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Laputa era um
exoplaneta muito rochoso, gélico, escarpado, calcinado, com lagos, com vales
rasgados, escuro, molhado, que tinha dois oceanos e uma atmosfera muito
espessa, que lhe dava uma temperatura ambiente de vinte e cinco graus em toda a
superfície. O planeta produzia o seu próprio calor, era único. Só os anjos
sabiam o caminho até ao pico do Universo. Era um planeta feito de boas vontades
e bons sentimentos, forrado de uma felicidade possível, com habitantes que não
passavam de feixes de luz, quase abstrações.
- Mas disse que
era “gélico”?!
- É a inocência
paradisíaca, que só a alma alcança, porque o corpo é limitado.
De repente
apareceu em todo o seu esplendor um enorme corpo celeste.
- Parece um
cérebro! – Gritou o detetive.
- É o maior e o
mais fascinante mistério que desde sempre tem sido objeto de constante busca,
mas nunca completa resolução, o Cérebro, que está presente em todas as criaturas
do Universo. É o bilhete de identidade para ter acesso à Eternidade, – explicou
o Anjo Pipoca, olhando para a dor pesada e muda do seu passageiro. – Laputa
representa a Medida, aqui não há sonsos vendavais, a Eternidade completa-se
neste local. Chegámos na altura certa, Laputa tem um pôr-do-sol melodioso, que
é um vivificante para todos os seres vivos, onde o seu silêncio é possuído por
uma lentidão de eternidade.
- Pôr-do-sol?!
Mas eu não vejo nenhum sol?!
- Mas no entanto
ele existe! É a cidade espiritual das vossas almas, devidamente protegida pela
humanidade dos seus anjos, os ícones dos vossos desejos mais profundos e às vezes
inconfessáveis. Temos intempestivas decisões, a nossa arrogância é soberba a
ditar sentenças, somos mestres na arte do egoísmo, representamos os demónios da
ganância, o modo cósmico e global do sítio de onde viemos, a angústia da sua
posse faz-vos sentir irremediavelmente atraído por nós. É a nossa inocência que
te faz antever o Paraíso.
- Mas isso tudo
que disse é horrível. Laputa parece ser um lugar desprezível.
- Um pouco de
deboche ativa qualquer civilização. Laputa é um nicho de histórias
fantásticas, porque os anjos têm um papel privilegiado como guardadores de
sonhos, porque convivemos diariamente com demónios, e isso representa um hino à
amizade. O nome “anjo” é de um íntimo universal, nós detetamos sempre os
perigos e propomos sensatez. Nós temos uma sede de humanidade pelo divino!
Os Querubins
estavam em greve e Deus deixou de ter cocheiros. Estava retido no seu palácio
há já várias semanas. Esses pequenos anjos gordos, os únicos que conheciam os
limites do Universo, pois tinham no seu código genético a “Alegria do Mundo”,
eram adeptos fervorosos do “Criacionismo” e tinham extremado as posições. A
cidade onde se instalaram chamava-se Clematara e situava-se entre duas grandes
montanhas, sendo dividida ao meio por um lago, de cor azul celeste. As casas
serpenteavam, multicolores, pela encosta acima. Dali o Universo era controlado
por um tempo circular, guardião de ideias que faziam progredir a existência de
todos. Mas a harmonia possível entrara em crise. Deus não conseguira corrigir
as desigualdades de Leve, e Laputa queria imprimir a verdade e a vitalidade,
assim como fundir as duas correntes numa só, arrojada e inovadora. O
funcionário que um dia fora enviado ao Centro do Universo, revelara-se uma
entidade com muito mau feitio, impossível de aturar que, ao mais pequeno
pretexto, mostrara o poder e a fúria. O seu egocentrismo fora tão grande, que
ousou um dia substituir-se a Deus e juntara as ideias que ressuscitaram um
homem de nome Lázaro. E como os levenianos se tornaram criaturas de extremos,
crucificaram-no. Mas a resposta de Deus a Sodoma e Gomorra também não foi
proporcional, mostrou-se brutal e insensata.
- Deus não é
Omnipotente nem Omnipresente, tem princípio e tem fim, – exclamou o Anjo Pipoca,
apontando para um edifício num dos cumes, ao mesmo tempo que parava em frente a
uma estátua. – Aqui está Mefistófeles, que comeu da Árvore da Sabedoria e
derrotou o Príncipe Perfeito, um falso demónio. No fim de cada ciclo as
sociedades espalhadas pelo Universo são sempre julgadas pelas suas exceções e
os seus extremos. Chegou a vez de Leve.
