementos pretendem continuar a missão: Rita, Narciso, John e Paulo. O engenheiro de sistemas faz a ligação da caixa e as imagens começam a aparecer.

56 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Diário de Bordo da nave Piolho-Um - Dia 1


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acorporagem foi perfeita, todos os sistemas funcionaram, e coordenámos a missão com o módulo de suporte que está em órbita no Corpo-Dois. O robot XT-2 mantém-se em silêncio e ainda não conseguimos detectar o problema. Colocámos no exterior os dois veículos de exploração e estamos a fazer-lhes testes por controlo remoto. A nave desceu numa enorme clareira arenosa e pouco acidentada, rodeada ao longe por uma espessa floresta. Mas o dado mais relevante diz respeito à atmosfera: é igual à do Corpo! Como precaução resolvemos usar ainda por algum tempo os fatos e proceder a mais análises. O “Julinho”, o robot-explorador que vai cartografar a zona do Umbigo, no equador do planeta, já foi testado, encontra-se operacional, e estamos a pensar lançá-lo ao fim da tarde, pois o vento neste momento é forte de sul, e a meteorologista, a doutora Danci Cisto, é da opinião que ele amainará ao anoitecer. Acabou de passar junto à janela o piloto Macléu Ferreira, que me acenou, dirigindo-se a um dos veículos. É estranho estar aqui, em princípio somos os primeiros a visitar este planeta mas, no entanto, começo a ter muitas dúvidas. As condições exteriores são idênticas, para não dizer iguais, às do Corpo, há muita vegetação, o céu também é azul, a temperatura é amena e de certeza que vamos encontrar muita água. A tripulação está muito motivada e desejosa de começar a exploração. A sensação de medo e terror que senti durante toda a viagem, desvaneceu-se agora, já não sinto aquele aperto na garganta, estou bem aqui. O almoço decorreu no exterior, já sem os fatos, num ambiente maravilhoso. O planeta parece estar a cativar-nos, irradia algo de extraordinário, até o vento adormeceu, dir-se-ia que sabia que a sua presença nos estava a prejudicar. Decidimos então proceder ao lançamento. O navegador confirmou as coordenadas e eu dei a autorização para o início da missão “Desvendar Mistério”, da responsabilidade da equipa-um, constituída por mim, pelo Alfredo e pelo capelão Graise, que também é engenheiro cósmico. O robot-explorador, o Jota-F-191, a quem nós carinhosamente chamamos de “Julinho”, possui dez rodas de borracha maciça, um motor termonuclear e três turbinas móveis que lhe permitem voar a uma altura máxima de dez metros. As quatro câmeras transmitem uma visão constante de 360 graus.

A descolagem foi um êxito e vimo-lo, fascinados, a desaparecer no horizonte. O resto do dia foi passado a preparar as outras duas equipas.

 

Assinado, Rita Bouvalier, comandante da missão

55 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - Peridoxitoso

 

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O governo cardíaco foi traído, o Cancro está incontrolável, foram tomadas medidas drásticas. Na Crossa da Aorta acaba de partir um comboio militar com destino à capital da República dos Pulmões, Grandalvéolo. Leva o batalhão “Cabeças Rapadas”, especializado em guerra química. O rei D. Sístole II, comandante supremo das forças armadas, deu-lhes ordem para aniquilarem o inimigo.

O Tratado Pulmo-Cardíaco, assinado há seiscentos anos, e retificado no ano passado, prevê a ajuda militar mútua em casos de crise. Seis toneladas de bombas químicas vão ser lançadas no planalto do Grande Esterno, tendo como fim aniquilar, de uma só vez, as veleidades dos terroristas. As consequências são muitas, sabe-se que as populações da zona atacada também vão perecer, mas tudo vale em nome da segurança dos Estados.

O Cancro está forte, os seus soldados foram implacáveis contra o exército do Estômago e os seus políticos demonstraram uma mestria invulgar ao manipularem os pontos sensíveis deste país do equador corporal. A província autonómica do Antro sempre fora um espinho cravado na República do Estômago, a outrora Federação Monárquica Duodenal-Fundo-Antral, o celeiro do Mundo. O rei Joran II herdou do pai uma nação rica e poderosa, sem problemas sociais. A única dificuldade residia na fronteira comum com o lendário Reino dos Dois-Intestinos. Este reclamava a província do Duodeno, baseando-se em factos ocorridos duzentos anos antes, em que esta região foi doada à Federação Monárquica por reparações de guerra. Quando o monarca Frénius, o “pai dos povos”, faleceu, o seu sobrinho Aténus subiu ao poder, questionou a validade do Tratado do Piloro e exigiu a entrega imediata dos territórios duodenais. Joran II, que era primo direito de Aténus, reuniu-se com este e ambos concordaram em consultar a população local. O “sim” à mudança venceu e o acordo foi respeitado. A insensibilidade política do jovem rei da Federação Monárquica Duodenal-Fundo-Antral, trouxe para o seu reino a instabilidade permanente. Os políticos antronianos mergulharam nos livros de História e depressa começaram a fazer exigências. Foi o pretexto para um golpe de estado inesperado e brutal, que enterrou a monarquia e aniquilou os líderes políticos, proclamando a República do Estômago. Nenhum membro da família real escapou ao genocídio. A lei e a ordem foram restabelecidas e, contra todas as previsões, a estabilidade retornou à região, ajudada por um bom ano agrícola, que tirou os agricultores da miséria em que se encontravam. De uma maneira geral a economia estomacal melhorou enormemente, mas houve problemas que não foram resolvidos e que apareceram agora.

