domingo, 22 de março de 2026

16 - O Umbigo da Eva

 

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A passagem pela porta, com o nome técnico de “Banda 2 do Espectro”, era conhecida como “O Umbigo da Eva”, foi rápida e silenciosa. Apenas um túnel que guardava uma noite muito escura.

- A escuridão foi feita para purificar as almas, disse o Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua.

- Vem comigo?

- Estou a esconder-me do Papão.

- Mas afinal, quem é o Papão? – Perguntou o detective puxando as golas largas do motorista.

- Dies Irae, vem fazer um “Juízo Final”. O Universo precisa de uma manutenção contínua, renovar almas, recolher “ideias”. O Papão é um ambientalista fervoroso.

O detective espreitou por uma janela e viu, fascinado, o horizonte repleto de unicórnios brancos. Um dragão aproximou-se da porta e olhou curioso para o senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta que recuou assustado. O motorista contou que se escondia do Papão, pois se fosse revistado ele descobriria as suas “ideias” ilegais, que seriam confiscadas e a “vida deixaria de ter piada”, confessou.

- Detective, neste Universo imenso há seres de vários tempos, dotados de “genátomos”, “ideias” que têm ao mesmo tempo o passado, o presente e o futuro, e flutuam entre eles.

As lágrimas escorriam pela face do senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, que encostou a cabeça no colo do motorista Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua. Era a força do espírito a brotar do inconsciente em catadupas de emoções e temores, que iam muito para além da essência do ser.

- O que é que irá ser de mim? – Perguntou o detective angustiado.

- Chora, deixa esses vulcões expelirem o teu íntimo, sente a tua existência, a água que foge nas tuas lágrimas não se perde, voltará um dia numa nuvem anunciando a bonança, e tu estarás lá para recolhê-la. O teu temor é uma realidade, tudo se transforma em sobressaltos da alma, em direcção a um novo ser infinitamente maior e mais profundo, capaz de se modificar dia após dia, até atingir um plano afectivo e espiritual, que será comum a todas as espécies e se situará no centro da verdadeira realidade.

Lilith fora levada um dia pelo seu demónio, para além do “Tempo do Universo”, para fora do limite mais estranho do seu ser, pois tinha a força necessária para enfrentar tal tarefa de dedicação e amor, de alguém que um dia fora condenado à dor e ao sacrifício constante de toda uma vida e cujo único consolo foi saber que parte da sabedoria era cósmica. Mas Lilith era uma cruel deusa sedutora que arrastava, sem cessar, os amantes numa caçada eterna, para depois ficar inacessível por detrás de véus despedaçados na perseguição, até ao domínio do infinito. A relação entre os dois seres mais importantes do Universo era uma história apaixonada da alma.  

 


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