segunda-feira, 23 de março de 2026

17 - Buraco de Verme

 

17

O “Umbigo de Eva” era um “Buraco de Verme”, um atalho cósmico que permitia uma ligação com uma determinada região do Universo, mas isto o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, contratado por Deus para encontrar Lilith, não sabia. Começou por ver uma imagem desfocada de alguém que o chamava, dizendo o seu nome. A dimensão de tudo era desmedida, os sentidos confundiam, o nariz tacteava, os ouvidos saboreavam, os olhos ouviam, a boca cheirava. À medida que avançava iam-se abrindo portas, cada uma com um relógio e uma hora diferente, que davam acesso a salas cheias de memórias, de sonhos e de sombras que entravam e saíam, chamando-o por centenas de nomes. Viu-se rodeado de uma paz e tranquilidade tão puras, que inconscientemente sorriu. Apercebeu-se que a dimensão não era a sua quando se viu rodeado por fadas com dentes afiados, que lhe despertaram os sentidos. Lilith existia para desactivar a obra de Deus, e Este para a manter activa. Era por isso que os dois se completavam e eram importantes para que o Universo conseguisse avançar nesta profundidade de conflitos. Provocaram invejas, ciúmes, ódios e despeitos, na longa e tumultuosa história da evolução do Cosmos. A uma dada altura apareceu um duende que se apresentou como o “seu Anjo da Guarda”, que tinha como missão evitar que lhe roubassem a alma. Mas o perigo só era maior se ele tivesse nascido uma mulher bonita, o que não era o caso nem como homem.

 

Nova Iorque, Hospital de Mount Carmel, 13 de Junho de 1969.

No pavilhão dos “ mortos-vivos “ reinava a excitação. Os médicos corriam apressadamente de um lado para o outro, levando a reboque as enfermeiras e os assustados estagiários. Todos esperavam pelo doutor Cinfuentes, que acabara de entrar no edifício.

- O que é que aconteceu aqui de tão importante, para me acordarem a esta hora da manhã? - Perguntou o director, vestindo atabalhoadamente uma impecável bata.

- É a paciente do quarto nove, – respondeu-lhe a obesa enfermeira-chefe. - Hoje de manhã quando os auxiliares lhe foram dar o suplemento, estava de pé junto à janela.

- A senhora Rita Bouvalier de pé? É impossível!

Entraram de rompante no elevador e carregaram no botão para o quarto andar. O silêncio era pesado, os olhares perdiam-se no vazio, como luzes descontroladas numa noite de nevoeiro. Os médicos recém-formados colaram-se à parede do fundo, receosos pelo que iriam encontrar. Uma campainha anunciava a chegada, ao mesmo tempo que as portas se abriam com estrondo. O quarto nove estava entreaberto. O doutor Cinfuentes espreitou cautelosamente, hesitou, mas por fim tomou a decisão e entrou. Viu um vulto de mulher junto à janela gradeada, contemplou-a carinhosamente por uns instantes e aproximou-se. A paciente olhou para o horizonte e murmurou baixinho uma frase:

- Transpus a porta, transpus a porta, transpus...

Observou-a fascinado, olhou em redor, não procurou explicações porque sabia que não existiam, dizendo com um tom jocoso:

- “Só sei que nada sei”!

Rita voltou-se. Os olhares encontraram-se, o diálogo foi fundo, bem fundo nos alicerces da alma, falaram animados em silêncio e sem palavras, procuraram desesperados a memória que descobriram ser comum, e soltaram-se repentinamente, assustados. No corredor uma multidão esperava-o ansiosa.

- Então doutor? - Perguntou a enfermeira, encostando-o à parede com a sua enorme barriga.

- Colega, – disse o médico, apontando para um dos estagiários. - Como se chama?

- Carlos, Carlos Tompson.

- Carlos, entre no quarto e diga-me que idade dá à paciente.

O jovem avançou com receio, empurrou a porta, entrou cautelosamente e ficou paralisado quando encontrou o olhar de Rita, que avançou para si.