O grande comboio acaba de transpor a Cava Superior, a porta de entrada para as férteis terras da República dos Pulmões, onde o verde é a cor predominante, sendo por vezes substituído por cidades pintadas de branco e com tamanhos homogéneos. Tudo está definido, a quantidade das casas, o número de habitantes, o tipo de casamentos, a procriação, enfim, é um povo que vive em função do planeta e dos seus limites. A composição lança-se a grande velocidade pela planície sem fim, salpicada por milhares de animais que pastam calmamente ao sabor dum tempo que só a eles pertence.

Os pulmonares são um povo adorador do Sol, acredita ser descendente de deuses que um dia desceram ao Corpo, ficaram fascinados com a qualidade do ar e o azul do céu, e devido a isso ergueram um monte, chamaram-lhe “Colunas de Laputa” e no seu cume colocaram a zona mais difícil de atingir, a mais rica e a mais cobiçada, “só acessível aos filhos de Deus”.

Um pastor acena freneticamente para o comboio, que passa a grande velocidade junto ao monte sagrado. Ao seu colo tem um cordeiro assustado com o barulho que quebra o silêncio do pasto sagrado.

- O animal é verde, – grita um dos soldados, fazendo precipitar os seus colegas para as janelas.

- Comeu ervas a mais, – diz outro, soltando os risos dos espectadores.

A cena é rápida, o rebanho fica para trás, não passando agora de um ponto num horizonte longínquo. Grandalvéolo, a cidade formosa, acaba de engolir o batalhão cardíaco, que se prepara agora para a sua mais importante missão. Vinte aviões de transporte enchem a base militar e já têm os motores a roncar. O transbordo é feito com rapidez e o comandante acaba de dar autorização para a descolagem. Um a um os pássaros de metal deslizam pela pista e precipitam-se para o céu mais azul do planeta. O Sol já vai alto e ilumina por completo a densa floresta que alimenta o ar de todo o Corpo.

Os pássaros assistem fascinados à dança dos seus semelhantes em direcção ao sul e os seus filhos espreitam assustados dos ninhos, libertando as primeiras palavras para os pais babados. Talvez pensem que um dia também serão assim!

 - A vossa loucura será a condenação de todos, – grita um indivíduo de grande estatura no meio da pista. – Deus deu limites ao Memoh e ele não os pode ultrapassar, são as leis de Laputa.

Uma patrulha da polícia aérea dirige-se a grande velocidade para o intruso. Os dez militares cercam-no e levam-no para o comando central.

- Já o identificaram? - Pergunta o oficial de dia.

- O bilhete de identificação diz chamar-se Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro -da-Lua.

- Como é que ele conseguiu entrar?

- É impossível entrar na base, os sistemas estão todos ligados, até uma mosca é detectada.

- E ficam por esse tamanho, – interrompe o prisioneiro. - Todos os que estão abaixo passeiam alegremente pelo vosso lindo quartel.

- Levem-no para dentro e interroguem-no à vontade.

- Antes de concretizarem as vossas ideias, pensem nas consequências, – avisa o motorista historiador e agora também prisioneiro.

- Cala a boca ó Cabreiro, – ordena o sargento dando-lhe um valente empurrão.

A sala é espaçosa, tem duas pequenas janelas que mal deixam entrar a luz e algumas cadeiras colocadas em sítios estratégicos. O intruso é sentado no centro e apontam-lhe dois projectores.

- Como é que entrou aqui? - Pergunta um dos oficiais.

- Eu entro e saio em todos os lugares e em todos os tempos. Vocês foram longe de mais, não há retorno para quem ultrapassa os limites definidos.

Uma enorme explosão provoca as trevas e o silêncio reduz as vidas à sua origem, o pó.

- Base Alfa, objectivo à vista, – informa o comandante da missão.

Uma semana depois o governo cardíaco reúne-se de emergência. As notícias são aterradoras, o material químico lançado pelos membros da missão “Renovar a Esperança” afectou os fluidos do Corpo. O planeta está em crise, as forças da Natureza já não se respeitam, há movimentações tectónicas nunca vistas, a camada de gases que o protege está a desagregar-se.

O Memoh descobriu aquilo que lhe estava vedado, foi-lhe dado pelo lado negro de Deus. É a eterna dança entre as ideias do Bem e do Mal, um jogo que tem de ser executado sabiamente, pois a unidade do Cosmos exige sacrifícios. O planeta Corpo foi criado para substituir um vazio na engrenagem celestial e acaba de cumprir a sua missão. As ideias que lhe dão consistência são necessárias noutros sítios, tudo e todos, do mais pequeno ao maior, são vitais para a grande máquina chamada Universo, que também é feita de muitos universos. E Deus, o mais amado e o mais odiado, tem de controlar pacientemente este brinquedo, que tende constantemente para o caos.

- Peridoxitoso, alguém sabia o efeito deste químico? - Pergunta um dos ministros cardíacos à equipa de cientistas responsável pela fabricação da bomba química XL, baptizada com o nome de “Bombom”, uma das cinquenta lançadas no Grande Esterno, na província do Manúbrio.

- É um produto extremamente mortal, que actua em poucos segundos e depois se desagrega, não deixando rasto.

- Então, o que é que correu mal? Porque é que continua a matar e a corroer o solo?

- São efeitos totalmente desconhecidos para nós, estamos a trabalhar intensamente para descobrir algo que pare o processo.

- É pouco, estão a fazer muito pouco, – diz, exaltado, outro membro do governo.

- O senhor ministro é melhor acalmar-se, – pede o porta-voz dos investigadores. - Durante anos vocês, os políticos, pediram-nos que fabricássemos uma arma “para resolver crises pela raiz” e nós fizemos esta. O vosso problema foi resolvido, mas agora apareceu outro, e hão-de aparecer muitos mais, pois vocês não prestam, só vêem o imediato, o futuro pouco vos interessa. 

