sábado, 18 de abril de 2026

32 - Parte quatro Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

32

Narciso estava de novo no meio de uma hecatombe de sentimentos, confrontando-se com os mais perfeitos e belos demónios internos. Apesar de haver sol, ele sentiu o frio da sombra e um vento vazio. A quietude assustou-o, e era por isso que os seus sentidos estavam mais atentos e minuciosos. Espreitou a vida, escutou um ruído, sentiu um arrepio e uma tristeza pequena, e foi de novo envolto num turbilhão de gotas, vendo o céu e a terra, balbuciando raiva, mas reparando que tudo estava diferente, já não tinha só um corpo, as pessoas já se riam, apesar dos sorrisos serem curtos, e uns apontarem para cima e outros para baixo. Havia uma mudança. Encontrou-se com as suas emoções, e por isso riu e chorou alarvemente num íntimo recanto de sofrimento. Apercebeu-se de que há muito tempo não via o seu rosto. Teve uma vertigem, seguida de uma obsessão, depois um medo e por fim sentiu uma carícia deliciosa.

- Acredita, isto agora é a tua realidade, - disse-lhe Pureza com amor, com muito amor. – Esquece os segredos velhos, tens de exorcizar o passado, não existe uma só verdade.

Os olhares procuraram-se. O detetive sentia uma necessidade obsessiva de descobrir a pura e bruta realidade.

- Minha querida e amada Pureza, mas isto tudo não será apenas um desejo, que não tem nada a ver com a realidade?

Quando ela abriu a cortina sentiu-se abençoado pelo sol e viu uma luz intensa e constante. O movimento dela era seguro e tinha graça, a sua força vinha muito lá de dentro, das entranhas. Narciso reparou que estava deitado numa cama, sem conseguir encontrar uma posição que lhe permitisse sossegar o pensamento, que dava voltas e mais voltas.

- Pureza, - chamou!

Do silêncio insuportável saiu um ruído estragado e viu ao longe uma televisão ligada. Sentiu um vazio pesado. Apercebeu-se que estava acompanhado de cuidados e por isso ficou inseguro e inquieto.

- Pureza, - tornou a chamar, agarrando-se à almofada.

Apareceu-lhe à frente a imagem de uma mulher a preto e branco, junto à janela, que estava embaciada.

- Os anjos são ciumentos, por isso entre vocês há aqueles que morrem cedo…e os outros, - disse-lhe a desconhecida. – Com eles a verdade parece ser sempre mentira e a mentira parece ser sempre verdade. Vê tudo isto como uma cerimónia que marca a passagem, pela paz dos que passam e dos que vivem. A verdade não é um valor relevante, tens de pensar na vida de uma maneira nova.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

31 - Parte três Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

31

Narciso e Pureza estavam num impasse existencial, ali naquela terra de paz, de amores e de ódios. Os seus gestos cruzavam-se e colidiam. O detetive viu-se de novo longe do Paraíso e ouviu conversas que caíam umas sobre as outras, viu gestos que se cruzavam e se cortavam à sua frente, num clima de tensão no limite do insuportável. Quem lá estava não queria desistir e ele apercebeu-se disso.

- Deixem-me ir, por amor de Deus, - gritou contente e cansado, tentando fugir para dentro de si, do labiríntico meandro emocional onde tinha caído.

Mas estava ali e fora dali, distante com proximidade, revelando um universo fragmentado no tempo e no espaço, cuja limpidez ocultava obscuridades.

- Meu amor, apesar de termos vivido num mundo difícil para se ser bom, tu foste sempre bom. Por isso não precisas de desculpas. – Disse Pureza abraçando o seu amado e dando-lhe um beijo ternurento no pescoço. – Deus existe para que tudo não seja permitido.

- A tua ausência foi como se me tivessem roubado parte da minha vida, - exclamou Narciso retribuindo a carícia.

O estado caótico dos seus sentidos assombrava-lhe a razão. O que era afetivo estava agora a emergir, ele olhava para ela e admirava a sua pureza e a sua inteligência.

