18
- Doutor Lipiérre, consegui a ligação para o hospital de Mount Carmel, o doutor Cinfuentes está em linha.
- Obrigado senhora enfermeira.
O diretor do asilo de Salpêtriere poisou o álbum de fotografias na mesa e agarrou com força no auscultador.
- Doutor Cinfuentes, como está?
- Muito bem, muito bem, e o colega?
- Li o artigo do jornal acerca da vossa paciente, Rita. Aconteceu-nos o mesmo. Um dos nossos internos também despertou e era uma das vítimas da encefalite letárgica dos anos vinte e está aqui connosco há várias décadas – disse, ao mesmo tempo que olhava para a fotografia do recorte.
- Um acordar completo! - Exclamou o médico americano.
- Completíssimo, está a passear, mas muito perturbado.
- Há outro caso!
- Outro? Onde? – Perguntou o doutor Lipièrre.
Por momentos o outro lado do Atlântico ficou em silêncio, até que a voz pausada do doutor Cinfuentes se fez ouvir de novo:
- Em Highlands, ouvi na rádio. O caso é igual à da nossa Rita Bouvalier e ao seu…
- …Narciso Baeta. Com que idade é que a Rita foi internada?
- Aos 18 anos, – respondeu Cinfuentes.
- Dezoito anos! E esteve sempre internada?
- Nunca mais saiu, o parkinsonismo dela é, ou melhor, era uma autêntica masmorra. Está muda a olhar através da janela.
- Colega Cinfuentes, temos de nos encontrar.
- Aproveito a ocasião, vou passear até Paris e faço-lhe uma visita.
- Aguardo a sua vinda com ansiedade.
O doutor Charles Lipièrre diretor do Asilo de Salpêtrière acabara de ser informado que a perturbação do seu paciente Narciso Baeta se tinha agravado, procurava desesperado por uma senhora de nome Lilith em todos os cantos do estranho labirinto. O médico ficou parado, estático, preso a um pensamento que se desenrolava automaticamente, mas ao mesmo tempo consciente da importância do assunto.
- “Lilith”?
Levantou-se atordoado, olhou em redor, regressou à sua realidade e saiu apressado do gabinete, em direção ao vasto jardim onde estava o paciente do quarto nove. Aproximou-se em silêncio e descobriu-o dobrado, junto a uma pequena inscrição no meio das ervas. Observou-o com emoção e esperou, como de costume, pois sabia que o tempo era sempre um bom conselheiro nestes casos. O que estaria o senhor Narciso a ver? Numa pedra corroída pelo tempo alguém gravara um estranho nome: Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua! Pôs a mão no ombro do paciente e este limitou-se a olhar e a afastar-se. Encontrou-o um pouco mais à frente, envolto numa neblina espessa, parado junto a um bloco de pedra esverdeado devido ao musgo:
“ Presságios, Prevenções, Previsões e Prudências
Há uma violência boa?
Todo o mal terá uma entidade metafísica a fundamentá-lo?
O que é a vida?
Onde fica o Paraíso?
O que é maior que Deus?
O que é pior que o Diabo?”
O tempo encravara-se entre a manhã e a tarde e o detetive parecia estar numa paz satisfeita, pleno de confiança e vigor.
- Então senhor Narciso, já respondeu a tudo? – Perguntou o médico, sugerindo-lhe um sorriso, ao mesmo tempo que descobria o perfume de uma cerejeira em flor.
- A vida é tão frágil, - murmurou o detetive. – Sinto a intensidade excessiva da minha própria mortalidade. Saber não é pior do que não saber.
- As coisas nunca são como nós queremos, pois não?
Uma breve eternidade pareceu poisar nos raios luminosos que riscavam a escuridão áspera de um canto, quando o vento caía sobre eles.
- Ele diz tudo durante as ausências, - exclamou o paciente.
- Ele? Ele, quem?
- Estou numa encruzilhada, cai numa cilada e estou perdido, - respondeu com a tristeza no seu olhar e um lamento na sua voz. – Acenaram-me com joias e eu vendi-lhes a alma.
- Tem recordações do seu passado?
- Mais ou menos, mas não é só um, são vários. Aprendi que os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa, e que para eles ficção e realidade são uma só verdade.
O detetive parecia estar a fazer uma espécie de catalogação de factos, dir-se-ia que a sua ligação íntima com a vida perdera-se, o seu mundo estava a desfazer-se.
- A vida é efémera e irrepetível, – disse, apanhando uma flor amarela, a quem deu um nome impercetível.
Havia uma tensão entre a norma e o desvio, uma aberração de acontecimentos e comportamentos.
- Os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa e a ficção e realidade são uma e só uma verdade, - repetiu.
Parecia estar a agregar pessoas afetivamente importantes, à medida que ia colhendo flores de várias cores, e relacionava-as com lugares. Parecia misturar num mesmo sentido a alegria, a dor e a morte.
- Estou preparado, – e deu um passo em frente, especulando compulsivamente antes de cair desamparado no chão.

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