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O amanhecer acordou bem disposto, espalhando pela região uma luminosidade radiante, embora um pouco fria. Os quatro sobreviventes da missão “ Novo Olhar “ levantaram-se cedo e estão a ultimar os preparativos para mais uma viagem. Descobriram ao longe umas formações rochosas que parecem ser muralhas, sinais de que o destino está próximo. Os motores da “ Carraça “ já rosnam, o radar principal voltou a estar operacional e o engenheiro de sistemas Paulo Prestes acaba de se sentar aos comandos do veículo.
- Há problemas no sistema de refrigeração, – informa a engenheira Rita Bouvalier. - Temos de avançar com precaução e parar caso a luz de aviso acenda.
- Penso que o computador central resolverá rapidamente o problema, – diz o co-piloto Narciso Figueiredo Baeta.
As portas laterais são fechadas, o ruído aumenta e a “ Carraça “ põe-se lentamente em movimento.
- Já repararam que o radar acusa a presença do Piolho-Um em órbita do Corpo-Dois! - Exclama Rita.
- Agora tudo é possível, – diz, com uma voz rouca, John. - Os nossos sentidos estão embriagados, não sabemos o que é real e o que é fictício.
A viagem decorre sem incidentes, descendo a estrada que serpenteia pelas montanhas de várias cores, pois cada um dos ocupantes tem uma opinião diferente:
- A cor amarela das árvores é lindíssima, – diz Rita.
- Amarela?! É tudo azul! - Exclama Paulo.
- Azul!?! Amarelo!?? Cor-de-rosa, algum maluco andou a despejar aqui as latas de tinta que tinha no sótão. Poluidor! - Interrompe John.
- Fiquem com as cores que quiserem, que o meu encarnado ninguém me tira. Parece que as montanhas estão em fogo! - Grita Narciso, chorando emocionado.
Após a curva apertada, aparece uma enorme porta a barrar o caminho.
- Está fechada!
- Está alguém ali.
No lado inferior direito uma outra porta mais pequena está aberta e um vulto olha, imóvel, para os recém-chegados. Paulo tenta abrir a porta do seu lado e:
- Não consigo, está encravada.
- Deixa-me tentar, – diz Rita. – Não, também não consigo. Saímos pela porta do meu lado, – e roda a maçaneta. – Não, esta também não abre.
- Eu vou conseguir sair.
Narciso levanta-se, puxa a alavanca e a porta abre sem problemas.
- Eu também vou!
- Não venhas John, não vais conseguir.
- Então tu sais e nós não!??
- Há quem seja o preferido de Deus!
- Não brinques, não é altura para isso. Estamos colados aos assentos, algo nos obriga.
- Peguem nos binóculos e vejam quem está na porta.
Incrível! O vulto não é mais do que o coronel Narciso Figueiredo Baeta, ou melhor, um sósia.
- John, esta é uma das entradas da banda 2 do espectro, – esclarece o co-piloto. - Temos um tesouro nas mãos.
- Mas como é que tens tantas certezas?!
- Eu também fiz parte do projecto “ Tempo Novo “, não contaste tudo, John! Todos nós, direta ou indiretamente, estamos ligados a isso. Quem está ali é a minha imagem, e atrás dela estão as vossas. Para entrarmos no “ Tempo sem Data “, elas têm de sair, é a nossa segurança, é a segurança de Deus, Ele fez clones de todas as espécies.
O coronel aproxima-se da porta e a sua imagem sai e afasta-se. Quando se cruzam o original pára, obrigando a cópia a fazer o mesmo. Sorri para o seu clone e tem como resposta também um bonito sorriso.
- Felicidades amigo!
- Sedadicilef ogima !
Enquanto ultrapassa a porta, cruzando-se também com outra engenheira Rita Bouvalier, o seu sósia entra calmamente na “ Carraça “. Um a um, os outros três fazem a mesma troca, e algum tempo depois a porta fecha-se, ficando no lado de dentro os originais da tripulação do Piolho-Um e no exterior, na “ Carraça “, os seus clones.
Na Nuca da Eva, Helias II recebe uma informação:
- Majestade, eles acabaram de entrar!

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