segunda-feira, 11 de maio de 2026

81 - Cordeiro Verde - O Papão - Dies Irae (parte 1)

 

81

Dies Irae – Dia de cólera, nesse dia, como David e a Sibila profetizaram, o mundo se transformará em cinzas. Então, que gritos, que tremores! Deus descerá do céu para julgar severamente”

                                                              Tommaso de Celano

 

“O conhecimento da Hora só a Deus pertence, só Deus a fará surgir quando tiver de surgir. Ela será penosa nos céus e na terra e surpreender-vos-á de um momento para o outro.”

Maomé

 

A passagem pelo Umbigo é rápida e silenciosa. Apenas um túnel que guarda uma noite muito escura.

- A escuridão foi feita para purificar as almas! - Explica o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua.

Logo depois luz, mas não uma luz qualquer, esta é brilhante, reconfortante, amiga, muito amiga.

- Só nos faltava isto, um Dies Irae, – diz o motorista-profeta. – E eu que queria abastecer neste planeta.

- Um Dies quê?! - Pergunta Paulo, vendo o horizonte bloqueado por uma muralha de unicórnios e respectivas montadas.

- Um Dies Irae, um dia de Juízo Final.

- O Juízo Final?

- Dona Rita, não há o “Juízo Final”, mas dias de Juízo Final. De tempos a tempos é necessário limpar os planetas, renovar as almas, e então Laputa envia os serviços de limpeza. Foi o que aconteceu neste planeta, está temporariamente fechado.

- Serviços de limpeza a planetas?! Assim sim, adoro este Universo, – grita John, com os olhos muito abertos, para não perder nem um bocadinho da cena. - Unicórnios, milhões de unicórnios brancos, é fantástico, vale a pena ter vivido para ver este espectáculo.

De repente, aparece um dragão enorme e pára junto à carrinha. Indescritível, um monstro multicolor, coberto com tufos de pinheiros mansos, tendo cada árvore na sua copa uma bandeira azul celeste. O seu olhar é terno, é meigo, é doce, enfim, apetece-nos cobri-lo de beijinhos, dizer-lhe que é a criatura mais meiga do Universo, logicamente a seguir à nossa mãe, se formos solteiros, ou à nossa mulher, se formos casados.

- Um Papão aqui? Laputa enviou um Papão? - Interroga-se o motorista-cicerone.

- Um Papão, este dragão com cara de menino, chama-se Papão?

- Sim Rita, este jovem que está aqui ao nosso lado, é um Papão, e isto quer dizer que algo de muito importante está a acontecer na Casa de Deus.

- Mas, o que é que pensa que está a acontecer?

- Uma mudança de Tempo ou Idade, como lhe quiserem chamar.

- Tempo ou Idade?

- Vamos aproveitar o Dies Irae, ou Juízo Final, para eu lhes contar um pouco da história do Universo.

- E o Papão?! Falou dele, mas não nos explicou o que é que faz?

- Coronel, o Papão papa ideias, o Cosmos, ou Universo, ou como lhe quiserem chamar, é constituído por ideias do Bem e do Mal, em permanente disputa. Quando há uma concentração excessiva de uma delas, este dragão vem e come-as, repondo o equilíbrio. Para as conseguir papar, elas têm de estar todas juntas, e é isso o que os funcionários do Dies Irae, o Departamento Ambiental de Laputa, estão a fazer neste planeta.

- Vamos à história do Universo! - Diz um dos presentes em tom de desafio, completando a meia-lua que se formou em frente do orador.

