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Os tempos estão difíceis no planeta Corpo, a descoberta de verdades há muito escondidas aparecem agora fora dos contextos e levam os povos para o lado escuro do Universo. Deus, o Ser dos mil mundos, tenta reorganizar-Se, após a Sua crise, deixando por todos os lados os Seus símbolos eternos, mostrando ao Cosmos amedrontado a Sua complexidade aterradora. Mas os negociantes de almas são tantos, e tão poderosos, que O obrigaram a dividir-se novamente, para assim poder combater em todas as frentes. O Tempo parou, já não tem data, e o Universo deixou de se expandir, preparando-se agora para o retorno, para o seu Juízo Final.
- Tem de ser morto, o animal põe em perigo a segurança nacional.
- O Cordeiro de Deus, o senhor quer matar um dos símbolos sagrados?! - Pergunta o agente cardíaco Miguel Pheidão ao seu chefe.
- O Conselho de Estado consultou as autoridades tricúspicas e estas ficaram aterradas com a ideia de deixarmos o cordeiro verde a pastar calmamente à porta da Écloga. Ele é um perigo para a segurança nacional.
- Não nos devíamos envolver em assuntos tão sensíveis, ninguém sabe qual serão as consequências deste ato.
- Neste momento é a sobrevivência do nosso país que está em causa, os problemas metafísicos só servem para adormecer e controlar o povo. O senhor agente Miguel Pheidão cumpriu exemplarmente a sua missão, o rei foi, mais uma vez, fielmente obedecido, merece umas belas férias. A próxima missão será executada pelo seu colega Rato-Ginja.
Livre, Miguel Pheidão está finalmente livre da missão, pode viajar para onde quiser, decidir o que lhe apetecer. Contém-se, e muito bem, em referir as informações acerca dos Olhos. A partir de agora tem quatro meses para investigar por sua conta e risco. A fidelidade ao rei começa a abrir frinchas!
- Agente Rato-Ginja pode apresentar-se ao Conselho de Estado, – informa uma voz feminina, saída de uma boca com os dentes em xadrez.
Os dois elementos da polícia secreta cardíaca cruzam-se e desejam boa-sorte um ao outro.
O céu está limpo e muito azul, a temperatura amena convida a população a ir banhar-se ao lago Azul, enquanto que a grande cordilheira transborda de neve. Miguel Pheidão sai do quartel, enche gulosamente os pulmões de ar e dirige-se apressadamente para a Écloga.
- A sua primeira missão é raptar o Cordeiro de Deus e trazê-lo para as nossas instalações o mais discretamente possível, – ordena secamente o Procurador do Estado Cardíaco ao novo agente. - A ação tem de ser executada ainda hoje.
Um sino estridente ecoa pela Écloga e interrompe a sesta do padre Narciso. É o agente Miguel Pheidão a informá-lo de que o cordeiro de Deus corre perigo de vida, e a prontificar-se a levá-los para um lugar seguro.
- Traga o carro para aqui que eu vou buscar o animal – diz, em pânico, o religioso, iniciando uma surpreendente corrida pelo vasto relvado.
Mas depressa descai para um passo ofegante, causado pelos quilos dignos de um verdadeiro padre, investindo desesperado por um caminho profundo. Não há sinais do Pastor-Dáfnis, nem das suas “meninas”, como lhes costuma chamar. Num último salto de felino sobe para o telhado da casa muito rústica, pendura-se no badalo ferrugento que está junto a uma das chaminés e lança a proeminente barriga para o vazio. Vai à frente, vem atrás, mas nada, nem um esforçado pio sai daquele pêndulo descomunal. E para dificultar ainda mais a missão, um velho parafuso resolve abandonar o convívio secular de uma rosca, deixando pendurado o chefe da Écloga.
Rato-Ginja entra no carro, dá a volta à chave da ignição e o motor começa a roncar.
- Ir raptar um cordeiro verde, estes tipos estão completamente doidos, vêem perigos em todos os lados.
Atira para o banco de trás os documentos confidenciais e arranca lentamente, parando cinco quilómetros à frente no café “ O Cardíaco “. Abre a porta, acende um cigarro e dirige-se ao balcão, onde pede um café forte.
- Maldito animal, vou sujar o carro todo! Só peço a Deus que fujas, já estou farto desta mania dos senhores do governo de estarem sempre a verem ameaças em todo o lado. Agora já só faltava isto, um cordeiro, e ainda por cima verde, passou a ser uma ameaça para o estado! Qualquer dia nasce um elefante amarelo e também o tenho de ir prender. Senhor Victor traga-me um penalty bem forte, o meu dia começou mal.
