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O “Umbigo de Eva” era um “Buraco de Verme”, um
atalho cósmico que permitia uma ligação com uma determinada região do Universo,
mas isto o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, contratado por Deus
para encontrar Lilith, não sabia. Começou por ver uma imagem desfocada de
alguém que o chamava, dizendo o seu nome. A dimensão de tudo era desmedida, os
sentidos confundiam, o nariz tacteava, os ouvidos saboreavam, os olhos ouviam,
a boca cheirava. À medida que avançava iam-se abrindo portas, cada uma com um
relógio e uma hora diferente, que davam acesso a salas cheias de memórias, de
sonhos e de sombras que entravam e saíam, chamando-o por centenas de nomes.
Viu-se rodeado de uma paz e tranquilidade tão puras, que inconscientemente
sorriu. Apercebeu-se que a dimensão não era a sua quando se viu rodeado por
fadas com dentes afiados, que lhe despertaram os sentidos. Lilith existia para
desactivar a obra de Deus, e Este para a manter activa. Era por isso que os
dois se completavam e eram importantes para que o Universo conseguisse avançar
nesta profundidade de conflitos. Provocaram invejas, ciúmes, ódios e despeitos,
na longa e tumultuosa história da evolução do Cosmos. A uma dada altura
apareceu um duende que se apresentou como o “seu Anjo da Guarda”, que tinha
como missão evitar que lhe roubassem a alma. Mas o perigo só era maior se ele
tivesse nascido uma mulher bonita, o que não era o caso nem como homem.
Nova Iorque,
Hospital de Mount Carmel, 13 de Junho de 1969.
No pavilhão dos “
mortos-vivos “ reinava a excitação. Os médicos corriam apressadamente de um
lado para o outro, levando a reboque as enfermeiras e os assustados
estagiários. Todos esperavam pelo doutor Cinfuentes, que acabara de entrar no
edifício.
- O que é que
aconteceu aqui de tão importante, para me acordarem a esta hora da manhã? -
Perguntou o director, vestindo atabalhoadamente uma impecável bata.
- É a paciente do
quarto nove, – respondeu-lhe a obesa enfermeira-chefe. - Hoje de manhã quando
os auxiliares lhe foram dar o suplemento, estava de pé junto à janela.
- A senhora Rita
Bouvalier de pé? É impossível!
Entraram de
rompante no elevador e carregaram no botão para o quarto andar. O silêncio era
pesado, os olhares perdiam-se no vazio, como luzes descontroladas numa noite de
nevoeiro. Os médicos recém-formados colaram-se à parede do fundo, receosos pelo
que iriam encontrar. Uma campainha anunciava a chegada, ao mesmo tempo que as
portas se abriam com estrondo. O quarto nove estava entreaberto. O doutor
Cinfuentes espreitou cautelosamente, hesitou, mas por fim tomou a decisão e
entrou. Viu um vulto de mulher junto à janela gradeada, contemplou-a
carinhosamente por uns instantes e aproximou-se. A paciente olhou para o
horizonte e murmurou baixinho uma frase:
- Transpus a
porta, transpus a porta, transpus...
Observou-a
fascinado, olhou em redor, não procurou explicações porque sabia que não
existiam, dizendo com um tom jocoso:
- “Só sei que
nada sei”!
Rita voltou-se.
Os olhares encontraram-se, o diálogo foi fundo, bem fundo nos alicerces da
alma, falaram animados em silêncio e sem palavras, procuraram desesperados a
memória que descobriram ser comum, e soltaram-se repentinamente, assustados. No
corredor uma multidão esperava-o ansiosa.
- Então doutor? -
Perguntou a enfermeira, encostando-o à parede com a sua enorme barriga.
- Colega, – disse
o médico, apontando para um dos estagiários. - Como se chama?
- Carlos, Carlos
Tompson.
- Carlos, entre
no quarto e diga-me que idade dá à paciente.
O jovem avançou
com receio, empurrou a porta, entrou cautelosamente e ficou paralisado quando
encontrou o olhar de Rita, que avançou para si.
