domingo, 3 de maio de 2026

53 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - Acorporagem

 

53

Uma linha branca risca o Céu, o Piolho-Um vai a caminho do desconhecido, levando no seu ventre dez membros da espécie dominante do planeta Corpo, o Memoh, que vão à procura de uma salvação já tão longínqua, talvez inatingível e utópica neste estado de desenvolvimento desenfreado. O Universo é sensível, muito sensível, e um grão de areia é capaz de estragar o mecanismo concebido por Deus, um Ser de todos e não exclusivo de alguns.

- Preparar para a largada do primeiro andar, – avisa o co-piloto, interrompendo o silêncio assustador.

Um outro estrondo, seguido por uma brusca aceleração, cola de novo a tripulação aos acentos. Do Centro de Comando vê-se com nitidez uma estrutura metálica rasgar a coluna esbranquiçada de fumo que divide o Céu, e precipitar-se lentamente, não resistindo à tirania da gravidade.

O Piolho-Um está agora no reino das trevas, tendo atrás de si o Corpo mais brilhante do que nunca. Milhares de pontos cintilantes salpicam a cor negra profunda, que engole lentamente os dez aventureiros e a máquina que lhes serve de abrigo. Duas horas, duas longas horas mergulhados no desconhecido e sem referências visuais, a não ser uma centena de aparelhos de medida que executam ininterruptamente uma dança. O enorme foguetão que se lançou corajosamente contra o reino de Deus, está agora reduzido a uma insignificante cápsula, à procura de um alvo que ainda não apareceu.

- Planeta à vista às três horas, iniciar procedimentos de descida, – diz a comandante do voo.

Um foguete lateral é accionado e durante alguns segundos a parte esquerda do módulo parece ficar em chamas. Da grande escuridão aparece, como que por magia, e ocupando todo o horizonte, o Corpo-Dois, deixando por momentos a tripulação aterrada e fascinada. O grande mito da exclusividade do Memoh e do seu planeta Corpo, a ideia da espécie eleita por Deus, estão agora ali a serem aniquilados por uma poeira celeste igual àquela onde vivem.

- Se as leituras dos instrumentos não fossem diferentes, eu diria que tínhamos voltado para casa, - exclama o coronel Narciso Figueiredo Baeta, colando-se à grande janela. - É lindo, o Corpo-Dois parece irradiar mais luz, a sua cor atrai, tem algo de feminino.

- Já pensaram que os planetas também podem ter sexos diferentes?! - Interroga-se o capelão Graise.

- E reproduzirem-se... – grita a doutora Maria Brocas, sem tirar os olhos da tela.

Sexo entre os planetas, sim, talvez isso explique as rotas, as atracções, os afastamentos, os nascimentos, enfim, os mistérios de um grande Deus, de um Ser que tem de amar e odiar ao mesmo tempo, em todos os lugares e em todas as datas.

- Com tanto fascínio, ainda nos esmagamos contra a deusa, – diz o piloto, acordando os companheiros do transe em que se encontram.

A fase de acorporagem exige procedimentos rigorosos, que têm de ser executados até à entrada na gravidade. Vai-se dar uma nova separação no que resta do grande foguete interplanetário, ficando uma das partes em órbita, sendo esta controlada pelos XT, e a outra rumará para o encontro com a “deusa”.

- Sistemas preparados, dentro de dez segundos vai dar-se a largada, – informa o co-piloto, continuando, – dez, nove, oito...

- Meu Deus, para onde é que vamos? O que é que tudo isto significa? - Pensa a bióloga Mary Holmes.

- Sete, seis, cinco, quatro...

- Valerá isto tudo a pena?

- Três, dois, um, zero.

Um clique, apenas um leve barulho indica a separação, ficando uma das partes em órbita e a outra iniciando a descida.

- Procedimentos para inversão, – ordena o comandante.

- Foguete lateral, – informa o piloto.

Um barulho ensurdecedor, seguido de uma trepidação muito forte, faz a nave executar um ângulo de cento e oitenta graus.

- Gravidade do Corpo-Dois em acção, ignição dos retrofoguetes.

O ruído é total, as nuvens passam a grande velocidade pelas janelas, a tripulação agarra-se desesperada às cadeiras. Tudo está programado ao milímetro. O módulo poisa com suavidade e por momentos o silêncio é total.

- Centro de Comando Auricular chama Piolho-Um, escuto.

Só um silvo muito agudo se faz ouvir na grande sala.

- Centro de Comando Auricular chama Piolho-Um, escuto.

- Centro de Comando Auricular, aqui Piolho-Um, acorporagem perfeita, sistemas operacionais.

Algures no Universo uma espécie à beira do desespero, tenta encontrar um rumo para a sua arrogância. Que Deus esteja com eles! 

52 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - Piolho Um - Descolagem

 

52

A maior catedral do mundo ergue-se imponente no meio da capital do Cortex Occipital, Lóxis. A Confederação do Cérebro, que domina todo o Pólo Norte do Corpo, é constituída por quatro grandes países, interligados por fabulosas vias de comunicação, que permitem uma contínua troca de informações e produtos. Mas este extenso território está intimamente ligado aos senhores do Coração, pois necessita diariamente das grandes remessas sanguíneas enviadas por eles. Originariamente não passava de um vasto deserto, até à construção dos canais caratodianos que o abasteceram do líquido milagroso. A pouco e pouco os colonos foram chegando e acabaram por edificar o país mais evoluído do planeta. De Lóxis partem duas fabulosas linhas-férreas, os Nervos Ópticos, que fazem a ligação exclusiva aos mais potentes telescópios, os Olhos, cuja missão é observar o Universo. Os dados recolhidos até hoje são extremamente importantes para a espécie Memoh, e por isso têm-se mantido em segredo, só sendo do conhecimento de um grupo restrito de cientistas. A descoberta mais espantosa feita até agora foi a existência de outro planeta que regularmente se aproxima do Corpo. Devido às semelhanças entre os dois astros, baptizaram-no com o nome de Corpo-Dois. O Centro Espacial do Córtex Frontal prepara-se para enviar uma nave exploradora com uma equipa de astronautas. Segundo os físicos, o Corpo-Dois irá aproximar-se durante a noite mais longa, prevista para daqui a três dias. Os investigadores conseguiram descobrir que a aproximação mínima entre os dois planetas coincide sempre com erupções vulcânicas na montanha Péniana, situada na Federação dos Membros Inferiores. E foi precisamente o que os sismógrafos registaram neste país do Pólo Sul. O foguetão “Piolho-Um” está na rampa de lançamento, situada nas províncias montanhosas do Pavilhão Auricular Esquerdo, dando assim início à missão “Novo Olhar”.

