19
- Os meus sonhos evocam imagens de outras eras distantes, vejo olhares hostis, medonhos e perversos, ouço murmúrios, pareço ter um corpo sem corpo. Todos correm para um fim, incluindo eu, – disse Rita ao doutor Cinfuentes, balançando-se de um lado para o outro de forma suave, constante e uniforme. – Os meus pensamentos estão caóticos, são superabundantes e excessivos, são fantasmagóricos.
O médico conservava-se junto à sua paciente, observando-a. A expressão dela revelava uma ingenuidade imatura.
- Vejo seres famintos e errantes, – dizia, olhando através da janela para o horizonte.
Rita estava só e sentia-se recolhida em algo que não era seu. Quando não olhava para lá da janela inspecionava meticulosamente partes de si.
- Estou a desintegrar-me, – disse com paixão. – Sinto que vou partir, somos todos a mesma coisa.
O desconhecido parecia atrai-la, a aglutinação de obsessões incluía um ambicioso e imaturo desejo de passar pelo paraíso. A perturbação era indefinível e o sofrimento intolerável.
- Tenho uma noção clara da importância relativa das coisas.
Os olhos brilhavam na tensão das emoções deste jogo de conflito entre várias identidades.
- Rita, qual é o sentido de tudo isto para si?
- Estou confusa, as coisas confundem-me, perdi a noção da realidade. Parece que vivo um pesadelo.
- Um pesadelo ou um conto de fadas? – perguntou o médico aproximando-se e colocando-lhe carinhosamente a mão no ombro.
- Se fosse um conto de fadas a minha vida estaria muito melhor.
- E não está? Uns dias atrás a sua vida resumia-se a uma cadeira de rodas, imóvel.
- Mas não me lembro de ter alguma vez sofrido, não estava cá.
- Então, estava onde?
- Não sei, parece que não tenho passado, mas sim memórias confusas de vários passados. E nem ser do momento consigo.
O medo estava presente nas suas expressões, Rita parecia estar a jogar entre a vida e a morte.
- Doutor, o que é que vê no jardim?
O médico aproximou-se da janela e respondeu-lhe de imediato:
- Vejo um jardim vazio.
- Eu vejo imagens de pessoas que sobem e descem, gente de um tempo já cumprido, que não possui sombras. Vejo com extrema nitidez figuras que me são próximas.
- Quer ir até lá baixo?
- A minha vida é uma viagem contínua, - disse, encaminhando-se para fora do quarto.
Após sair pela porta principal parou junto ao primeiro degrau.
- Sinto-me ligada a uma corrente, vejo massacres, escravidão, pessoas a morrer de peste, tudo isto para que outros gozem de excelente saúde. Chama-se a isto “Ajustamento Divino” e chegou agora a minha vez de ser atraída para um buraco negro.
- O que vê mais, Rita? – perguntou o médico fascinado pelas descrições da sua paciente.
- Vejo ondas de luz geradas pela conexão entre os que morrem e os que nascem. Estou com medo de lidar com esta realidade, - agarrou-se ao médico e encostou a cabeça no seu ombro.
- Medo de quê?
- De confrontar-me com os meus medos, com a rudeza agreste do futuro. Vejo as pessoas com os pés no pó, nos detritos, na lama, só oiço zumbidos e silêncio, apetece-me gritar a ignomínia.
O médico observava com atenção a paciente. A sua mente estava estranha, levava-a a fazer coisas estranhas, como falar com pessoas imaginárias. Dizia a uma tia invisível, a tia Didi, que se sentia uma cobaia dos caprichos de Deus. Rita parecia refém de uma anarquia emocional. Apesar da mente desesperada, parecia ter uma imensa vontade de viver e ser feliz.
- Com o meu despertar do espaço solitário e mudo, acordaram também os meus próprios problemas.
Rita parecia estar numa luta feroz, que se deslocava do presente para o passado, como num passe de mágica, em direção a um mundo obscuro de ambiguidades e manipulações, que lhe dava acesso a pensamentos e memórias de outras pessoas, levando-a a um comportamento quase obsessivo e auto destrutivo, que lhe entreabria um mundo de fantasia, de pesadelos e demónios.
- Vejo um sol negro de onde só irradia uma noite muito escura. É a noite do mundo, chegou a minha vez.
Denotava sinais claustrofóbicos, estava exausta, tinha maneirismos, a cara era triste. Correu para o quarto, deitou-se e deixou de respirar.

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