segunda-feira, 4 de maio de 2026

55 - Cordeiro Verde - O Mundo de Lilith - Peridoxitoso

 

55

O governo cardíaco foi traído, o Cancro está incontrolável, foram tomadas medidas drásticas. Na Crossa da Aorta acaba de partir um comboio militar com destino à capital da República dos Pulmões, Grandalvéolo. Leva o batalhão “Cabeças Rapadas”, especializado em guerra química. O rei D. Sístole II, comandante supremo das forças armadas, deu-lhes ordem para aniquilarem o inimigo.

O Tratado Pulmo-Cardíaco, assinado há seiscentos anos, e retificado no ano passado, prevê a ajuda militar mútua em casos de crise. Seis toneladas de bombas químicas vão ser lançadas no planalto do Grande Esterno, tendo como fim aniquilar, de uma só vez, as veleidades dos terroristas. As consequências são muitas, sabe-se que as populações da zona atacada também vão perecer, mas tudo vale em nome da segurança dos Estados.

O Cancro está forte, os seus soldados foram implacáveis contra o exército do Estômago e os seus políticos demonstraram uma mestria invulgar ao manipularem os pontos sensíveis deste país do equador corporal. A província autonómica do Antro sempre fora um espinho cravado na República do Estômago, a outrora Federação Monárquica Duodenal-Fundo-Antral, o celeiro do Mundo. O rei Joran II herdou do pai uma nação rica e poderosa, sem problemas sociais. A única dificuldade residia na fronteira comum com o lendário Reino dos Dois-Intestinos. Este reclamava a província do Duodeno, baseando-se em factos ocorridos duzentos anos antes, em que esta região foi doada à Federação Monárquica por reparações de guerra. Quando o monarca Frénius, o “pai dos povos”, faleceu, o seu sobrinho Aténus subiu ao poder, questionou a validade do Tratado do Piloro e exigiu a entrega imediata dos territórios duodenais. Joran II, que era primo direito de Aténus, reuniu-se com este e ambos concordaram em consultar a população local. O “sim” à mudança venceu e o acordo foi respeitado. A insensibilidade política do jovem rei da Federação Monárquica Duodenal-Fundo-Antral, trouxe para o seu reino a instabilidade permanente. Os políticos antronianos mergulharam nos livros de História e depressa começaram a fazer exigências. Foi o pretexto para um golpe de estado inesperado e brutal, que enterrou a monarquia e aniquilou os líderes políticos, proclamando a República do Estômago. Nenhum membro da família real escapou ao genocídio. A lei e a ordem foram restabelecidas e, contra todas as previsões, a estabilidade retornou à região, ajudada por um bom ano agrícola, que tirou os agricultores da miséria em que se encontravam. De uma maneira geral a economia estomacal melhorou enormemente, mas houve problemas que não foram resolvidos e que apareceram agora.

O grande comboio acaba de transpor a Cava Superior, a porta de entrada para as férteis terras da República dos Pulmões, onde o verde é a cor predominante, sendo por vezes substituído por cidades pintadas de branco e com tamanhos homogéneos. Tudo está definido, a quantidade das casas, o número de habitantes, o tipo de casamentos, a procriação, enfim, é um povo que vive em função do planeta e dos seus limites. A composição lança-se a grande velocidade pela planície sem fim, salpicada por milhares de animais que pastam calmamente ao sabor dum tempo que só a eles pertence.

Os pulmonares são um povo adorador do Sol, acredita ser descendente de deuses que um dia desceram ao Corpo, ficaram fascinados com a qualidade do ar e o azul do céu, e devido a isso ergueram um monte, chamaram-lhe “Colunas de Laputa” e no seu cume colocaram a zona mais difícil de atingir, a mais rica e a mais cobiçada, “só acessível aos filhos de Deus”.

Um pastor acena freneticamente para o comboio, que passa a grande velocidade junto ao monte sagrado. Ao seu colo tem um cordeiro assustado com o barulho que quebra o silêncio do pasto sagrado.

- O animal é verde, – grita um dos soldados, fazendo precipitar os seus colegas para as janelas.

- Comeu ervas a mais, – diz outro, soltando os risos dos espectadores.

A cena é rápida, o rebanho fica para trás, não passando agora de um ponto num horizonte longínquo. Grandalvéolo, a cidade formosa, acaba de engolir o batalhão cardíaco, que se prepara agora para a sua mais importante missão. Vinte aviões de transporte enchem a base militar e já têm os motores a roncar. O transbordo é feito com rapidez e o comandante acaba de dar autorização para a descolagem. Um a um os pássaros de metal deslizam pela pista e precipitam-se para o céu mais azul do planeta. O Sol já vai alto e ilumina por completo a densa floresta que alimenta o ar de todo o Corpo.

Os pássaros assistem fascinados à dança dos seus semelhantes em direcção ao sul e os seus filhos espreitam assustados dos ninhos, libertando as primeiras palavras para os pais babados. Talvez pensem que um dia também serão assim!

 - A vossa loucura será a condenação de todos, – grita um indivíduo de grande estatura no meio da pista. – Deus deu limites ao Memoh e ele não os pode ultrapassar, são as leis de Laputa.

Uma patrulha da polícia aérea dirige-se a grande velocidade para o intruso. Os dez militares cercam-no e levam-no para o comando central.

- Já o identificaram? - Pergunta o oficial de dia.

