quarta-feira, 29 de abril de 2026

42 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 3

 



42

Os Senhores do Coração

 

 

Ventrículo Esquerdo - Tempo sem data

 

Caro amigo, hoje foi o dia mais feliz da minha alegre e triste vida. Encontrei um velho zarolho chamado Álhi, fugitivo de outra aventura, a falar com uma meia osga, um precioso marisco nos dias de hoje.

- Amigo caminhante, que belo discurso e que atento ouvinte – disse, obrigando-o a voltar-se para trás.

- Mais vale falar para uma meia osga, do que para um intelectual inteiro – retorquiu e continuou lendo o seu livro – “Vede trepar esses ágeis macacos! Trepam uns sobre os outros e arrastam-se assim para o lodo e para o abismo. Todos se querem abeirar do tronco: é a sua loucura – como se a felicidade estivesse no tronco! - Frequentemente também o trono está no lodo” – e apontou para o cadeirão podre do rei do Coração, D.Sistole II.

- Que palavras tão confusas.

- São mais simples do que a nossa vida. Já não sabemos quem somos nem para onde vamos. A única certeza que tenho é de que não posso parar mais do que dez minutos! - E desapareceu, embrenhando-se nas entranhas dos túneis.

Não soubemos descobrir a nossa posição no Corpo. Poucos foram os iluminados que se consideraram uma espécie entre as muitas que habitavam este extenso planeta. Todos tinham o direito à felicidade! O papel que foi dado ao Memoh pelos deuses era grande demais para tão mesquinho ser. Quando o povo dos Rins definiu os seus valores, sentiu-se com o direito de escravizar as outras raças. Ele era coerente com a maneira de pensar do Memoh, pois a relação com as outras espécies baseava-se nesta mesma filosofia de vida. Quando a lei desapareceu a “selvajaria” tomou o lugar da “civilização” e os atos cometidos foram de longe superiores à destruição que Deus fez em Nagasaki e Hiroshima, as duas cidades da perdição, segundo o Livro Sagrado. A crueldade era a festa do Memoh, a guerra o seu sonho! O grande erro foi não terem tomado consciência de que o seu grande inimigo era a sua própria espécie e não as outras. As doenças que mais o matavam eram transmitidas pelos seus semelhantes, mas no entanto ele insistia em dizimar os outros seres. Um dia foi posta em dúvida a superioridade do Memoh, muitos indivíduos deixaram de acreditar na sua espécie e aliaram-se às outras, depois de descobrirem a grande fraude. E tudo isto devido à matança dos deuses. A populaça entrou pelas cidades, atravessou as muralhas e descobriu a verdade acerca dos senhores do Coração: o deus que proclamavam estava seco, o pó que o cobria tinha séculos. O ódio aumentou quando descobriram os tesouros que os falsos moralistas guardavam nos seus cofres. A comida e o luxo abundavam, enquanto eles proclamavam o seu amor, e o do seu deus, aos pobres que semeavam o Corpo. Os exércitos de analfabetos eram a garantia dos seus privilégios. Matavam todos aqueles que ousassem levantar o véu que os separava do real! Até chegaram a assassinar um dos seus monarcas, Helias I, que resolvera investigar a verdade. Só um mês reinou, até que lhe deram o chá maldito. O orçamento da monarquia do Coração era feito em função do número de fiéis e duma esmola média. Quanto mais fiéis mais luxos! A causa de todo este caos deveu-se ao divórcio que sempre existira entre o que os senhores do Coração pregavam e o que faziam. Foi esta a sua ruína, a ruína do Corpo, que levou à revolta das mentes, à loucura dos enganados. O povo preferiu destruir tudo, auto destruir-se, do que continuar a viver com a mentira e com os mentirosos. E eram maus porque os poderosos é que tinham meios para serem bons. Estou a tentar sobreviver apoiando incondicionalmente os chefes, que vão mudando.

                        Do teu, Narciso

41 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 2

 



41

O Memoh

 

 

Ventriculo Direito - Tempo sem data

 

 

Após esta breve conversa com um deus que eu já não sei quem é, descobri escrito numa das paredes duma antiga estação ferroviária um pensamento que te transcrevo:

“ Se o indivíduo não é livre para a realização da sua essência – que é verdadeira, boa e bela – se não é livre para ser memoh, jamais poderá ser são física, psíquica e espiritualmente; perecerá juntamente com a civilização que está em franco processo de destruição “.

Quando leres estas folhas já estarei convertido em pó e o mundo será outro, completamente diferente, mas sei que tudo é cíclico e que um dia nos encontraremos. A pouco e pouco fui-me apercebendo de que dentro de todos existia algo de muito maléfico, que nos empurrava para uma insaciável vontade de dominar os outros. Bem podíamos negar esse implacável desejo, pois quando tudo entrou em convulsão, eu vi com os meus próprios olhos indivíduos, que sempre mostraram benevolência, transformarem-se em autênticos tiranos na altura em que assumiram o domínio sobre os outros. Foi o desmascarar de imagens construídas por valores seculares. Tudo era uma questão de sobrevivência, tínhamos finalmente tomado consciência da nossa posição no planeta: unicamente éramos uma das inúmeras espécies. Se o respeito pelos outros tivesse sido o nosso lema, não estaríamos agora à espera do Juízo Final.

