sexta-feira, 8 de maio de 2026

70 - Cordeiro Verde - Missão "Novo Olhar" - O Telefonema

 

70

- Doutor Lipiérre, consegui a ligação para o hospital de Mount Carmel, o doutor Cinfuentes está em linha.

- Obrigado senhora enfermeira.

O director do asilo de Salpêtriere poisa o álbum de fotografias na mesa e agarra com força no auscultador.

- Doutor Cinfuentes, como está?

- Muito bem, muito bem, e você?

- Tudo normal. Telefono-lhe para tentar descobrir algo sobre um paciente do nosso asilo. Ele é uma das vítimas da encefalite letárgica dos anos vinte e trinta e está aqui connosco há várias décadas...

-... e acordou! - Completa o médico americano.

- Sim, sim, despertou.

- Também um dos nossos!

- É precisamente aí que está o problema. O vosso paciente, ou melhor, a paciente, por acaso não se chama Rita Bouvalier?

Por momentos o outro lado do Atlântico fica em silêncio, até que a voz pausada do doutor Cinfuentes se faz ouvir de novo:

- Sim, o nome dela é Rita Bouvalier, mas como é que soube?

- Foi o meu paciente que o disse, engenheira Rita Bouvalier!

- Engenheira!? Não consta nada no processo acerca da sua profissão, mas ela foi internada com 18 anos.

- Dezoito anos?! E esteve sempre internada?

- Nunca mais saiu, o parkinsonismo dela é, ou melhor, era, uma autêntica masmorra. E o seu paciente, quem é?

- Chama-se Narciso Baeta, é formado em medicina e padre de profissão. Acordou de um dia para o outro!

- Interessante, muito interessante.

- Colega Cinfuentes, temos de juntá-los e é aqui em Salpêtriérre, o jardim e o jardineiro são mágicos!

- Tem um jardim e um jardineiro mágicos? É disso mesmo que eu precisava aqui, – diz o americano rindo-se desalmadamente.

- Há quanto tempo é que está aí em Mount Carmel ?

- Desde 1949.

- O tempo suficiente para ver o mundo com outros olhos. Doutor Cinfuentes, a sua paciente por acaso acordou há duas semanas, no dia treze?

- Sim, sim, no dia treze! - Responde o neurologista, já um pouco assustado.

- Doutor Cinfuentes, temos de nos encontrar.

- Também penso que sim! Vou dar andamento ao processo e depois ligo-lhe. Obrigado por se ter lembrado de mim.

- Agradeça à Rita, foi ela que me guiou até aí!

Cinfuentes fica parado, estático, preso a um pensamento que se desenrola automaticamente, mas ao mesmo tempo consciente da importância do assunto.

- Engenheira Rita Bouvalier?! Meu Deus, o que é que tu andas a fazer às pessoas?

Levanta-se atordoado, olha em redor, regressa à sua realidade e sai apressado do gabinete, em direcção ao paciente do quarto nove. Entra em silêncio e descobre-a junto à janela gradeada, com a alma perdida no horizonte. Aproxima-se cauteloso, observa-a com emoção e, por fim, pronuncia as palavras que estão na ponta da língua:

- Bom-dia engenheira Rita Bouvalier !

Vê-a estremecer! A sua cabeça começa a virar-se lentamente e atrás dela vem o corpo, que outrora foi formoso.

- Engenheira!?? Chamou-me engenheira!??

- Está alguém em França que a conhece, – dispara de novo o médico.

- França?! É alguma região aqui perto?!.... É o Paulo? Ou o Narciso?

- O padre Narciso Baeta, – responde o neurologista.

- Padre? Narciso Baeta é coronel do exército cardíaco.

- Coronel!? Exército cardíaco??... Rita, em que país nasceu?

- No Coração, mas os meus pais foram viver para o Cérebro.

- Coração!?? Cérebro!?? Isso são partes do nosso corpo... A senhora neste momento está nos Estados Unidos da América do Norte.

- O Coração e o Cérebro são países do planeta Corpo! - Diz Rita, sentando-se na cama - O que é que me está a acontecer, doutor ? Estarei louca? Estados Unidos da América do Norte? Não, nunca ouvi falar. Que planeta é este?

- Terra, estamos num planeta chamado Terra.

- Terra!?? Estamos num planeta chamado Terra!?? O meu planeta chama-se Corpo!

- Corpo!?? Corpo é isto, – Cinfuentes aproxima-se de Rita e mostra-se. - O coração é um órgão que bombeia o sangue, o cérebro é outro órgão que está aqui, na cabeça.

- Doutor, preciso de repouso, já não compreendo nada, estou louca, isto deve ser um pesadelo, mas o senhor parece tão real.

O diálogo em vez de aproximá-los, afasta-os cada vez mais. Os seus mundos são distintos, ambos saem derrotados, quando tentavam obter respostas concretas. Para um o Coração é um país, e é por isso que se escreve com letra grande, para outro um órgão que bombeia sangue. O Corpo é ao mesmo tempo um planeta e uma forma de um ser vivo. O que se estará a passar? No entanto, tudo parece ser tão real!

O doutor Lipiérre poisa o telefone e medita. Os seus olhos estão brilhantes, a luminosidade que emanam é sinal de que a sua convicção está tão firme e tão certa:

- A engenheira Rita Bouvalier existe, apesar de todas as evidências, – diz, com um ar seguro e feliz.

Sai do gabinete e vai ao quarto do paciente, que se tornou para si o mais importante. Bate levemente duas vezes. O silêncio é o único a responder e, como não é com ele que quer falar, insiste com mais força. Nada, nem o barulho chato duma mosca se faz ouvir. Roda a maçaneta e a porta abre-se. Entra com a cabeça e vê Narciso deitado na cama com os olhos abertos.

- Posso entrar, coronel?

- Entre doutor, entre. É sempre agradável recuperar a identidade.

- Prometo ser breve, não o quero incomodar, – diz, aproximando-se e sentando-se ao seu lado - Encontrei a sua amiga.

- A Rita? - Pergunta Narciso, sentando-se. – Encontrou a Rita Bouvalier?

- Está longe, do outro lado do Atlântico, mas penso que em breve estaremos todos juntos.

- Atlântico? É algum país?

- O Atlântico um país? O oceano Atlântico!

- Oceano Atlântico?!

- Mar, é um mar, – tenta explicar o médico, já um pouco desanimado.

- Ah, um mar! Lamento, mas o único mar que conheço é o Gorduroso, que se estende por todo o Corpo.

- Mar Gorduroso? Corpo? - Pergunta o doutor Lipiérre já em pé, e com uma face assustada.

- Doutor, eu não estou doido, – responde o coronel, agarrando-lhe na bata.

- Ou estamos os dois doidos, ou o Universo é mais complicado do que pensava! - Exclama o médico, olhando para o jardim. – Temos de nos sentar calmamente e falar sem tabus.

- E de preferência no jardim!

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