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- O que é que estamos a fazer aqui? – Perguntou Quitéria, agora noiva, uma ave pequenina na sombra do seu amado, sempre a apagar-se perante ele, a cuidar dele, a descuidar da relação, com o olhar a vaguear sobre a sala.
Quitéria olhou em redor e viu as pessoas desfocadas, sentiu o odor a sovaco do Filipe, que lhe evocou paisagens sentimentais do subconsciente desfolhando as páginas da intimidade. Os olhos alargaram-se num longo sorriso e causaram-lhe uma brusca emoção, que a fizeram viajar no tempo, dentro dela. Tinha prazer da imobilidade. Ouviu um bebé a chorar e procurou a Amélia, sua vizinha e mãe de seis raparigas, a Isabel, a Maria de Lourdes, a Rosalina, a Graça, a Arminda e a Maria Adelina. Seria mais um filho desta última? Abandonara um numa escada dum prédio em Cascais, e outro no meio das ervas da quinta do Leacoke. A noiva vinha em equilíbrio instável com uns sapatos brancos, desafiando a horizontalidade do chão. Todos os presentes sabiam que iria haver momentos de enorme tensão, havia gente irrequieta a espreitar atrás das colunas, pois o casal necessitava sempre de uma boa pinga para poder suportar o sofrimento da vida, que os tinha tornado incapazes de escapar ao ritmo daquele tempo sem tempo. A igreja também não era o lugar de apaziguamento para as feridas da alma. Quando olhou para a mesa da comida, a noiva reviu-se na barraca a ser alimentada à força pelo seu noivo, com uma colher de pau que lhe arranhava a garganta, porque num tempo e numa parte do mundo em que gordura era sinal de formusura e de saúde, a brutalidade fora até onde devia ter ido, as fronteiras da crueldade do amor eram inimagináveis. O seu olhar cruzou-se com o do Paulo, que mexeu os dedos e ensaiou um sorriso. O fato era bonito. Veio-lhe à memória o passado deste rapaz sofrido, viu-o sentar-se no banco comunitário na Terrugem de Cima, a levantar-se, a ir espreitar a um dos cantos do prédio, com medo das vozes do pai e da mãe com quem mantivera relações difíceis. Ela fugira com um polícia, deixando para trás uma meia-dúzia de filhos entregues à sua sorte. Mesmo assim esta mulher fora a mais importante da vida do Paulo, porque ele recordava os momentos em que estiveram juntos, de mãos dadas a ver os patos no jardim da Avenida. Mas tudo acabara e agora a voz da mãe dizia que estava farta dele. O Paulo tinha medo, nestas alturas punha as mãos na cabeça para estrangular a voz. Lembrou-se também das batatas fritas “Cristal”, da dona Mariana e do senhor Perez. Os olhos de Quitéria refletiam as paixões do percurso de vida, dos pequenos encantamentos pessoais. Era uma mulher sem lugar de abrigo, sem hipóteses de normalidade e de paz, seja lá o que isso fosse. Foi por isso que olhou para o anel no dedo indicador esquerdo, marcado pela pequena história, uma oferta do seu Filipe comprada numa barraca no último dia da feira de verão da vila. Lembrou-se do foguetório à meia-noite na Praia Velha, e dos gritos que deu quando os foguetes rebentavam no céu, abraçada ao seu amado, que prometia protege-la eternamente. Na cerimónia estava gente do passado e do presente, que revelara uma face desconhecida da vila, uma comunidade unida. Quitéria e Filipe tinham unido velhos e novos. Percebia-se pelos rostos de todos que estavam perturbados, cada um pelas suas razões, embora outros parecessem sobretudo entediados, ausentes daquele ritual religioso, em que muitos participavam por hábito. O mundo de Filipe e Quitéria era um cruzamento instável entre angústias e a vida desinibida e infeliz. O sacerdote era o homem mais aterrado de todos, por isso começou por enveredar pela valorização do sofrimento, mas Deus parecia tão distante daquele casal. O tempo era a teia eterna de Dele, tinha fios que se estendiam através doas eras, onde o mais leve toque enviava vibrações que ecoavam no Céu. E hoje elas não paravam!

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