quinta-feira, 26 de março de 2026

18 - A Primeira Metamorfose

 

18

- Doutor Lipiérre, consegui a ligação para o hospital de Mount Carmel, o doutor Cinfuentes está em linha.

- Obrigado senhora enfermeira.

O diretor do asilo de Salpêtriere poisou o álbum de fotografias na mesa e agarrou com força no auscultador.

- Doutor Cinfuentes, como está?

- Muito bem, muito bem, e o colega?

- Li o artigo do jornal acerca da vossa paciente, Rita. Aconteceu-nos o mesmo. Um dos nossos internos também despertou e era uma das vítimas da encefalite letárgica dos anos vinte e está aqui connosco há várias décadas – disse, ao mesmo tempo que olhava para a fotografia do recorte.

- Um acordar completo! - Exclamou o médico americano.

- Completíssimo, está a passear, mas muito perturbado.

- Há outro caso!

- Outro? Onde? – Perguntou o doutor Lipièrre.

Por momentos o outro lado do Atlântico ficou em silêncio, até que a voz pausada do doutor Cinfuentes se fez ouvir de novo:

- Em Highlands, ouvi na rádio. O caso é igual à da nossa Rita Bouvalier e ao seu…

- …Narciso Baeta. Com que idade é que a Rita foi internada?

- Aos 18 anos, – respondeu Cinfuentes.

- Dezoito anos! E esteve sempre internada?

- Nunca mais saiu, o parkinsonismo dela é, ou melhor, era uma autêntica masmorra. Está muda a olhar através da janela.

- Colega Cinfuentes, temos de nos encontrar.

- Aproveito a ocasião, vou passear até Paris e faço-lhe uma visita.

- Aguardo a sua vinda com ansiedade.

O doutor Charles Lipièrre diretor do Asilo de Salpêtrière acabara de ser informado que a perturbação do seu paciente Narciso Baeta se tinha agravado, procurava desesperado por uma senhora de nome Lilith em todos os cantos do estranho labirinto. O médico ficou parado, estático, preso a um pensamento que se desenrolava automaticamente, mas ao mesmo tempo consciente da importância do assunto.

- “Lilith”?

Levantou-se atordoado, olhou em redor, regressou à sua realidade e saiu apressado do gabinete, em direção ao vasto jardim onde estava o paciente do quarto nove. Aproximou-se em silêncio e descobriu-o dobrado, junto a uma pequena inscrição no meio das ervas. Observou-o com emoção e esperou, como de costume, pois sabia que o tempo era sempre um bom conselheiro nestes casos. O que estaria o senhor Narciso a ver? Numa pedra corroída pelo tempo alguém gravara um estranho nome: Cabreiro Maximiliano Ponta Mensageiro da Lua! Pôs a mão no ombro do paciente e este limitou-se a olhar e a afastar-se. Encontrou-o um pouco mais à frente, envolto numa neblina espessa, parado junto a um bloco de pedra esverdeado devido ao musgo:

 

“ Presságios, Prevenções, Previsões e Prudências

Há uma violência boa?

Todo o mal terá uma entidade metafísica a fundamentá-lo?

O que é a vida?

Onde fica o Paraíso?

O que é maior que Deus?

O que é pior que o Diabo?”

 

O tempo encravara-se entre a manhã e a tarde e o detetive parecia estar numa paz satisfeita, pleno de confiança e vigor.

- Então senhor Narciso, já respondeu a tudo? – Perguntou o médico, sugerindo-lhe um sorriso, ao mesmo tempo que descobria o perfume de uma cerejeira em flor.

- A vida é tão frágil, - murmurou o detetive. – Sinto a intensidade excessiva da minha própria mortalidade. Saber não é pior do que não saber.

- As coisas nunca são como nós queremos, pois não?

Uma breve eternidade pareceu poisar nos raios luminosos que riscavam a escuridão áspera de um canto, quando o vento caía sobre eles.

- Ele diz tudo durante as ausências, - exclamou o paciente.

- Ele? Ele, quem?

- Estou numa encruzilhada, cai numa cilada e estou perdido, - respondeu com a tristeza no seu olhar e um lamento na sua voz. – Acenaram-me com joias e eu vendi-lhes a alma.

- Tem recordações do seu passado?

- Mais ou menos, mas não é só um, são vários. Aprendi que os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa, e que para eles ficção e realidade são uma só verdade.

O detetive parecia estar a fazer uma espécie de catalogação de factos, dir-se-ia que a sua ligação íntima com a vida perdera-se, o seu mundo estava a desfazer-se.

- A vida é efémera e irrepetível, – disse, apanhando uma flor amarela, a quem deu um nome impercetível.

Havia uma tensão entre a norma e o desvio, uma aberração de acontecimentos e comportamentos.

- Os temas complexos são sempre demasiado simples para Laputa e a ficção e realidade são uma e só uma verdade, - repetiu.

Parecia estar a agregar pessoas afetivamente importantes, à medida que ia colhendo flores de várias cores, e relacionava-as com lugares. Parecia misturar num mesmo sentido a alegria, a dor e a morte.

- Estou preparado, – e deu um passo em frente, especulando compulsivamente antes de cair desamparado no chão.

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