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O engenheiro Paulo Prestes despede-se do pessoal e sai calmamente pela porta da frente, apanhando um autocarro que, por coincidência ou talvez não, está parado no portão do hospital.
- Bem-vindo a bordo, Paulo - cumprimenta o coronel.
- Narciso?! Eu sabia que os haveria de reencontrar, algo me dizia que andavam perto.
- “Algo te dizia “, eu sei, eu sei - resmunga baixinho o motorista.
A velocidade do autocarro começa a aumentar vertiginosamente, as árvores são testemunha disso, pois passam de simples figuras que se cruzam com as janelas de segundo em segundo, a um traço contínuo verde. Até a cor do ar muda, de uma luminosidade e transparência raras, para um branco opaco, parecido com fumo. De um momento para o outro começa a ter-se uma sensação de inclinação, dir-se-à que vão a subir.
- Ó senhor motorista Cabreiro, levantámos vôo? - Pergunta Rita Bouvalier, espreitando pela janela à procura de alguma referência que confirme a sua dúvida.
- Minha querida senhora, antes de responder à sua questão gostaria, mais uma vez e as que forem precisas, de lhe pedir que quando se dirigisse a mim, o fizesse em termos correctos. “Cabreiro” não é nada, não existe ninguém com esse nome, essa palavra dita isoladamente perde-se no ar e...
- Deixe-se de filosofias senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua e responda à minha pergunta, – interrompe Rita, já muito exaltada. - Nós é que temos motivos para estarmos fartos desta palhaçada . Envolveram-nos nisto tudo sem pedirem licença.
- Rita, todos nós já estamos cansados de sermos os peões dum confronto que se joga muito lá em cima, mas penso que agora que nos encontramos perto do fim, nada justifica perdermos a calma, – diz o coronel, agarrando-lhe carinhosamente nas mãos bem tratadas e beijando-as.
- Narciso, tudo isto mói, foi penetrando lentamente dentro de nós, bem fundo do íntimo, estava planeado até aos mais ínfimos pormenores, a nossa vida foi sempre um jogo nas mãos deste senhor, ele manipula-nos, somos as peças de um jogo de xadrez, que vão sendo retiradas à medida que as jogadas avançam. Porquê todos estes mistérios, será que não temos o direito de saber para onde vamos?
- Rita, nós dirigimo-nos para o Corpo-Dois! - Exclama o Paulo.
- Para o Corpo-Dois?!
- Sim, para o Corpo-Dois, temos de trocar com os clones, a missão “Novo Olhar” ainda não terminou. Sabes quem é que esteve comigo no hospital? Helias II, o monarca da Cidade Tricúspica.
- Helias II, no teu quarto?!
- Ele mesmo, entrou por engano na gruta onde estava o clone dele, ia atrás do John.
- John, esqueci-me dele, prometi-lhe que o contactava, mas esqueci-me.
- Tu consegues contactar com o John? - Pergunta o coronel.
- Esqueceste que sou eu que escrevo o diário de bordo? O meu clone regista tudo o que eu escrever!
- Registava, senhora engenheira - informa o motorista - Esse seu dom foi-lhe retirado.
- Retirado, por quem?
- Por mim, eu detenho todos os poderes do Universo, sou o mensageiro de Deus, fui encarregado de prosseguir com a missão “Novo Olhar” até ao fim. Vocês desenterraram poderes que vos estavam vedados, nem imaginam as consequências se os tivessem manipulado erradamente. Engenheiras Rita Bouvalier, no Cosmos existem átomos errantes, com afinidades por determinados genes, que são raríssimos. As probabilidades de se encontrarem, são praticamente nulas, mas no seu caso deu-se o impossível. Aliás, foi com o seu pai que tudo aconteceu. Um desses átomos fundiu-se com um dos genes dele, formando um Genátomo, um dos elementos que deram origem ao Universo. Após Deus realizar a Sua obra, Ele descansou e os anjos separaram os Cinco Genátomos da Criação e guardaram-nos no Umbigo da Eva. Um dos átomos e um dos genes escaparam-se e desapareceram. Milhões de anos depois encontraram-se no planeta que deu forma ao seu pai. Nada aconteceu, até a senhora nascer! A Rita carrega uma informação que está para além da sua compreensão. Tem dentro de si a lei da existência de Deus, o direito do “Tempo do Espírito Santo”, que até agora tem sido negado, a última prova de que Laputa necessita para entregar os desígnios do Universo. Vejam meus senhores, vejam à vossa frente, acreditem que o tempo é linear, que ele avança eterna e uniformemente até ao infinito, e a diferença entre passado, presente e futuro não é mais nada do que uma ilusão. Ontem, hoje e amanhã não se seguem uns aos outros, Estão ligados num círculo eterno. Tudo está ligado!
Ocupando o horizonte, mais bela do que nunca, aparece Eva, irradiando uma luz maravilhosa.

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