quarta-feira, 13 de maio de 2026

93 - A Miúda do Lenço (6)

 

6

Há um vórtice do destino à nossa volta que aumenta com cada uma das nossas escolhas, e modifica as sinas das nossas mãos.

Era um drama terreno com culpas cósmicas, que fazia com que as fronteiras formais não fizessem parte daquele espaço, cujas paredes do quarto há muito se tinham tornado no seu mundo. A solução do mistério iria ser insólita e complexa, com culpas abafadas ao longo dos vinte tormentosos anos do João, que fazia agora parte dos inquilinos do Instituto de Medicina Legal de Lisboa. O inspetor Bartolomeu abriu o processo que lhe tinha sido distribuído:

- Paralisia Cerebral, com tetraparésia espástica, Síndrome de West, grave deficiência mental…- leu . – E tudo por causa de uma anóxia.

A doença do doutor Matias estragou-lhe a vida e tirou-lhe os sonhos, fê-lo magoar pessoas, sem dar por isso. Ao princípio ainda conseguia saber quem era ao acordar de manhã. Quanto mais perdido se sentia, mais necessidade tinha de testar a sua identidade. Quando avançava para o presente a memória desfazia-se em cinzas, resistiu como pode ao seu avanço, que lhe apagava o discernimento e as linhas do rosto de quem o rodeava. Nem os autocolantes, agarrados como lapas às coisas, uma espécie de memórias externas, o salvaram do lento afundar no esquecimento de si e dos outros. O seu nome tinha todos os desvarios e todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências. Agora havia lentidão, a doença tinha abolido a ofegante velocidade de médico cirurgião, estava permanentemente à escuta, pergunta após pergunta, observava minuciosamente o mundo novo em que se hospedara, tentando sobreviver no meio das duas realidades, a dos outros e a sua, metido consigo, cansado, de voz apagada, com a alma entre as mãos, desiludido. Henrique estava a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando sempre encontrar um interruptor que acendesse uma luz, no meio de uma memória alucinada e lúcida. Por vezes conseguia-o, mas era sempre por breves instantes, sinal de que o tempo se fazia e desfazia, assim como a sua história. Chorava. E muitas vezes a mulher, via-o chorar. O discurso estava cheio de curvas e por isso pedia muitas vezes ajuda para o ar. Até onde é que continuava a ser ele mesmo? Até onde é que aquele rosto do espelho se afastara por causa da doença, que o atingira tão novo? Qual a fronteira a partir da qual o “eu” passava a “ele”? Não conseguia avaliar o que os outros começaram a ver nele, emoções espontâneas e muitas frases soltas, de alguém que estava encostado à vida, a agarrar com força as suas paredes, mas sem fazer parte dela, sem senti-la. Estava a cair abruptamente num pesadelo que nunca agendara para a sua vida, porque não conseguia safar-se fora do seu mundo mental derrotado.

Sem comentários: