sexta-feira, 1 de maio de 2026

45 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 6

 

45

Baluster

 

Cidade Tricúspica – tempo sem data

 

Caro amigo, encontrei de novo o velho Álhi, desta vez a discursar emotivamente para uma assembleia de esqueletos calmamente sentados num anfiteatro. Dizia-lhes em voz alta: 

- Antes ser louco por seu próprio critério do que sábio segundo a opinião dos outros!

- Essa já estamos fartos de ouvir, – gritou um dos presentes, um moribundo.

- E ainda hei-de dizer muitas mais vezes, até os teus amigos encarnarem. Já nem para os abutres servem!

Após a eloquente palestra que fazia inveja aos políticos que governaram os destinos do país, Zaratustra contou-me a história de Baluster, o maior sábio do planeta. Filho de uma família de agricultores dos Altos Rins, depressa chamou à atenção da aldeia onde morava. Aos 6 anos de idade projetou o sistema de captação de água da humidade noturna, resolvendo de uma vez por todas a crónica falta de água da região. Conseguiu uma bolsa de estudos e mudou-se para o Colégio Real na capital. Aos 19 anos completou o curso de medicina e especializou-se em manipulação genética. Individuo de boa formação moral, foi o responsável pelo aparecimento da chamada Geração dos Sábios, homens brilhantes que deram um grande impulso à medicina corporal. Mas, um acidente imprevisto, matou o Dr. Baluster, deixando sem rumo a universidade e o país. O grupo da Geração dos Sábios interveio e retirou vários núcleos das células do seu mestre, tentando assim fazer renascer Baluster. O projeto foi apadrinhado por toda a classe dirigente e dum momento para o outro três dos núcleos começaram a desenvolver-se. Um ano depois a Universidade Renal de Manipulação Genética era dirigida por três doutores Baluster. Foi nessa altura que as relações com o Coração se deterioraram, o que levou a monarquia cardíaca a cortar com os fornecimentos sanguíneos. Como resposta os Rins deixaram de reciclar os resíduos cardíacos, tendo estas medidas afetado enormemente as economias dos dois países. Os dois governos depressa se aperceberam da interdependência a que tinham chegado e rapidamente restabeleceram os serviços, mantendo-se a disputa ao nível político. E foi aí que os novos Baluster entraram em ação, através da manipulação genética dos seus inimigos. Equipas de ação entraram clandestinamente no território vizinho e conseguiram infiltrar variantes celulares nos organismos dos jovens cardíacos, através dos alimentos que exportavam. O cardíaco era um indivíduo naturalmente arrogante, mas muito trabalhador. Julgavam-se uma raça biologicamente superior e o seu comportamento já era genético. Quando as alterações se começaram a fazer sentir, a juventude do Coração tornou-se muito contestatária e violenta. Queriam viver unicamente de subsídios. O caos instalou-se na capital e só a pronta intervenção da polícia é que conseguiu restaurar a ordem. Mas por pouco tempo! A juventude estava corrompida e depressa contaminou a dos países vizinhos, pois as variantes celulares tinham dado origem a um vírus facilmente transmissível sexualmente. Mais uma frente de guerra contra os nossos adversários invisíveis estava aberta. E tudo isto devido a um sábio!

                                        

Do teu, Narciso

44 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 5

 

44

A Razão

 

Aurícula Direita - Tempo sem data

 

“ Hoje somos menos prisioneiros da natureza, mas somos mais prisioneiros de Lilith “. Um pensamento estranho que li escrito no tronco de uma árvore, aliás, da única árvore decente que encontrei até agora. “ Razão “, palavra mágica para todos, a mais poderosa arma alguma vez inventada. Por causa dela dividiu-se a população em duas partes: os senhores e os servos. Aos primeiros deu-se uma linguagem total, enquanto que aos segundos forneceu-se uma linguagem útil, suficiente. Era por isso que os políticos tomavam todas as decisões, pois alegavam que a população “ mal falava “. A monarquia cardíaca depressa divinizou a palavra e assim apareceu a deusa Razão, com as suas leis eternas e imutáveis, estendendo a todos o seu despotismo. No Cérebro, a ditadura perfeita, os indivíduos eram controlados desde a nascença, sendo dado a cada um um certo destino, útil à comunidade. Os bebés eram colocados em envolvimentos diferentes, para assim se transformarem em racionais e irracionais. O Estado decidia quem deveria pensar. Um dia apareceu escrito numa parede da Cidade Imperial do Cortex Occipital a seguinte inscrição: “ Tudo é pecado, sofrimento e morte – racionalidade para todos – EU, grupo de libertação “. O pânico embrenhou-se no poder! Afinal nem todos estavam controlados. Racionalidade para a escumalha?! Isto significava o desagregar dos neurónios, a destruição das unidades estruturais do Estado. Imaginem as unidades do Córtex Temporal começarem a produzir o mesmo que as do Córtex Parietal?