- Mostra-Te para que eu acredite em Ti, - gritou desesperado quando se apercebeu que ela estava novamente a perder os seus contornos, tornando-se distante e próxima

Distante porque parecia estar a ser enrolado por acontecimentos contraditórios; próxima porque lhe sentia o cheiro único. Estaria a história da sua vida condenada a desaparecer da memória, levada pelo pó? Mas Pureza jamais poderia desaparecer da sua memória, porque estava agora ali naquele caminho sinuoso, de trevas e luz, um em frente do outro, acompanhados por um desconhecido engravatado e diletante, de olhar medroso. O detetive sabia que não aguentaria outra ruptura brusca e dolorosa. Era uma relação visceral e afetiva. Ela olhava lúcida e serenamente para o seu amado. Ali, onde se encontravam, era um lugar curioso que vivia de muitos mitos. Ele estendeu-lhe as mãos e quando ela as apertou puxou-o com violência. Narciso recuperou as memórias da infância, paisagens e histórias do seu percurso. E eis que o homem engravatado explicou que Deus nunca aceitaria Isaac, o filho de Abraão, mas também nenhum cordeiro em vez dele. O Paraíso era um lugar que vivia muito de mitos. O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta viu nuvens escuras recuando no Céu e pássaros negros chocando no ar, reconheceu o seu rosto contorcido pela dor, sentiu os olhos cheios de água, descobriu rostos incertos e fascinantes com histórias horrendas recheadas de vítimas chorosas de tristes casos de vida. O espaço e o tempo estavam agora condensados e geravam tensões afetivas. Havia meios-olhares, meias-palavras sussurradas, meias memórias, acompanhadas pela presença invisível do passado. Tornou a ver muitas paisagens e muitos mundos, as dúvidas desfilavam na sua memória como reflexos do passado. Narciso ouviu a sua voz, sentiu a sua alma e tocou o fluxo da vida. Com a mão tentou alcançar a superfície da pele de Pureza, mas não a sentiu. Devorou-a com os outros sentidos e perdeu-se nessa entrega.

- Tenho urgência neste amor - disse, olhando para o desconhecido de olhar medroso.

- Estes momentos são sempre assim, confusos – exclamou o homem alto, com o olhar vivo e um sorriso irónico. – Não deves ter pudores nem complexos, pois não há regresso.

O silêncio ficou ferido.

- Não há regresso? – Perguntou o detetive.

- O teu futuro está traçado, as tuas memórias vão-se apagando, mas vais ganhar outras.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

30 - Parte dois Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

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- Reaja senhor Narciso, faça força, – gritava-lhe alguém com uma bata branca fazendo pressão no seu peito.

- Regressar? – Pensou, partilhando um silêncio e uma solidão breves.

Voltar agora que sabia que o fim da vida não significava um ponto final, vazio de existência? Tornou a olhar para o rio distante.

- Capta a essência deste momento, neste jardim nada é aquilo que parece ser, aqui compreendes finalmente a verdade de Deus, o Seu amor pelos outros. É isto que nos dá a certeza do Paraíso. Este é um mundo pisado, repisado e mais uma vez pisado. Este é o lugar do remorso, do arrependimento e da reconciliação, – disse-lhe o companheiro pondo-lhe uma mão no ombro. – A ascensão é lenta, andas perdido no mundo deambulando em busca de ti próprio, no meio de meandros confusos. A vossa separação não foi há muito, apenas um sono único, mas é como se fosse há muito.

O detetive viu que o olhavam à distância, adivinhava-lhes a paisagem mental e emocional, e que uns desafiavam os limites do seu corpo, exigindo-lhe uma escolha entre duas ordens de pulsões, uma ideal e cintilante e outra real e desbotada.

- Amor, - chamou Pureza com a sua inconfundível voz de timbre escuro e quente, a roçar o contralto.

- Uma parte da minha vida acabou naquele dia, – disse o senhor Narciso ao seu companheiro, que sabia agora chamar-se Václav, ao mesmo tempo que olhava com ternura para a sua amada, que não passava de uma silhueta no horizonte.

- Está agora nas suas mãos começar um novo dia. Só o futuro é eterno.

- A ideia que tenho deste lugar é que é caótico…

Foi interrompido por um beijo lento e demorado da mulher que amava, ao mesmo tempo que sentia um sol limpo no corpo. Ela estava mais serena, mais leve. Lembrou-se do amor terno e frágil que se escapara entre os dedos. Narciso nunca esquecera o mal que a vida lhe fizera e por isso poucas vezes praticara o bem, era um ser magoado em busca de um culpado. O ódio vinha-lhe das profundezas.