- E onde está
Mefistófeles?! – Perguntou o detetive.
- Eis o anjo! –
Respondeu, tocando-lhe.
- Uma estátua,
isto é uma estátua?!
- Esquece o Mundo
Aparente e tem fé no Mundo Verdadeiro. Mefistófeles existe e é esta…estátua, –
disse o anjo, aproximando-se doutra imagem. – Vê Oríade, a divindade que
representa a força, ela é o ser vivo mais próximo de Deus, a segunda na
hierarquia do Universo.
Dois vultos pararam
junto a eles e olharam curiosos para o detetive. O mais alto tirou do bolso um
instrumento e fez medições à sua cabeça.
- É daquela
espécie que tem o cérebro curto, porque o hemisfério esquerdo é um tirano, e é
por isso que um simples segundo os faz, e um simples segundo os destrói, – e
afastou-se rindo às gargalhadas.
O olhar do
detective Narciso para um elefante que se encontrava aninhado num galho de uma
árvore, mostrava que ele estava perdido onde tudo era constituído por ideias,
que formavam células, nervos, músculos, ossos, pensamentos, memórias, e a morte
não passava de um desagregar dessas ideias, que se iriam encontrar algures
noutro lugar, com uma nova combinação. E tudo dentro de um Eterno Retorno de um
Tempo que era circular e dotado de uma seletividade controlada por Laputa. No
horizonte uma tempestade de raios e trovões riscou o céu e ruídos silenciosos
abanaram o ar.
- O Vácuo quer
Laputa! – Disse o Anjo Pipoca, contemplando o espetáculo de cores
desconhecidas. – Quando a ordem subverte a legalidade do Universo, só o caos
sabe repor o movimento verdadeiro.
- E agora magia,
magia para todos, – gritou um anão azul interpondo-se entre os dois. – Vejam
senhores, os maiores mágicos do Universo.
Duas explosões,
seguidas de colunas de fumo, assustaram o visitante da Terra, e levaram o seu
acompanhante a encolher os ombros.
- Eu sou Zoroem,
o Príncipe do Coração, – e fez aparecer um céu avermelhado.
- Eu sou
Arphaxat, o Rei dos Rins, – e mudou a cor.
- Malandro, –
gritou Zoroem, transformando-se num dragão e atirando-se com raiva sobre
Arphaxat.
- Calma, calma
meus senhores, – interveio o anão. – Temos uma visita.
- Tudo é magia, –
exclamou Arphaxat, levantando o braço esquerdo e mostrando a cabeça risonha e
ensanguentada do colega. – Tudo é espetáculo, o Universo é a cartola de Deus.
- E desapareceram!
- Deus fala por
ideias que se juntam momentaneamente, e a que vocês chamam “Aparições”. Na
balança política o Mal pesa muito mais do que o Bem, porque por cada Zoroem que
nasce para iluminar o Universo, temos que aguentar e sofrer umas dezenas de
Arphaxat. A banalidade do Mal em Leve é muito mais dramática que a raridade do
Bem.
Um bando de anjos
passou apressadamente, deixando uma brisa que lhes acariciou as faces.
- Parecem umas
libelinhas gigantes.
- São Serafins,
anjos muito rápidos, com seis asas, que guardam permanentemente o Palácio de
Deus, desde o nascimento até à morte, sem pararem.
Um sol começou a
espreitar no horizonte. A sua cor alaranjada salpicou a região, pintando as
montanhas com um tom escuro e misterioso. O lago cessou de se agitar e bramir.
Era estranho vê-lo convertido em cadáver, mudo e imóvel. De um momento para o
outro o bando de Serafins começou a surgir dos penhascos, indo juntar-se
compacto no Palácio de Deus, lá em cima, muito em cima. Um raio rasgou o ar e
despertou o lago, que se levantou com vagas enfurecidas, que começaram a bramir
em torno das margens, até se transformarem em dois castelos de nuvens cerradas,
que subiram pelas montanhas, até as taparem.
- Deus acordou!
Este lago é a Sua biblioteca, e só Ele sabe abri-lo. As suas águas são de
diferentes densidades, que se misturam para guardarem as fases desencontradas
da história do Universo. Ele sabe que o pior junta-se sempre ao melhor e por
isso nunca existiu um Jardim do Éden. O Mal e o Bem são dois poderes
impertinentes, que sempre estiveram no meio de nós e só não os viu quem não
quis.

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