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- Isto é verdade? – Perguntou o Fernando com o olhar de frente e com a mão esquerda dentro do bolso, virando o écran do telemóvel para o Miguel.
O hóspede nem queria acreditar, o tio não se limitara a jogar o Tetris, tinha ido ao calendário onde o sobrinho assentava alguns factos, passados e presentes, relacionados com a família, para depois os divulgar no grupo do WhatsApp da “Família Miranda”. Leu:
“Tio Mário suicidou-se no dia 6 de setembro de 1967, às 10H30, no Hospital de Santa Maria de “fratura do crânio com laceração de encéfalo. Faz hoje 56 anos”.
Já era médico, como o pai, e apercebendo-se da sua situação, pediu ajuda a um colega do Hospital Júlio de Matos, que o internou num primeiro andar, sem grades. O relato deste facto foi feito pela Adelaide, a fiel criada de Maria da Glória que sabia dar injeções, o menino Mário ensinara-a, que a acompanhou em casa até ao fim, tendo por isso abdicado de vida familiar, sendo depois compensada pelo Jorge e pelo Victor, como forma de agradecimento à sua fidelidade e dedicação, e pela tia Fernanda, mulher do Víctor. Duas versões para um só incidente. Um estado psicótico tinha despoletado o salto através da janela, e a versão oficial teve de coloca-lo noutro cenário. Enfim, nada deveria ser alterado, dizia o bom senso.
Antes que tivesse de dar uma explicação pouco plausível, foram interrompidos pelo chamamento do dr. Mário de Miranda:
- Fernando, vamos começar a cortar o castanheiro.
O rapaz precipitou-se para o andar debaixo e saiu furioso pela porta da cozinha, indo no encalço do pai.
- Esse castanheiro foi plantado em memória do Gonçalo Cardoso, o primeiro proprietário desta quinta, no dia 2 de janeiro de 1611. Vai serrar uma árvore com mais de trezentos anos.
- Tu vives no mundo da Lua, é com a madeira dela que vou continuar a pagar os estudos dos teus irmãos, e ajudar-te nas viagens que planeias fazer.
Miguel reparou que o tio Fernando contava as pedras do caminho à medida que seguia o pai, esfregava a cabeça, ficando cada vez mais despenteado, num intenso diálogo interior, discutindo com outra pessoa que se instalara dentro de si. Pararam junto ao chafariz velho, nome no ano 2023, uma represa no ribeiro do Alambique, a Poça do Redondo, nome de 1949, onde dois homens puxavam alternadamente uma serra comprida, que ia calmamente sacrificando a majestosa árvore. Mais afastado, e com uma corda na mão, amarrada estrategicamente no topo do castanheiro, para dirigir a queda, estava outro lenhador.
- Acha que aquele homem é suficientemente forte para conseguir puxar a árvore? – Perguntou o Miguel ao avô.
- O Custódio é um touro, leva pipas sozinho para a adega.
Mas nem houve tempo para mais falas, contra todas as previsões, por ter parte da base já envelhecida, o castanheiro vingou-se e caiu desamparado para o lado do chafariz, só havendo tempo para o neto empurrar o avô. Todos fugiram, exceto o hóspede, que desapareceu no meio da copa.
- Miguel, Miguel, - gritou o médico, levantando-se e correndo para a árvore tombada.
O som foi tão alto que chegou aos campos vizinhos, o povo largou as ceifas dos milhos, correu de tamancos nos pés, passaram por relvas, ribeirinhos, malmequeres flores de trevo e mimosas em flor, sentindo o cheiro da terra e do pinheiral, ao mesmo tempo que os melros gritaram do alto dos choupos.
- Meu Deus, que desgraça, - reclamou uma voz feminina.
- Este hóspede do senhor doutor era muito esquisito, - retorquiu a Henriqueta Virgínia, caseira da quinta vizinha. – A Lurdes contou que não era deste tempo. Ouviu umas conversas estranhas entre ele e o senhor doutor, dizia que era filho do menino Jorgito.
