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A Razão
Aurícula Direita - Tempo sem data
“ Hoje somos menos prisioneiros da natureza, mas somos mais prisioneiros de Lilith “. Um pensamento estranho que li escrito no tronco de uma árvore, aliás, da única árvore decente que encontrei até agora. “ Razão “, palavra mágica para todos, a mais poderosa arma alguma vez inventada. Por causa dela dividiu-se a população em duas partes: os senhores e os servos. Aos primeiros deu-se uma linguagem total, enquanto que aos segundos forneceu-se uma linguagem útil, suficiente. Era por isso que os políticos tomavam todas as decisões, pois alegavam que a população “ mal falava “. A monarquia cardíaca depressa divinizou a palavra e assim apareceu a deusa Razão, com as suas leis eternas e imutáveis, estendendo a todos o seu despotismo. No Cérebro, a ditadura perfeita, os indivíduos eram controlados desde a nascença, sendo dado a cada um um certo destino, útil à comunidade. Os bebés eram colocados em envolvimentos diferentes, para assim se transformarem em racionais e irracionais. O Estado decidia quem deveria pensar. Um dia apareceu escrito numa parede da Cidade Imperial do Cortex Occipital a seguinte inscrição: “ Tudo é pecado, sofrimento e morte – racionalidade para todos – EU, grupo de libertação “. O pânico embrenhou-se no poder! Afinal nem todos estavam controlados. Racionalidade para a escumalha?! Isto significava o desagregar dos neurónios, a destruição das unidades estruturais do Estado. Imaginem as unidades do Córtex Temporal começarem a produzir o mesmo que as do Córtex Parietal?
Foram enviadas brigadas de antibióticos para as zonas de potenciais conflitos, mas nada descobriram, pois o Eu era produto da imaginação duma população mentalmente doente. A crise era grave, como se poderia apagar um sonho coletivo, um enfarte populacional? Mais uma vez a deusa Razão atuou e decidiu que aqueles que conseguiam ler nas paredes brancas, estavam contaminados por uma terrível doença muito contagiosa, e só havia um meio para a combater, a destruição dos doentes. A população ficou com o poder de aniquilar os que mencionassem o Eu. A paz retornou ao poderoso Cérebro. O Estado, que se confundia com o poder, com o chefe, era representado por todos e por ninguém. Falava-se muito do rei, mas ninguém o conhecia ou o vira. Parecia que todos mandavam em todos, que uma engrenagem perfeita regulava a vida e a comunidade. Cada indivíduo nascia para uma função, era encaminhado e formado para ela, transmitiam-lhe as informações necessárias para o desempenho do seu papel. Nada mais lhe dava!
Do teu Narciso

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