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“Se ninguém me pergunta onde está Lilith, eu sei. Se me perguntam querendo que eu explique, não sei.”
Demónio do Meio-Dia
O mais célebre motorista do Universo
O Sol já há muito se levantou e ilumina agora, com orgulho, a cidade Nódulo, o centro mundial monetário. Aqui se fabrica a mais forte moeda do planeta Corpo, a coronária. Os altos edifícios alinham-se com precisão ao longo da vasta avenida Helias I. A Companhia de Transportes de Glóbulos Brancos mostra, vaidosa, o seu emblema, que ocupa toda a frontaria do edifício. Miguel caminha a passos largos para a paragem das camionetas.
Esta talvez seja a sua mais importante missão, pois à partida parece estar tudo perdido. Ontem recebera um fax do Ministério das Relações Exteriores, informando-o de que tinham conseguido estabelecer contacto com um dos representantes do grupo de terrorismo Cancro. Com a carta veio uma ordem de partida e as instruções. Vai somente recolher informações e nada mais. O Cancro é constituído por um grupo de guerrilheiros das terras baixas, muito ativos na Perna Direita, controlando dois terços do país. Pretendem derrubar o governo, destruir o Estado, para depois erguerem uma nova sociedade. Para eles as cidades de nada servem, unicamente tornam o Memoh num alienado e inútil. O único serviço que os indivíduos devem prestar à sociedade é cultivarem a terra. A família é também outro dos malefícios. As crianças devem ser separadas das mães desde muito cedo e entregues aos cuidados do Estado. Bastarão cinco gerações para a revolução triunfar e se eternizar.
- Fanáticos, não passam de alienados, – diz Miguel em voz baixa, entrando no autocarro que indica “ Crossa da Aorta “ como destino.
Senta-se na última fila de cadeiras, pendura o blusão verde e abre a pasta que lhe foi dada pelo senhor de cabelo branco, que se encontra sentado junto ao motorista. Retira uma carta com mais informações acerca da missão e fica unicamente a saber que na Crossa da Aorta deve apanhar outra carreira para “ Mais Alta “. Esta aldeia está ligada à lenda de Octávio, o detentor da verdade. Segundo contam, este santo teve um contacto com alguém de outro mundo quando tinha sete anos de idade, e se encontrava a pastar as ovelhas do seu avô. A inesperada e assustadora visita disse à inocente criança que lhe iria contar a verdade acerca do futuro do Corpo, tendo ele depois como missão divulgá-la. Octávio ouviu com muita atenção e no fim do dia contou a aventura ao avô, que a transmitiu à noite na taberna, sob o efeito dos vapores de álcool. Como era de esperar ninguém acreditou! Mas como os céus não brincam em serviço, o dia sobrepôs-se repentinamente à noite, confirmando assim a mensagem da criança e deixando o povo em pânico. A notícia depressa se espalhou e Octávio e a aldeia Mais Alta tornaram-se nos símbolos sagrados do país, responsáveis por milhões de peregrinos, que tornaram os pacatos aldeões em prósperos e gananciosos comerciantes, conseguindo assim influenciar o pensar de vários povos.