- Regressámos um ao outro, - exclamou Pureza. – O nosso caso não passou de uma trágica ironia da vida. Neste estado de transição é normal esta confusão de emoções. Precisamos de esquecer o mal para lembrar o bem.

- Falemos um pouco de si e do mundo, - interrompeu Václav.

- A minha vida foi uma grande mentira, - disse com emoção o senhor Narciso, para dar gravidade à afirmação. – Perdi a coisa mais séria da vida, a alegria, e por isso o meu tempo fechou-se. Deixei de gostar de amar, de conversar, de comer…de viver.

- Mas no entanto viveu até ao fim.

- Fim?! É uma opção vivi sempre atormentado pelos afetos, que guardava na memória, porque quando os chamava davam-me um imenso prazer. Senti desespero e humor. Desespero pelo acontecimento e humor por aquilo em que acreditava até ali, a vitória do Bem sobre o Mal. Afinal era tudo ao contrário, a vida era generosa para os maus e tirana para os bons, para a minha querida Pureza, a mulher com cara de anjo, que nunca fizera mal a ninguém.

- Deus também precisa de ajuda, - retorquiu Pureza. – A nossa relação com Ele não é unívoca.

- Ele precisou de ti?

- Para combater o Mal é necessário o Bem, que está em muitos lados, - respondeu Václav.

- Mesmo que para isso tenha de fazer mal a outros? – Perguntou o detetive Narciso olhando para a figura granulada e com ruído de Pureza.

- A tua presença aqui é sinal de que tudo se equilibra um dia.

- Foi por isso que dentro de mim esteve sempre uma luz intensa que me impediu de saltar para o abismo.

- Era eu o teu foco afetivo, sem ele o nosso amor teria sido impossível, - disse Pureza. – O nosso amor tornar-se-ia inviável caso o fizesses.

O grão e o ruído da imagem da mulher aumentaram.

- O que é que isto significa? – Perguntou o detetive, vendo que já não conseguia sentir a sua amada.

- Deus é a criatura mais importante e complexa do Universo. É um génio charmoso, cínico e calculista, com uma musicalidade infinita do verbo. É um ser terrificamente assustador, belo, comovente, dorido e perturbador, que nunca perde o sorriso dos lábios.

Narciso olhou para Pureza e achou-a bela, perfeita e linda. Fitou-a intensamente, mas ela desviou o olhar, mexendo com agilidade os dedos. Alguém sussurrou por cima, com uma voz poderosa e inconfundível, e uma serenidade que só aqueles que já viveram muito podem ter. Václav sabia que a relação entre estes dois seres não tinha sido atingida pela volubilidade do amor e o poder destrutivo da passagem do tempo e por isso Deus tomara a decisão certa ao juntá-los. Mas só Ele é que tinha o poder de ultrapassar as forças ocultas que manejavam, magoavam, decidiam e executavam a arbitrariedade gratuita de quem podia e mandava e tornava a vida num inferno.

terça-feira, 14 de abril de 2026

29 - Parte um Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

29

- A tua vida está a ser empurrada, – disse Lilith com uma voz doce e suave. – Morre num momento de graça quem amou e foi amado.

