sábado, 28 de março de 2026

20 - A Terceira Metamorfose

 

20

O paciente do quarto número cinco do Hospital de Highlands encontrava-se sentado na cama da divisão do lado, numa animada conversa com o doente que se encontrava em coma profundo.

- É a pessoa mais lúcida que o mundo produziu. Tem pensamentos profundos, cavernosos, imperfeitos, foi ele que construiu as verdadeiras estradas de abnegação à causa universal, - disse, quando o Doutor Preston chegou junto dele. – Sempre foi assim, nos dias de sombra e nos de luz.

O médico aproximou-se e mediu a pulsação do acamado.

- Aposto que o pulso está lento e triste, - exclamou o senhor Paulo Prestes com os olhos a cantar.

- Praticamente está sem pulso. É uma vela que está a chegar ao fim.

- O coração dele saltita na ponta da língua. Os seus sussurros enchem a alma de qualquer um, - retorquiu Paulo. – Encoste o ouvido na boca dele, como fazemos com os búzios, e em vez de ouvir o mar, ouve o respirar do Universo. A sua voz tem magia!

O médico deitou um rápido olhar ao nome do paciente , que estava escrito na cama, e disse:

- Vamos lá ouvir o seu sussurro senhor Maximiliano, - e sentou-se junto a ele, inclinando a cabeça.

Afastou-se de imediato.

- O senhor Maximiliano é a ponte entre o Céu e a Terra, papel que já coube um dia a outros. Não tenha medo doutor, aproveite e faça as perguntas que sempre quis fazer.

O médico sentiu afeto, devoção e admiração pelo moribundo, que parecia estar forte e feliz. Havia uma compaixão genuína e uma estranha empatia por aquele homem. Sentia um pânico moral, por isso foi sem rodeios nem subtilezas que fez a pergunta:

- Senhor Maximiliano, e não Maximiano como todos, há vida depois da morte? – E encostou o ouvido na boca do doente, entre o riso e o ar sério.

- Acontecem coisas, - respondeu uma voz vinda de muito longe, como o som do mar num búzio. – Não é preciso ter medo e com tudo o que isso implica. Olhe à sua volta e verá como tudo se altera constantemente. Deus é soberano, tem o Seu núcleo, o Seu tempo e o Seu espaço, a Sua vida é errante e solitária. O que pensa agora?

- No meu papel como médico.

- É assistir ao passar do tempo e das coisas. Vá ao fundo da consciência e descubra um sentido para a sua existência. Quem pensa que é?

- Sou parte da Natureza.

- As nossas ações não bastam para definir o nosso destino. O imponderável intromete-se sempre, subvertendo os acontecimentos, bastando um erro para que tudo se altere. As “ideias” que entram em cada corpo dependem do instante em que vimos ao mundo. Nada acontece por acaso, a genética está sempre presente. Esta é a vossa ligação com Deus.

- Livre Arbítrio com moderação, - disse o médico esboçando um sorriso e levantando a cabeça.

- Muitas vezes o que nos parece num determinado momento, pode não estar realmente ali mas apenas já ter estado, - exclamou o Paulo.

- É um Deus que não soube desistir, mesmo depois de o terem traído, castigado e morto, – gritou o médico, abrindo os braços e espreitando através da janela.

- E é único, – retorquiu Paulo Prestes com uma voz seca e lenta.

- Como eu e você! – Disse o doutor Preston em voz baixa, sorrindo para o paciente.

- Não doutor, isso não. Cada “ideia” que nos faz regressará um dia para dar origem a outra voz.

A conversa prosseguia, era agora usada a linguagem universal, o Mentino, de que o Demónio do Meio-Dia falara ao detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta. O médico estava tão animado que nem se apercebera que já não precisava de encostar o ouvido ao moribundo para o ouvir. O senhor Maximiliano explicou que Deus era uma cintilação física tumultuosa, era sombra e desafio, tudo Nele era o resultado de um esforço, de uma construção e de uma arte intuitiva, feitos com sabedoria e humor. Os projetos de Deus dependiam dos elementos que os constituíam. A Terra, conhecida por Leve, fora um falhanço porque, inesperadamente, tinham aparecido umas vedetas a proclamarem-se parentes e porta-vozes Dele, tendo a sua estupidez e incompetência causado muitos estragos.

- Doutor Preston, eu vejo pessoas mortas, – confessou o senhor Paulo Prestes, mostrando uma inquietante estranheza, ao mesmo tempo que lhe puxava o braço.

Estava mentalmente desgovernado, num limbo da vida, semiconsciente. Passou a utilizar uma língua estranha, incompreensível.

- Ele está a falar em sânscrito.

Dizia que a função do Diabo era sofrer e fazer sofrer, e nisto ele era assíduo e muito competente, pois praticava sempre todos os crimes disponíveis, ao mesmo tempo que mantinha uma aura de virtude, que o levava a destruir só quando tinha a certeza que Deus lhe iria perdoar. Era um especulador sem limites. Deus tinha os seus equívocos e dilemas, Ele era o cerne de um Universo único, que existia simultaneamente dentro e fora de nós.

- Se eu contasse a história da vida do detetive Narciso Baeta, vocês não iriam acreditar, – disse Paulo, abrindo muito os olhos.

- Está a delirar, – diagnosticou o médico.

O óbito foi confirmado duas horas depois.

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