- E Deus não permite coisas destas, - acrescentou a Emília do Crispiniano.
Miguel viu-se em frente de um senhor já com muita idade, sentado num cadeirão, com uma criança a correr à sua volta:
- Este miúdo é enfadonho.
Olhou para o telemóvel e leu 1934. Era o sogro do avô, Rodrigo Cardoso Brochado, 80 anos, e o rapaz o pai, com 8 anos.
- O petiz nasceu com bicho carpinteiro.
Na primária a Dona Clotilde, da Escola Pública de Campelo, teve dificuldade em ensinar-lhe a resolver problemas elementares de matemática, por isso recorreu muitas vezes ao tabefe. O pai do Miguel estava imparável, cavalgava a todo o vapor em volta do velho, que tentava pará-lo com a bengala, mas ele era esquivo. Miguel lembrou-se que também tinha tido dificuldades a matemática, e o pai também tentara resolver, sem usar os métodos da Clotilde, que o traumatizaram, recorrendo a saídas intempestivas do quarto, avisando que não o deixaria sair para brincar enquanto não acabasse com sucesso a tarefa. Nessas alturas o Miguel recorria a métodos radicais, dar murros na própria cabeça, tentando com isso estimular mais neurónios, e como não resultava, ameaçava Deus com o fim da parceria. Riu-se! Depressa passou para os anos noventa, e viu-se dentro do Citroen GS, com a mãe a dormir no lugar do morto, o pai a conduzir, rumo a Amarante, com destino à Quinta de Palmazões, no banco de trás iam dois leitões, os sobrinhos Guilherme e Mariana, em estado alucinado, distribuindo abrunhos ininterruptos na cabeça do avô Jorge, que respirava fundo, num esforço para manter a cabeça fria. Mas um calduço digno de um campeão, aviado pelo seu netinho de oiro, precipitou tudo. Os músculos do corpo contraíram-se em espasmos reativos, ficou ofegante e atingiu a exaustão. Incendiado pelo fogo do estaladão, o Jorge disparou o braço direito para o banco de trás, tentando meter os dentes para dentro ao prevaricador, trazendo o membro esquerdo no encalce do direito, e com ele o volante, embicando o Citroen para a berma, que começou a trepidar quando pisou o risco de segurança, acordando a Dona Lourdes que, sobressaltada, gritou:
- Mas que disparate é este Jorge?
- Não salte doutor Mário, não salte, - gritou alguém num quarto de Hospital, atrás de um paciente com um pijama branco com riscas azuis, que se dirigia para uma janela.
Miguel olhou para o telemóvel e viu que estava agora em 1967.
- Tio, tio, gritou, - correndo atrás dele.
Mas só conseguiu tocar nas calças do pijama quando o jovem médico já se precipitava no vazio. Ouviu o barulho seco dum corpo a bater no pavimento dum pátio. No exterior ainda ouviu as últimas palavras do moribundo, que olhava fixamente para ele:
- Tu? Aqui?
Estava agora numa casa de banho de um palacete arruinado, onde a mãe tentava desesperada encontrar algo para limpar, de novo, o rabo da pequena neta Mariana que despejara mais um inesperado cagalhão na altura em que já utilizava o bidé. Embrulhou o dito numa toalha de linho e atirou-o para a banheira. A visita ao primo Afonso, também conhecido por “Penas Podres”, que morava na Casa do Fundo da Vila em Quintela, não estava a correr de feição, os proprietários tinham recebido o general Jorge com uma decoração digna de um príncipe, mas os seus netinhos também tinham “bicho carpinteiro”, e insistiram numa luta de pão na altura do lanche, que fez com que a anfitriã agarrasse no bule de porcelana da trisavó e o levasse para um lugar seguro, ao mesmo tempo que lançava um grito de raiva:
- Chiça, deixa-mo tirar daqui antes que estes o partam!
- Tito, meu querido filho, toma, - disse uma mulher entregando uma cesta a um jovem rapaz.
