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- A tua vida está a ser empurrada para a morte, – disse Lilith com uma voz doce e suave.
O detetive não ficou indiferente à beleza e à presença balsâmica da mulher.
- Neste mundo imenso o romance de Deus sou eu, porque fui a única que recusei o caminho da santidade e mesmo assim consegui chamar a atenção do Profeta, do Inatingível, do Santo, do Puro, – e apontou para o seu amado, desviando-o de uma herança de profecias sinistras, desfazendo o mito do assexuado, alterando a imagem do solitário.
- A minha solidão é essencial para a missão a que me destinaram, – confessou Deus, deixando escapar um olhar apaixonado para a sua deusa.
- Deixa o “Livre Arbítrio” tomar conta de toda a gravidade do Mundo. Porque é que me temes? – Gritou Lilith aproximando-se de Deus.
O detetive apercebeu-se da recusa de Deus entre o desejo e o temor de um encontro real.
- Tens medo de uma relação física, – disse Lilith saindo vertiginosamente da sala, através de uma parede.
O detetive sentia a cumplicidade entre os dois, ancorada numa grande vontade de continuarem a surpreender-se um ao outro. Deus tinha criado seres do extermínio e povoado o céu de anjos vingadores que o faziam viver de desculpas e a sacudir responsabilidades.
- Tu tens o privilégio de saberes que és mortal, – disse Deus apontando para o detetive, mostrando que o amor era o seu verdadeiro rosto.
- Deus só faz mal quando prejudica a realidade, – exclamou uma mulher sofrida, vestida de negro, com uma silhueta atípica, que os veio chamar para a sala de jantar.
O detetive levantou-se e reparou que estava sozinho na sala. A um sinal da senhora acompanhou-a. Quando ia a atravessar a porta, Lilith reapareceu com a força suficiente para voltar a fazer o espaço tremer, sinal de que vinha com ideias fortes.
- Deus carrega todo o peso do Universo, que O faz torcer-se sobre si próprio, representando diante de nós uma comédia indecifrável.
Era evidente para o perspicaz detetive que a dissociação de Lilith e de Deus era difícil de fazer, havia uma contaminação recíproca dos dois. Seguiram por um corredor estreito e pararam num quarto que tinha a porta aberta. O rosto do filho de Deus, que a obscuridade do quarto escondia, revelou-se na claridade de uma luz e mostrou alguém de uma elegância esguia e serena, em sono profundo. Fora aquele que agora dormia que cobrira o Centro do Universo com palavras. Tudo dissera mas fora impotente perante o contradito e assim a tragédia tornara-se inevitável.
- Não podemos pedir a Deus, nem o absoluto, nem a salvação das almas, – disse a senhora alternando entre uma expressão de exaltação e uma expressão de melancolia.
- O tempo e as suas contradições dão sempre razão à razão, – exclamou o detetive. – Sabemos que o Pai não tem limites mas tem deveres.
- O Filho tornou-se num ser carismático devido à sua precisão, audácia, convicção, que mostrou ter nervos de aço e espírito prático. O corpo dele está agora vazio e necessita de ser enchido. Há quem chore a morte deste profundo humanista, – exclamou Lilith encostando-se ao convidado.
- Com lágrimas de crocodilo, – retorquiu o senhor Narciso dando sinais de impaciência.
- E lágrimas autênticas. Perder um filho aos trinta e três anos também foi duro para Deus. Ele representou o símbolo de um Universo conturbado, foi um equívoco trágico, vítima da pequenez de seres banais, que lançaram uma interrogação sobre o dogma da sua imparcialidade, acusando-o de usar e abusar da informação, - disse a senhora.
- A crucificação foi uma tragédia teatral, de uma violência extrema, pouco realista, que deixou os espetadores entre a melancolia e o desconsolo, - exclamou Lilith fechando a porta do quarto com violência. – Continuemos a caminhar neste território inóspito, onde existe um amor belo de ir às lágrimas, que mantém a humanidade presa por um fio.