Na estação ferroviária de Lóxis a azáfama é grande, a tripulação do Piolho-Um, constituída por dez elementos, acaba de entrar para o comboio. Os treinos foram muito duros, dois anos, setecentos e vinte dias, para uma missão de um mês. Segundos os cálculos, o lançamento terá lugar na próxima madrugada e a duração da viagem está calculada em quatro horas, se o Corpo-Dois mantiver a distância mínima. Os dados sobre este novo planeta não são abundantes, a sua trajectória é muito irregular, ora se afasta até se perder de vista, ora se aproxima, chegando a influenciar a actividade da crosta corporal. As características deste astro são idênticas às do Corpo, tudo indicando que há condições para a existência de vida. Os dados transmitidos pelos Olhos foram informatizados e os cartógrafos conseguiram elaborar um mapa fiel. A área chave desta missão situa-se no Cocuruto, o ponto mais elevado do Pólo Norte, que é onde o Piolho-Um irá poisar.

Há cinco anos atrás foi enviada uma sonda não tripulada, também um projecto conjunto cérebro-cardíaco, que acorporou numa grande cratera denominada Umbigo, mas poucos dias depois deixou de enviar informações. As poucas fotografias recebidas revelaram ser um território inóspito, muito acidentado. Umas formas simétricas numa das encostas, chamou a atenção dos cientistas e um mês depois enviaram outra sonda. Aconteceu o mesmo, tornaram a perder o contacto, havia algo que interferia e danificava os aparelhos.

Após a descida no Corpo-Dois, a tripulação irá dividir-se, ficando a equipa-um no módulo, tendo como tarefa coordenar o trabalho das outras e lançar um robot em direcção ao Umbigo, a equipa-dois irá utilizar um veículo todo-o-terreno, para cartografar o território central esquerdo, enquanto que a equipa-três terá como missão explorar o Pólo-Norte, também chamado Cabeça.

- Os últimos dados sobre as condições atmosféricas são muito animadores, – informa Rita Bouvalier, comandante e engenheira de voo, lendo o relatório que acaba de lhe ser entregue - O Piolho-Um está operacional, é chegar e partir.

- A visibilidade do Cocuruto é muito boa e a aproximação do Corpo-Dois está dentro dos parâmetros normais, – acrescenta o piloto Mac Macléu Ferreira, tendo na mão direita uma das fotografias tiradas pelo satélite. - Apesar de tudo, a ideia dos reservatórios de combustível extras é bem aceite, a alteração das trajetórias não é significativa.

Ao seu lado está o co-piloto Narciso Figueiredo Baeta, coronel do exército cardíaco, a ler com muita atenção as notícias acerca dos últimos tumultos ocorridos no seu país natal, a República do Estômago. A província autónoma do Antro exige agora a independência e ameaça recorrer novamente ao terrorismo, método que há dez anos atrás levou o país à beira da guerra civil. O acordo conseguido nessa altura enterrou provisoriamente o machado de guerra, mas as secas dos dois últimos anos levaram os antronianos a tomarem consciência de que estavam a trabalhar para o resto do país. Com o País do Antro o nível de vida crescerá vertiginosamente e ultrapassará rapidamente o Coração. O presidente da república, comandante supremo das forças armadas, decretou o estado de sítio e ordenou à Divisão dos Corvos para repor, pela força, a ordem. A província rebelde está agora cercada, todos os membros do seu governo foram detidos e a polícia antroniana desarmada. Foram detetadas movimentações de milícias populares que escaparam à operação.

- Preocupado com as notícias? - Pergunta a médica Maria Brocas, responsável pela saúde da tripulação.

- Qualquer dia o Corpo desmembra-se, há conflitos em todos os lados, – responde angustiado o coronel Baeta, lembrando-se dos familiares que ainda vivem no Estômago.

A conversa é interrompida por um forte abanão, seguido de um chiar ensurdecedor.

- Aí vamos nós, – diz o cartógrafo John Kovac’Olhões, olhando pela janela. - Talvez consigamos descobrir algo que traga a paz para a nossa espécie, que precisa de muito espaço vital.

Após duas horas de uma viagem que parecia interminável, o sono da tripulação é interrompido pela voz possante do navegador Alfredo Mávida:

- Piolho-Um à vista.

Todos se precipitam de imediato para as janelas. Numa clareira, iluminado por milhares de holofotes que o cercam, o imponente foguetão desafia o Céu, que o observa com inúmeras estrelas cintilantes. Algures no espaço sideral um outro planeta aproxima-se a grande velocidade do Corpo, cumprindo matematicamente a sua trajetória, definida há milhares de anos por Deus, e controlada desde aí pelo Seu Universo.

No Centro Espacial Auricular está tudo a postos. A ordem para se proceder ao enchimento dos quatro andares do Piolho-Um, já foi dada e os tripulantes estão a ser acomodados no módulo espacial. Os últimos testes aos pilotos automáticos, três robots do Modelo XT, não revelaram anomalias, os radares de orientação e busca já captaram o Corpo-Dois, a sua rota está em conformidade com os planos e a coordenação entre estes sistemas e os Olhos entrou na fase principal. Inicia-se a contagem decrescente, os técnicos cumprem os últimos procedimentos e os veículos de apoio à nave afastam-se. Por momentos o silêncio é total. Os astronautas dão uma última olhadela aos registos e preparam-se para a descolagem. Durante a próxima hora não vão poder interferir no voo, cabendo essa responsabilidade ao Centro Espacial. Quando os comandos passarem para Macléu Ferreira e Narciso Baeta, já os quatro andares do Piolho-Um ficaram pelo caminho, perdidos no espaço, ao sabor dos ventos cósmicos. Nessa altura o módulo já estará na rota certa e a tripulação fará uma verificação aos sistemas.

- Piolho-Um, aqui Centro Espacial, contagem decrescente na fase final, vinte, dezanove, dezoito,...

O piloto carrega no botão de ignição, a nave estremece.

- Dezassete, dezasseis, quinze, catorze, treze,...

Os registos cardíacos acusam um aumento da pulsação, os electro encefalogramas indicam grande atividade mental, talvez revisões rápidas da vida...

- Doze, onze, dez, nove, oito, sete...

Uma nuvem de fumo espesso envolve a torre de lançamento, o ruído é ensurdecedor...

- Seis, cinco, quatro, três, dois,...

A angústia e o terror apodera-se de todos, já nada pode voltar para trás, o copiloto acaba de carregar no último botão de confirmação do lançamento...

- Um, zero...

