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A nave desintegrou-se, os nossos companheiros de viagem que optaram por regressar às suas casas ficaram pelo caminho, traídos por aqueles que se julgam deuses e que um dia hão-de ser julgados pelos crimes que cometeram. Com a nossa determinação todos estarão presentes e se a verdade for descoberta, estou convicta de que os havemos de reencontrar, e todos juntos regressaremos para as nossas famílias. A experiência que ontem vivemos, fez-nos ver a vida de outra maneira, acreditamos agora que o Tempo não é horizontal, mas sim circular, e quando o conseguirmos compreender, poderemos recuperar muitos passados. Por qualquer razão até agora desconhecida, o radar começou a detetar muitas formas, que se aproximam mas não se concretizam. O engenheiro Paulo Prestes diz que é a essência do Tempo, tudo se cria e nada desaparece! O Universo não é infinito, tem princípio e tem fim, e estes juntam-se num círculo eterno.
Pela primeira vez acendemos uma fogueira e dormimos ao relento. É tão bom sentir o Mundo! John contou-nos que há dez anos atrás participou numa experiência secreta em Lóxis, tendo como objectivo descobrir a mecânica do Tempo e cartografá-lo. O projeto foi inteiramente financiado pelo Coração e baseava-se em documentos da Biblioteca Tricúspica, pertencentes aos apêndicedianos. Segundo eles havia locais de entrada e saída no Tempo, e uma vez utilizados, o passado, o presente e o futuro uniam-se num só espaço, as distâncias deixavam de ter utilidade, pois pura e simplesmente não existiam, tudo estava ali, condensado.
A equipa encarregue do projecto “ Tempo Novo “, construiu uma máquina, o Dímetro, capaz de detetar quatro diferentes dimensões. Neste campo, os conhecimentos eram abundantes, havia a confirmação da existência de dimensões, o Corpo e a sua Aura, dois planetas praticamente sobrepostos, separados por um mícron, distância suficiente para criar ambientes distintos. Inicialmente enviaram sondas para explorarem a Aura, mas surgiram sempre problemas, os aparelhos não conseguiram regressar, restando só as imagens, que não diferiam muito das do Corpo. Algum tempo depois partiu a primeira missão tripulada, de que John fez parte. A viagem foi muito atribulada, estiveram um ano ausentes. Alguns dias após a partida e já dentro da Aura, esta afastou-se grandemente e a nave não tinha condições para regressar. O Coração empenhou-se na construção de um veículo interplanetário para os ir recolher. Durante este tempo fizeram inúmeras explorações e acabaram por descobrir uma cidade magnífica, ou seja, a Nuca. O Aura era pura e simplesmente o Corpo-Dois, a Eva. Aura, Corpo-Dois e Eva, três nomes para um só corpo celeste. Na altura prevista foram recolhidos e receberam ordem para não divulgarem as descobertas. Nunca mais se falou do assunto.
Quando contactaram Jonh para a missão “ Novo Olhar “, ele foi instruído de que esta era a primeira missão oficial ao Corpo-Dois e que devia comportar-se como tal. Foram as revelações do major que o fizeram optar por ficar. Havia algo de muito importante que o Coração queria ocultar!
O projecto “ Tempo Novo “ teve curta duração, conseguiram detetar duas entradas na banda 2 do espectro, mas a exposição desta era de muita curta duração, não havendo meios técnicos que conseguissem colocar pessoas para além delas. O processo foi arquivado, esperando-se então que a tecnologia progredisse, para assim poderem avançar com os estudos.
Adormecemos ao relento, embalados por uma brisa quente de verão.
Assinado, Rita Bouvalier, comandante da missão.

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