O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta ainda teve tempo de se aperceber da azáfama deste fim do mundo. Viu tudo, ouviu tudo, conheceu tudo. Atravessou corredores longos e galerias largas com paisagens abstratas. Ouviu o som muito baixo da sua respiração. Fechou os olhos, tentando adormecer definitivamente. Não conseguiu. Olhou para o chão e fitou o teto. Sentiu que as palavras estavam a ficar fora do lugar, por breves instantes ouviu a música de uma trombeta. Relacionou tudo, sons, imagens, palavras, coisas, pessoas, atmosferas, ideias, sentimentos, vestígios, miragens. Viu desfilar episódios de uma vida, uns difusos, outros mais precisos. Uma volta na cama pô-lo cara a cara com sorrisos e formas há muito desaparecidos, viu Pureza, que lhe fez acenos subtis. Trocaram olhares cúmplices. Deu uma ordem ao corpo, mas ele não obedeceu. Procurou um pensamento mais forte, pensou no ontem e no amanhã, mas o ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. Teve uma fúria lenta. Apercebeu-se que a alma deixara de coincidir com o corpo pois este estava parado, distorcido, com o rosto alterado. Atravessou um espelho, porque viu a mão a cruzar o espelho. Chamou com uma voz funda a sua eterna amada, beijando-a a meio de uma frase. O amor era lúcido e louco, insubmisso e ilimitado. Tentou chorar, mas já não tinha lágrimas. A partir daquele momento iria ser um viajante na noite, em busca de um alvorecer clarificador. Estava num mar enorme, instável, de um azul sem luz, com perigos e abismos. Soltou um sorriso aberto, alto e alegre depois de receber um beijo noturno, vindo de uma memória longínqua que o fez esquecer as tragédias, desilusões e falhanços. Deixou escapar um soluço no silêncio da noite. Ouviu uma voz a chamá-lo, lenta, nítida e exacta. Pureza tinha guardado para este dia, que nunca fora calculado, o que de mais profundo se lhe atravessou na vida, sentimentos e sensações, que oscilavam agora entre a força e a fragilidade, por isso o beijo foi arrebatador e visceral. Afinal, onde residiria o Mal, seria nos incondicionados atos de violência dos homens ou nos condicionados atos de violência de Deus?

- Não tenhas medo de seguir a felicidade, aproveita este tempo e este lugar para confirmares os teus sonhos mais desejados, - disse um homem de barbas dando-lhe uma festa na mão.

- E quais são os meus sonhos mais desejados?

- A única coisa que vejo em ti são emoções espontâneas e muitas frases soltas.

- O que desejo é resgatar o amor mais desejado, – exclamou o detetive, baixando os olhos.

- Deus não está só encostado ao Universo, a agarrar com força as suas paredes, faz parte dele e sente-o – retorquiu o interlocutor, usando as mãos e os olhos.

Tornou a ouvir vozes que já tinham partido e voltavam agora com a eternidade, no meio de um silêncio concreto. Ouviu uma voz magnética como um íman. Era uma hora em que o Sol ainda não se via. Sentiu uma tranquila serenidade. Despiu o manto negro da desesperança e sentiu um desejo intenso de agradecer. A verdade era instável e os tempos misturavam-se. Parou num monte de pedras, que o seu acompanhante dizia estarem carregadas de histórias, que os separavam de um rio que corria, brilhante, ao longe. Exigiu que o levassem a sério:

- Mas que balda é esta? – Gritou.

Estava desassossegado e ansioso, a imaginação não parava. Tudo isto que estava a viver, representava para si a vitória de Deus e a sua própria por ter acreditado Nele. Sabia que aqueles silêncios estavam habitados. Por breves instantes reencontrou rostos, lugares estranhos e tempos, que o ofuscaram com o seu brilho e fluência.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

28 - Do “Rio Sereno” que guarda a mão providencial

28

Lilith contou que Deus dera a fórmula original do planeta que queria para o Homem e com o “Livre Arbítrio” pusera tudo em movimento. Um cheiro amargo e intenso num imenso prado verde iluminado por um sol brilhante, desviou a atenção do detetive e levou-lhe o olhar para a visão de umas figuras atentas e grandiosas, que ficaram perturbadas com a sua presença:

- Papões, - disse docemente a deusa, aproximando-se de um deles com movimentos dançantes ligeiramente estranhos e exóticos.

Trocaram carícias trocistas, o senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta surpreendeu-se com os gestos e os movimentos daqueles monstros, pois pareciam-lhe demasiado humanos e intencionais. De repente o Papão deu um elegante salto para cima, primeiro elevando as patas traseiras e depois as da frente, projetando-se no ar.

- Os Papões são os cavalos de Deus, inteligentes, doces, generosos, elegantes, astutos…

- … e cheirosos!

- Aqui, no Paraíso, a Natureza é um estado de alma partilhado por todos os seres vivos. Deus pediu-lhes para guardarem este pedaço, e é por isso que eles saltam de tempos a tempos, para aumentarem o campo de visão.

O senhor Narciso olhou para Lilith e reparou na sua pele aveludada semeada de sinais, enquanto que ela pressentiu as saudades e as mágoas do detetive, dizendo:

- Muitas vezes a ocasião é o oposto daquilo que desejamos.

O detetive estava a olhar a terra e a fitar o céu, e foi por isso que não respondeu. A deusa continuou:

- Tudo o que foi produzido no Universo desde o seu início, e que Deus considerou relevante, está ali, - apontou para uma floresta no horizonte.

