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A placa da estrada tem escrito “Cego”, o nome da mais famosa cidade da República do Intestino. Segundo reza a História, era nesta zona que se situava a única fronteira terrestre dos territórios do povo do Apêndice, mais conhecidos como os “ Senhores das Estrelas “. Devido a um cataclismo de origem desconhecida, este território de 550000 quilómetros quadrados desapareceu, levando consigo a sua florescente civilização. Os séculos passaram e a lenda foi-se escrevendo ao sabor das conveniências, ora políticas, ora económicas, que transformaram os heróis em bandidos e os ladrões em reis, mas algo resistiu a todas estas histórias: os apêndicedianos tinham grandes conhecimentos astrológicos e possuíam uma carta minuciosa dos sistemas solares. Em vez dos sete planetas confirmados, o mapa assinala doze, mas até agora não se conseguiram detetar os outros cinco. Após o cataclismo só uma cidade escapou, em virtude de estar situada no local onde hoje se ergue Cego. Os sobreviventes construíram um sumptuoso palácio e escreveram nas paredes a sua história. Com o passar do tempo também eles desapareceram, restando unicamente até aos dias de hoje esta fabulosa obra arquitetónica, motivo de inúmeras investigações e da visita de milhares de pessoas. Por cima da enorme porta da entrada uma frase dá as boas-vindas aos curiosos: “ O Tempo é circular, tudo retorna “.
Os autocarros dos excursionistas acabam de chegar, e a recebe-los está o doutor Abiron, historiador de renome internacional, responsável por toda a investigação acerca dos “Senhores das Estrelas”.
- Sejam bem-vindos ao palácio do Xisto, a porta para outros mundos, – diz uma voz rouca e pausada. – Peço que, antes de entramos, meditem comigo acerca das estranhas palavras que nos foram deixadas pelo povo do Apêndice. Será realmente o Tempo circular? Caso o seja, então tudo retorna, a morte nada significa, o passado também é futuro e presente.
- Eu não me importo de voltar, a minha vida é excelente – interrompe uma idosa, provocando o riso da assistência.
- Aqui está um problema, retornar o quê, tudo? Só uma parte? Se olharmos para a nossa História, podemos verificar que há acontecimentos que se repetem ao longo dos séculos, mas com algumas diferenças, mostrando assim haver uma seletividade. Agora sim, podemos iniciar a viagem.
Depois da porta aparece uma enorme sala, repleta de desenhos nas paredes, no chão e no teto.
- Neste pequeno espaço é contada a história do povo do Apêndice, pelos sobreviventes, que também sabiam que lhes restava pouco tempo de vida e assim quiseram deixar para a posteridade os seus conhecimentos. Imaginem que estamos dentro de um livro e que vamos começar a lê-lo. Esta parede, – aproxima-se e toca-lhe, - é a introdução da obra, em que fazem um resumo dos acontecimentos passados. Situam-se geograficamente, e é já aqui que começam os mistérios. Olhem bem para o mapa e vejam se notam algo de estranho.
- É a perspetiva, foi feito de cima, do ar...
- Isso mesmo, do ar, quem o desenhou estava fora, encontrava-se acima da gravidade do nosso planeta. Como é possível? A única explicação plausível é que eles já sabiam voar, tinham máquinas para isso. Dois mil anos nos separam do “Povo das Estrelas “ e, no entanto, eles já tinham a tecnologia que lhes permitia sair do planeta. A circularidade do Tempo que proclamam, abre muitas portas nos mistérios do Cosmos e dá-nos uma infinidade de respostas. O Universo expande-se até a um ponto de saturação, em que se dá uma grande implosão, e isto é que é o grande mistério da vida.
- A vida não é nenhum mistério, ela é sim um livro aberto, e não tem culpa que o Corpo esteja semeado de burros, – diz um dos presentes, aparecendo de rompante na fila da frente.
- Mas os burros também são filhos de Deus, e têm o direito de saber os segredos da vida, senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.
- Filhos de Deus? Duvido! Burros? Tenho a certeza, senhor Joanito-Faz-de-Conta, nome de filósofo, doutor Abiron, identidade de um historiador credível.
- Meus senhores, apresento-vos o meu caro colega, o maior especialista dos “Senhores das Estrelas”, – e o cicerone aponta para o amigo, que não perdeu tempo e subiu para um bloco de pedra.
- “Maior”? É impossível, há sempre alguém acima de nós, e como o Tempo é circular, somos sempre os “maiores” e os “mais pequenos”.
- Senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, explica esta segunda cena aos nossos amigos.
Com um salto majestoso, tal qual um felino, o famoso motorista, agora convertido no mais famoso historiador, poisa, sem suavidade, junto ao seu amigo e colega.
