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- Doutor Lipiérre, consegui a ligação para o hospital de Mount Carmel, o doutor Cinfuentes está em linha.
- Obrigado senhora enfermeira.
O director do asilo de Salpêtriere poisa o álbum de fotografias na mesa e agarra com força no auscultador.
- Doutor Cinfuentes, como está?
- Muito bem, muito bem, e você?
- Tudo normal. Telefono-lhe para tentar descobrir algo sobre um paciente do nosso asilo. Ele é uma das vítimas da encefalite letárgica dos anos vinte e trinta e está aqui connosco há várias décadas...
-... e acordou! - Completa o médico americano.
- Sim, sim, despertou.
- Também um dos nossos!
- É precisamente aí que está o problema. O vosso paciente, ou melhor, a paciente, por acaso não se chama Rita Bouvalier?
Por momentos o outro lado do Atlântico fica em silêncio, até que a voz pausada do doutor Cinfuentes se faz ouvir de novo:
- Sim, o nome dela é Rita Bouvalier, mas como é que soube?
- Foi o meu paciente que o disse, engenheira Rita Bouvalier!
- Engenheira!? Não consta nada no processo acerca da sua profissão, mas ela foi internada com 18 anos.
- Dezoito anos?! E esteve sempre internada?
- Nunca mais saiu, o parkinsonismo dela é, ou melhor, era, uma autêntica masmorra. E o seu paciente, quem é?
- Chama-se Narciso Baeta, é formado em medicina e padre de profissão. Acordou de um dia para o outro!
- Interessante, muito interessante.
- Colega Cinfuentes, temos de juntá-los e é aqui em Salpêtriérre, o jardim e o jardineiro são mágicos!
- Tem um jardim e um jardineiro mágicos? É disso mesmo que eu precisava aqui, – diz o americano rindo-se desalmadamente.
- Há quanto tempo é que está aí em Mount Carmel ?
- Desde 1949.
- O tempo suficiente para ver o mundo com outros olhos. Doutor Cinfuentes, a sua paciente por acaso acordou há duas semanas, no dia treze?
- Sim, sim, no dia treze! - Responde o neurologista, já um pouco assustado.
- Doutor Cinfuentes, temos de nos encontrar.
- Também penso que sim! Vou dar andamento ao processo e depois ligo-lhe. Obrigado por se ter lembrado de mim.
- Agradeça à Rita, foi ela que me guiou até aí!
Cinfuentes fica parado, estático, preso a um pensamento que se desenrola automaticamente, mas ao mesmo tempo consciente da importância do assunto.
- Engenheira Rita Bouvalier?! Meu Deus, o que é que tu andas a fazer às pessoas?
Levanta-se atordoado, olha em redor, regressa à sua realidade e sai apressado do gabinete, em direcção ao paciente do quarto nove. Entra em silêncio e descobre-a junto à janela gradeada, com a alma perdida no horizonte. Aproxima-se cauteloso, observa-a com emoção e, por fim, pronuncia as palavras que estão na ponta da língua:
- Bom-dia engenheira Rita Bouvalier !
Vê-a estremecer! A sua cabeça começa a virar-se lentamente e atrás dela vem o corpo, que outrora foi formoso.
- Engenheira!?? Chamou-me engenheira!??
- Está alguém em França que a conhece, – dispara de novo o médico.
- França?! É alguma região aqui perto?!.... É o Paulo? Ou o Narciso?
- O padre Narciso Baeta, – responde o neurologista.
- Padre? Narciso Baeta é coronel do exército cardíaco.
- Coronel!? Exército cardíaco??... Rita, em que país nasceu?
- No Coração, mas os meus pais foram viver para o Cérebro.
- Coração!?? Cérebro!?? Isso são partes do nosso corpo... A senhora neste momento está nos Estados Unidos da América do Norte.
- O Coração e o Cérebro são países do planeta Corpo! - Diz Rita, sentando-se na cama - O que é que me está a acontecer, doutor ? Estarei louca? Estados Unidos da América do Norte? Não, nunca ouvi falar. Que planeta é este?
- Terra, estamos num planeta chamado Terra.
- Terra!?? Estamos num planeta chamado Terra!?? O meu planeta chama-se Corpo!
- Corpo!?? Corpo é isto, – Cinfuentes aproxima-se de Rita e mostra-se. - O coração é um órgão que bombeia o sangue, o cérebro é outro órgão que está aqui, na cabeça.
- Doutor, preciso de repouso, já não compreendo nada, estou louca, isto deve ser um pesadelo, mas o senhor parece tão real.
O diálogo em vez de aproximá-los, afasta-os cada vez mais. Os seus mundos são distintos, ambos saem derrotados, quando tentavam obter respostas concretas. Para um o Coração é um país, e é por isso que se escreve com letra grande, para outro um órgão que bombeia sangue. O Corpo é ao mesmo tempo um planeta e uma forma de um ser vivo. O que se estará a passar? No entanto, tudo parece ser tão real!
O doutor Lipiérre poisa o telefone e medita. Os seus olhos estão brilhantes, a luminosidade que emanam é sinal de que a sua convicção está tão firme e tão certa:
- A engenheira Rita Bouvalier existe, apesar de todas as evidências, – diz, com um ar seguro e feliz.
Sai do gabinete e vai ao quarto do paciente, que se tornou para si o mais importante. Bate levemente duas vezes. O silêncio é o único a responder e, como não é com ele que quer falar, insiste com mais força. Nada, nem o barulho chato duma mosca se faz ouvir. Roda a maçaneta e a porta abre-se. Entra com a cabeça e vê Narciso deitado na cama com os olhos abertos.
- Posso entrar, coronel?
- Entre doutor, entre. É sempre agradável recuperar a identidade.
- Prometo ser breve, não o quero incomodar, – diz, aproximando-se e sentando-se ao seu lado - Encontrei a sua amiga.
- A Rita? - Pergunta Narciso, sentando-se. – Encontrou a Rita Bouvalier?
- Está longe, do outro lado do Atlântico, mas penso que em breve estaremos todos juntos.
- Atlântico? É algum país?
- O Atlântico um país? O oceano Atlântico!
- Oceano Atlântico?!
- Mar, é um mar, – tenta explicar o médico, já um pouco desanimado.
- Ah, um mar! Lamento, mas o único mar que conheço é o Gorduroso, que se estende por todo o Corpo.
- Mar Gorduroso? Corpo? - Pergunta o doutor Lipiérre já em pé, e com uma face assustada.
- Doutor, eu não estou doido, – responde o coronel, agarrando-lhe na bata.
- Ou estamos os dois doidos, ou o Universo é mais complicado do que pensava! - Exclama o médico, olhando para o jardim. – Temos de nos sentar calmamente e falar sem tabus.
- E de preferência no jardim!

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