Lilith colocou-se atrás do companheiro de viagem com uma figura nostálgica e fantasmagórica, abraçando-o de uma forma descomplexada e irónica, que faziam dela uma personagem ociosa e perversa onde o Bem tinha encarnado.

- É a maqueta do Bem, que alimentou cultos, excentricidades e rejeições. Mais do que uma floresta, este espaço é mais um processo metabólico, - explicou a anja, atravessando um espelho com a mão.

De repente o senhor Narciso tropeçou numa tartaruga e estatelou-se no chão.

- A tartaruga em cuja carapaça está incrustado o veneno da vida, a droga das mulheres fatais e pecaminosas, que faz crescer flores venenosas por onde passa, - disse Lilith rindo-se com barulho.

O homem foi ajudado pela mulher e pararam à entrada da floresta.

- Este é o local onde se gerem os destinos de todos os seres do Universo. Quer entrar, detetive?

- É seguro?

- Saber o seu destino será seguro? – Perguntou Lilith aproximando os seus lábios carnudos da boca pequena do senhor Narciso.

- É imperativo saber a verdade!

- Avancemos, – disse a fêmea atravessando um espelho com a mão.

Deram de imediato de caras com a figura de uma mulher. Era Tati, a deusa mulher, mãe, artista, eternamente independente, arquiteta do “Livre Arbítrio”. Quando Deus se preparou para iniciar o movimento da vida, descobriu que os elementos nunca se iriam cruzar e por isso ficariam eternamente imutáveis. Tati introduziu o “número um” para provocar a imprevisibilidade. A mulher fez um aceno subtil com a cabeça, uma mistura de deferência e orgulho, piscando um olho e sorrindo. Era fiel a Deus mas não devota, e guardava no seu bolso um pequeno frasco que, segundo dizia, aprisionava a “infelicidade perpétua”, em forma de nuvem azul. Tinha um desencanto na alma porque vira e fizera coisas de que não queria que houvesse memória. A figura era bela e comovente. O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, contratado por Deus para descobrir Lilith, viu ao longe uma mulher a sair de uma casa, no meio de um nevoeiro, e gritou um nome:

- Pureza!

- O que é fascinante nesta floresta é que a linha que separa a verdade da mentira, é muito ténue, - explicou a anja empurrando-o em direção à casa.

O abraço entre os dois foi tão intenso, que Narciso e Pureza pareciam que se tinham fundido.

- Quando o sol da tarde bate nas janelas e na minha cabeça, penso sempre em ti, foi sempre assim desde que nos separámos, - disse Pureza encostando os seu lábios ao ouvido esquerdo do marido.

- Tu estás igualzinha.

- A imagem que se tem é a que permanece, neste lugar as ideias germinam como plantas.

O detetive falou-lhe das suas desilusões, da enorme frustração da impotência, da negação da realidade, da constante deambulação, da incapacidade de amor.

- A nossa separação foi tão brusca, tão injusta, que eu amaldiçoei tudo e todos, - confessou o senhor Narciso abraçando com mais força a sua amada.

- Estamos juntos, não sei como é que vim para aqui parar, mas foi com certeza pela mão de Deus. Ele ouviu a tua raiva!

- E eu também estou aqui pela mão de Deus. Ele ouviu os teus pensamentos.

- Poderemos então dizer que Deus escreve direito por linhas tortas, - exclamou Lilith rindo-se com barulho.

Narciso chorou. Pureza também. Pareciam crianças vindas de um planeta distante. Refizeram as vidas a passo e passo, prostrando-se um diante do outro, numa saudade obsessiva sufocante.

- Guardo na memória a sequência de dias e de noites que pensei desesperadamente em ti, - disse o detetive beijando-lhe as mãos.

- O tempo está a atrasar-se. Cada minuto de indecisão está a tornar-se o teu mais íntimo inimigo. Aproveita o que Deus te deu e escolhe: ficar ou voltar! – Interrompeu Lilith. – Também Ele achou injusto o que o “Livre Arbítrio” vos fez e por isso interveio…por linhas tortas. É este o mistério que Deus nos ensina.