- Mãe, eu já não sou uma criança, tenho 18 anos.
Estava no porto de Lisboa, e o telemóvel indicava o ano de 1918. Tito? Procurou informações no documento Word e:
- Tito Soares de Miranda! – leu em voz alta.
- Quem me chama? – Perguntou o rapaz voltando-se para trás.
Miguel levantou o braço, e sorriu para ele.
- Qual a vossa graça?
- Miguel, Miguel Miranda!
- Miguel Miranda? Não conheço!
- Também nunca ouvi falar de algum Miguel – reforçou a mãe, sem nunca largar o filho.
Albertina Augusta de Miranda nascida em 1880, irmã do avô Mário de Miranda, que se casou com Joaquim Soares Ribeiro, e teve cinco filhos, o Tito, mais velho, a Maria Célia, o Mário, o Júlio e a Maria. O pai era inspetor da Instrução Primária de Ovil, e muito violento para este filho, por isso ele estava em fuga para o Brasil.
- Boa viajem Tito, vai tudo correr bem. A tia não se preocupe, ele vai voltar.
- Tia?
Tito só regressou a Portugal depois da morte do pai, e em 1932 era comerciante no Rio de Janeiro e correspondia-se com o tio Dr. Mário de Miranda.
Miguel reparou que estava na escadaria de uma estação.
- Rossio!
Olhou para o telemóvel e leu 3 de agosto de 1945. Riu-se! Não foi preciso esperar muito até reconhecer o pai, um rapaz de 19 anos. Abordou-o quando o viu parar a meio da escadaria.
“Quando cheguei à estação do Rossio, de dia, teria de aguardar uma ou duas horas pela partida do comboio que me levaria a Sintra. Neste intervalo de tempo poderia sair e espreitar Lisboa. Mas, é uma vergonha dize-lo, não tive coragem. Ainda comecei a descer as escadas que me levariam à rua, mas … os lanços eram tantos que cheguei a meio e desisti. Sentia-me inseguro, fora do meu ambiente.” (Jorge, 2006)
- Cadete Jorge Miranda? – Perguntou.
Virou-se, e por alguns segundos ficaram a olhar um para o outro. O pai fez-lhe um olhar de alto a baixo, terminando num sorriso decisivo. Ouviram o som do vento a bater nas copas das árvores, e sentiram um reluzente sol de raios pontiagudos.
- Cadete? Ainda não sou nada. O senhor é da Base Aérea de Sintra?
- Irá ser, sim sou da base – inventou o filho. - Enviaram-me para lhe mostrar Lisboa nestas duas horas de espera pelo comboio que o levará ao destino.
- Qual a sua graça?
- Miguel Miranda, relações públicas da Quinta da Granja, - respondeu. – Vamos tomar um café à Pastelaria Suíça, uma oferta da base.
- Miranda? O mesmo apelido. Tenho de ir buscar a mala.
- Porque é que não a guardou no dispensário?
- Poupar dinheiro, não me posso dar a esses luxos.
“Perguntei para que lado era a Base e como se ia para lá. A pé ou de táxi. Escolhi a primeira modalidade uma vez que não podia dar-me ao luxo de pagar a segunda. A distância não era grande para um jovem na flor da idade habituado a andar a pé (uns 6 Km) não fora eu levar uma mala que tinha uma dimensão apreciável pois continha os pertences necessários para os dois meses e meio previstos de estadia.” (Jorge – 2006)
- Eu espero.
Apareceu algum tempo depois a arrastar uma enorme mala.
- Cuidado, ainda rebenta a pega!
“E ainda mal tinha percorrido as primeiras centenas de metros partiu-se-me a pega. Não tive outra solução senão pôr a mala às costas, e foi assim que franqueei o portão da Base Aérea da Granja do Marquês, em 3 de agosto, uma hora e meia depois.” (Jorge, 2006).