- Senhor doutor, este Conselho não o autoriza a fazer juízos políticos sobre o nosso trabalho. Os senhores estão aqui para nos darem explicações sobre o insucesso do vosso trabalho. A arma de que foram incumbidos de fabricar falhou, não há solução à vista. O governo pulmonar acusa-nos de negligência e ameaça quebrar o tratado assinado há seiscentos anos, pondo em risco os nossos interesses estratégicos. Caso isso aconteça, seremos obrigados a declarar-lhes guerra e a ocupar os canais da Pequena Circulação, vitais para a nossa marinha mercante. Os nossos barcos foram hoje impedidos de circular. A Ordem Militar está impaciente, os seus falcões ameaçaram o rei! Meus senhores, estamos em crise e só uma solução imediata nos pode salvar da tragédia. A partir deste momento considerem-se detidos até resolverem a situação que criaram.

Os elementos opostos vindos de três dos oito cantos do Universo, incapazes de se juntarem, apareceram agora reunidos num grão que vagueia ao sabor dos desígnios de Deus. Peri, o Fogo, Doxi, a Água e Toso, o Ar, os guardiães da ordem e do equilíbrio, inimigos e amigos, presentes em todos os tempos, ordenados em todos os espaços, fiéis a um único Ser, implacáveis quando juntos, vêm assim repor a legalidade quando o caos, outro dos cantos, faz a sua aparição.

Os dias passam e não há solução à vista. A Natureza parece ter-se revoltado. O planalto do Grande Esterno vomita toneladas de lava, que se espalham lentamente pelas encostas, engolindo aldeias e aproximando-se perigosamente da segunda maior cidade da República dos Pulmões, Anaróxis. A protecção civil constrói desesperadamente uma muralha para travar o avanço do poderoso inimigo, e no porto os navios já se afastaram. A população foge em debandada em direcção às cidades periféricas, incapazes de abrigarem tantos foragidos. É a resposta implacável da Natureza, farta dos excessos do Memoh.

54 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - O Palácio de Xisto

 

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A placa da estrada tem escrito “Cego”, o nome da mais famosa cidade da República do Intestino. Segundo reza a História, era nesta zona que se situava a única fronteira terrestre dos territórios do povo do Apêndice, mais conhecidos como os “ Senhores das Estrelas “. Devido a um cataclismo de origem desconhecida, este território de 550000 quilómetros quadrados desapareceu, levando consigo a sua florescente civilização. Os séculos passaram e a lenda foi-se escrevendo ao sabor das conveniências, ora políticas, ora económicas, que transformaram os heróis em bandidos e os ladrões em reis, mas algo resistiu a todas estas histórias: os apêndicedianos tinham grandes conhecimentos astrológicos e possuíam uma carta minuciosa dos sistemas solares. Em vez dos sete planetas confirmados, o mapa assinala doze, mas até agora não se conseguiram detetar os outros cinco. Após o cataclismo só uma cidade escapou, em virtude de estar situada no local onde hoje se ergue Cego. Os sobreviventes construíram um sumptuoso palácio e escreveram nas paredes a sua história. Com o passar do tempo também eles desapareceram, restando unicamente até aos dias de hoje esta fabulosa obra arquitetónica, motivo de inúmeras investigações e da visita de milhares de pessoas. Por cima da enorme porta da entrada uma frase dá as boas-vindas aos curiosos: “ O Tempo é circular, tudo retorna “.

Os autocarros dos excursionistas acabam de chegar, e a recebe-los está o doutor Abiron, historiador de renome internacional, responsável por toda a investigação acerca dos “Senhores das Estrelas”.

- Sejam bem-vindos ao palácio do Xisto, a porta para outros mundos, – diz uma voz rouca e pausada. – Peço que, antes de entramos, meditem comigo acerca das estranhas palavras que nos foram deixadas pelo povo do Apêndice. Será realmente o Tempo circular? Caso o seja, então tudo retorna, a morte nada significa, o passado também é futuro e presente.

- Eu não me importo de voltar, a minha vida é excelente – interrompe uma idosa, provocando o riso da assistência.

- Aqui está um problema, retornar o quê, tudo? Só uma parte? Se olharmos para a nossa História, podemos verificar que há acontecimentos que se repetem ao longo dos séculos, mas com algumas diferenças, mostrando assim haver uma seletividade. Agora sim, podemos iniciar a viagem.

Depois da porta aparece uma enorme sala, repleta de desenhos nas paredes, no chão e no teto.

- Neste pequeno espaço é contada a história do povo do Apêndice, pelos sobreviventes, que também sabiam que lhes restava pouco tempo de vida e assim quiseram deixar para a posteridade os seus conhecimentos. Imaginem que estamos dentro de um livro e que vamos começar a lê-lo. Esta parede, – aproxima-se e toca-lhe, - é a introdução da obra, em que fazem um resumo dos acontecimentos passados. Situam-se geograficamente, e é já aqui que começam os mistérios. Olhem bem para o mapa e vejam se notam algo de estranho.

- É a perspetiva, foi feito de cima, do ar...

- Isso mesmo, do ar, quem o desenhou estava fora, encontrava-se acima da gravidade do nosso planeta. Como é possível? A única explicação plausível é que eles já sabiam voar, tinham máquinas para isso. Dois mil anos nos separam do “Povo das Estrelas “ e, no entanto, eles já tinham a tecnologia que lhes permitia sair do planeta. A circularidade do Tempo que proclamam, abre muitas portas nos mistérios do Cosmos e dá-nos uma infinidade de respostas. O Universo expande-se até a um ponto de saturação, em que se dá uma grande implosão, e isto é que é o grande mistério da vida.