Ouve-se um estrondo, o foguetão começa a erguer-se lentamente, as duas torres caiem para os lados, a velocidade aumenta, o rasto de fumo organiza-se...

- O nosso passarão aí vai, é lindo, o espetáculo é majestoso - grita o coordenador principal do projecto, tirando os óculos escuros que o protegem.

51 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - O Rapto

 

51

Os tempos estão difíceis no planeta Corpo, a descoberta de verdades há muito escondidas aparecem agora fora dos contextos e levam os povos para o lado escuro do Universo. Deus, o Ser dos mil mundos, tenta reorganizar-Se, após a Sua crise, deixando por todos os lados os Seus símbolos eternos, mostrando ao Cosmos amedrontado a Sua complexidade aterradora. Mas os negociantes de almas são tantos, e tão poderosos, que O obrigaram a dividir-se novamente, para assim poder combater em todas as frentes. O Tempo parou, já não tem data, e o Universo deixou de se expandir, preparando-se agora para o retorno, para o seu Juízo Final.

- Tem de ser morto, o animal põe em perigo a segurança nacional.

- O Cordeiro de Deus, o senhor quer matar um dos símbolos sagrados?! - Pergunta o agente cardíaco Miguel Pheidão ao seu chefe.

- O Conselho de Estado consultou as autoridades tricúspicas e estas ficaram aterradas com a ideia de deixarmos o cordeiro verde a pastar calmamente à porta da Écloga. Ele é um perigo para a segurança nacional.

- Não nos devíamos envolver em assuntos tão sensíveis, ninguém sabe qual serão as consequências deste ato.

- Neste momento é a sobrevivência do nosso país que está em causa, os problemas metafísicos só servem para adormecer e controlar o povo. O senhor agente Miguel Pheidão cumpriu exemplarmente a sua missão, o rei foi, mais uma vez, fielmente obedecido, merece umas belas férias. A próxima missão será executada pelo seu colega Rato-Ginja.

Livre, Miguel Pheidão está finalmente livre da missão, pode viajar para onde quiser, decidir o que lhe apetecer. Contém-se, e muito bem, em referir as informações acerca dos Olhos. A partir de agora tem quatro meses para investigar por sua conta e risco. A fidelidade ao rei começa a abrir frinchas!

- Agente Rato-Ginja pode apresentar-se ao Conselho de Estado, – informa uma voz feminina, saída de uma boca com os dentes em xadrez.

Os dois elementos da polícia secreta cardíaca cruzam-se e desejam boa-sorte um ao outro.

O céu está limpo e muito azul, a temperatura amena convida a população a ir banhar-se ao lago Azul, enquanto que a grande cordilheira transborda de neve. Miguel Pheidão sai do quartel, enche gulosamente os pulmões de ar e dirige-se apressadamente para a Écloga.

- A sua primeira missão é raptar o Cordeiro de Deus e trazê-lo para as nossas instalações o mais discretamente possível, – ordena secamente o Procurador do Estado Cardíaco ao novo agente. - A ação tem de ser executada ainda hoje.

Um sino estridente ecoa pela Écloga e interrompe a sesta do padre Narciso. É o agente Miguel Pheidão a informá-lo de que o cordeiro de Deus corre perigo de vida, e a prontificar-se a levá-los para um lugar seguro.

- Traga o carro para aqui que eu vou buscar o animal – diz, em pânico, o religioso, iniciando uma surpreendente corrida pelo vasto relvado.

Mas depressa descai para um passo ofegante, causado pelos quilos dignos de um verdadeiro padre, investindo desesperado por um caminho profundo. Não há sinais do Pastor-Dáfnis, nem das suas “meninas”, como lhes costuma chamar. Num último salto de felino sobe para o telhado da casa muito rústica, pendura-se no badalo ferrugento que está junto a uma das chaminés e lança a proeminente barriga para o vazio. Vai à frente, vem atrás, mas nada, nem um esforçado pio sai daquele pêndulo descomunal. E para dificultar ainda mais a missão, um velho parafuso resolve abandonar o convívio secular de uma rosca, deixando pendurado o chefe da Écloga.

Rato-Ginja entra no carro, dá a volta à chave da ignição e o motor começa a roncar.

- Ir raptar um cordeiro verde, estes tipos estão completamente doidos, vêem perigos em todos os lados.

Atira para o banco de trás os documentos confidenciais e arranca lentamente, parando cinco quilómetros à frente no café “ O Cardíaco “. Abre a porta, acende um cigarro e dirige-se ao balcão, onde pede um café forte.

- Maldito animal, vou sujar o carro todo! Só peço a Deus que fujas, já estou farto desta mania dos senhores do governo de estarem sempre a verem ameaças em todo o lado. Agora já só faltava isto, um cordeiro, e ainda por cima verde, passou a ser uma ameaça para o estado! Qualquer dia nasce um elefante amarelo e também o tenho de ir prender. Senhor Victor traga-me um penalty bem forte, o meu dia começou mal.

- Qual é o seu problema Sr. Rato-Ginja?

- Tenho de ir prender um cordeiro verde.

- Um cordeiro verde? Mas a polícia não tem mais nada para fazer?

- Sei lá, estes tipos que nos governam estão cada vez mais malucos.

Algures não muito longe dali, um carro vermelho lança-se a alta velocidade pelo jardim da organização ambientalista, deixando dois sulcos profundos no relvado.

- Onde é que se terá metido o raio do padre, – resmunga o agente Miguel Pheidão, dando uma valente palmada no volante, ao mesmo tempo que descobre, ao longe, um vulto barrigudo a balançar ao sabor da brisa de verão.

- Tire-me daqui – grita o padre ao ver o polícia a sair apressadamente do carro.

- Então senhor Padre, onde é que está o cordeiro?

- Ainda não o vi, o Pastor-Dáfnis hoje resolveu ir pastá-lo para outro sítio.

Dois aviões da Força Aérea Cardíaca cortam o ar e quase provocam o despiste do agente que vai deter para averiguações o cordeiro de Deus. O barulho ensurdecedor dos aparelhos assusta o padre Narciso e este larga o badalo, caindo desamparado sobre o amigo que lhe segura a batina. Por uns instantes o silêncio toma conta da situação, até que um coro de badalos desperta os dois indivíduos.

- Desculpem meus senhores, não lhes queria estragar a festa, – interrompe o Pastor-Dáfnis, puxando a última fumaça do esganiçado cachimbo. - Penso que este não é o local indicado para cena dessas.

- Deixe-se de piadas, – resmunga o padre, levantando-se da cabeça do agente cardíaco Miguel Pheidão.