- Transpus a
porta, – disse-lhe, pondo as mãos nos seus ombros.
Os olhos azuis
desbotados da paciente cravaram-se bem fundo no seu interior, o cabelo cor de
fogo atirou-lhe com um perfume floral e a pequena boca continuou a soltar as
palavras:
- Transpus a
porta.
Afastou-se,
desligou-se do presente e retornou ao horizonte. Carlos saiu desorientado e foi
de encontro à enfermeira-chefe Zobáida Mercedes.
- A idade? -
Perguntou.
- Sim, eu só
quero um palpite, – respondeu Cinfuentes, acordando-o.
- Quarenta e
cinco, talvez cinquenta.
- Quarenta e
cinco?! Cinquenta?! - Exclamou Zobaida, consultando a ficha que tinha na mão. –
A senhora Rita Bouvalier tem sessenta e sete anos.
- Sessenta e
sete, é impossível!
- Meus senhores,
temos aqui algo que ultrapassa a ciência, tal como a conhecemos. Antes de
avançarmos mais, é melhor acompanharem-me ao gabinete, para esclarecermos
algumas ideias.
O grupo obedeceu dirigindo-se
em marcha forçada para a sala, onde entraram de rompante e cada um escolheu uma
cadeira e sentou-se.
- Já ouviram
falar da “Doença do Sono”?
- “Doença do
sono”?
- São muito
novos, hoje em dia não lhes ensinam história na faculdade, – respondeu
secamente a enfermeira-chefe.
- Não é com
histórias que curamos as pessoas! - Exclamou um dos novatos.
- Engana-se, –
disse-lhe Cinfuentes. – É na História que muitas vezes se encontram as curas,
porque se repete indefinidamente. Mas o que nos traz aqui é a Encefalite
Letárgica! Um dos maiores enigmas da medicina, uma doença terrível que aparece,
dizima e evapora-se sem deixar rasto, aliás o único sinal da sua presença são
os três pacientes que temos aqui há várias décadas. Senhora enfermeira, conte a
anamnese da Rita Bouvalier.
- Nasceu em 1902
em Viena e aos dez anos mudou-se com a família para Paris. Teve uma infância
feliz e aos dezoito anos, quando se preparava para casar, foi acometida de uma
doença súbita, que a deixou prostrada na cama. O médico que a assistiu, não
conseguiu fazer nada e algumas horas depois declarou-a cadáver, devido a uma
síncope cardíaca. Na noite do velório uma das criadas descobriu que a Rita
estava a chorar. Afinal não estava morta! Foi internada num hospital e nunca
mais regressou a casa. Permaneceu numa cadeira de rodas, imóvel, durante estes
anos todos. Veio para aqui em 1945.
- E o que é
incrível, é que apesar de ter estado como uma estátua durante décadas, com uma
postura péssima, não há qualquer tipo de deformações, e o envelhecimento
atrasou-se consideravelmente.
- Sessenta e sete
anos?! - Interrogou-se um dos assistentes, deixando escapar o pensamento.
- E apesar de
tudo move-se, – continuou o doutor Cinfuentes, cada vez mais entusiasmado. -
Raramente os vimos moverem-se! A altura mais interessante é a das refeições,
todos são independentes nesta área, mas não os vimos comerem, temos de sair do
refeitório. Quando voltamos, os pratos estão vazios.
- Doutor, –
interrompeu um dos colegas. - Mas a encefalite letárgica devia ser mortal ainda
por cima naquela altura.
- Em todo o mundo
devem ter morrido milhões de pessoas, os poucos que sobreviveram devem ter sido
aqueles a quem Deus protegeu, não sei para quê!
- Ou castigou! -
Disparou a enfermeira Sobaida, sem levantar os olhos do processo.
- Depois da
encefalite letárgica, quem ousou sobreviver, desenvolveu um parkinsonismo, que
o deixou um morto-vivo. Eles são só alma, estão bem longe!
- No caso da
senhora Rita Bouvalier, regressou ao corpo, – provocou de novo a enfermeira.