- A vida não é nenhum mistério, ela é sim um livro aberto, e não tem culpa que o Corpo esteja semeado de burros, – diz um dos presentes, aparecendo de rompante na fila da frente.

- Mas os burros também são filhos de Deus, e têm o direito de saber os segredos da vida, senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

- Filhos de Deus? Duvido! Burros? Tenho a certeza, senhor Joanito-Faz-de-Conta, nome de filósofo, doutor Abiron, identidade de um historiador credível.

- Meus senhores, apresento-vos o meu caro colega, o maior especialista dos “Senhores das Estrelas”, – e o cicerone aponta para o amigo, que não perdeu tempo e subiu para um bloco de pedra.

- “Maior”? É impossível, há sempre alguém acima de nós, e como o Tempo é circular, somos sempre os “maiores” e os “mais pequenos”.

- Senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, explica esta segunda cena aos nossos amigos.

Com um salto majestoso, tal qual um felino, o famoso motorista, agora convertido no mais famoso historiador, poisa, sem suavidade, junto ao seu amigo e colega.

- Se a primeira cena vos deixou de boca aberta, esta segunda vai deixar-vos com a alma aos saltos. Vejam, aqui está o mapa das estrelas, do sistema de planetas a que pertencemos. Dizem estes senhores que o Corpo não é a única poeira celeste com seres vivos, que há muitos mais corpos, que pertencem a um vasto conjunto denominado Leve, que por sua vez está dentro de outro sistema, e assim sucessivamente até regressarmos a nós mesmos. Cada um de nós é um universo, que por sua vez está dentro de outro universo. E Deus é o único Ser que conhece o verdadeiro Universo, pois tem de geri-lo. Mas os “Senhores das Estrelas” deixaram aqui um dado fundamental, indicaram onde é o planeta Leve, – aponta para uma seta no meio de milhões de desenhos de estrelas. - Esta descoberta causa-nos arrepios, faz-nos imaginar até que ponto, apesar de terem vivido numa era anterior, estavam avançados em relação a nós. Quando conseguirmos, e talvez nunca, perceber o Tempo e o Espaço, encontraremos Deus, mas para nós é mais fácil esperar que Ele venha ter connosco. Até lá, vou beber uma cerveja, pois estes discursos dão-me uma enorme cede.

A tenda do senhor Von Braz Bajoulo, licenciado em sandes de chouriço e sumos, instalada no meio da sala, é invadida pelas hostes dos bárbaros intelectuais.

- Os mistérios do Universo dão sempre bons negócios, – desabafa o vendedor, entregando quatro bolos a um ancião que mal se aguenta nas três pernas. - Já tão perto de Deus e ainda com uma barriga esfaimada.

- É a alma que o exige, – explica, atirando-se sofregamente à comida.

Enquanto uns se entretêm a matar com os dentes a fome, outros tentam compreender o significado de uma parede semeada de pequenos orifícios. Os dois historiadores aproximam-se deste grupo e o doutor Abiron interpela-os:

- Os senhores sabem que essa é a escrita universal?

- Escrita universal?! Isto parece-me mais uma brincadeira duma criança, fugida à tirania da sopa.

- Mentino, é a linguagem que todas as espécies do Cosmos utilizam, excepto a nossa, – explica o historiador-motorista, e continua. - Não se lê com os olhos, nem com as mãos, mas sim com o olfato.

- Com o olfato? O senhor doutor está a dizer que essa escrita, cheira-se!??

- Correto minha cara senhora, o Mentino cheira-se, – e aproxima o nariz, fazendo uma inspiração. - É magnífico, as histórias que o odor nos conta.

- Isto só cheira a mofo, – grita um rapaz, retirando o seu protuberante apêndice nasal dum dos buracos.

- Lê com a alma e não com os pés, porque assim só ficas a saber o estado das tuas meias.

- E já não as troco há quatro dias.

- O que tu cheiraste foi o teu íntimo e não a maravilhosa ciência dos “Senhores das Estrelas”, – dispara o doutor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua. – Aqui está escrito o segredo das viagens interplanetárias, a possibilidade de nos deslocarmos para qualquer ponto do Cosmos, utilizando as passagens existentes e manipulando o Tempo. Este povo conhecia muitos mundos e muitos povos, e assimilou freneticamente as suas culturas e os seus conhecimentos, conseguindo assim compreender a linguagem das estrelas, que descreve a história, passada, presente e futura, do Universo. Souberam então do cataclismo que se iria abater sobre o seu país e prepararam-se. Para onde foram? Não ficou nada registado, mas podemos calcular que lá em cima alguém nos espreita desejoso por nos contar.

- Então é só isso o que o Mentino nos diz? Uma parede enorme, cheia de buracos feitos por miúdos em fúria, só para nos dizer que esse povo tinha conhecimentos de astronomia? - Questiona um jovem marreco.

- O que é que queres saber, ó cuecas de Buda? - Pergunta o cicerone.

- A maneira de voarem, a técnica utilizada para as viagens interplanetárias.

- Não me digas que tens uma namorada noutro planeta e nunca a viste!

- Com uma cara dessas não há fêmea no Corpo que te deseje, – comenta outro membro da assistência, impingindo-se ao interessante debate.

- Avance com isso que nós não estamos interessados no Mentino. Se Deus não nos deu esse dom, é porque não nos faz falta.

- Estão enganados, Deus deu-nos esse dom, mas nós perdemo-lo, pois só estamos interessados em coisas mesquinhas. Preocupamo-nos somente em acumular riquezas, impingidas pelo lado negro do Universo, somos uma espécie que tem constantemente a atracção pelo abismo. Mas se é isso o que vocês querem, continuemos.