A deusa explicou que havia uma fusão absoluta entre a alma e o corpo, os sentimentos originavam-se na carne e o “Livre Arbítrio” estava intimamente ligado ao cérebro. Mas o detetive e a sua mulher estavam íntimos dos afetos e nem a ouviram. Narciso olhou para o ar e viu que a sua cor era reles, sinal de que estava cansado deste tempo que se arrastava. Olhou para a Pureza e viu que a luz aparecia de esguelha, mostrando a sombra da sua ausência. A escolha que Lilith lhe dera seria uma máscara ou um rosto limpo? Ouviu o som dos papões. Tudo avançava. Ele sabia que sobre a sua cabeça estava uma ampulheta em movimento. Desejou fugir da solidão onde sempre estivera e por isso trocou um sorriso longo com a amada. Vieram-lhe à mente as cenas e dramas de uma vida conjugal feita de dor e sofrimento. Tudo parecia ser simultaneamente muito simples e muito denso. A sua vida atual era sobretudo memória dela e o domínio dos acontecimentos aparecera-lhe como um clarão.

- O meu passado é agora o meu presente.

O detetive não sabia o que fazer com os dois tempos, pois ambos pareciam ser uma ameaça. O futuro tanto poderia ser uma noite cerrada como um dia luminoso, sabia que estava na confluência entre dois estados nas dobras da vida. Ficar com o amor da sua vida significava um rasgão de que todos tinham medo. O seu percurso tinha sido demasiado afetado, desde o início, pelas contradições, pelos equívocos e pela polémica. O senhor Narciso tinha consciência do seu crescimento pessoal, que lhe permitia olhar mais longe, tornando os seus medos insignificantes. A noite que caiu sobre ele era húmida e de solidão, e o único bem daquele cenário melancólico dava pelo nome de Pureza. Surgiram-lhe memórias rápidas das curvas da vida, apertadas entre lugares e pessoas. Viu dez casinhas de xisto de pescadores de lampreia, à beira das águas mansas de um rio transparente. Sentiu o respirar do mundo, sinal de que o tempo estava a passar. O mundo imoral ou o mundo moral era esta a sua terrível escolha. As voltas do vento trouxeram-no de novo à realidade e ele pôde admirar a Pureza com um olhar distanciado. Era uma mulher viva e serena, elegante, convicta, com um olhar límpido, num jardim atravessado por pássaros. Ele amou-lhe os movimentos, enquanto ela sentiu-lhe a tensão. A luz oblíqua que passava através dos abetos milenares fê-lo ver que as duas mulheres que o rodeavam eram extremamente belas. Atrás delas estavam figuras envelhecidas entregues a uma letargia profunda, no espaço caótico daquele fim de mundo.

- Falam muito de Deus e aquilo é o resultado de deuses menores a quererem imitá-lo – disse Lilith, ajeitando um dos sapatos de salto alto feitos em madeira esculpida à mão, mostrando não ser uma deusa relegada ao rés-do-chão.

A veia nostálgica e romântica do senhor Narciso levou-o de novo a olhar para a sua amada que esperava, sentada, pela sua decisão de ficar ou partir, com um olhar repleto de paz e concentração. O detetive tornara-se um indivíduo inquieto, balançando na fronteira entre o caos da loucura e a lucidez clara e distinta que a fina ironia de Lilith e o sorriso indulgente agravavam. Estava sozinho perante si, minado pela melancolia e pelo sentimento de inutilidade, exangue, desnorteado. Numa ponta estavam as exigências de Deus e noutra a impossibilidade de as satisfazer, por culpa daquele de quem, aos olhos Dele, a não podia ter. Tornou a voltar-se para a Pureza com um olhar ávido e a respiração suspensa, ao mesmo tempo que sentia o enorme poder de ilusão do invisível. Optou por escutar o que lhe dizia o coração, porque já não tinha nada a perder.

domingo, 12 de abril de 2026

27 - As impressões da viagem que fez o leveniano Narciso Serapitola Figueiredo Baeta a Laputa, com entrada por Plutão.