- Transpus a porta, – disse-lhe, pondo as mãos nos seus ombros.

Os olhos azuis desbotados da paciente cravaram-se bem fundo no seu interior, o cabelo cor de fogo atirou-lhe com um perfume floral e a pequena boca continuou a soltar as palavras:

- Transpus a porta.

Afastou-se, desligou-se do presente e retornou ao horizonte. Carlos saiu desorientado e foi de encontro à enfermeira-chefe Zobáida Mercedes.

- A idade? - Perguntou.

- Sim, eu só quero um palpite, – respondeu Cinfuentes, acordando-o.

- Quarenta e cinco, talvez cinquenta.

- Quarenta e cinco?! Cinquenta?! - Exclamou Zobaida, consultando a ficha que tinha na mão. – A senhora Rita Bouvalier tem sessenta e sete anos.

- Sessenta e sete, é impossível!

- Meus senhores, temos aqui algo que ultrapassa a ciência, tal como a conhecemos. Antes de avançarmos mais, é melhor acompanharem-me ao gabinete, para esclarecermos algumas ideias.

O grupo obedeceu dirigindo-se em marcha forçada para a sala, onde entraram de rompante e cada um escolheu uma cadeira e sentou-se.

- Já ouviram falar da “Doença do Sono”?

- “Doença do sono”?

- São muito novos, hoje em dia não lhes ensinam história na faculdade, – respondeu secamente a enfermeira-chefe.

- Não é com histórias que curamos as pessoas! - Exclamou um dos novatos.

- Engana-se, – disse-lhe Cinfuentes. – É na História que muitas vezes se encontram as curas, porque se repete indefinidamente. Mas o que nos traz aqui é a Encefalite Letárgica! Um dos maiores enigmas da medicina, uma doença terrível que aparece, dizima e evapora-se sem deixar rasto, aliás o único sinal da sua presença são os três pacientes que temos aqui há várias décadas. Senhora enfermeira, conte a anamnese da Rita Bouvalier.

- Nasceu em 1902 em Viena e aos dez anos mudou-se com a família para Paris. Teve uma infância feliz e aos dezoito anos, quando se preparava para casar, foi acometida de uma doença súbita, que a deixou prostrada na cama. O médico que a assistiu, não conseguiu fazer nada e algumas horas depois declarou-a cadáver, devido a uma síncope cardíaca. Na noite do velório uma das criadas descobriu que a Rita estava a chorar. Afinal não estava morta! Foi internada num hospital e nunca mais regressou a casa. Permaneceu numa cadeira de rodas, imóvel, durante estes anos todos. Veio para aqui em 1945.

- E o que é incrível, é que apesar de ter estado como uma estátua durante décadas, com uma postura péssima, não há qualquer tipo de deformações, e o envelhecimento atrasou-se consideravelmente.

- Sessenta e sete anos?! - Interrogou-se um dos assistentes, deixando escapar o pensamento.

- E apesar de tudo move-se, – continuou o doutor Cinfuentes, cada vez mais entusiasmado. - Raramente os vimos moverem-se! A altura mais interessante é a das refeições, todos são independentes nesta área, mas não os vimos comerem, temos de sair do refeitório. Quando voltamos, os pratos estão vazios.

- Doutor, – interrompeu um dos colegas. - Mas a encefalite letárgica devia ser mortal ainda por cima naquela altura.

- Em todo o mundo devem ter morrido milhões de pessoas, os poucos que sobreviveram devem ter sido aqueles a quem Deus protegeu, não sei para quê!

- Ou castigou! - Disparou a enfermeira Sobaida, sem levantar os olhos do processo.

- Depois da encefalite letárgica, quem ousou sobreviver, desenvolveu um parkinsonismo, que o deixou um morto-vivo. Eles são só alma, estão bem longe!

- No caso da senhora Rita Bouvalier, regressou ao corpo, – provocou de novo a enfermeira.

