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Organon
Crossa da Aorta – tempo sem data
Amigo, estou deitado a contemplar as estrelas que semeiam o céu, tendo em baixo, no vale, a Crossa da Aorta, a grande estação ferroviária por onde se escoavam todos os produtos cardíacos com destino aos quatro cantos do Corpo. Do outro lado ainda se pode ler, escrita com tinta luminosa: “As teorias passam. A rã fica”. Esta frase encontra-se por cima da porta que dava acesso ao Organon, uma organização de ambientalistas que lutava contra a tirania dos cientistas. Este grupo de auto-eleitos punha e dispunha das outras espécies, a maior parte das vezes pelo simples prazer de os ver sofrer. E não tentavam no Memoh porque a lei não o permitia. Caso lhes deixassem o caminho livre, até onde é que eles iriam em nome da “ciência”? A população, através das denúncias do Organon, começou a desconfiar dos seus “génios”, apercebeu-se que o dinheiro neles investido nada produzia além de trabalhos de duvidosa qualidade, e que a fauna do país estava a ser destruída. Os grupos de dissidentes aproveitaram-se do descontentamento e atacaram, denunciando os carrascos e questionando os cidadãos acerca do aumento do poder dos cientistas. A classe política foi sendo dominada por estes, e os valores que suportavam as leis alteraram-se. E tinham razão em denunciarem a aterradora conspiração! Um dia um grupo de cientistas foi autorizado a fazer experiências num condenado à morte e depressa lhe injetaram um vírus pertencente a uma arma biológica. A observação das reações foi sofregamente seguida pelo grupo, até que um descuido permitiu a fuga do prisioneiro cobaia. O pânico instalou-se no Centro de Investigação Militar. O fugitivo era portador de uma terrível arma, capaz de destruir toda a espécie. As buscas foram longas até conseguirem abater a presa, mas o mal estava espalhado. O alerta geral foi lançado e os estados prepararam-se para combater a terrível praga do fim do século. Os cientistas e os seus políticos lacaios depressa arranjaram um culpado por tão mortífero vírus. Mais uma vez o dedo foi apontado para uma outra espécie, o desgraçado macaco-verde, habitante das florestas tíbiais. Os alicerces morais foram abalados pela pressão dos indivíduos sãos, que pretendiam isolar e destruir os contaminados, para assim destruírem os invasores. Estas medidas até não eram novidades, pois o Memoh aplicava-as impiedosamente nas outras espécies. O arrogante Memoh, que se proclamava o mais inteligente e poderoso dos animais, estava agora nas mãos de um inimigo invisível e implacável. Como sempre apareceram falsos moralistas gritando raivosos de pedestais, que os mantinham afastados dos contaminados, a defenderem-nos. Mas a doença era para todos e também eles, abutres da alma, foram atingidos e humilhados. As sementes da revolução estavam lançadas e as mentes vazias de conteúdos. O Memoh era um animal de fácil adaptação e depressa superou as dificuldades, acabando por aprender a viver com elas. A partir daqui foi dada nova confiança aos torturadores para combaterem o inimigo. Mas desta vez já estavam divididos e muitos organizaram-se na resistência Pus.
Do teu, Narciso

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