- Por onde é que tem andado, estamos aflitos à sua procura, queremos levar o cordeiro.

- Qual deles? - Pergunta o velhote, apontando para o rebanho verde.

- Verdes, estão todos verdes?!

- Estão assim desde hoje de manhã, quando os fui buscar ao curral.

A discussão é interrompida pela chegada de um carro a alta velocidade.

- Pheidão, o que é que estás aqui a fazer?

- Ginja? Pergunto-te o mesmo.

- Venho buscar o cordeiro, são ordens do chefe.

Do alto, bem do alto, um anjo observa, sentado em cima de uma nuvem volumosa, a discussão inflamada entre os três vultos, ao mesmo tempo que uma multidão de ovelhas verdes em êxtase, corre pelo extenso jardim, numa apoteose mítica digna de registo.

- As minhas meninas são de um virtuosismo avassalador, estão a sentir o mundo e a sentirem-se a si mesmas, – explica o Pastor-Dáfnis, assistindo com orgulho à estranha dança do rebanho, enquanto que uma lágrima marota escorre pela sua face de primata. - Elas são de uma sensibilidade profunda.

- Não há dúvida, Deus escreve sempre certo, mas com linhas muito tortas – diz o padre Narciso, levantando os braços para o ar.

- São os ventos da História, – profetiza o agente Miguel Pheidão, ajoelhando-se.

- Estas ovelhas demonstram uma sabedoria e um requinte milenares, digna de uma civilização com letra grande, – grita Rato-Ginja, com os braços abertos para o Céu, como que agradecendo a Deus o milagre.

De repente um raio corta o céu e de imediato os animais formam um círculo em redor de um dos pilares do imponente aqueduto que abastece a Crossa da Aorta. Devido ao aumento da velocidade, a força centrífuga começa a fazer-se sentir, saindo do rancho folclórico um cordeiro em voo rasante, que entra com estrondo na mala traseira do polícia cardíaco Rato-Ginja.

- Pronto, a minha missão está a chegar ao fim, – informa com um ar triunfante o agente da autoridade. - Eles querem um cordeiro verde, pois aqui está um.

- Terminaram, as minhas meninas acabaram a dança.

O carro de Rato-Ginja já vai longe, quando se dá um novo fenómeno, o rebanho do Pastor-Dáfnis recupera a cor antiga, destacando-se no centro o cordeiro especial.

- Graças a Deus o animal sagrado está salvo – proclama com satisfação o padre Narciso, abraçando-o e beijando-o. - Vou fugir com ele.

O anjo abre as asas e levanta voo em direcção ao Sol, que já dá sinais de cansaço.

50 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - O Cordeiro de Deus

 

50

Écloga, a última esperança para o milhão e meio de espécies que coabitam com o Memoh, é uma organização ambientalista conhecida internacionalmente, temida pelos políticos e odiada pelos cientistas. Pretende a Igualdade, a Paz e a Justiça entre todos os seres vivos. Consideram os investigadores uma nova geração de torturadores, que só servem para sorverem os dinheiros públicos e para se deliciarem com a dor dos outros. O símbolo que decora a porta principal da Écloga é bem sugestivo: uma multidão de espécies a puxarem por uma corda que enforca um cientista, tendo escrito por debaixo da cena uma frase – “ Animais de todo o Corpo, uni-vos “. Há já cinco anos que a polícia monárquica tenta desvendar a origem de uma série de atentados bombistas contra laboratórios farmacêuticos e cosméticos, mas até agora não conseguiu obter qualquer tipo de informações. Nos meios científicos reina o pânico, chegando os jornais a afirmar que os cientistas andam mais escoltados do que o próprio rei. Sabe-se que há uma grande cumplicidade da maioria da população para com a Écloga. Os investigadores são mal vistos pelo povo, que os acusa de prepotência e arrogância, de não olharem a meios para atingirem os fins, e de as suas abomináveis ações serem sempre protegidas pelos políticos. Quando os órgãos de informação denunciaram terem sido feitas experiências em crianças com materiais radioativos, o governo interveio e em nome da segurança do estado proibiu que se falasse do assunto. Como resposta, um atentado de grandes dimensões abalou a capital do reino, Diástole, destruindo por completo os laboratórios militares, ao mesmo tempo que eram abatidos em vários pontos do país as pessoas que tinham estado diretamente ligadas ao projeto “ Coração Resguardado “. Os ataques foram reivindicados por um grupo terrorista desconhecido chamado “ Pus “, e a Écloga demarcou-se das ações, mas ninguém acreditou. O rei sabia que era tarde demais para dissolver a organização ambientalista, sem pôr em risco a segurança do país. Mais uma vez o projeto de criação de partidos políticos foi adiado, pois todos receavam que caso avançassem, a Écloga conquistaria o poder, levando ao fim do Estado monárquico e da cidade Tricúspica.

- Um dia os habitantes do Corpo hão-de compreender que Deus nos deu riquezas para serem divididas por todos nós, mas que um punhado de miseráveis se apoderou dessas dádivas e declarou possuir um cosmos privativo, – disse o presidente da Écloga a Helias II, durante as cerimónias fúnebres do seu antecessor, que só reinou um mês, mas fez estremecer os dois regimes.

Helias I, o “ monarca sorridente “, chegou ao poder da cidade sagrada Tricúspica depois de um longo reinado obscurantista. As suas primeiras palavras fizeram despertar os povos da letargia em que se encontravam:

- O Memoh vai ter de se reencontrar com os seus irmãos das outras espécies que com ele dividem o Corpo, a maior oferta de Deus. Só assim o Céu nos aceitará de volta, e haverá ordem, paz e harmonia entre todos.

O que é que quereria dizer com “ reencontro “? Que implicações teria para a milenária cidade Tricúspica e para os seus eternos segredos? Ninguém esperou pelas respostas, a decisão foi prontamente tomada pelos políticos do Coração e pelos cúmplices tricuspianos. Na noite do seu trigésimo dia de reinado deram-lhe um chá envenenado!

O tempo está ameno na majestosa Crossa da Aorta. O agente cardíaco Miguel Pheidão acaba de chegar de mais uma fantástica viagem, indo agora assistir ao colóquio na Écloga intitulado “ Para um novo Memoh “, da responsabilidade do padre Narciso. Detém-se junto da frondosa porta e observa, talvez pela primeira vez, o símbolo. No relvado que circunda o edifício, um rebanho de ovelhas pasta calmamente ao sabor da brisa que acaricia a planície.

- É o Pastor-Dáfnis, – explica o porteiro, depois de se ter apercebido do olhar curioso do forasteiro.

- Pastor-Dáfnis?