Num canto do palácio um dos visitantes lê atentamente o jornal do dia, que relata os acontecimentos sangrentos que dizimam a República do Estômago. O caos instalou-se nas ruas, há bandos armados por todos os lados, os principais quartéis do país estão agora reduzidos a cinzas, bandeiras com desenhos do caranguejo, o símbolo do Cancro, flutuam ao sabor do vento. O governo fugiu e pediu asilo aos senhores do Coração. As falanges do grupo terrorista, as metástases, foram vistas a encaminharem-se para a República dos Pulmões. A guerra parece ser inevitável!

 

domingo, 3 de maio de 2026

53 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - Acorporagem

 

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Uma linha branca risca o Céu, o Piolho-Um vai a caminho do desconhecido, levando no seu ventre dez membros da espécie dominante do planeta Corpo, o Memoh, que vão à procura de uma salvação já tão longínqua, talvez inatingível e utópica neste estado de desenvolvimento desenfreado. O Universo é sensível, muito sensível, e um grão de areia é capaz de estragar o mecanismo concebido por Deus, um Ser de todos e não exclusivo de alguns.

- Preparar para a largada do primeiro andar, – avisa o co-piloto, interrompendo o silêncio assustador.

Um outro estrondo, seguido por uma brusca aceleração, cola de novo a tripulação aos acentos. Do Centro de Comando vê-se com nitidez uma estrutura metálica rasgar a coluna esbranquiçada de fumo que divide o Céu, e precipitar-se lentamente, não resistindo à tirania da gravidade.

O Piolho-Um está agora no reino das trevas, tendo atrás de si o Corpo mais brilhante do que nunca. Milhares de pontos cintilantes salpicam a cor negra profunda, que engole lentamente os dez aventureiros e a máquina que lhes serve de abrigo. Duas horas, duas longas horas mergulhados no desconhecido e sem referências visuais, a não ser uma centena de aparelhos de medida que executam ininterruptamente uma dança. O enorme foguetão que se lançou corajosamente contra o reino de Deus, está agora reduzido a uma insignificante cápsula, à procura de um alvo que ainda não apareceu.

- Planeta à vista às três horas, iniciar procedimentos de descida, – diz a comandante do voo.

Um foguete lateral é accionado e durante alguns segundos a parte esquerda do módulo parece ficar em chamas. Da grande escuridão aparece, como que por magia, e ocupando todo o horizonte, o Corpo-Dois, deixando por momentos a tripulação aterrada e fascinada. O grande mito da exclusividade do Memoh e do seu planeta Corpo, a ideia da espécie eleita por Deus, estão agora ali a serem aniquilados por uma poeira celeste igual àquela onde vivem.

- Se as leituras dos instrumentos não fossem diferentes, eu diria que tínhamos voltado para casa, - exclama o coronel Narciso Figueiredo Baeta, colando-se à grande janela. - É lindo, o Corpo-Dois parece irradiar mais luz, a sua cor atrai, tem algo de feminino.

- Já pensaram que os planetas também podem ter sexos diferentes?! - Interroga-se o capelão Graise.

- E reproduzirem-se... – grita a doutora Maria Brocas, sem tirar os olhos da tela.

Sexo entre os planetas, sim, talvez isso explique as rotas, as atracções, os afastamentos, os nascimentos, enfim, os mistérios de um grande Deus, de um Ser que tem de amar e odiar ao mesmo tempo, em todos os lugares e em todas as datas.

- Com tanto fascínio, ainda nos esmagamos contra a deusa, – diz o piloto, acordando os companheiros do transe em que se encontram.

A fase de acorporagem exige procedimentos rigorosos, que têm de ser executados até à entrada na gravidade. Vai-se dar uma nova separação no que resta do grande foguete interplanetário, ficando uma das partes em órbita, sendo esta controlada pelos XT, e a outra rumará para o encontro com a “deusa”.

- Sistemas preparados, dentro de dez segundos vai dar-se a largada, – informa o co-piloto, continuando, – dez, nove, oito...

- Meu Deus, para onde é que vamos? O que é que tudo isto significa? - Pensa a bióloga Mary Holmes.

- Sete, seis, cinco, quatro...

- Valerá isto tudo a pena?

- Três, dois, um, zero.

Um clique, apenas um leve barulho indica a separação, ficando uma das partes em órbita e a outra iniciando a descida.

- Procedimentos para inversão, – ordena o comandante.

- Foguete lateral, – informa o piloto.

Um barulho ensurdecedor, seguido de uma trepidação muito forte, faz a nave executar um ângulo de cento e oitenta graus.

- Gravidade do Corpo-Dois em acção, ignição dos retrofoguetes.

O ruído é total, as nuvens passam a grande velocidade pelas janelas, a tripulação agarra-se desesperada às cadeiras. Tudo está programado ao milímetro. O módulo poisa com suavidade e por momentos o silêncio é total.

- Centro de Comando Auricular chama Piolho-Um, escuto.

Só um silvo muito agudo se faz ouvir na grande sala.

- Centro de Comando Auricular chama Piolho-Um, escuto.

- Centro de Comando Auricular, aqui Piolho-Um, acorporagem perfeita, sistemas operacionais.

Algures no Universo uma espécie à beira do desespero, tenta encontrar um rumo para a sua arrogância. Que Deus esteja com eles! 

