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Havia nele uma inquietação, não se insinuava qualquer linha de fuga imprevista, estava num estado de insanidade porque tinha tomado consciência da humilhante situação a que chegara. Os segundos passaram um a um. Tornou a olhar para o espelho e reviu o velho patético cheio de rugas e cabelo de caniche que estava diante de si, e não fez um gesto, não disse uma palavra. Sentou-se num cadeirão e tornou a observar o seu reflexo.
Olhou para umas fotografias penduradas e disse uma frase feita para ocasiões como esta:
- As fotografias são ironicamente…(e olhou para a cábula) impermanentes, capturam um momento perfeito no tempo. Uma pintura captura a eternidade, - e mostrou um dos quadros.
A mulher de pernas longas olhou para a pintura e viu que se assemelhava àquelas com que a revolução umas décadas antes decorara os muros do país. E o Carlos mostrou mais.
- Lamento, mas não se enquadram com o tema da exposição que pretendemos!
A verdade revelou-se insuportável. Estava com os olhos no chão, com um vazio na alma e a incerteza absoluta no dia seguinte. Para ele o amor era um lugar estranho em que o tempo era medido pelo número de namoradas, pertencia a uma casta incapaz de navegar em espaços não analógicos, já não via as coisas mas o espaço em volta delas e por isso sentiu que os seus sentidos estavam a perder a unidade, a sombra escura nos seus olhos luminosos mostravam que o sentimento era carnal. Era uma das mais sérias crises de dimensão psicanalítica. Olhou pela janela e viu um sol branco. Reviu-se na sombra de uma árvore centenária. Estava sem nenhuma perspetiva de integração, a palidez da pele do homem sem rosto não deixava dúvidas de que já não havia um pingo da pouca razão que os genes lhe tinham dado. Saiu da casa e viu a sua sombra passar por si arrastando os pés pelas escadas. Sonhou com palavras, imagens e cores de um tempo que nunca existiu, onde uma mulher emergia súbita e gentilmente da leveza do ar, lhe sussurrava ao ouvido com frases que corriam, paravam, recuavam, avançavam, desapareciam e reapareciam.
-Boa tarde – exclamou, sem sentimento, com uma voz típica das garrafas de vinho.

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