 

27

O detetive tinha descoberto que o Universo era constituído por passagens, esconderijos, magias, corpos, sombras, numa mistura de enigmas entre o fictício e o real, com truques, embustes, mistérios, dilemas e armadilhas. Era uma farsa visual, com um ritmo esquizofrénico dos acontecimentos, num jardim onde pulsavam paixões recalcadas. E Deus tinha um amor estranho e uma ligação em estado de ruptura com Lilith. Era a história de uma paixão desesperada, impossível, cercada pela morte e pela loucura por todos os lados. Lilith significava trauma, memória e identidade, por isso o detetive assistiu assustado à sua transfiguração:

- A felicidade está ao nosso alcance mais facilmente do que imaginamos, - disse a deusa num tom profético, com uma energia apocalíptica, puxando bruscamente o visitante para si.

O senhor Narciso viu a sombra do seu passado, como um vaticínio ou um remorso.

- Deus acima de tudo quis dar amor aos outros, – e Lilith quase que colou os seus carnudos lábios aos do detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta.

Estava agora com um íntimo mais racional do que emotivo. As dúvidas eram enormes e infatigáveis, o homem chorava lentamente a sua antiga vida, que lhe parecia cada vez mais longínqua, quase que já não existia. Tinha a sensação de que, além dele e de Lilith, estava ali muito mais gente que os observava e cercava. Por isso a deusa usava palavras sumidas, quase imperceptíveis. Olhou para o lado e reparou no ar ambíguo, ao mesmo tempo inocente e perverso, da amiga, que ele parecia amar exageradamente. Já não sabia se era o culpado pelos sentimentos conturbados e esperava desesperadamente que um milagre o fizesse acordar em casa, livre desta vida suspensa do avesso. O seu desespero não tinha gritos, nem lágrimas. O detetive reparou nos sapatos da mulher:

- Porque é que são de ferro? – Perguntou.

- Porque Deus é complexo, - respondeu-lhe, escondendo o facto de não ter querido abdicar do seu estatuto de sedutora e amante, que a levou para um conflito com as filhas, que também já tinham esse estatuto.

Caminharam ao longo do jardim, que mais parecia uma floresta, entre árvores imóveis e silenciosas, envoltos por uma tarde fria. Passaram por um lago com água quase invisível, onde dois cisnes brincavam e acasalavam, com jogos de aproximação e de fuga. Lilith lançou um olhar ao detetive. Ao longe numa clareira apareceu um coreto com dois vultos sentados a uma mesa.

- Chegámos, – informou a deusa.

O detetive reconheceu Deus, mas não o jovem barbudo de cabelos negros caídos sobre os ombros que estava ao seu lado segurando um copo de água que bebia. Por isso perguntou à amiga:

- Quem é o freak?

Não obteve resposta, só um leve sorriso.

- Mandar-te para lá é condenar-te de novo à dor, porque a conduta deles não mudou em dois mil anos, a moral continua muito baixa, - disse Deus ao rapaz que estava sentado à sua frente.

- Talvez eu não tenha feito o suficiente, – insistiu.

- Meus senhores, o nosso convidado, – interrompeu a deusa, fazendo-lhes sinal para se levantarem.

O detetive ouvira a conversa e olhou com admiração para o mais novo, que pretendia ir de novo ao encontro dos carrascos. Só poderia ser masoquista.

- Também acho, – disse-lhe Lilith ao ouvido, mostrando que tinha o dom de ler pensamentos.

O senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, a quem uma simples ida a um WC dum centro comercial da região de Lisboa, para satisfazer uma necessidade fisiológica, o levara para uma aventura sem limites, tinha consciência do fim. Mas seria só o dele ou faria parte do Apocalipse? O ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. Com um braço Deus negou o rosto a Lilith e parou-lhe o passo. O detetive, que estava cercado de exóticas transcendências, reparou que Ele exibia inúmeros jeitos e trejeitos, e que o filho era muito bonito e desejava ser o melhor, por causa daquele pai que parecia amar. Quanto a Lilith hesitara entre a eternidade e a existência.

- Todas as tuas palavras vão ter ao Diabo, – disse Deus olhando fixamente para a mulher. – Ainda és uma sombra, incapaz de transpor o nevoeiro e abraçar o sol que te dei.

- Não é isso o que os teus pensamentos dizem, meu rei, – retorquiu a fêmea mais poderosa do Universo.

A atmosfera era suspeita, medo e horror, apesar do jardim se chamar “Paraíso”. Lilith era um ser atento, humano, sensível aos problemas e dramas dos outros.

- Sou incapaz de ver alguém sofrer sem eu sofrer também, profundamente, – confidenciou Deus ao senhor Narciso, encostando a cabeça no seu ombro. – Os afetos são a minha perdição.

