segunda-feira, 4 de maio de 2026

57 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - Missão Cancelada

 

57

Nunca tantos esperaram ansiosamente por tão poucos! Maria Brocas, John Kovac’Olhões e Mary Holmes saíam triunfantes da Carraça, iluminados por potentes holofotes, trazendo um deles nas mãos uma minúscula caixa de metal cúbica, causadora de angústias e insónias, sinais de fantasmas nunca esquecidos. A multidão de sete elementos, olha, muda e receosa, a responsabilidade é pesada, decidir o futuro da espécie e do planeta já é trabalho para um deus e não para simples mortais, formados pelo pó de alguma estrela que se desintegrou há milénios. O som metálico do objecto desconhecido de encontro à mesa, desperta toda a tripulação do transe em que se encontra.

- O Centro de Comando cancelou a missão e ordenou-nos a regressar imediatamente, – informa Rita, abraçando com ternura John.

- Regressar?! Agora nesta fase tão importante?!

- Temos de pensar, pensar muito.

Por momentos o silêncio ameaça tomar conta, novamente, das dez almas que contemplam o cubo.

- Vamos ao trabalho, há muito para fazer! - Exclama Alfredo, puxando uma cadeira.

- Façamos o ponto da situação.

- Esta caixa é um arquivador de imagens idêntico aos nossos, – explica Paulo Prestes, engenheiro de sistemas, e prossegue. - Foi sem dúvida fabricada no Coração e eles não estavam à espera que a encontrássemos. Desta missão só esperavam uma confirmação de que todos os indícios tinham sido destruídos, mas enganaram-se. O lago dourado fica no estado líquido quando a distância ao Sol é a normal.

- É o que acontece agora, – interrompe o meteorologista Danci Cisto.

- Mas houve uma tempestade solar, e esta foi especial porque esteve, pela primeira vez nos últimos dez séculos, a lançar grandes quantidades de fumos, que formaram uma espessa camada de nuvens. Com isto a temperatura desceu, e durante um dia e meio o lago de ouro solidificou e nós passámos calmamente sem nos apercebermos de que aquela cratera tinha-nos sido destinada como túmulo. Quando comunicámos o sucesso da operação, ficaram em pânico.

- Como é que sabes isto tudo?

- O Cancro sabe tudo, Rita.

- Cancro!?? Tu pertences àquele grupo de terroristas?

- Se regressarmos ao Corpo desapareceremos sem deixarmos rasto. Rita, ninguém sabe que estamos aqui, lembras-te que nos obrigaram a mentir às nossas famílias, tu neste momento estás em treinos no deserto do Pé Esquerdo.

- E eu na República do Fígado! - Exclama Narciso Baeta.

- Cada um de nós está num sítio diferente e vai sofrer um acidente mortal. As nossas famílias receberão depois todo o apoio e nós seremos eternamente heróis nacionais. Lembram-se do major Clemente Bouvalier?

- O meu pai? O que é que sabe sobre o meu pai? - Pergunta Rita levantando-se.

- Tudo, sei tudo! Quando a sua mãe recebeu a notícia, disseram-lhe que o major tinha morrido no cumprimento de uma arriscada missão na República do Baço. Mas essa não é verdade.

- Não é a verdade!?? Mas então qual é a verdade acerca do meu pai.

- O seu pai foi um verdadeiro herói, pilotou a primeira nave enviada para o Corpo-Dois, o que sucedeu não se sabe.

- E para que região foi?

- Joelho Direito!

- Quem é que nos diz que não está a mentir? - Questiona o capelão Graise.

- Não lhe posso provar nada, a única coisa que pode fazer é ir-se embora. Eu por mim fico, quero ir até ao fim.

- Eu não, quero regressar a casa, – diz o navegador Alfredo Mávida. - Se nos ordenaram para abortar a missão, eu obedeço.

- Meus senhores, – interrompe Rita. - Quem quiser ficar fica, quem quiser regressar, regressa. Temos veículos, para continuar não vamos precisar da base, há mantimentos para meio ano, a partir daí o planeta fornecerá tudo.

Só quatro elementos pretendem continuar a missão: Rita, Narciso, John e Paulo. O engenheiro de sistemas faz a ligação da caixa e as imagens começam a aparecer.

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