- Se a primeira cena vos deixou de boca aberta, esta segunda vai deixar-vos com a alma aos saltos. Vejam, aqui está o mapa das estrelas, do sistema de planetas a que pertencemos. Dizem estes senhores que o Corpo não é a única poeira celeste com seres vivos, que há muitos mais corpos, que pertencem a um vasto conjunto denominado Leve, que por sua vez está dentro de outro sistema, e assim sucessivamente até regressarmos a nós mesmos. Cada um de nós é um universo, que por sua vez está dentro de outro universo. E Deus é o único Ser que conhece o verdadeiro Universo, pois tem de geri-lo. Mas os “Senhores das Estrelas” deixaram aqui um dado fundamental, indicaram onde é o planeta Leve, – aponta para uma seta no meio de milhões de desenhos de estrelas. - Esta descoberta causa-nos arrepios, faz-nos imaginar até que ponto, apesar de terem vivido numa era anterior, estavam avançados em relação a nós. Quando conseguirmos, e talvez nunca, perceber o Tempo e o Espaço, encontraremos Deus, mas para nós é mais fácil esperar que Ele venha ter connosco. Até lá, vou beber uma cerveja, pois estes discursos dão-me uma enorme cede.
A tenda do senhor Von Braz Bajoulo, licenciado em sandes de chouriço e sumos, instalada no meio da sala, é invadida pelas hostes dos bárbaros intelectuais.
- Os mistérios do Universo dão sempre bons negócios, – desabafa o vendedor, entregando quatro bolos a um ancião que mal se aguenta nas três pernas. - Já tão perto de Deus e ainda com uma barriga esfaimada.
- É a alma que o exige, – explica, atirando-se sofregamente à comida.
Enquanto uns se entretêm a matar com os dentes a fome, outros tentam compreender o significado de uma parede semeada de pequenos orifícios. Os dois historiadores aproximam-se deste grupo e o doutor Abiron interpela-os:
- Os senhores sabem que essa é a escrita universal?
- Escrita universal?! Isto parece-me mais uma brincadeira duma criança, fugida à tirania da sopa.
- Mentino, é a linguagem que todas as espécies do Cosmos utilizam, excepto a nossa, – explica o historiador-motorista, e continua. - Não se lê com os olhos, nem com as mãos, mas sim com o olfato.
- Com o olfato? O senhor doutor está a dizer que essa escrita, cheira-se!??
- Correto minha cara senhora, o Mentino cheira-se, – e aproxima o nariz, fazendo uma inspiração. - É magnífico, as histórias que o odor nos conta.
- Isto só cheira a mofo, – grita um rapaz, retirando o seu protuberante apêndice nasal dum dos buracos.
- Lê com a alma e não com os pés, porque assim só ficas a saber o estado das tuas meias.
- E já não as troco há quatro dias.
- O que tu cheiraste foi o teu íntimo e não a maravilhosa ciência dos “Senhores das Estrelas”, – dispara o doutor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua. – Aqui está escrito o segredo das viagens interplanetárias, a possibilidade de nos deslocarmos para qualquer ponto do Cosmos, utilizando as passagens existentes e manipulando o Tempo. Este povo conhecia muitos mundos e muitos povos, e assimilou freneticamente as suas culturas e os seus conhecimentos, conseguindo assim compreender a linguagem das estrelas, que descreve a história, passada, presente e futura, do Universo. Souberam então do cataclismo que se iria abater sobre o seu país e prepararam-se. Para onde foram? Não ficou nada registado, mas podemos calcular que lá em cima alguém nos espreita desejoso por nos contar.
- Então é só isso o que o Mentino nos diz? Uma parede enorme, cheia de buracos feitos por miúdos em fúria, só para nos dizer que esse povo tinha conhecimentos de astronomia? - Questiona um jovem marreco.
- O que é que queres saber, ó cuecas de Buda? - Pergunta o cicerone.
- A maneira de voarem, a técnica utilizada para as viagens interplanetárias.
- Não me digas que tens uma namorada noutro planeta e nunca a viste!
- Com uma cara dessas não há fêmea no Corpo que te deseje, – comenta outro membro da assistência, impingindo-se ao interessante debate.
- Avance com isso que nós não estamos interessados no Mentino. Se Deus não nos deu esse dom, é porque não nos faz falta.
- Estão enganados, Deus deu-nos esse dom, mas nós perdemo-lo, pois só estamos interessados em coisas mesquinhas. Preocupamo-nos somente em acumular riquezas, impingidas pelo lado negro do Universo, somos uma espécie que tem constantemente a atracção pelo abismo. Mas se é isso o que vocês querem, continuemos.
Num canto do palácio um dos visitantes lê atentamente o jornal do dia, que relata os acontecimentos sangrentos que dizimam a República do Estômago. O caos instalou-se nas ruas, há bandos armados por todos os lados, os principais quartéis do país estão agora reduzidos a cinzas, bandeiras com desenhos do caranguejo, o símbolo do Cancro, flutuam ao sabor do vento. O governo fugiu e pediu asilo aos senhores do Coração. As falanges do grupo terrorista, as metástases, foram vistas a encaminharem-se para a República dos Pulmões. A guerra parece ser inevitável!

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