- É nome próprio e profissão, pasta qualquer tipo de rebanhos, mas agora foi-lhe confiada a missão mais importante, guardar o Cordeiro de Deus.

- O Cordeiro de Deus!??

- Está a ver aquele pequerrucho verde cheio de lã?

Não há dúvida, o cordeiro verde destaca-se perfeitamente no meio das centenas de animais brancos.

- Mas como é que sabem que é o Cordeiro de Deus? - Pergunta intrigado Miguel Pheidão, tirando dum dos bolsos da camisa um bloco de apontamentos e carregando a caneta.

- O Pastor-Dáfnis contou-nos ter encontrado Deus quando estava no monte a pastar bebés, e Este lhe pediu para guardar o cordeiro por uns tempos. O senhor padre soube do acontecimento e prontificou-se a ajudá-lo, dando-lhe autorização para utilizar o relvado como pastagem.

- É politicamente importante a Écloga ser a responsável pela guarda e proteção de um símbolo tão importante de Deus, – diz alguém, interferindo no diálogo.

- Padre Narciso – informa o porteiro.

- Pode ir senhor Virgílio-Porteiro, eu fico com o senhor...

- Miguel Pheidão!

- Miguel Pheidão, o agente cardíaco que veio encontrar-se comigo.

- Cancro, o senhor padre Narciso é o representante do Cancro!?? O seu nome não me é estranho.

- O vosso serviço deve ter os nomes de quase toda a população do Coração.

- Não, não é dos ficheiros, nós já nos vimos em algum lugar!

- O meu nome e a minha alma já estiveram em muitos tempos e lugares. Sou como aquele milenário cordeiro, um cidadão do Universo que procura a Paz, a Justiça e a Igualdade entre todos os seres, porque só assim é que poderemos ter esperança na continuidade de Deus...

- A sua Paz e Justiça são um pouco estranhas, – interrompe o agente cardíaco sem tirar os olhos do Cordeiro de Deus.

- São palavras puras, feitas de atos impuros, mas é assim que Deus pensa. Veja, deixou o Seu bem mais cobiçado, o cordeiro verde, ao Pastor-Dáfnis, um bruxo heterossexual que ama os horrores da guerra, em vez de o guardar na cidade sagrada Tricúspica.

- Mas esse cordeiro é verdadeiro?

- É talvez a única verdade em que eu acredito!

- Então isto é um assunto do estado cardíaco, o governo e o rei devem saber, devem ser eles a proteger o animal.

- O seu rei já há muito tempo que deve saber e os tricúspianos também, mas são suficientemente espertos para não interferirem nos desígnios de Deus. Deixe o Pastor -Dáfnis ganhar o dinheiro extra, que ele bem precisa para poder alimentar os seus grandes vícios.

Por momentos o silêncio cobre os dois memoh que olham fascinados para o cordeiro de Deus.

- Numa coisa somos parecidos, estamos ambos maravilhados com o animal, – diz o padre Narciso, puxando o agente por um braço. - Vamos sentar-nos naquele banco para continuarmos a falar dos nossos assuntos.

- Quais são os interesses, a curto prazo, do Cancro? - Pergunta de imediato o agente cardíaco, sem tirar os olhos do animal verde.

- A República do Estômago!

- A República do Estômago?! Meu Deus, o Juízo Final aproxima-se. Vocês querem a República do Estômago? - Miguel Pheidão levanta-se, dá duas voltas no relvado e vira-se novamente para o padre Narciso. – Vocês sabem o que estão a pedir? É impossível, assim não vamos conseguir chegar a algum acordo.

- Calma, não tire conclusões precipitadas, o assunto não é assim tão grave. Sabia que o Coração descobriu outros Corpos?

- Outros Corpos?

- Mais precisamente dois Corpos, o Coração descobriu dois planetas iguais ao nosso, o Observatório Cerebral, os Olhos, fez essa descoberta. E estão perto, há momentos em que se tocam! A vossa tecnologia permite-vos ir até eles.

- É impossível, se isso fosse verdade já me tinham dito. Está a querer-me baralhar, são esses os métodos que vocês usam para desestabilizar os povos.

- Antes fosse isso! Mas desta vez o assunto é mais grave, o estado cardíaco está a esconder informações que pertencem a todos. Há vida extra corporal!

- Como é que vocês descobriram essa informação?

- O Cancro sabe muitas coisas e está com capacidade para começar a divulgá-las. É capaz de imaginar o efeito que irão causar?

- É a destruição de todos, a integridade do Corpo ficará posta em causa, nenhum de nós ganhará com isso. A República do Estômago, vocês querem-na desestabilizar?

- Imagine se os povos descobrirem que a cidade Tricúspica é a maior fraude, que o deus deles está embalsamado.

- Deus embalsamado?!

- As respostas estão todas nos Olhos e nós queremos partilhá-las. Há quanto tempo é que o Coração sabe da existência desses Corpos? Informe-se e entre depois em contacto connosco.

A conversa acaba e os dois lançam um último olhar ao cordeiro de Deus. O agente cardíaco Miguel Pheidão permanece sentado, observando o padre Narciso, que se embrenha lentamente nas entranhas da Écloga, sem deixar de enviar um último adeus ao seu adversário.

Outros Corpos? Se existem mais planetas com as características deste, então também haverá vida, outras ideias, talvez melhores ideias, mas porquê esconder? Deus disse, ou melhor, disseram que Ele disse, ao Memoh, para partilhar e não para esconder, porquê, porquê todos estes enigmas, porquê não informar a espécie desta novidade que talvez ainda a possa salvar da destruição?

sábado, 2 de maio de 2026

49 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - A Aldeia Mais Alta

 


49

A noite chegou calmamente e o dia tornou-se artificial. O tempo está ameno e a população da aldeia Mais Alta juntou-se na rua aos inúmeros peregrinos. A Catedral do Céu está com as luzes acesas, roubando às trevas parte da região. Miguel Pheidão janta pensativamente numa das centenas de esplanadas, tendo como companhia uma montra atestada de santos multicolores.

- Conheça a vida íntima do Santo Octávio, – grita um homem de meia-idade, furando a multidão que desliza em sentido contrário.

Por momentos o agente monárquico fixa a cara do vendedor, mas depressa retorna à leitura do jornal. Fica a saber que há graves problemas na República do Baço, o poder caiu na rua, o governo e o presidente fugiram para a Federação dos Rins e as forças armadas dividiram-se. Aliá, a grande capital, está a ser saqueada e nenhum país quer intervir. Pensa-se que o Cancro está por detrás da agitação e que ajuda o grupo de libertação Pus. A população foge em debandada, mas todas as fronteiras estão bloqueadas.