Um solavanco trá-lo à realidade, apercebendo-se de que tinham saído da cidade e começavam a subir para a Crossa da Aorta. Passam agora junto ao Real Colégio Militar e o agente secreto da monarquia cardíaca, Miguel Pheidão, recorda o passado. Aos dez anos entrou para aquela instituição, onde permaneceu durante seis anos. Aprendeu dois valores fundamentais: fidelidade e camaradagem. A fidelidade ao rei é e será sempre total, a missão para que foi incumbido será totalmente cumprida, e os seus camaradas nunca serão traídos. Mas o mais importante que aconteceu passou-se no segundo ano dos estudos. Até lá não dizia palavras obscenas por temor da justiça divina, até que um dia resolveu libertar-se da Sua tirania e gritou bem alto o vocabulário que estava guardado no fundo dos abismos da alma. E Deus não o castigou! Descobriu então que tudo era falso e só Deus é que conhecia Deus. Um novo solavanco chamou-o de novo à realidade. O autocarro acaba de parar no cume. Miguel Pheidão sai calmamente, espreguiça-se e observa o espectáculo. Em baixo, ocupando toda a vasta planície, estende-se a Crossa da Aorta, a “capital” do Corpo, a cidade de todas as raças e onde circulam todas as moedas. O movimento é frenético, os tempos são muitos, as pessoas ocupam todos os espaços e todas as direcções, e até os ventos se misturam com as ideias para formarem castelos de nuvens, que descansam suavemente nos telhados verdes das vivendas, que serpenteiam pelas encostas. Ao fundo, descendo suavemente por um trilho poeirento, uma camioneta centenária acorda toneladas de pó, que se precipitam desastrosamente para a colorida planície. Miguel Pheidão ainda tem tempo para se proteger atrás do sinal da paragem, pois uma das rodas vem adiantada em relação à máquina, que chega alguns minutos depois. A porta da frente abre-se com estrondo e com a ajuda das botifarras do condutor.
- Ó amigo, é esta a carreira para a aldeia Mais Alta?
- Amigo!!? O senhor conhece-me de algum lado para eu ser seu amigo? Trate-me por senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, senhor...
- Pheidão, Miguel Pheidão.
- Miguel Pheidão!?? Que raio de nome, os seus pais de certeza que não gostavam de si, – diz o motorista rindo-se para trás, sendo acompanhado em coro pelos passageiros.
- Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua?! O seu nome não me é estranho. Já o ouvi em algum lugar.
- Sou conhecido em todo o Universo. Até Deus já me pediu boleia quando quis ir buscar o filho a Leve! Mas entre rápido pois o tempo não está para retóricas, vamos mas é todos a sair porque está na altura da palestra, – ordena o motorista, bloqueando a entrada ao novo hospede e abrindo, ou melhor, deixando cair a porta de trás com estrondo, provocando a queda de uma velhota e da sua respectiva dentadura, que fica a reclamar em cima de uma bosta.
- Malditos anjos-selvagens, só sabem é conspurcar o Universo. Ai se eu fosse Deus! - Reclama o motorista mais célebre.
A multidão sai apressadamente e forma um pelotão em marcha forçada.
- Ponha-se na formatura, senhor Miguel...Miguel Pheidão (risos). Já sabem que para poderem viajar na deusa, – e aponta para o ferro-velho ambulante, – têm de ouvir as minhas sábias palavras de cinco em cinco quilómetros.
Um trovão, de mão dada com um ensurdecedor raio, rasga os céus e faz precipitar um dilúvio.
- Não liguem ao S. Pedro, ele gosta de brincar com o povo, mas o povo é sereno e já não é estúpido, e quem não se deixar enganar pela Natureza não se molha, – grita o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua elevando os braços, ao mesmo tempo que todos os elementos do pelotão abrem os seus coloridos guarda-chuvas. - Já vi que aprenderam as minhas lições, pois mais vale prevenir do que remediar. Senhora Otélia-Perna-Curta, aproxime-se de mim e proteja-me da chuva.
Por momentos, só o barulho da tempestade se faz ouvir.
- Os habitantes do Corpo já descobriram que os deuses estão dentro deles. A Lei morreu, a Democracia não existe, o Memoh é ditador por natureza e as suas leis só servem os poderosos. Declaro que a partir deste momento sou o mais livre dos seres do Corpo.E agora todos lá para dentro porque tempo é dinheiro.
O transporte colectivo arranca, após um barulho aterrador que sai do seu tubo de escape em forma de barbatana, e lança-se vertiginosamente por um dos montes acima. O Sol já se levantou há muito tempo e parece estar agora a ficar cansado, pois está a deixar cair as sombras pela região. Algumas palestras depois chegam finalmente ao destino.
- Bem-vindos à aldeia Mais-Alta, ao sítio abençoado por Deus e negociado pelos negreiros das almas.

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