27
- Isabel, sentiste medo ontem à noite? – Perguntou Sara mal se sentou à mesa do pequeno almoço no dia seguinte.
A refeição tinha uma tonalidade afetiva.
- Medo não diria, mas respeito sim, – respondeu, pondo açúcar no leite.
- Se os viram, quer dizer que já se elevaram, – exclamou Adelaide, com um olhar sereno.
Ambas olharam-na.
- Adelaide, acreditas na vida para além da morte?
- Menina Sara, o significado de vida não está presente no nosso mundo, nós estamos sempre entre uns e outros. O meu receio de morrer há muito que se dissipou, porque com eles aprendi o que vou receber.
Isabel era uma rapariga invulgar pela força do seu carácter e pela firmeza das suas convicções. Por isso quando olhou para uma foto antiga que estava pendurada numa parede, fez um pequeno romance. Ao lado estava um quadro onde se via uma mulher deitada sobre uma mesa transformada em cama temporária, com os pés descalços, que ultrapassavam a borda. A palidez da pele não deixava dúvidas de que já não havia vida naquele corpo. Sentiu uma sombra passar por si arrastando os pés pelo soalho. O caderno dos exercícios de matemática caiu sozinho ao chão e quando o apanhou, a rapariga exclamou:
- Fizeste-me os TPCs todos, obrigado Sara.
- O quê? – Perguntou a amiga levantando-se e aproximando-se. – Eu não fiz nada, nem tive cabeça para essa seca.
Elas não sabiam que estes fantasmas ganhavam autonomia quando os hóspedes os punham nas suas vidas, trazendo fascínio mas também perigos. Isabel ouvira uma música leve, mas não vira um espetro aproximar-se do seu corpo e do seu prazer. Seriam os fantasmas reais ou apenas alucinações, fruto de um estado psicótico da governanta, que espalhara relâmpagos, fragmentos curtos, súbitos clarões, onde encontrara o próprio medo. Estaria a governanta atormentada por uma história de amor aos soluços, demasiado longa? Isabel olhou pela janela e viu um sol branco. Na sombra de uma árvore centenária do jardim viu um rapaz atlético, alto e espadaúdo, de olhos vivos, capazes de engolir o que viam, gesticular para si. Tocou ao de leve o vidro e com a ponta dos dedos os lábios. Ainda teve tempo de ver os olhos rasgados a luz e um sorriso de marfim. Desviou o olhar e ficou de frente para um espelho, onde viu o seu reflexo, sentindo-se a olhar para si próprio de fora para dentro. Mas algo lhe dizia que aquela imagem não era ela, mesmo sendo muito parecida. Ao lado estava um quadro com fotografias a preto e branco com muito grão, das paisagens agrestes da quinta. James e Isabel eram duas pessoas decalcadas a papel químico uma da outra, nas suas frustrações e aspirações, nas suas maneiras de sentir e falar. Ele estava desencantado com a morte, ela com a vida, quase roçavam o niilismo, mergulhados agora na escuridão angustiante do quarto, onde ele apareceu às cegas, intocável, partilhando a solidão nos sentimentos. Havia uma inquietação, não se insinuava qualquer linha de fuga imprevista. A imagem de James era muito limpinha, sem espessura. Os segundos passaram um a um. O rapaz olhou para a rapariga que estava diante de si. Apenas. Não fez um gesto para lá do lento movimento do dedo indicador da mão direita, que flectiu. Não disse uma palavra. Sentou-se, invadindo a cama. A rapariga observou o seu reflexo no vidro.
- Tu és o rapaz que eu vi hoje de manhã no jardim, – exclamou Isabel, aproximando-se.
Para ela o amor era um lugar estranho em que o tempo era medido em mimos, e tinha como vantagem pertencer a uma geração capaz de navegar em espaços não analógicos. Já não via as coisas, mas o espaço em volta delas e por isso sentiu que os seus sentidos estavam a perder a unidade, a sombra escura nos seus olhos luminosos mostravam que o sentimento era carnal.
- Nós somos feitos de sonhos, – disse James com uma voz irónica, enfeitiçado pelos olhos mágicos cor de violeta. – Acreditar é muitas vezes um imperativo de sobrevivência. Temos de aceitar o que nos é oferecido.
O sonho era agora muito maior que a vida, por isso Isabel entregou-se perdidamente aos restos da imagem daquele homem de pé, encostado à parede sul, que ainda se deixavam tocar. Sentiu os lábios do corpo ausente. Não deveria ele ser puro espírito? James era a prova de que a morte não era o fim do mundo, mas somente uma etapa decisiva da existência. Não era fácil entrar nem sair da relação, pois ela misturava várias dimensões, tinha algo de misterioso, de mágico, de hipnótico, de fascinante, de sedutor e de sinistro. A relação limpava-lhe a mente e preparava-a para a poesia. Aquilo que tinha diante dos olhos era a realidade tal como ela era. James tornou a aparecer. A sede de amar e a vontade teimosa, impeliram Isabel sempre em frente. Atacaram-se com uma insolente apaixonada gentileza, provaram-se e saborearam-se sofregamente. Depois disto James desfez-se no ar como pólen. Isabel olhou para o espelho e viu que o seu rosto tinha ganho em alegria, confiança e entrega. Quando se preparava para se deitar outra vez, James apareceu num canto do quarto e ela correu novamente para ele. Tornaram a beijar-se, ela fechou os olhos na entrega, mas sentiu que ele desaparecera na escuridão.
- Quando é que te vou voltar a ver? – Perguntou Isabel.
Um brilho apagou tudo e um segundo depois a luz extinguiu-se. Ela deu um grito silencioso e deitou-se como se fosse feita de milhares de pedacinhos coloridos, agitada. Não gostava de usar brincos e anéis, era obstinada com a ideia de ser feliz. James ainda apareceu uma vez, mas acompanhado por um homem elegante. O rapaz estava perdido no mundo celestial, sentia-se subjugado por forças, entidades, relações que não controlava nem escrutinava. Entre eles havia uma rara ligação, que libertava algo que não queriam, um monstro que não estava nas suas faces, mas dentro deles. Ela olhou pela janela e viu-o a acenar-lhe do exterior, mas não ouviu o que disse:
- Tenho medo das coisas que posso fazer!
Correu para a rua e sentiu uma chuva mansa e igual, cada um à sua maneira estavam aprisionados no labirinto da solidão. Isabel soluçou em silêncio agarrada às linhas de luz, por isso nem se apercebeu do embate do carro!

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