sábado, 2 de maio de 2026

47 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 8

 



47

O Primo

 

Reino dos Pulmões – Tempo sem data

 

Caro amigo Miguel, espero que estas cartas escritas à pressa ou devagar, consoante o tempo que escolheres, te dêem algumas pistas, pois uma porta se vai abrir em breve e o tamanho do teu mundo aumentará. Como vês, as únicas verdades do Universo, que é comum a todos, são o Tempo e o Espaço, pois sem elas nem Deus, que também é de todos, existia.

Consegui arranjar transporte para os Pulmões, numa velha carripana guiada por um primo do Álhi, o “Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua”, como se apresentou e exigiu ser tratado. Em troca da boleia prometemos assistir a um debate, onde iria expor a sua teoria sobre as vantagens do estado de caos. Depois de uma subida alucinante, em que as apostas sobre as capacidades mecânicas do transporte coletivo foram a ruína de muitos, iniciámos uma descida vertiginosa com a roleta a entrar novamente em ação.

- A lógica é inimiga da sorte - gritou o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua - pensem com os pés.

- É para parar senhor Maximiliano, – pediu uma velhota, marreca e zarolha.

- O respeitinho é muito bonito, – disparou-lhe prontamente o motorista, – o nome é para dizer todo, caso contrário não funciono.

- Desculpe, desculpe, mas é devido à minha dentadura. Há certas palavras que a fazem encravar no céu da boca, – e deu uma palmada na face direita. - Senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da Lua, faz o favor de parar. Necessito de sair.

- Com certeza minha excelentíssima senhora, mas não se esqueça de ir ao debate, senão para a próxima vai a pé.

A paragem foi um pouco difícil, aliás a velha acabou por ser lançada pela porta do meio.

- Não disponho de condições técnicas nem filosóficas, para proceder a uma paragem com personalidade, – disse o condutor, tornando a aumentar a velocidade, - a próxima paragem é na vila Louca.

A velocidade a que íamos ultrapassava a resistência deste ferro velho ambulante. Aliás, praticamente fizemos uma aterragem forçada na vila Louca, depois de termos perdido duas rodas, uma da frente do lado direito e outra de trás do lado esquerdo, e o senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua ter perdido o controle da máquina, após um pião de trezentos e sessenta graus.

Comecei a ver a vila Louca quando alcançámos o topo do monte. Lá de cima podiam-se distinguir claramente as carecas dos seus estranhos habitantes. O frenesim característico estava hoje muito ampliado, talvez devido às espessas nuvens negras que passavam no horizonte. De repente, fui albarroado por um discurso frenético de uma velha, saída não sei donde. Depressa apercebi que ela me ignorava, dir-se-ia que eu não existia, que o mundo dela estava constantemente a desaparecer, a perder o significado. Discutiu violentamente durante alguns minutos com uma árvore, até que estancou, ficando assustadoramente como uma estátua. Dir-se-ia que naquele momento lhe tinham roubado a alma. Fiquei alguns momentos a olhar para a estranha obra de arte, até que resolvi prosseguir a viagem. Entrei cautelosamente na vila, fazendo tudo para não ser notado. Não precisava de tantas cautelas, eles não me viam, eu não existia, contudo, desviavam-se à medida que avançava. Entrei num café e por estranho que pareça fui atendido, apesar de me ignorarem. De tempos a tempos todos gritavam, para de seguida continuarem os seus afazeres. O grito era-lhes tão vital como o respirar. As identidades mudavam constantemente, apesar de continuarem calmamente a viverem. O dono do café mantinha um discurso contínuo e ultra-rápido. Em poucos minutos mudara de identidade várias vezes. Regressava à minha realidade com uma naturalidade assustadora, quando eu lhe fazia um pedido.

- Podia-me indicar o caminho para o Girus Ângular.

- Saia pela porta do café, vire à direita antes da árvore com as folhas amarelas, construída pela andorinha perniciosa, tome cuidado com a sua úlcera gástrica, siga em frente, passe junto ao edifício dos correios, diga bom-dia ao amanhecer (neste momento deu um especacular salto, seguido de uma receção ao solo com as pernas fletidas, acompanhada de um grito estridente, tendo-se endireitado rapidamente e prosseguido o seu contundente discurso) e aconselho-o a contemplar o azul-marinho das cataratas (era impressionante, dir-se-ia que fazia constantemente uma fuga à verdade; as cataratas já há muito tempo que tinham desaparecido, devido ao desvio do rio pelo Coração; mas no entanto eles viviam ardentemente esta irrealidade, apesar de também estarem perdidos dentro dela) – e nada mais disse, ficando inerte, suspenso da vida.

Lá fora uma rapariguinha loira troteava alegremente uma estranha canção:

- Não têm narizes / as filhas perdidas de Lilith/ oh, o cheiro alegre da água / o cheiro vivo de uma pedra!

Fiquei por momentos petrificado a olhar para aquele anjo, sim ela era sem dúvida um anjo, até que um buzinão do senhor Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua nos chamou, provavelmente para outra deslumbrante viagem.

- Não sabia que agora também gostava de diabinhos – gritou-me, ao mesmo tempo que atirava uma pedra à rapariguinha – vai para o Inferno e deixa-te de enganar as almas perdidas

 

Do teu Narciso.

 

 

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