- O bilhete de identificação diz chamar-se Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro -da-Lua.

- Como é que ele conseguiu entrar?

- É impossível entrar na base, os sistemas estão todos ligados, até uma mosca é detectada.

- E ficam por esse tamanho, – interrompe o prisioneiro. - Todos os que estão abaixo passeiam alegremente pelo vosso lindo quartel.

- Levem-no para dentro e interroguem-no à vontade.

- Antes de concretizarem as vossas ideias, pensem nas consequências, – avisa o motorista historiador e agora também prisioneiro.

- Cala a boca ó Cabreiro, – ordena o sargento dando-lhe um valente empurrão.

A sala é espaçosa, tem duas pequenas janelas que mal deixam entrar a luz e algumas cadeiras colocadas em sítios estratégicos. O intruso é sentado no centro e apontam-lhe dois projectores.

- Como é que entrou aqui? - Pergunta um dos oficiais.

- Eu entro e saio em todos os lugares e em todos os tempos. Vocês foram longe de mais, não há retorno para quem ultrapassa os limites definidos.

Uma enorme explosão provoca as trevas e o silêncio reduz as vidas à sua origem, o pó.

- Base Alfa, objectivo à vista, – informa o comandante da missão.

Uma semana depois o governo cardíaco reúne-se de emergência. As notícias são aterradoras, o material químico lançado pelos membros da missão “Renovar a Esperança” afectou os fluidos do Corpo. O planeta está em crise, as forças da Natureza já não se respeitam, há movimentações tectónicas nunca vistas, a camada de gases que o protege está a desagregar-se.

O Memoh descobriu aquilo que lhe estava vedado, foi-lhe dado pelo lado negro de Deus. É a eterna dança entre as ideias do Bem e do Mal, um jogo que tem de ser executado sabiamente, pois a unidade do Cosmos exige sacrifícios. O planeta Corpo foi criado para substituir um vazio na engrenagem celestial e acaba de cumprir a sua missão. As ideias que lhe dão consistência são necessárias noutros sítios, tudo e todos, do mais pequeno ao maior, são vitais para a grande máquina chamada Universo, que também é feita de muitos universos. E Deus, o mais amado e o mais odiado, tem de controlar pacientemente este brinquedo, que tende constantemente para o caos.

- Peridoxitoso, alguém sabia o efeito deste químico? - Pergunta um dos ministros cardíacos à equipa de cientistas responsável pela fabricação da bomba química XL, baptizada com o nome de “Bombom”, uma das cinquenta lançadas no Grande Esterno, na província do Manúbrio.

- É um produto extremamente mortal, que actua em poucos segundos e depois se desagrega, não deixando rasto.

- Então, o que é que correu mal? Porque é que continua a matar e a corroer o solo?

- São efeitos totalmente desconhecidos para nós, estamos a trabalhar intensamente para descobrir algo que pare o processo.

- É pouco, estão a fazer muito pouco, – diz, exaltado, outro membro do governo.

- O senhor ministro é melhor acalmar-se, – pede o porta-voz dos investigadores. - Durante anos vocês, os políticos, pediram-nos que fabricássemos uma arma “para resolver crises pela raiz” e nós fizemos esta. O vosso problema foi resolvido, mas agora apareceu outro, e hão-de aparecer muitos mais, pois vocês não prestam, só vêem o imediato, o futuro pouco vos interessa. 

- Senhor doutor, este Conselho não o autoriza a fazer juízos políticos sobre o nosso trabalho. Os senhores estão aqui para nos darem explicações sobre o insucesso do vosso trabalho. A arma de que foram incumbidos de fabricar falhou, não há solução à vista. O governo pulmonar acusa-nos de negligência e ameaça quebrar o tratado assinado há seiscentos anos, pondo em risco os nossos interesses estratégicos. Caso isso aconteça, seremos obrigados a declarar-lhes guerra e a ocupar os canais da Pequena Circulação, vitais para a nossa marinha mercante. Os nossos barcos foram hoje impedidos de circular. A Ordem Militar está impaciente, os seus falcões ameaçaram o rei! Meus senhores, estamos em crise e só uma solução imediata nos pode salvar da tragédia. A partir deste momento considerem-se detidos até resolverem a situação que criaram.

Os elementos opostos vindos de três dos oito cantos do Universo, incapazes de se juntarem, apareceram agora reunidos num grão que vagueia ao sabor dos desígnios de Deus. Peri, o Fogo, Doxi, a Água e Toso, o Ar, os guardiães da ordem e do equilíbrio, inimigos e amigos, presentes em todos os tempos, ordenados em todos os espaços, fiéis a um único Ser, implacáveis quando juntos, vêm assim repor a legalidade quando o caos, outro dos cantos, faz a sua aparição.

Os dias passam e não há solução à vista. A Natureza parece ter-se revoltado. O planalto do Grande Esterno vomita toneladas de lava, que se espalham lentamente pelas encostas, engolindo aldeias e aproximando-se perigosamente da segunda maior cidade da República dos Pulmões, Anaróxis. A protecção civil constrói desesperadamente uma muralha para travar o avanço do poderoso inimigo, e no porto os navios já se afastaram. A população foge em debandada em direcção às cidades periféricas, incapazes de abrigarem tantos foragidos. É a resposta implacável da Natureza, farta dos excessos do Memoh.

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