- Pode ter regressado, mas de dentro! - Ajudou um dos enfermeiros, que estava escondido atrás da enorme silhueta da sua colega.

- O quê? O colega se não tem nada para dizer, não diga disparates.

- Senhora enfermeira, não foi dito nenhum disparate, – disse Cinfuentes. - A discussão deve situar-se no plano metafísico, pois ao nível da medicina não vamos descobrir nada.

- Por amor de Deus senhor doutor, nós não somos padres!

- A alma não é exclusiva dos padres. Os médicos deveriam compreender que muitas das doenças do corpo se devem a problemas na alma. Quando soubermos respeitá-la, então respeitar-nos-à! O nosso trabalho com a senhora Rita Bouvalier vai ser de observação e registo. Alternamo-nos, vamos estar com ela vinte e quatro horas por dia, a registar tudo o que fizer e disser, incluindo os sonhos. Reunimo-nos todos os dias aqui e a esta hora. Bom-dia a todos!

Junto da grande janela do quarto número nove, a paciente falou para o horizonte:

- John, tu não vais passar, esta porta só dá para o passado, e tu não tens passado...

 

Hospital de Highlands 13 de Junho de 1969.

A notícia correu depressa pela região, o paciente do quarto número cinco, o senhor Paulo Prestes, acordara do seu longo sono e passeava agora calmamente pelos bonitos jardins, na companhia da fiel enfermeira Margarete. Eram observados do alto pelo director.

- Há quanto tempo é que ele está aqui, doutor Preston?

- Segundo a ficha, o senhor Prestes entrou há vinte anos, com um parkinsonismo pós-encefalítico.

- A “Doença do Sono”?

- O senhor director conhece a doença?

- O meu pai tinha seis irmãos, ele foi o único que não apanhou a encefalite letárgica. Todos morreram! Estava em Viena em 1916, o meu pai tinha sido nomeado embaixador. Apesar de nunca ter conhecido nenhum deles, quando vi pela primeira vez uma fotografia da família, aos 7 anos, disse o nome de todos sem me enganar. A “doença do sono” deixou marcas na família!

- Parece um milagre, o senhor Prestes ontem levantou-se normalmente e foi passear para o jardim. Parece não saber onde está, e nem pergunta, o único nome que menciona é Rita, que desconhecemos quem seja.

- Já viram nos arquivos?

- Há muitas Ritas no nos nossos registos

 - Deixem-no sentir o mundo, está perdido no tempo, tem de ser ele a encontrar-se!

 

Asilo de Salpêtrière 14 de Junho de 1969.

- Qual é o nome do paciente? - Perguntou o doutor Charles Lipiérre.

- Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, é dos pacientes mais antigos, está connosco há trinta e um anos, e quando entrou tinha setenta e cinco, – responde o seu assistente.

- Cento e seis anos? E está muito activo!?

- Neste momento passeia-se no jardim, aliás, foi lá que o descobrimos. Nunca pensámos que um homem daquela idade e há tanto tempo imóvel, já entrou para aqui naquele estado, parecia uma estátua, se levantasse e andasse com tanta energia.

- Deixe-me o processo, vou dar-lhe uma olhadela.

O doutor Lipiérre deu uma espreitadela rápida pela janela, na esperança de conseguir ver o “ressuscitado”, mas ficou-se por um bando numeroso de pombas, que executava na perfeição manobras temerárias. Sentou-se na poltrona cor-de-azeitona, puxou dum cachimbo já carregado e abriu o processo que estava em cima da mesa, ao mesmo tempo que tentava arrancar com a fumaça.

