quarta-feira, 13 de maio de 2026

94 - A Miúda do Lenço (7)

 

7

Quitéria ouviu um som seco, que perturbou a banda sonora da normalidade, com pássaros, com crianças a brincarem ao longe e velhos a tagarelarem, todos à espera de receberem a sua refeição diária, no espaço arranjado pelo coronel para dar a sua “comida dos pobres”, um projeto apadrinhado pelo padre Zacarias da paróquia da vila.

- Quem está aí?

- “Quem está aí”? – Retorquiu Carlos, o ajudante do senhor José da vacaria.

- Mas agora repetes o que eu digo?

- Não foi o que tu disseste, foi o que Hamlet disse, - respondeu, tentando impressionar a rapariga.

- Omeleta? Mas que raio é esse Omeleta?

- Ficas com a voz doce quando me vês!

Carlos olhava sempre para os pés antes de mentir. Ele sabia que esta era a sua sina, despertar paixões, e como conquistador de bairro tinha consciência que nascera para desfrutar da vida. O requinte e a originalidade eram valores que adquirira na Brandoa, assim como o doce e o amargo. Em cada curva arriscou-se a perder o caminho.

- Deixa-te disso. Trouxeste o leite? – Perguntou Quitéria, fazendo um ar de frete.

- Sabes que vou participar numa exposição de quadros?

E contou que o apartamento encontrava-se fechado desde que o proprietário falecera quatro anos antes, e agora a Junta de Freguesia, a herdeira, pretendia fazer uma exposição de pintura com artistas locais. Para Carlos, um fura-vidas fabricado por uma beberagem alcoólica que lhe envenenara os sentidos, esta poderia ser a oportunidade para mostrar algo que lhe mudasse a mediocridade da vida, que ele dizia sempre ser da responsabilidade dos outros. Por isso lia todos os dias na taberna do “Manuel da Leitaria” o “Correio da Manhã”, à procura de ocasiões como esta. O desespero de não ter nada para fazer, era o caruncho que lhe minava a vida. À sua espera estava uma mulher de longas pernas em sapatos pretos de altíssimo salto. Quando entrou na casa apercebeu-se da variação extrema da temperatura, e sentiu um perfume a rosas.

- Quando é que me fazes um quadro? – Perguntou Quitéria, interrompendo-lhe o pensamento.

Estar sozinho era uma realidade crua. Viu o seu reflexo no espelho dum louceiro, e foi envolvido por súbitos clarões, fragmentos curtos de relâmpagos, fantasmas reais, que o transformaram a preto e branco, com muito grão, num espetro psicótico, a roçar o niilismo, mergulhado no lusco-fusco angustiante duma casa vazia da Terrugem de Cima, partilhando a solidão dos sentimentos.

- Trouxe os seus quadros? – Perguntou a responsável pela cultura, sem paciência para o olhar que o desconhecido lhe fazia.

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