- Conheça a vida íntima do Santo Octávio, – grita de novo o vendedor, vindo agora ao sabor da corrente.

Aproxima-se do restaurante e pergunta ao agente Pheidão:

- Caro senhor, o que pensa do santo desta terra?

- Li muito pouco acerca dele, mas parece ser um bom negócio para a aldeia.

- O senhor vem aqui por causa do santo?

- Não, vim por outras razões, mas estou a começar a gostar do ambiente. Nestas festas religiosas há sempre muita boa comida. Quanto custa?

- Tome, não precisa de pagar, – e entrega-lhe um exemplar, embrenhando-se de seguida na multidão.

Do outro lado da avenida um estranho casal delicia-se com apetitosas carícias. Ela está sentada, tem os braços levantados, abanando-os freneticamente, a boca aberta lança para o ar ruídos semiescos, ao mesmo tempo que revira ininterruptamente os olhos. A roupa curta põe à mostra uma pelagem abundante, que parece cobrir todo o corpo. O macho observa com carinho a expressão corporal da amada, toca-lhe na cabeça e esta tenta agarrá-lo de imediato. Consegue fazê-lo e este deita-se no banco com a barriga para cima, descansando a cabeça no seu colo. De imediato a namorada põe-lhe as mãos na cara e tenta agarrar-lhe os olhos, que são fechados com rapidez. Os dedos da rapariga dão de caras com os orifícios do longo apêndice nasal e embrenham-se sofregamente por ele acima. Os lábios do macho afastam-se de imediato e os olhos abrem-se, em sinal de prazer profundo. Logo de seguida uma das mãos descai levemente e penetra com ganância na boca do namorado, tentando pescar-lhe a língua. Dá-se início a um jogo frenético, em que uma mão feminina tenta agarrar uma língua masculina em fuga, acompanhada com gritos de paixão alucinantes, num tempo que é só deles e num espaço do tamanho de um banco de jardim, fazendo coro com centenas de pardais, que esvoaçam por cima das cabeças, e que ocupam sem cerimónia todo o ar das esplanadas. A relação acaba abruptamente, com o rapaz a lançar-se para o chão em êxtase total.

- Coitados dos pobres de espírito, pois deles também não será o reino dos céus, – grita alguém em cima de um chafariz, convidando a população para um debate.

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua! - Exclama Miguel Pheidão.

- Conheça a vida íntima do Santo Octávio.

- Tens fotografias do santo em cuecas? - Pergunta o mais famoso motorista, sendo acompanhado com gritos estridentes.

- O teu sarcasmo é sinal de que nada esperas do futuro, és prisioneiro num mundo que está constantemente a desaparecer e até o teu passado se altera com os dias, – responde- lhe o vendedor, apontando um punho ameaçador.

- Prefiro viver alegremente o presente e não prescindo das minhas origens primitivas, pois isso é sinal de que também faço parte da terra. E tu, ó mercador de almas, tens medo de quê? Eu sei que do futuro tudo temes, é por isso que tentas agradar aos céus, para ver se te arranjam um lugar. Tens medo do pó e queres esquecer-te que foi de lá que vieste.

- Tu estás condenado a ter o mesmo futuro que eu, é esse o teu pesadelo, a tua alma estremece ao ouvir que os santos também usam cuecas. O senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua também poderá vir a ser um santo, e é esse o teu medo, tens pavor que eu daqui a uns anos também venda revistas acerca da tua vida íntima.

- Cala-te, não digas blasfémias terroristas, tu queres é acelerar o nosso destino, para poderes ir mais depressa para junto dos teus santos eunucos.

- Eunucos!?? Fica sabendo que os santos são os seres mais férteis do Universo, são os únicos capazes de se cruzarem com as outras espécies.

- Então o Santo Octávio tem filhos escaravelhos? - Pergunta com escárnio o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua (como exige ser chamado!).

- A essa curiosidade não te satisfaço, tens de me comprar um livro para saberes.

- Malditos judeus, até aqui neste recanto escondido do Universo vocês existem. Este é que é o maior castigo de Deus!... Convenceste-me, quero um desses livros – diz o mais célebre motorista orador, descendo do púlpito e agarrando sofregamente “ A vida íntima do Santo Octávio “.

- Eu também quero uma - pede Miguel Pheidão aproximando-se do vendedor e tocando-lhe num ombro.

- Até que enfim que se decide a falar comigo, vim à aldeia Mais-Alta para trocarmos impressões acerca do futuro do Corpo.

- Cancro? O senhor é o representante?

- Em carne e osso, mas já com a alma um pouco distante, – diz, puxando o agente cardíaco para a esplanada.

- Então passou várias vezes por mim e não me disse nada!!?

- A abordagem tinha de ser feita por si, tinha de haver algo que nos aproximasse.

- Por mim? Mas eu nunca o tinha visto, como é que podia ir ter consigo?

- Vai descobrir muitas mais afinidades no Cancro do que as que pensa que tem pelo Coração! As almas conhecem-se em todos os sítios, os empecilhos são os nossos corpos.

- É esse o vosso lema, matar os corpos para libertar as almas?

- Mais ou menos, mas não podemos esquecer que para o trabalho ser perfeito o Tempo tem de ser ignorado.

- Mas porquê destruir tudo, aniquilar, vocês matam mulheres, crianças e velhos, muitos deles indefesos. Isso é cobardia – reclama o agente cardíaco Miguel Pheidão, agarrando com força nas mãos do seu interlocutor.

- As sociedades atingiram um estádio sem retorno, a nossa espécie está em declínio, daqui a dois séculos estaremos irremediavelmente perdidos. Essas crianças, esses velhos e essas mulheres indefesas que mencionaste não passam de farrapos sem qualidade de vida, que unicamente servem para os vossos políticos verterem lágrimas de crocodilo e depois os arrumarem em depósitos. A morte é a sua libertação, e o desejo de Deus, poupamos-lhes o sofrimento e poupamos o dinheiro do Estado.

- Vocês querem fazer o Memoh retroceder às suas origens primitivas, em que os mais fracos são aniquilados.

- A espécie que tentar sobrepor-se às leis de Deus e do Seu Universo, estará irremediavelmente perdida. Nós somos a reserva estratégica do Memoh, connosco ele sobreviverá e conservará o seu lugar no Corpo.

- O vosso trabalho na Federação dos Membros Inferiores está à vista, as áreas que vocês declararam terem “libertado”, vivem agora num estado de terror, as populações são violentadas e aniquiladas.