52 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - Piolho Um - Descolagem

 

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A maior catedral do mundo ergue-se imponente no meio da capital do Cortex Occipital, Lóxis. A Confederação do Cérebro, que domina todo o Pólo Norte do Corpo, é constituída por quatro grandes países, interligados por fabulosas vias de comunicação, que permitem uma contínua troca de informações e produtos. Mas este extenso território está intimamente ligado aos senhores do Coração, pois necessita diariamente das grandes remessas sanguíneas enviadas por eles. Originariamente não passava de um vasto deserto, até à construção dos canais caratodianos que o abasteceram do líquido milagroso. A pouco e pouco os colonos foram chegando e acabaram por edificar o país mais evoluído do planeta. De Lóxis partem duas fabulosas linhas-férreas, os Nervos Ópticos, que fazem a ligação exclusiva aos mais potentes telescópios, os Olhos, cuja missão é observar o Universo. Os dados recolhidos até hoje são extremamente importantes para a espécie Memoh, e por isso têm-se mantido em segredo, só sendo do conhecimento de um grupo restrito de cientistas. A descoberta mais espantosa feita até agora foi a existência de outro planeta que regularmente se aproxima do Corpo. Devido às semelhanças entre os dois astros, baptizaram-no com o nome de Corpo-Dois. O Centro Espacial do Córtex Frontal prepara-se para enviar uma nave exploradora com uma equipa de astronautas. Segundo os físicos, o Corpo-Dois irá aproximar-se durante a noite mais longa, prevista para daqui a três dias. Os investigadores conseguiram descobrir que a aproximação mínima entre os dois planetas coincide sempre com erupções vulcânicas na montanha Péniana, situada na Federação dos Membros Inferiores. E foi precisamente o que os sismógrafos registaram neste país do Pólo Sul. O foguetão “Piolho-Um” está na rampa de lançamento, situada nas províncias montanhosas do Pavilhão Auricular Esquerdo, dando assim início à missão “Novo Olhar”.

Na estação ferroviária de Lóxis a azáfama é grande, a tripulação do Piolho-Um, constituída por dez elementos, acaba de entrar para o comboio. Os treinos foram muito duros, dois anos, setecentos e vinte dias, para uma missão de um mês. Segundos os cálculos, o lançamento terá lugar na próxima madrugada e a duração da viagem está calculada em quatro horas, se o Corpo-Dois mantiver a distância mínima. Os dados sobre este novo planeta não são abundantes, a sua trajectória é muito irregular, ora se afasta até se perder de vista, ora se aproxima, chegando a influenciar a actividade da crosta corporal. As características deste astro são idênticas às do Corpo, tudo indicando que há condições para a existência de vida. Os dados transmitidos pelos Olhos foram informatizados e os cartógrafos conseguiram elaborar um mapa fiel. A área chave desta missão situa-se no Cocuruto, o ponto mais elevado do Pólo Norte, que é onde o Piolho-Um irá poisar.

Há cinco anos atrás foi enviada uma sonda não tripulada, também um projecto conjunto cérebro-cardíaco, que acorporou numa grande cratera denominada Umbigo, mas poucos dias depois deixou de enviar informações. As poucas fotografias recebidas revelaram ser um território inóspito, muito acidentado. Umas formas simétricas numa das encostas, chamou a atenção dos cientistas e um mês depois enviaram outra sonda. Aconteceu o mesmo, tornaram a perder o contacto, havia algo que interferia e danificava os aparelhos.

Após a descida no Corpo-Dois, a tripulação irá dividir-se, ficando a equipa-um no módulo, tendo como tarefa coordenar o trabalho das outras e lançar um robot em direcção ao Umbigo, a equipa-dois irá utilizar um veículo todo-o-terreno, para cartografar o território central esquerdo, enquanto que a equipa-três terá como missão explorar o Pólo-Norte, também chamado Cabeça.

- Os últimos dados sobre as condições atmosféricas são muito animadores, – informa Rita Bouvalier, comandante e engenheira de voo, lendo o relatório que acaba de lhe ser entregue - O Piolho-Um está operacional, é chegar e partir.

- A visibilidade do Cocuruto é muito boa e a aproximação do Corpo-Dois está dentro dos parâmetros normais, – acrescenta o piloto Mac Macléu Ferreira, tendo na mão direita uma das fotografias tiradas pelo satélite. - Apesar de tudo, a ideia dos reservatórios de combustível extras é bem aceite, a alteração das trajetórias não é significativa.

Ao seu lado está o co-piloto Narciso Figueiredo Baeta, coronel do exército cardíaco, a ler com muita atenção as notícias acerca dos últimos tumultos ocorridos no seu país natal, a República do Estômago. A província autónoma do Antro exige agora a independência e ameaça recorrer novamente ao terrorismo, método que há dez anos atrás levou o país à beira da guerra civil. O acordo conseguido nessa altura enterrou provisoriamente o machado de guerra, mas as secas dos dois últimos anos levaram os antronianos a tomarem consciência de que estavam a trabalhar para o resto do país. Com o País do Antro o nível de vida crescerá vertiginosamente e ultrapassará rapidamente o Coração. O presidente da república, comandante supremo das forças armadas, decretou o estado de sítio e ordenou à Divisão dos Corvos para repor, pela força, a ordem. A província rebelde está agora cercada, todos os membros do seu governo foram detidos e a polícia antroniana desarmada. Foram detetadas movimentações de milícias populares que escaparam à operação.

- Preocupado com as notícias? - Pergunta a médica Maria Brocas, responsável pela saúde da tripulação.

- Qualquer dia o Corpo desmembra-se, há conflitos em todos os lados, – responde angustiado o coronel Baeta, lembrando-se dos familiares que ainda vivem no Estômago.

A conversa é interrompida por um forte abanão, seguido de um chiar ensurdecedor.

- Aí vamos nós, – diz o cartógrafo John Kovac’Olhões, olhando pela janela. - Talvez consigamos descobrir algo que traga a paz para a nossa espécie, que precisa de muito espaço vital.

Após duas horas de uma viagem que parecia interminável, o sono da tripulação é interrompido pela voz possante do navegador Alfredo Mávida:

- Piolho-Um à vista.