- Qual é o seu problema Sr. Rato-Ginja?
- Tenho de ir prender um cordeiro verde.
- Um cordeiro verde? Mas a polícia não tem mais nada para fazer?
- Sei lá, estes tipos que nos governam estão cada vez mais malucos.
Algures não muito longe dali, um carro vermelho lança-se a alta velocidade pelo jardim da organização ambientalista, deixando dois sulcos profundos no relvado.
- Onde é que se terá metido o raio do padre, – resmunga o agente Miguel Pheidão, dando uma valente palmada no volante, ao mesmo tempo que descobre, ao longe, um vulto barrigudo a balançar ao sabor da brisa de verão.
- Tire-me daqui – grita o padre ao ver o polícia a sair apressadamente do carro.
- Então senhor Padre, onde é que está o cordeiro?
- Ainda não o vi, o Pastor-Dáfnis hoje resolveu ir pastá-lo para outro sítio.
Dois aviões da Força Aérea Cardíaca cortam o ar e quase provocam o despiste do agente que vai deter para averiguações o cordeiro de Deus. O barulho ensurdecedor dos aparelhos assusta o padre Narciso e este larga o badalo, caindo desamparado sobre o amigo que lhe segura a batina. Por uns instantes o silêncio toma conta da situação, até que um coro de badalos desperta os dois indivíduos.
- Desculpem meus senhores, não lhes queria estragar a festa, – interrompe o Pastor-Dáfnis, puxando a última fumaça do esganiçado cachimbo. - Penso que este não é o local indicado para cena dessas.
- Deixe-se de piadas, – resmunga o padre, levantando-se da cabeça do agente cardíaco Miguel Pheidão.
- Por onde é que tem andado, estamos aflitos à sua procura, queremos levar o cordeiro.
- Qual deles? - Pergunta o velhote, apontando para o rebanho verde.
- Verdes, estão todos verdes?!
- Estão assim desde hoje de manhã, quando os fui buscar ao curral.
A discussão é interrompida pela chegada de um carro a alta velocidade.
- Pheidão, o que é que estás aqui a fazer?
- Ginja? Pergunto-te o mesmo.
- Venho buscar o cordeiro, são ordens do chefe.
Do alto, bem do alto, um anjo observa, sentado em cima de uma nuvem volumosa, a discussão inflamada entre os três vultos, ao mesmo tempo que uma multidão de ovelhas verdes em êxtase, corre pelo extenso jardim, numa apoteose mítica digna de registo.
- As minhas meninas são de um virtuosismo avassalador, estão a sentir o mundo e a sentirem-se a si mesmas, – explica o Pastor-Dáfnis, assistindo com orgulho à estranha dança do rebanho, enquanto que uma lágrima marota escorre pela sua face de primata. - Elas são de uma sensibilidade profunda.
- Não há dúvida, Deus escreve sempre certo, mas com linhas muito tortas – diz o padre Narciso, levantando os braços para o ar.
- São os ventos da História, – profetiza o agente Miguel Pheidão, ajoelhando-se.
- Estas ovelhas demonstram uma sabedoria e um requinte milenares, digna de uma civilização com letra grande, – grita Rato-Ginja, com os braços abertos para o Céu, como que agradecendo a Deus o milagre.
De repente um raio corta o céu e de imediato os animais formam um círculo em redor de um dos pilares do imponente aqueduto que abastece a Crossa da Aorta. Devido ao aumento da velocidade, a força centrífuga começa a fazer-se sentir, saindo do rancho folclórico um cordeiro em voo rasante, que entra com estrondo na mala traseira do polícia cardíaco Rato-Ginja.
- Pronto, a minha missão está a chegar ao fim, – informa com um ar triunfante o agente da autoridade. - Eles querem um cordeiro verde, pois aqui está um.
- Terminaram, as minhas meninas acabaram a dança.
O carro de Rato-Ginja já vai longe, quando se dá um novo fenómeno, o rebanho do Pastor-Dáfnis recupera a cor antiga, destacando-se no centro o cordeiro especial.
- Graças a Deus o animal sagrado está salvo – proclama com satisfação o padre Narciso, abraçando-o e beijando-o. - Vou fugir com ele.
O anjo abre as asas e levanta voo em direcção ao Sol, que já dá sinais de cansaço.

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