- Ainda não te apercebeste que os teus chefes manipulam constantemente a informação e só deixam passar aquilo que querem. Isso é que é violação!

- Mas os factos são visíveis, vocês assassinaram milhares de indivíduos.

- O que é que tu preconizas quando os teus porcos ficam doentes devido a uma doença contagiosa? - Pergunta o representante do Cancro, interrompendo o agente cardíaco Miguel Pheidão.

- Os meus porcos? Mas eu não tenho porcos.

- Não interessa, é só uma ideia, não tens tu, mas tem o teu vizinho. O que é que preconizas para erradicar a doença?

- O abate, é o que se faz para parar a doença!

- É isso o que nós fazemos, o Memoh é o responsável pela transmissão de doenças gravíssimas, e se essa lei se estender a ele, em pouco tempo resolver-se-ão a maior parte dos problemas. Com estas medidas conseguimos erradicar a Adis dos territórios que conquistámos.

- E os intelectuais, vocês mataram-nos todos!

- São os seres mais nocivos, os intelectuais sempre se consideraram acima do povo, fizeram as leis à sua medida e perpetuaram-se no poder. As suas verdades são as piores mentiras, já conduziram os povos às mais infâmes barbaridades, por isso a sua recuperação não é viável, devem ser banidos. O nosso povo irá regressar à harmonia com a Natureza e com Deus.

- E as famílias, vocês preconizam a destruição da família, – diz Miguel Pheidão já um pouco exaltado.

- O teu regime manipulou-te a verdade, essa informação não é correta. A família está agora ao nível da tribo para não haver influências nocivas nos membros mais novos, para assim se evitar o aparecimento de indivíduos inúteis à sociedade. Nas vossas cidades existem milhares de famílias em que os pais, os responsáveis pela formação dos filhos, não passam de bêbados, drogados, autênticos selvagens que nem o instinto paternal, comum a todas as outras espécies, possuem, e não fazem mais do que os formarem à sua imagem. E o que é que vocês lhes fazem? Nada, refugiando-se nos direitos deles dão-lhes tudo e não lhes exigem nada. Por detrás dessas ideias quem é que está? O reles intelectual e o corrupto político, – explica o representante do Cancro, mostrando toda a sua convicção no tom das palavras.

- Pode haver muitas verdades em tudo o que dizes, mas no meio desse turbilhão de ideias de certeza que morreram e morrerão muitos inocentes.

- A salvação do Memoh implica sacrifícios, assim como as vossas revoluções destruíram povos e impérios. Até Deus cometeu genocídios em nome das Suas verdades!

- Apesar de tudo o nosso sistema continua a ser o melhor, atingimos níveis superiores de desenvolvimento.

- O nosso encontro não é para expor ideias, mas para falar de política. Que preocupação tem o poderoso Coração para mandar um agente encontrar-se com um representante dos terroristas das terras baixas?

- Espaço vital, interesses...

- Interesses, sempre os interesses a sobreporem-se às ideias. Afinal o Cancro já está a perturbar o Coração e nós a pensarmos que a Federação dos Membros Inferiores era dispensável.

- Se os vossos objetivos se limitassem a essas regiões e não extravasassem as fronteiras, nós não interferíamos. Mas foram detetados e aniquilados grupos terroristas no Império do Cérebro, – o agente cardíaco tira duma pasta uma fotografia e coloca-a em cima da mesa. - Conhece?

O interlocutor vira-a para si e lê em voz alta uma inscrição na parede fotografada:

- “ Tudo é pecado, sofrimento e morte – Racionalismo para todos – EU “

- Conhece esta frase e quem é o “ EU “?

- Ambos conhecemos o grupo de libertação que atua na Federação do Córtex Occipital. Essa frase foi escrita numa parede da cidade imperial Lóxis. O Coração estranhamente interveio com os grupos de elite, os Antibióticos.

- Foi o governo imperial que nos pediu!

- Governo!?? Nós sabemos que o Império do Cérebro não tem rei, nem governo, são vocês que o dirigem, aliás, vocês comandam quase todo o Corpo. Só a Monarquia Renal e a República dos Pulmões é que vos fazem sombra.

- Estou a ver que estão bem informados – diz com admiração o agente Miguel Pheidão, ao mesmo tempo que faz sinal ao empregado para lhe trazer uma cerveja.

- Sabemos tudo a vosso respeito, é por isso que vamos impor condições.

- Condições!??

- Queremos atuar para além da Federação dos Membros Inferiores, – responde com convicção o representante do Cancro.

- Vou transmitir essas informações aos meus superiores.

- O nosso próximo encontro será daqui a uma semana no Organon, até lá continuamos!

Levantam-se em simultâneo, trocam um seco cumprimento e desaparecem na multidão.

Durante toda a viagem de regresso, acompanhada de pequenas pausas para as habituais reflexões do motorista Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, o agente Miguel Pheidão fez uma retrospetiva da sua missão. O Cancro parecia estar muito bem informado acerca das operações especiais do seu departamento, aliás o representante devia saber muito mais. Irá revelar-lhe coisas que nem ele, um fiel servo de sua majestade D. Sístole II, sabe? E que consequências terão essas verdades na sua futura conduta? Estremece, estremece de terror, será o fim da sua fidelidade? Terá o governo cardíaco manipulado a informação?

 

48 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - O Mais Célebre Motorista do Universo

 


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“Se ninguém me pergunta onde está Lilith, eu sei. Se me perguntam querendo que eu explique, não sei.”

 

Demónio do Meio-Dia

 

 

O mais célebre motorista do Universo

 

O Sol já há muito se levantou e ilumina agora, com orgulho, a cidade Nódulo, o centro mundial monetário. Aqui se fabrica a mais forte moeda do planeta Corpo, a coronária. Os altos edifícios alinham-se com precisão ao longo da vasta avenida Helias I. A Companhia de Transportes de Glóbulos Brancos mostra, vaidosa, o seu emblema, que ocupa toda a frontaria do edifício. Miguel caminha a passos largos para a paragem das camionetas.

Esta talvez seja a sua mais importante missão, pois à partida parece estar tudo perdido. Ontem recebera um fax do Ministério das Relações Exteriores, informando-o de que tinham conseguido estabelecer contacto com um dos representantes do grupo de terrorismo Cancro. Com a carta veio uma ordem de partida e as instruções. Vai somente recolher informações e nada mais. O Cancro é constituído por um grupo de guerrilheiros das terras baixas, muito ativos na Perna Direita, controlando dois terços do país. Pretendem derrubar o governo, destruir o Estado, para depois erguerem uma nova sociedade. Para eles as cidades de nada servem, unicamente tornam o Memoh num alienado e inútil. O único serviço que os indivíduos devem prestar à sociedade é cultivarem a terra. A família é também outro dos malefícios. As crianças devem ser separadas das mães desde muito cedo e entregues aos cuidados do Estado. Bastarão cinco gerações para a revolução triunfar e se eternizar.