Todos se precipitam de imediato para as janelas. Numa clareira, iluminado por milhares de holofotes que o cercam, o imponente foguetão desafia o Céu, que o observa com inúmeras estrelas cintilantes. Algures no espaço sideral um outro planeta aproxima-se a grande velocidade do Corpo, cumprindo matematicamente a sua trajetória, definida há milhares de anos por Deus, e controlada desde aí pelo Seu Universo.

No Centro Espacial Auricular está tudo a postos. A ordem para se proceder ao enchimento dos quatro andares do Piolho-Um, já foi dada e os tripulantes estão a ser acomodados no módulo espacial. Os últimos testes aos pilotos automáticos, três robots do Modelo XT, não revelaram anomalias, os radares de orientação e busca já captaram o Corpo-Dois, a sua rota está em conformidade com os planos e a coordenação entre estes sistemas e os Olhos entrou na fase principal. Inicia-se a contagem decrescente, os técnicos cumprem os últimos procedimentos e os veículos de apoio à nave afastam-se. Por momentos o silêncio é total. Os astronautas dão uma última olhadela aos registos e preparam-se para a descolagem. Durante a próxima hora não vão poder interferir no voo, cabendo essa responsabilidade ao Centro Espacial. Quando os comandos passarem para Macléu Ferreira e Narciso Baeta, já os quatro andares do Piolho-Um ficaram pelo caminho, perdidos no espaço, ao sabor dos ventos cósmicos. Nessa altura o módulo já estará na rota certa e a tripulação fará uma verificação aos sistemas.

- Piolho-Um, aqui Centro Espacial, contagem decrescente na fase final, vinte, dezanove, dezoito,...

O piloto carrega no botão de ignição, a nave estremece.

- Dezassete, dezasseis, quinze, catorze, treze,...

Os registos cardíacos acusam um aumento da pulsação, os electro encefalogramas indicam grande atividade mental, talvez revisões rápidas da vida...

- Doze, onze, dez, nove, oito, sete...

Uma nuvem de fumo espesso envolve a torre de lançamento, o ruído é ensurdecedor...

- Seis, cinco, quatro, três, dois,...

A angústia e o terror apodera-se de todos, já nada pode voltar para trás, o copiloto acaba de carregar no último botão de confirmação do lançamento...

- Um, zero...

Ouve-se um estrondo, o foguetão começa a erguer-se lentamente, as duas torres caiem para os lados, a velocidade aumenta, o rasto de fumo organiza-se...

- O nosso passarão aí vai, é lindo, o espetáculo é majestoso - grita o coordenador principal do projecto, tirando os óculos escuros que o protegem.

51 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - O Rapto

 

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Os tempos estão difíceis no planeta Corpo, a descoberta de verdades há muito escondidas aparecem agora fora dos contextos e levam os povos para o lado escuro do Universo. Deus, o Ser dos mil mundos, tenta reorganizar-Se, após a Sua crise, deixando por todos os lados os Seus símbolos eternos, mostrando ao Cosmos amedrontado a Sua complexidade aterradora. Mas os negociantes de almas são tantos, e tão poderosos, que O obrigaram a dividir-se novamente, para assim poder combater em todas as frentes. O Tempo parou, já não tem data, e o Universo deixou de se expandir, preparando-se agora para o retorno, para o seu Juízo Final.

- Tem de ser morto, o animal põe em perigo a segurança nacional.

- O Cordeiro de Deus, o senhor quer matar um dos símbolos sagrados?! - Pergunta o agente cardíaco Miguel Pheidão ao seu chefe.

- O Conselho de Estado consultou as autoridades tricúspicas e estas ficaram aterradas com a ideia de deixarmos o cordeiro verde a pastar calmamente à porta da Écloga. Ele é um perigo para a segurança nacional.

- Não nos devíamos envolver em assuntos tão sensíveis, ninguém sabe qual serão as consequências deste ato.

- Neste momento é a sobrevivência do nosso país que está em causa, os problemas metafísicos só servem para adormecer e controlar o povo. O senhor agente Miguel Pheidão cumpriu exemplarmente a sua missão, o rei foi, mais uma vez, fielmente obedecido, merece umas belas férias. A próxima missão será executada pelo seu colega Rato-Ginja.

Livre, Miguel Pheidão está finalmente livre da missão, pode viajar para onde quiser, decidir o que lhe apetecer. Contém-se, e muito bem, em referir as informações acerca dos Olhos. A partir de agora tem quatro meses para investigar por sua conta e risco. A fidelidade ao rei começa a abrir frinchas!

- Agente Rato-Ginja pode apresentar-se ao Conselho de Estado, – informa uma voz feminina, saída de uma boca com os dentes em xadrez.

Os dois elementos da polícia secreta cardíaca cruzam-se e desejam boa-sorte um ao outro.

O céu está limpo e muito azul, a temperatura amena convida a população a ir banhar-se ao lago Azul, enquanto que a grande cordilheira transborda de neve. Miguel Pheidão sai do quartel, enche gulosamente os pulmões de ar e dirige-se apressadamente para a Écloga.

- A sua primeira missão é raptar o Cordeiro de Deus e trazê-lo para as nossas instalações o mais discretamente possível, – ordena secamente o Procurador do Estado Cardíaco ao novo agente. - A ação tem de ser executada ainda hoje.

Um sino estridente ecoa pela Écloga e interrompe a sesta do padre Narciso. É o agente Miguel Pheidão a informá-lo de que o cordeiro de Deus corre perigo de vida, e a prontificar-se a levá-los para um lugar seguro.

- Traga o carro para aqui que eu vou buscar o animal – diz, em pânico, o religioso, iniciando uma surpreendente corrida pelo vasto relvado.