- Há um Universo, escrito com letra maiúscula, e universos, escritos com letra minúscula. Todos são peças fundamentais, como num relógio, capazes de parar o mecanismo. Senhor John, sabe porque é que não passou naquela gruta com os seus amigos? Porque não tem passado! Mas tem presente e tem futuro, e é nesses dois tempos que vive. No primeiro é um planeta e no segundo um habitante desse mesmo planeta. Dois momentos diferentes, num mesmo tempo. E para complicar ainda mais as coisas, ocupa o mesmo espaço com outro corpo celeste, ou seja, dois planetas distintos num único espaço, mas em dimensões diferentes. O cartógrafo cardíaco John Kovac’Olhões, habitante do planeta Corpo, ou Adão, figura bíblica, é também um planeta que existe junto ao Corpo, mas noutra dimensão. Perceberam?

- Nítido, cristalino como o vinho tinto, – responde John, provocando uma gargalhada geral.

- Não se ria muito Rita, que o seu caso também é complicado, – avisa o orador, colando os seus olhos na alma da engenheira.

- Com esse seu olhar até fico assustada!

- Rita Bouvalier, menina no passado, engenheira cardíaca no presente, guardiã dum Genátomo no futuro, senhora de três tempos. É raro, muito raro, de certeza que vai ser um anjo.

- Como o gato? - Pergunta, com um ar vivo e trocista.

- Como o gato, como uma aranha, como um pássaro, como um pinheiro, como qualquer ser vivo. O Universo é limitado, os destinos estão escritos, qualquer ser vivo serve para que eles sejam cumpridos. Rita, só o seu futuro restará, o seu passado e o seu presente não pertencem mais ao Eterno Retorno, foram vítimas da sua selectividade. E agora é a sua vez coronel Narciso Figueiredo Baeta.

- Já estava a achar estranho, também sou assim tão complicado?

- A sua atracção é pelo passado, o seu presente é ténue e o seu futuro não foi escrito.

- E eu, não me disse para onde vou?

- John, não tem passado, não tem futuro, tem dois presentes e é somente com um deles que ficará.

Uma luz brilhante interrompe o debate, é o fim do Dies Irae, o movimento torna-se obrigatório e o Papão mistura-se com a poeira do Cosmos. A carripana já se move, deixando atrás de si um rasto de fumo branco.

- Lá somos mais um cometa, daqueles que os entendidos dizem passar de mil em mil anos, – parodia o motorista, aproximando-se da zona gravitacional.

- Qual é o nome deste planeta? - Pergunta Paulo Prestes.

- Leve, o centro do Universo!

- Leve? Que nome estranho.

- Leve de ideias e de virtudes, é o local onde o senhor engenheiro vai ficar.

- O quê, vou ficar aqui neste planeta primitivo? - Indigna-se Paulo, olhando pela janela e vendo casas feitas de pedras e barro.

- A sua missão é levar-lhes as palavras e as leis do Código de Conduta de Laputa.

- Mas eu nem sei qual é esse Código!

- Tome, aqui tem os dez artigos do Código de Conduta de Laputa, – e entrega-lhe uma folha.

- Só isto?! E depois, regresso?

- Sim, é só isso, depois vimo-lo buscar, – responde o motorista-profeta, rindo-se e dizendo baixinho. - Mal tu sabes o trabalhão que vais ter!

Poisam num deserto, um dos passageiros sai e partem de imediato. É estranho ver ali, no meio daquele mar de areia vermelha, o engenheiro de sistemas Paulo Prestes. Lançam-lhe um último adeus, e é isso mesmo, um último adeus.

Estão de novo mergulhados nos oceanos escuros do Cosmos, conduzidos por um senhor que conhece os seus limites. O silêncio é total, só o barulho dos cinquenta cavalos se faz ouvir, mas não é o suficiente para quebrar a contemplação dos presentes. Os últimos dias, se de dias se trataram, foram terríveis e maravilhosos para estes simples mortais, habituados às horas certas e aos destinos calculados.

Uma bola de fogo aparece de repente no lado direito e cruza-se com a “nave”.

- Chegou o seu tempo coronel Narciso, o passado espera-o, a porta do círculo está aberta, – informa o Cabreiro-Maximiliano-Ponta-Mensageiro-da-Lua, abrindo a porta da frente. – A carruagem espera-o.

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