Foram enviadas brigadas de antibióticos para as zonas de potenciais conflitos, mas nada descobriram, pois o Eu era produto da imaginação duma população mentalmente doente. A crise era grave, como se poderia apagar um sonho coletivo, um enfarte populacional? Mais uma vez a deusa Razão atuou e decidiu que aqueles que conseguiam ler nas paredes brancas, estavam contaminados por uma terrível doença muito contagiosa, e só havia um meio para a combater, a destruição dos doentes. A população ficou com o poder de aniquilar os que mencionassem o Eu. A paz retornou ao poderoso Cérebro. O Estado, que se confundia com o poder, com o chefe, era representado por todos e por ninguém. Falava-se muito do rei, mas ninguém o conhecia ou o vira. Parecia que todos mandavam em todos, que uma engrenagem perfeita regulava a vida e a comunidade. Cada indivíduo nascia para uma função, era encaminhado e formado para ela, transmitiam-lhe as informações necessárias para o desempenho do seu papel. Nada mais lhe dava!

                  

  Do teu Narciso

43 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 4

 


43

No rasto de Lilith

 

Cidade Tricúspica - Tempo sem data

 

Caro companheiro de viagem do planeta Leve

 

Encontro-me na cidade sagrada, a menina dos olhos do rei Sistole II. Era um lugar imaginado por muitos e visto por poucos. Agora todos podem entrar e sair, as suas muralhas não passam de amontoados de pedras, cobertos por musgo e pela vergonha dos memohs. À minha frente as ruínas do majestoso palácio real parecem dar-me as boas-vindas, ao mesmo tempo que me avisam dos perigos existentes. Era aqui que se decidia o rumo do Corpo, as virtudes dos memohs e os vícios dos cardíacos. Quando a comida acabou, começaram-se a comer uns aos outros. Pela primeira vez a ordem social alterou-se e as classes inferiores passaram a ditar a lei, a lei da vida, pois eram organicamente mais fortes.

Tricúspica era quase uma lenda, muitos a reclamavam como terra sagrada, universal para os memohs, proibida para os outros. Diziam os adoradores que fora ali que Deus espalhara a Sua energia cósmica pelos cantos do planeta, dando origem ao Memoh. Mas como é que um Ser tão perfeito poderia ter criado um ser tão imperfeito? Deus começou a ser posto em causa! Os cardíacos bem tentaram argumentar, mas a discórdia estava instalada. Os sacerdotes recusavam a mudança, pois sabiam que com ela viria a sua desgraça. No momento em que as muralhas ruíram, a força de Deus desvaneceu-se e a discórdia dos memohs reinou. As massas de gentes em fúria tomaram de assalto os centros de vícios e durante uma semana o paraíso prometido por muitos tornou-se realidade e acalmou as hostes dos deserdados.

Acabei de entrar na sala sagrada, onde outrora se acumularam os inúmeros tesouros dos falsos profetas. Durante séculos e séculos foram acumulando as esmolas dadas pelos pobres de espírito, em troca do reino dos céus. A fome generalizada de povos inteiros não sensibilizou os poderosos tricúspides, alheios ao sofrimento dos outros. Quando as portas foram abertas o espanto calou a multidão durante algumas horas e todos recearam entrar. O brilho dos tesouros iluminou a noite e mostrou as caras aterrorizadas da assistência. Até os anjos choraram perante tal espetáculo, que lentamente despertou a assistência do seu longo sonho. E com a pesada fadiga nasceu um ódio terrível que ecoou por todos os cantos do Universo. O espírito do Memoh ficou vagabundo no caos, sentado em cima dos destroços do seu escusado milénio. A única marca deixada pelo furacão foi o trono cardíaco, vestígio dum passado desnecessário, imagem dum futuro a evitar. Por cima dele uma placa com dizeres: “ Alguém deve ser a causa do meu mal-estar...és tu mesma, Lilith os teus pecados são a causa do meu mal “. “ Pecado “, a palavra mais sublime para o maior negócio alguma vez feito no Corpo. Imaginem serem acusados de algo que nunca fizeram e terem de pagar toda a vida, para mais tarde serem absolvidos. E afinal o Tempo é circular!

A cidade Tricúspide fica situada no centro do país, sendo toda ela rodeada por muralhas. Um enorme portão controlava a circulação das pessoas, sendo necessário uma autorização especial para se poder entrar. Era um estado dentro do estado. O Coração não detinha qualquer poder dentro da cidade. O “amigo” de Deus, Helias II, era o dono e senhor de tudo e de muito mais. Dominava mentalmente metade do Corpo e especialmente os Rins, sua terra natal, não hesitando em lançar o seu povo contra o ditador que os governava. Helias II era um fanático adorador da mãe de Deus, uma estranha senhora que só tivera coragem de aparecer a três criancinhas vadias, condenando duas à morte e a outra a um encarceramento durante toda a vida. E no entanto dizia-se representante do Bem! Este acontecimento também rendeu muito dinheiro aos parasitas mentais. Poucos eram os que tinham acesso ao monarca tricúspide. Na altura da revolta ninguém o encontrou, sendo hoje talvez um dos perseguidos por Deus.

                             

 Do teu, Narciso