- Pode ter
regressado, mas de dentro! - Ajudou um dos enfermeiros, que estava escondido
atrás da enorme silhueta da sua colega.
- O quê? O colega
se não tem nada para dizer, não diga disparates.
- Senhora
enfermeira, não foi dito nenhum disparate, – disse Cinfuentes. - A discussão
deve situar-se no plano metafísico, pois ao nível da medicina não vamos
descobrir nada.
- Por amor de
Deus senhor doutor, nós não somos padres!
- A alma não é
exclusiva dos padres. Os médicos deveriam compreender que muitas das doenças do
corpo se devem a problemas na alma. Quando soubermos respeitá-la, então respeitar-nos-à!
O nosso trabalho com a senhora Rita Bouvalier vai ser de observação e registo.
Alternamo-nos, vamos estar com ela vinte e quatro horas por dia, a registar
tudo o que fizer e disser, incluindo os sonhos. Reunimo-nos todos os dias aqui
e a esta hora. Bom-dia a todos!
Junto da grande
janela do quarto número nove, a paciente falou para o horizonte:
- John, tu não
vais passar, esta porta só dá para o passado, e tu não tens passado...
Hospital de
Highlands 13 de Junho de 1969.
A notícia correu
depressa pela região, o paciente do quarto número cinco, o senhor Paulo
Prestes, acordara do seu longo sono e passeava agora calmamente pelos bonitos
jardins, na companhia da fiel enfermeira Margarete. Eram observados do alto
pelo director.
- Há quanto tempo
é que ele está aqui, doutor Preston?
- Segundo a
ficha, o senhor Prestes entrou há vinte anos, com um parkinsonismo
pós-encefalítico.
- A “Doença do
Sono”?
- O senhor
director conhece a doença?
- O meu pai tinha
seis irmãos, ele foi o único que não apanhou a encefalite letárgica. Todos
morreram! Estava em Viena em 1916, o meu pai tinha sido nomeado embaixador.
Apesar de nunca ter conhecido nenhum deles, quando vi pela primeira vez uma
fotografia da família, aos 7 anos, disse o nome de todos sem me enganar. A
“doença do sono” deixou marcas na família!
- Parece um
milagre, o senhor Prestes ontem levantou-se normalmente e foi passear para o
jardim. Parece não saber onde está, e nem pergunta, o único nome que menciona é
Rita, que desconhecemos quem seja.
- Já viram nos
arquivos?
- Há muitas Ritas
no nos nossos registos
- Deixem-no sentir o mundo, está perdido no
tempo, tem de ser ele a encontrar-se!
Asilo de
Salpêtrière 14 de Junho de 1969.
- Qual é o nome
do paciente? - Perguntou o doutor Charles Lipiérre.
- Narciso
Serapitola Figueiredo Baeta, é dos pacientes mais antigos, está connosco há
trinta e um anos, e quando entrou tinha setenta e cinco, – responde o seu
assistente.
- Cento e seis
anos? E está muito activo!?
- Neste momento
passeia-se no jardim, aliás, foi lá que o descobrimos. Nunca pensámos que um
homem daquela idade e há tanto tempo imóvel, já entrou para aqui naquele
estado, parecia uma estátua, se levantasse e andasse com tanta energia.
- Deixe-me o
processo, vou dar-lhe uma olhadela.
O doutor Lipiérre
deu uma espreitadela rápida pela janela, na esperança de conseguir ver o
“ressuscitado”, mas ficou-se por um bando numeroso de pombas, que executava na
perfeição manobras temerárias. Sentou-se na poltrona cor-de-azeitona, puxou dum
cachimbo já carregado e abriu o processo que estava em cima da mesa, ao mesmo
tempo que tentava arrancar com a fumaça.
Nome: Narciso Serapitola
Figueiredo Baeta
Data de
nascimento: 13 de Janeiro de 1863
O paciente nasceu
em Nova Iorque, sendo o filho mais velho de uma grande família de classe média.