- Os “afetos” são as coisas mais bonitas do Universo, – disse o detetive, dando uma festa na face do seu interlocutor.

- Apurei a minha inteligência emocional, – retorquiu o jovem cabeludo, cujo nome era Umbelino. – Estou mais racional e objetivo.

- E queres ir para o mesmo sítio? – Perguntou Deus.

- Não, há outro lugar melhor onde estarei imune às invejas, aos conflitos e a salvo dos maus humores. O perfeccionista já não existe.

- Sempre admirei a tua lucidez Umbelino, – exclamou a anja, sentando-se ao seu colo e fazendo-lhe uma festa nos cabelos compridos.

Lilith era uma deusa excêntrica, cheia de revolta e mistério, que falava muitas vezes com tranquila clareza, apesar de parecer uma criatura frágil. Deus parecia não ter uma ideia clara sobre o sentido do bem e do mal, mas insistia na exuberância ética. Tudo isto fizera com que o detetive ganhasse fé, apesar de ter sentido o frio que subia das lajes do chão. Precisava de palavras leves que apelassem à pureza primordial de Deus, para conseguir selar um acordo com Ele. A deusa olhou para o senhor Narciso e sentiu que tinha chegado a altura perfeita para os dois se encaixarem de corpo e alma, pois só poderia acontecer naquele momento. A fêmea tinha a enorme sabedoria dos afetos e havia poucas com este brilho na alma.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

26 - Da “Árvore da Vida” senhora do “Conhecimento Máximo” até aos profundos mistérios do Céu

 

26

- O Filho era o espelho no qual Deus se via, até perceber que o espelho não era liso, – disse Lilith puxando a cabeça do detetive para o seu colo. – A Árvore da Vida dá-nos o "Conhecimento Máximo" através da meditação. Andamos todos à volta e continuamos a não saber, enquanto que os doidos se multiplicam.

O senhor Narciso estava a ausentar-se do que fora, as outras árvores pareciam-lhe fantasmas, começou a desejar não ser mais do que fora. Tudo era sombra clara e claridade escura. Lilith afastou-se, aproximou-se, hesitou, evitou-o. Os sons misturavam-se. Olhou para cima e viu um sol alto e agressivo, enquanto que por debaixo rebentavam ondas de um mar em fúria e ao longe ouvia o som do vento na vegetação. Lilith era a filha do tempo e das suas superstições, insuficiente e excessiva. Os seus olhos sorriam-lhe, o detetive sentia uma força imensa por detrás daquele corpo aparentemente frágil. Estava impaciente, a anja parecia ter pressa. O senhor Narciso seguiu-a atentamente com os olhos. Uma ilusão fê-lo sentir a leveza do seu corpo. A comoção despertou lá do fundo, e as lágrimas toldaram-lhe os olhos. A sensação de dever cumprido abriu-lhe o sorriso, mas trouxe a confusão para dentro do espírito. Lilith lançou-lhe o seu olhar eternamente transparente, irónico e perplexo, ao mesmo tempo que dizia:

- O afeto é a mais segura das âncoras. Vê esta compulsão de Deus pelos tons escuros que lhe ensombram e arruínam o palácio. Ele precisa de cores.

A um canto do jardim, pendurado numa parede, estava um relógio que desistira de registar a passagem do tempo. À medida que falava com a anja, descobriu-lhe uma personagem frágil e obsessiva, que se recusava a ceder um pouco ao seu amado. Um era a luz e o outro as trevas. Mas, quem era quem? O detetive apercebeu-se da delicadeza com que Lilith compreendia a alma humana. Afinal, o papel da mãe tinha-lhe pertencido, mas os acasos do “Livre Arbítrio” haviam-lhe tirado essa missão. A deusa aproximou-se e disse:

- Foi aqui que o Anjo Azul declarou o fim do tempo, quando Deus descansava depois de ter feito o Universo.

- No célebre sétimo dia, - retorquiu ironicamente o detetive.

- O dia já nem Deus sabe ao certo.

O senhor Narciso tinha fome e frio, saudades da família e já não tinha uma fé inabalável no regresso, estava em paz com o mundo, e passara a acreditar na eternidade e na vontade de Deus, renegando ao seu passado ateu e trotskista.