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A passagem pela
porta, com o nome técnico de “Banda 2 do Espectro”, era conhecida como “O
Umbigo da Eva”, foi rápida e silenciosa. Apenas um túnel que guardava uma noite
muito escura.
- A escuridão foi
feita para purificar as almas, disse o Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da
Lua.
- Vem comigo?
- Estou a
esconder-me do Papão.
- Mas afinal,
quem é o Papão? – Perguntou o detective puxando as golas largas do motorista.
- Dies Irae, vem
fazer um “Juízo Final”. O Universo precisa de uma manutenção contínua, renovar
almas, recolher “ideias”. O Papão é um ambientalista fervoroso.
O detective
espreitou por uma janela e viu, fascinado, o horizonte repleto de unicórnios
brancos. Um dragão aproximou-se da porta e olhou curioso para o senhor Narciso
Serapitola Figueiredo Baeta que recuou assustado. O motorista contou que se
escondia do Papão, pois se fosse revistado ele descobriria as suas “ideias”
ilegais, que seriam confiscadas e a “vida deixaria de ter piada”, confessou.
- Detective,
neste Universo imenso há seres de vários tempos, dotados de “genátomos”,
“ideias” que têm ao mesmo tempo o passado, o presente e o futuro, e flutuam
entre eles.
As lágrimas
escorriam pela face do senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, que encostou
a cabeça no colo do motorista Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua. Era
a força do espírito a brotar do inconsciente em catadupas de emoções e temores,
que iam muito para além da essência do ser.
- O que é que irá
ser de mim? – Perguntou o detective angustiado.
- Chora, deixa
esses vulcões expelirem o teu íntimo, sente a tua existência, a água que foge
nas tuas lágrimas não se perde, voltará um dia numa nuvem anunciando a bonança,
e tu estarás lá para recolhê-la. O teu temor é uma realidade, tudo se
transforma em sobressaltos da alma, em direcção a um novo ser infinitamente
maior e mais profundo, capaz de se modificar dia após dia, até atingir um plano
afectivo e espiritual, que será comum a todas as espécies e se situará no
centro da verdadeira realidade.
Lilith fora
levada um dia pelo seu demónio, para além do “Tempo do Universo”, para fora do
limite mais estranho do seu ser, pois tinha a força necessária para enfrentar
tal tarefa de dedicação e amor, de alguém que um dia fora condenado à dor e ao
sacrifício constante de toda uma vida e cujo único consolo foi saber que parte
da sabedoria era cósmica. Mas Lilith era uma cruel deusa sedutora que
arrastava, sem cessar, os amantes numa caçada eterna, para depois ficar
inacessível por detrás de véus despedaçados na perseguição, até ao domínio do
infinito. A relação entre os dois seres mais importantes do Universo era uma
história apaixonada da alma.

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