Aos dez anos de idade mudaram-se para a Europa, mais precisamente para a cidade
de Paris, de onde nunca saíram. Durante a infância nunca sofreu de doenças sérias,
o seu aproveitamento escolar foi brilhante e quando concluiu a licenciatura em
medicina e cirurgia decidiu enveredar pela carreira eclesiástica. O seu
espírito ávido levou-o a percorrer os quatro cantos do mundo, em missões
evangélicas, que cumpriu com brio e determinação. Em 1908 um incidente veio
mudar-lhe o rumo da vida. Um incêndio na vivenda do seu pai, durante a festa
anual da família, acabou em tragédia. Todo o clã Baeta pereceu, excepto o padre
Narciso, que se encontrava ausente no Vaticano. A notícia causou-lhe um choque
tremendo. Nos dias seguintes começou a sofrer de pesadelos aterrorizadores,
imaginava-se a cair num poço sem fundo, não fazia movimentos, era uma estátua,
queria acordar mas não conseguia, chamava desesperado pelo pai, que aparecia e
desaparecia, até que era desperto pelos seus companheiros. A conselho de um
médico seu amigo, retirou-se para uma abadia nos Alpes. Aí permaneceu durante
cinco meses, até conseguir recuperar a lucidez por completo. Decidiu então
refugiar-se numa capela de uma aldeia perdida numa floresta francesa e pediu ao
Papa para exercer aí o seu magistério. O pedido foi aceite e ficou até 1938,
ano em que o imprevisto aconteceu, durante a celebração da missa da manhã.
Quando levantou os braços para agradecer a Deus o bom ano agrícola, caiu
desamparado por cima do altar. Voltou a si acompanhado com movimentos súbitos e
imobilizou-se por completo. Virou ainda os olhos para o altar e assim ficou. O
médico local foi rápido no diagnóstico: “catatonia”. Trouxeram-no para esta
instituição e aqui esteve imóvel, excepto durante as refeições, até agora.
- Não há dúvida,
o corpo está submetido à alma, – exclamou o doutor Lipiérre, atirando para a
mesa o dossier.
Foi interrompido
pelo barulho de alguém a bater à porta com insistência.
- Entre, está
aberta.
Um enorme
enfermeiro, com um volumoso bigode, entrou de rompante e pediu ao director para
o acompanhar à fonte velha. Precipitaram-se pela escadaria numa corrida louca e
embrenharam-se pelo labirinto de sebes, uma obra fantástica feita por um
jardineiro local. Ao passarem pela “curva-das-cebolas-nuas”, o espectáculo
apareceu-lhes de frente. Em cima da “sereia-verde”, que “chorava desalmadamente”,
palavras do jardineiro, o senhor Narciso Baeta gritava para a vasta assistência,
que se sentara para o ouvir.
-...eu passei a
porta, sou o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta e fui contratado por
Deus para procurar a sua amada, Lilith. Tudo depende de Dele, não só aqueles
que vivem, mas também a lei, a ordem, a vontade, as verdades eternas, o meu
cão, as vossas doenças, tudo, tudo... Deus conserva-nos e é por isso que
existimos... Passei a porta com duas pessoas, a senhora Rita Bouvalier e o
senhor Paulo Prestes. Alguém os viu? E alguém conhece um motorista com um nome
esquisito, Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua?
- Cento e seis
anos? Este paciente teve o corpo parado, mas a sua alma parece ter viajado
muito, – disse o director, fazendo uma festa numa grande flor amarela. – Sabe
que esta planta deve ser única no planeta e que em termos genéticos a sua
existência é teoricamente impossível?
- Mas no entanto
existe.
- E como é que
terá vindo parar aqui?
- Poeira cósmica.
Li há pouco tempo um artigo muito interessante sobre o tema. Entre biliões de
grãos de pó que caiem na Terra todos os dias, estatisticamente é provável que
um traga uma semente.
- E haveria logo
de ser aqui e germinar?
- Em algum lado
teria de cair. E se resistiu a tudo, as probabilidades de vingar eram quais cem
por cento. É como este labirinto, será por acaso que terá a forma de um cérebro
ou foi intencional?
- Pergunte ao
jardineiro.
- É nosso
paciente do pavilhão quatro.

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