Mas depressa descai para um passo ofegante, causado pelos quilos dignos de um verdadeiro padre, investindo desesperado por um caminho profundo. Não há sinais do Pastor-Dáfnis, nem das suas “meninas”, como lhes costuma chamar. Num último salto de felino sobe para o telhado da casa muito rústica, pendura-se no badalo ferrugento que está junto a uma das chaminés e lança a proeminente barriga para o vazio. Vai à frente, vem atrás, mas nada, nem um esforçado pio sai daquele pêndulo descomunal. E para dificultar ainda mais a missão, um velho parafuso resolve abandonar o convívio secular de uma rosca, deixando pendurado o chefe da Écloga.

Rato-Ginja entra no carro, dá a volta à chave da ignição e o motor começa a roncar.

- Ir raptar um cordeiro verde, estes tipos estão completamente doidos, vêem perigos em todos os lados.

Atira para o banco de trás os documentos confidenciais e arranca lentamente, parando cinco quilómetros à frente no café “ O Cardíaco “. Abre a porta, acende um cigarro e dirige-se ao balcão, onde pede um café forte.

- Maldito animal, vou sujar o carro todo! Só peço a Deus que fujas, já estou farto desta mania dos senhores do governo de estarem sempre a verem ameaças em todo o lado. Agora já só faltava isto, um cordeiro, e ainda por cima verde, passou a ser uma ameaça para o estado! Qualquer dia nasce um elefante amarelo e também o tenho de ir prender. Senhor Victor traga-me um penalty bem forte, o meu dia começou mal.

- Qual é o seu problema Sr. Rato-Ginja?

- Tenho de ir prender um cordeiro verde.

- Um cordeiro verde? Mas a polícia não tem mais nada para fazer?

- Sei lá, estes tipos que nos governam estão cada vez mais malucos.

Algures não muito longe dali, um carro vermelho lança-se a alta velocidade pelo jardim da organização ambientalista, deixando dois sulcos profundos no relvado.

- Onde é que se terá metido o raio do padre, – resmunga o agente Miguel Pheidão, dando uma valente palmada no volante, ao mesmo tempo que descobre, ao longe, um vulto barrigudo a balançar ao sabor da brisa de verão.

- Tire-me daqui – grita o padre ao ver o polícia a sair apressadamente do carro.

- Então senhor Padre, onde é que está o cordeiro?

- Ainda não o vi, o Pastor-Dáfnis hoje resolveu ir pastá-lo para outro sítio.

Dois aviões da Força Aérea Cardíaca cortam o ar e quase provocam o despiste do agente que vai deter para averiguações o cordeiro de Deus. O barulho ensurdecedor dos aparelhos assusta o padre Narciso e este larga o badalo, caindo desamparado sobre o amigo que lhe segura a batina. Por uns instantes o silêncio toma conta da situação, até que um coro de badalos desperta os dois indivíduos.

- Desculpem meus senhores, não lhes queria estragar a festa, – interrompe o Pastor-Dáfnis, puxando a última fumaça do esganiçado cachimbo. - Penso que este não é o local indicado para cena dessas.

- Deixe-se de piadas, – resmunga o padre, levantando-se da cabeça do agente cardíaco Miguel Pheidão.

- Por onde é que tem andado, estamos aflitos à sua procura, queremos levar o cordeiro.

- Qual deles? - Pergunta o velhote, apontando para o rebanho verde.

- Verdes, estão todos verdes?!

- Estão assim desde hoje de manhã, quando os fui buscar ao curral.

A discussão é interrompida pela chegada de um carro a alta velocidade.

- Pheidão, o que é que estás aqui a fazer?

- Ginja? Pergunto-te o mesmo.

- Venho buscar o cordeiro, são ordens do chefe.

Do alto, bem do alto, um anjo observa, sentado em cima de uma nuvem volumosa, a discussão inflamada entre os três vultos, ao mesmo tempo que uma multidão de ovelhas verdes em êxtase, corre pelo extenso jardim, numa apoteose mítica digna de registo.

- As minhas meninas são de um virtuosismo avassalador, estão a sentir o mundo e a sentirem-se a si mesmas, – explica o Pastor-Dáfnis, assistindo com orgulho à estranha dança do rebanho, enquanto que uma lágrima marota escorre pela sua face de primata. - Elas são de uma sensibilidade profunda.

- Não há dúvida, Deus escreve sempre certo, mas com linhas muito tortas – diz o padre Narciso, levantando os braços para o ar.

- São os ventos da História, – profetiza o agente Miguel Pheidão, ajoelhando-se.

- Estas ovelhas demonstram uma sabedoria e um requinte milenares, digna de uma civilização com letra grande, – grita Rato-Ginja, com os braços abertos para o Céu, como que agradecendo a Deus o milagre.

De repente um raio corta o céu e de imediato os animais formam um círculo em redor de um dos pilares do imponente aqueduto que abastece a Crossa da Aorta. Devido ao aumento da velocidade, a força centrífuga começa a fazer-se sentir, saindo do rancho folclórico um cordeiro em voo rasante, que entra com estrondo na mala traseira do polícia cardíaco Rato-Ginja.

- Pronto, a minha missão está a chegar ao fim, – informa com um ar triunfante o agente da autoridade. - Eles querem um cordeiro verde, pois aqui está um.

- Terminaram, as minhas meninas acabaram a dança.

O carro de Rato-Ginja já vai longe, quando se dá um novo fenómeno, o rebanho do Pastor-Dáfnis recupera a cor antiga, destacando-se no centro o cordeiro especial.

- Graças a Deus o animal sagrado está salvo – proclama com satisfação o padre Narciso, abraçando-o e beijando-o. - Vou fugir com ele.

O anjo abre as asas e levanta voo em direcção ao Sol, que já dá sinais de cansaço.