- Fanáticos, não passam de alienados, – diz Miguel em voz baixa, entrando no autocarro que indica “ Crossa da Aorta “ como destino.

Senta-se na última fila de cadeiras, pendura o blusão verde e abre a pasta que lhe foi dada pelo senhor de cabelo branco, que se encontra sentado junto ao motorista. Retira uma carta com mais informações acerca da missão e fica unicamente a saber que na Crossa da Aorta deve apanhar outra carreira para “ Mais Alta “. Esta aldeia está ligada à lenda de Octávio, o detentor da verdade. Segundo contam, este santo teve um contacto com alguém de outro mundo quando tinha sete anos de idade, e se encontrava a pastar as ovelhas do seu avô. A inesperada e assustadora visita disse à inocente criança que lhe iria contar a verdade acerca do futuro do Corpo, tendo ele depois como missão divulgá-la. Octávio ouviu com muita atenção e no fim do dia contou a aventura ao avô, que a transmitiu à noite na taberna, sob o efeito dos vapores de álcool. Como era de esperar ninguém acreditou! Mas como os céus não brincam em serviço, o dia sobrepôs-se repentinamente à noite, confirmando assim a mensagem da criança e deixando o povo em pânico. A notícia depressa se espalhou e Octávio e a aldeia Mais Alta tornaram-se nos símbolos sagrados do país, responsáveis por milhões de peregrinos, que tornaram os pacatos aldeões em prósperos e gananciosos comerciantes, conseguindo assim influenciar o pensar de vários povos.

Um solavanco trá-lo à realidade, apercebendo-se de que tinham saído da cidade e começavam a subir para a Crossa da Aorta. Passam agora junto ao Real Colégio Militar e o agente secreto da monarquia cardíaca, Miguel Pheidão, recorda o passado. Aos dez anos entrou para aquela instituição, onde permaneceu durante seis anos. Aprendeu dois valores fundamentais: fidelidade e camaradagem. A fidelidade ao rei é e será sempre total, a missão para que foi incumbido será totalmente cumprida, e os seus camaradas nunca serão traídos. Mas o mais importante que aconteceu passou-se no segundo ano dos estudos. Até lá não dizia palavras obscenas por temor da justiça divina, até que um dia resolveu libertar-se da Sua tirania e gritou bem alto o vocabulário que estava guardado no fundo dos abismos da alma. E Deus não o castigou! Descobriu então que tudo era falso e só Deus é que conhecia Deus. Um novo solavanco chamou-o de novo à realidade. O autocarro acaba de parar no cume. Miguel Pheidão sai calmamente, espreguiça-se e observa o espectáculo. Em baixo, ocupando toda a vasta planície, estende-se a Crossa da Aorta, a “capital” do Corpo, a cidade de todas as raças e onde circulam todas as moedas. O movimento é frenético, os tempos são muitos, as pessoas ocupam todos os espaços e todas as direcções, e até os ventos se misturam com as ideias para formarem castelos de nuvens, que descansam suavemente nos telhados verdes das vivendas, que serpenteiam pelas encostas. Ao fundo, descendo suavemente por um trilho poeirento, uma camioneta centenária acorda toneladas de pó, que se precipitam desastrosamente para a colorida planície. Miguel Pheidão ainda tem tempo para se proteger atrás do sinal da paragem, pois uma das rodas vem adiantada em relação à máquina, que chega alguns minutos depois. A porta da frente abre-se com estrondo e com a ajuda das botifarras do condutor.

- Ó amigo, é esta a carreira para a aldeia Mais Alta?

- Amigo!!? O senhor conhece-me de algum lado para eu ser seu amigo? Trate-me por senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, senhor...

- Pheidão, Miguel Pheidão.   

- Miguel Pheidão!?? Que raio de nome, os seus pais de certeza que não gostavam de si, – diz o motorista rindo-se para trás, sendo acompanhado em coro pelos passageiros.

- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua?! O seu nome não me é estranho. Já o ouvi em algum lugar.

- Sou conhecido em todo o Universo. Até Deus já me pediu boleia quando quis ir buscar o filho a Leve! Mas entre rápido pois o tempo não está para retóricas, vamos mas é todos a sair porque está na altura da palestra, – ordena o motorista, bloqueando a entrada ao novo hospede e abrindo, ou melhor, deixando cair a porta de trás com estrondo, provocando a queda de uma velhota e da sua respectiva dentadura, que fica a reclamar em cima de uma bosta.

- Malditos anjos-selvagens, só sabem é conspurcar o Universo. Ai se eu fosse Deus! - Reclama o motorista mais célebre.

A multidão sai apressadamente e forma um pelotão em marcha forçada.

- Ponha-se na formatura, senhor Miguel...Miguel Pheidão (risos). Já sabem que para poderem viajar na deusa, – e aponta para o ferro-velho ambulante, – têm de ouvir as minhas sábias palavras de cinco em cinco quilómetros.

Um trovão, de mão dada com um ensurdecedor raio, rasga os céus e faz precipitar um dilúvio.

- Não liguem ao S. Pedro, ele gosta de brincar com o povo, mas o povo é sereno e já não é estúpido, e quem não se deixar enganar pela Natureza não se molha, – grita o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua elevando os braços, ao mesmo tempo que todos os elementos do pelotão abrem os seus coloridos guarda-chuvas. - Já vi que aprenderam as minhas lições, pois mais vale prevenir do que remediar. Senhora Otélia-Perna-Curta, aproxime-se de mim e proteja-me da chuva.

Por momentos, só o barulho da tempestade se faz ouvir.

- Os habitantes do Corpo já descobriram que os deuses estão dentro deles. A Lei morreu, a Democracia não existe, o Memoh é ditador por natureza e as suas leis só servem os poderosos. Declaro que a partir deste momento sou o mais livre dos seres do Corpo.E agora todos lá para dentro porque tempo é dinheiro.

O transporte colectivo arranca, após um barulho aterrador que sai do seu tubo de escape em forma de barbatana, e lança-se vertiginosamente por um dos montes acima. O Sol já se levantou há muito tempo e parece estar agora a ficar cansado, pois está a deixar cair as sombras pela região. Algumas palestras depois chegam finalmente ao destino.

- Bem-vindos à aldeia Mais-Alta, ao sítio abençoado por Deus e negociado pelos negreiros das almas.