O pai encheu o peito de ar e marchou, decidido, ao lado do filho que tinha os olhos rasos de água, queria dizer-lhe coisas proibidas pelo tempo. Miguel ajudou-o no transporte. Na pastelaria havia um grande movimento, todos olharam para o filho do Jorge, vestido de uma maneira estranha, as calças de ganga ainda iriam demorar a aparecer. O pai envergava um fato escuro, camisa branca e gravata preta. Sentaram-se na esplanada
- “Loja das Meias”?
- Depois vamos lá ver as montras. Ainda compra umas meias de vidro para a sua namorada em Amarante – provocou Miguel.
- Não tenho dinheiro para esses luxos. Uma namorada sai caro!
- Não tem namorada?
- Não tenho tempo para namoros.
- Talvez daqui a seis anos conheça a filha de um comandante.
Riram-se! Miguel reparou na borbulha do pai no nariz e lembrou-se da carta que o avô lhe iria mandar daqui a três dias, em que referiria a sua preocupação com ela e com o gânglio do pescoço, recomendando-lhe para pôr creme.
- Ponha este creme nessa borbulha, - disse o Miguel dando-lhe uma bisnaga.
- “Fucidine”? A borbulha nota-se assim tanto? O meu pai é médico e receitou-me esta “Banha da Cobra” – e mostrou o boião
- Nota-se e não é de bom tom aparecer numa base com uma penca dessas, as miúdas irão reparar logo, e não são de pencas grandes que elas gostam. Esta veio da América.
- Da América?
- É receitada para os pilotos.
O jovem Jorge riu-se e guardou-a. Miguel também reparou que o pai já tinha alguns cabelos brancos, e isso fê-lo lembrar da resposta a uma carta que recebera em 1985, na altura em que tinha sido nomeado para um alto cargo no Estado, da irmã Dulcídia, dos tempos no Colégio de São Gonçalo em Amarante, que o vira na televisão e o reconhecera.
“O cabelo me começou a branquear logo que entrei na casa dos 20” (Jorge, 1985).
Contra todas as impossibilidades, Miguel saiu ileso debaixo da árvore, e só ele reparou que conseguira passar através do enorme tronco que caíra sobre si, sinal de que era apenas uma ilusão e não um parceiro no fluxo eterno, tal como todos da família, tal como todos no mundo. Afinal a realidade não impedia mudanças e paradoxos.
- Milagre, milagre, - gritaram as vozes femininas, benzendo-se.
Nem o Miguel, nem o avô Mário, sabiam dos conceitos da “sobreposição” e do “entrelaçamento” que diziam que no Universo todas as coisas existiam em todos os tempos e lugares. Teria o viajante sido replicado pelo telemóvel, e o seu “espírito do cérebro” transferira-se para o aparelho na Igreja de Gestaçô, e permitira a passagem da membrana do tempo? Ouviu-se um toque, era um aviso duma mensagem que informava o cliente da chegada da encomenda na loja Worten do shopping Oeirasparque.
- Será mesmo meu sobrinho? – Questionou-se o Victor que assistira a toda a cena.
Alguém vindo do futuro era uma ideia que parecia impossível, mas a queda da árvore explicou o que o tio Victor vira, por isso a ideia tornava-se cada vez mais plausível. O dr. Mário de Miranda apareceu a correr e abraçou o neto. Miguel viu um carro puxado por bois cheio de canas com maçarocas de milho, dirigido por um homem novo envelhecido, que calçava tamancas pretas, e no seu encalço vinha uma resma de crianças, tudo meninas, descalças e deslavadas, colecionando feridas, os dedos pintados de nódoas negras e as plantas dos pés repletas de rasgões. Reparou que as mulheres tinham os olhos cheios de lágrimas. Levantou o chapéu e cumprimentou o patrão. A cena iria repetir-se vinte anos depois, numa das visitas à avó Maria pelo Natal, com o senhor Agostinho e a sua prole de filhas, também descalças, a passarem em frente aos netos da patroa, filhos do Jorge. Miguel sabia que a vida iria ser ainda para muitos, durante muito tempo, feita de miséria.

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