segunda-feira, 11 de maio de 2026

83 - Cordeiro Verde - O Papão - Dies Irae (parte 3)

 

83

Hospital de Mount Carmel, Nova Iorque, 17 de Junho de 1969.

 

A morte da paciente Rita Bouvalier apanhou todos de surpresa. O doutor Richard Cinfuentes estava no jardim a observar um dos doentes, quando lhe deram a triste notícia. Correu para o quarto e aí permaneceu, tentando compreender os estranhos caminhos do destino.

- Ainda ontem estava tão bem, falámos do futuro, disse-me que queria desenterrar o passado, tentar descobrir familiares, construir uma nova vida. Até já tinha escrito o documento a dar-lhe alta. E agora está aqui, a dormir para sempre.

- São os estranhos comportamentos perto da hora da morte, – diz a enfermeira-chefe dando uma festa ao cadáver. - Nós já estamos habituados a isto doutor, são muitos anos a fazer amigos e a vê-los desaparecer.

- Mas nem nos avisou, não tivemos tempo para nos despedir. Estes últimos quatro dias foram uma vida, vivemo-los intensamente.

- Doutor, quer que trate das formalidades?

- Trate, trate, mas ainda vou ficar aqui um pouco a falar com ela. Dizem que a alma fica três dias junto ao corpo.

A porta fechou-se sorrateiramente e o médico pegou com cuidado na mão fria da amiga.

- Rita, durante anos estiveste aqui esquecida, só falavas contigo, nós estávamos egoisticamente longe, só pensávamos no dia a dia, até que tu acordaste e exigiste a nossa presença. Viemos interessadamente explorar os teus sentimentos e tu deste-nos o teu amor. Não havia rancores nos teus actos, transmitiste-nos o que de mais profundo existe na alma humana, a amizade. Agora foste embora de mansinho e as minhas dúvidas tornaram-se gigantescas. Rita, o que eu vivi nestes dias não pode ter sido um sonho, eu sei que viajámos, para onde, só tu sabes, levaste essas memórias contigo. Os teus amigos Narciso e Paulo, são verdadeiros, ou não passam de personagens do imaginário? Mas se são do imaginário, como é que eu sei o nome deles? Porquê ires-te embora agora? És Tu, meu Deus, foi a Tua mão que pôs um ponto final na aventura que ia começar e aqui estou eu, perdido num tempo sem referências. Havemos de nos encontrar algures, até já Rita!

Há acontecimentos que, por pequenos que sejam, deixam marcas profundas na vida dos homens, a história da Humanidade é feita destes momentos insignificantes, que uma vez juntos lhe traçam o destino. Procurar respostas nas grandes evidências não passa de pura perda de tempo, pois aprende-se mais em poucos dias, do que em várias décadas.

- Vê, admira a beleza de Laputa, o sítio mais complexo do Universo, o primeiro a ser concebido por Deus, e de onde partiram os elementos primordiais que fizeram todos os outros planetas. A Água, o Fogo e a Terra, os donos da vida, – diz o Demónio do Meio-Dia, de nome Violeto Serra, agarrando a mão da sua amada Lilith, e depositando-lhe na palma a sua alma, guardada durante muito tempo por Rita Bouvalier e protegida pelo omnipresente Cordeiro de Deus.

As lágrimas escorriam pela face de Rita, era a força do espírito a brotar do inconsciente em catadupas de emoções e temores, que iam muito para lá da essência do ser.

- Chora, deixa esses vulcões expelirem o teu íntimo, sente a existência, a água que foge nas lágrimas não se perde, voltará um dia numa nuvem anunciando a bonança. O nosso amor é uma realidade, tudo se transforma sem sobressaltos de alma, em direcção a um novo ser infinitamente maior e mais profundo, capaz de se modificar dia após dia, até atingir o plano afectivo e espiritual, que agora é comum a todas as espécies, e se situa no centro da realidade.

Lilith foi levada pelo seu demónio para além do Tempo do Universo, para além do próprio limite mais estranho do seu ser, pois tinha a força necessária para enfrentar tal tarefa de dedicação e amor, de alguém que um dia foi condenado à dor e ao sacrifício constante de toda uma vida e cujo único consolo foi saber que parte da sabedoria era cósmica. Mas Lilith era uma cruel deusa sedutora que arrastava sem cessar os amantes numa caçada eterna, para ficar sempre inacessível por detrás de véus despedaçados na perseguição, até ao domínio do infinito. A relação entre estes dois seres era uma história apaixonada da alma. 

 


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