 

Nome: Narciso Serapitola Figueiredo Baeta

Data de nascimento: 13 de Janeiro de 1863

O paciente nasceu em Nova Iorque, sendo o filho mais velho de uma grande família de classe média. Aos dez anos de idade mudaram-se para a Europa, mais precisamente para a cidade de Paris, de onde nunca saíram. Durante a infância nunca sofreu de doenças sérias, o seu aproveitamento escolar foi brilhante e quando concluiu a licenciatura em medicina e cirurgia decidiu enveredar pela carreira eclesiástica. O seu espírito ávido levou-o a percorrer os quatro cantos do mundo, em missões evangélicas, que cumpriu com brio e determinação. Em 1908 um incidente veio mudar-lhe o rumo da vida. Um incêndio na vivenda do seu pai, durante a festa anual da família, acabou em tragédia. Todo o clã Baeta pereceu, excepto o padre Narciso, que se encontrava ausente no Vaticano. A notícia causou-lhe um choque tremendo. Nos dias seguintes começou a sofrer de pesadelos aterrorizadores, imaginava-se a cair num poço sem fundo, não fazia movimentos, era uma estátua, queria acordar mas não conseguia, chamava desesperado pelo pai, que aparecia e desaparecia, até que era desperto pelos seus companheiros. A conselho de um médico seu amigo, retirou-se para uma abadia nos Alpes. Aí permaneceu durante cinco meses, até conseguir recuperar a lucidez por completo. Decidiu então refugiar-se numa capela de uma aldeia perdida numa floresta francesa e pediu ao Papa para exercer aí o seu magistério. O pedido foi aceite e ficou até 1938, ano em que o imprevisto aconteceu, durante a celebração da missa da manhã. Quando levantou os braços para agradecer a Deus o bom ano agrícola, caiu desamparado por cima do altar. Voltou a si acompanhado com movimentos súbitos e imobilizou-se por completo. Virou ainda os olhos para o altar e assim ficou. O médico local foi rápido no diagnóstico: “catatonia”. Trouxeram-no para esta instituição e aqui esteve imóvel, excepto durante as refeições, até agora.

- Não há dúvida, o corpo está submetido à alma, – exclamou o doutor Lipiérre, atirando para a mesa o dossier.

Foi interrompido pelo barulho de alguém a bater à porta com insistência.

- Entre, está aberta.

Um enorme enfermeiro, com um volumoso bigode, entrou de rompante e pediu ao director para o acompanhar à fonte velha. Precipitaram-se pela escadaria numa corrida louca e embrenharam-se pelo labirinto de sebes, uma obra fantástica feita por um jardineiro local. Ao passarem pela “curva-das-cebolas-nuas”, o espectáculo apareceu-lhes de frente. Em cima da “sereia-verde”, que “chorava desalmadamente”, palavras do jardineiro, o senhor Narciso Baeta gritava para a vasta assistência, que se sentara para o ouvir.

-...eu passei a porta, sou o detective Narciso Serapitola Figueiredo Baeta e fui contratado por Deus para procurar a sua amada, Lilith. Tudo depende de Dele, não só aqueles que vivem, mas também a lei, a ordem, a vontade, as verdades eternas, o meu cão, as vossas doenças, tudo, tudo... Deus conserva-nos e é por isso que existimos... Passei a porta com duas pessoas, a senhora Rita Bouvalier e o senhor Paulo Prestes. Alguém os viu? E alguém conhece um motorista com um nome esquisito, Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua?

- Cento e seis anos? Este paciente teve o corpo parado, mas a sua alma parece ter viajado muito, – disse o director, fazendo uma festa numa grande flor amarela. – Sabe que esta planta deve ser única no planeta e que em termos genéticos a sua existência é teoricamente impossível?

- Mas no entanto existe.

- E como é que terá vindo parar aqui?

- Poeira cósmica. Li há pouco tempo um artigo muito interessante sobre o tema. Entre biliões de grãos de pó que caiem na Terra todos os dias, estatisticamente é provável que um traga uma semente.

- E haveria logo de ser aqui e germinar?

- Em algum lado teria de cair. E se resistiu a tudo, as probabilidades de vingar eram quais cem por cento. É como este labirinto, será por acaso que terá a forma de um cérebro ou foi intencional?

- Pergunte ao jardineiro.

- É nosso paciente do pavilhão quatro.

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