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No rasto de Lilith
Cidade Tricúspica - Tempo sem data
Caro companheiro de viagem do planeta Leve
Encontro-me na cidade sagrada, a menina dos olhos do rei Sistole II. Era um lugar imaginado por muitos e visto por poucos. Agora todos podem entrar e sair, as suas muralhas não passam de amontoados de pedras, cobertos por musgo e pela vergonha dos memohs. À minha frente as ruínas do majestoso palácio real parecem dar-me as boas-vindas, ao mesmo tempo que me avisam dos perigos existentes. Era aqui que se decidia o rumo do Corpo, as virtudes dos memohs e os vícios dos cardíacos. Quando a comida acabou, começaram-se a comer uns aos outros. Pela primeira vez a ordem social alterou-se e as classes inferiores passaram a ditar a lei, a lei da vida, pois eram organicamente mais fortes.
Tricúspica era quase uma lenda, muitos a reclamavam como terra sagrada, universal para os memohs, proibida para os outros. Diziam os adoradores que fora ali que Deus espalhara a Sua energia cósmica pelos cantos do planeta, dando origem ao Memoh. Mas como é que um Ser tão perfeito poderia ter criado um ser tão imperfeito? Deus começou a ser posto em causa! Os cardíacos bem tentaram argumentar, mas a discórdia estava instalada. Os sacerdotes recusavam a mudança, pois sabiam que com ela viria a sua desgraça. No momento em que as muralhas ruíram, a força de Deus desvaneceu-se e a discórdia dos memohs reinou. As massas de gentes em fúria tomaram de assalto os centros de vícios e durante uma semana o paraíso prometido por muitos tornou-se realidade e acalmou as hostes dos deserdados.
Acabei de entrar na sala sagrada, onde outrora se acumularam os inúmeros tesouros dos falsos profetas. Durante séculos e séculos foram acumulando as esmolas dadas pelos pobres de espírito, em troca do reino dos céus. A fome generalizada de povos inteiros não sensibilizou os poderosos tricúspides, alheios ao sofrimento dos outros. Quando as portas foram abertas o espanto calou a multidão durante algumas horas e todos recearam entrar. O brilho dos tesouros iluminou a noite e mostrou as caras aterrorizadas da assistência. Até os anjos choraram perante tal espetáculo, que lentamente despertou a assistência do seu longo sonho. E com a pesada fadiga nasceu um ódio terrível que ecoou por todos os cantos do Universo. O espírito do Memoh ficou vagabundo no caos, sentado em cima dos destroços do seu escusado milénio. A única marca deixada pelo furacão foi o trono cardíaco, vestígio dum passado desnecessário, imagem dum futuro a evitar. Por cima dele uma placa com dizeres: “ Alguém deve ser a causa do meu mal-estar...és tu mesma, Lilith os teus pecados são a causa do meu mal “. “ Pecado “, a palavra mais sublime para o maior negócio alguma vez feito no Corpo. Imaginem serem acusados de algo que nunca fizeram e terem de pagar toda a vida, para mais tarde serem absolvidos. E afinal o Tempo é circular!
A cidade Tricúspide fica situada no centro do país, sendo toda ela rodeada por muralhas. Um enorme portão controlava a circulação das pessoas, sendo necessário uma autorização especial para se poder entrar. Era um estado dentro do estado. O Coração não detinha qualquer poder dentro da cidade. O “amigo” de Deus, Helias II, era o dono e senhor de tudo e de muito mais. Dominava mentalmente metade do Corpo e especialmente os Rins, sua terra natal, não hesitando em lançar o seu povo contra o ditador que os governava. Helias II era um fanático adorador da mãe de Deus, uma estranha senhora que só tivera coragem de aparecer a três criancinhas vadias, condenando duas à morte e a outra a um encarceramento durante toda a vida. E no entanto dizia-se representante do Bem! Este acontecimento também rendeu muito dinheiro aos parasitas mentais. Poucos eram os que tinham acesso ao monarca tricúspide. Na altura da revolta ninguém o encontrou, sendo hoje talvez um dos perseguidos por Deus.
Do teu, Narciso

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