terça-feira, 5 de maio de 2026

58 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Diário de bordo da nave Piolho-Um - Dia 4

 


58

Os tempos são de angústia e tristeza, há decisões que são muito difíceis de tomar, mas desta vez não foi necessário perder horas para escolher o caminho certo. O Piolho-Um levantou voo sem problemas e a acoplagem ao módulo que estava em órbita, decorreu normalmente. Se Deus quiser já estão mais perto de casa. Quanto a nós, estamos prontos para iniciar a viagem sem regresso. Pela primeira vez choveu, fomos abençoados, e isso deu-nos uma grande esperança, o estado de espírito é grande.

A noite foi longa, vi pela primeira vez o rosto do meu pai, esteve ali naquele grande ecrãn a contar a sua aventura e a grande farsa que a História registou. A nave que pilotava sofreu danos à entrada da atmosfera do Corpo-Dois e os pára-quedas de emergência foram acionados. Ficou à mercê dos ventos e acabou por poisar na região da Nuca. Informou o Centro de Comando da sua posição e eles limitaram-se a dizer-lhe que a missão “Universo Nosso” tinha terminado e as transmissões foram encerradas. Abandonaram-no, para os senhores malditos do Coração a Nuca era território interdito e amaldiçoado pelos deuses. O major Clemente Bouvalier descobriu então que a cidade que estava à sua frente não só era divina, como albergava seis frondosas deusas, que lhe deram guarida e amor. Deméter, Afrodite, Circe, Ártemis, Perséfone e Vesta, eram os nomes destes anjos protegidos por Deus. Contaram-lhe que estavam no Corpo-Dois, cujo nome é Eva, para tentarem fazer a aproximação a Adão, o Corpo. Este tinha sido concebido por Deus para carregar pelo Universo o Memoh, a única espécie que não conhecia o Mentino, a linguagem do Cosmos. Das regiões centrais de Adão, Deus retirou uma parte e fez Eva, para que ela lhe ensinasse a dominar esse dom essêncial à vida. Na Nuca as deusas estavam mais perto das pulsões do planeta e aprenderam a controlá-lo. Eva tentou, tentou, mas Adão carregava um fardo demasiado pesado para as suas capacidades, o Memoh não queria o Mentino e sem este não poderia haver paz. Circe foi a primeira a desistir, era muito emotiva, propôs que se aniquilasse o Memoh, mas as outras opuseram-se e mandaram-na para Laputa. Ártemis avançou decidida e rumou em direção ao planeta Adão. Estudou os diversos povos e escolheu como seus pupilos os apendicedianos, “aqueles que pelas suas qualidades nunca deveriam ter sido considerados memohs “. Foi bem recebida, depressa a amaram, ela ensinou-lhes o Mentino, “a linguagem das ideias”, e quando partiu eles seguiram-na. Vesta, a grande amiga do Memoh, acredita na sua mudança e por isso continua, algures no planeta, a tentar cumprir a missão. Com ela estão Deméter, e a sua filha Perséfone, e Afrodite, a deusa mais encantadora do Universo. São estas as “Quatro Magníficas”, é com elas que o major deve estar, e é à procura deste grupo que o que resta da tripulação do Piolho-Um pretende ir. A Carraça e a Pulga estão prontas para uma nova aventura do “Novo Olhar”. 

 

Assinado, Rita Bouvalier, comandante da missão.

 

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