Lembro-me que quando o Dr. Opereta lançou a ideia de melhorarmos a nossa espécie, para a médio prazo termos uma população saudável e unida, todos o combateram. Acusaram-no de querer reinstalar ideias de civilizações antigas, que visavam racismos inaceitáveis nos dias de hoje. Hipócritas, idiotas, perdemos a grande oportunidade de nos modificarmos. Os sacerdotes, como sempre, detinham enorme poder e através dele continuavam a defender intransigentemente as suas nefastas ideias fixistas. Preferiam ter uma população demente e doente, pois assim conseguiam dominá-la com facilidade, conservando intactas as suas regalias. Deus, sempre o desgraçado Deus, era explorado até à última! Se tivessem controlado as populações tínhamos evoluído rapidamente para um Memoh novo, com um novo sangue e um espírito renovado. Mas a nossa espécie escolheu, mais uma vez, o caminho errado. Enquanto os casais sãos só tinham em média dois filhos, os casais mal formados, alcoólicos, doentes mentais, apresentavam a sua marca recorde de oito descendentes. Eram indivíduos muito atrasados mentalmente, que só viviam para si e para os seus prazeres. Partilhar não estava escrito no seu comportamento genético. Cada vez aparecia mais dependentes e a comida começou a escassear. A par com tudo isto um cancro social invadiu de surdina as cidades e foi dinamitando as mentes: o tumor político, um grupo de dirigentes mentalmente degenerado, que lentamente tomou conta do poder, modificando as leis, visando assim conquistar as mentes. O que restava da civilização estava completamente cercada, através do espírito e da carne. E estes dois grupos de poderosos acabaram por encontrar-se frente a frente, reclamando o espaço vital um do outro: uns queriam comida e os outros escravos. Foi então quando todos se aperceberam dos milhares e milhares de anos deitados para o lixo: o Memoh estava na mesma, mesquinho, arrogante, cobarde, explorador e temente a um deus.

Coitado de Deus! Quantos crápulas se aproveitaram do Seu bom-nome para escravizarem povos, para deterem durante séculos o poder. As suas vidas foram autênticas orgias pagas pelos espíritos imbecis dos dominados. E tudo isto tudo isto em nome de Deus e do desgraçado que crucificaram. Alguns tentaram alertar para o perigo que se aproximava, mas a idiotia tinha invadido as almas e agarrava-se a elas como a lapa à rocha. Pagaram-lhes a ousadia com uma fogueira que lhes derreteu as carnes. Apesar de tudo as ideias foram-se espalhando, até que o seu peso abriu os olhos dos humilhados e com eles veio a revolta. Olho para o horizonte e só vejo uma terra devastada pelos ódios, uma terra cansada de ser enganada, que prefere a morte à falsidade, o respeito ao egoísmo.

Nós, os “caminhantes”, quando nos encontramos atualizamos a vida. Ontem encontrei pela terceira vez o “Olho de Peixe”, que me contou ter visto numa cidade um pregador a fazer milagres e a caluniar os governantes. A populaça seguiu-o com veneração e apupou os seus chefes. Espero que desta vez a sua mensagem faça a apologia do Bom e do Forte e consiga assim encaminhar as gentes. Soube que Deus está revoltado com todos nós porque O tornámos um pedinte. A Sua mensagem foi desvirtuada por uma espécie que não O merecia, por animais destituídos de almas, que impuseram a si próprios, e principalmente aos outros, valores de dominadores. Agora Deus teve de vir pessoalmente repor a verdade! Os que O viram dizem que está cansado e triste. Anda à procura dos enganadores, daqueles que deram uma imagem errada da Si, e que construíram palácios com o dinheiro dos outros. Quando os encontrar vai castigá-los implacavelmente, pois não merecem qualquer tipo de perdão. Então Ele só é o Deus dos egoístas e dos piedosos, desprezando os bons e os fortes? Não, os misericordiosos não eram nem o Bem nem o Mal, as rezas não salvavam ninguém, tudo era falso, os oportunistas tinham-No ludibriado e enriquecido à custa dos céus. Era mentira que Ele tivesse alguma vez perdoado aos assassinos dum dos Seus filhos. Mas os negociantes de céus depressa aproveitaram o acontecimento e o negócio montado foi próspero durante muitos séculos. Deus presente em todo o lado, ao mesmo tempo!?? Como era isso possível!?? Só os idiotas é que acreditaram nisso e foi para eles que os vigaristas se voltaram. E assim Deus está na nossa terra, algures à procura destes negreiros da alma, que levaram à ruína do Corpo. O “Olho de Peixe” disse que Ele ia cheio de ódio pelos Seus bajuladores e que tem um raio para atirar sobre cada um deles. Criaram um povo medricas, em vez de um forte, como tinha pedido! Tinham feito do sofrimento do corpo uma virtude, em vez da alegria da vida, da paz e da serenidade...Adorava continuar a escrever-te, mas tenho de me deslocar. Neste paraíso que criámos quem estiver mais do que alguns minutos parado morre! É a tirania do Tempo!

                                           Do teu, Padre Narciso Baeta

40 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 1

 

40

“ Cansados das tentativas eternas para forçarmos o caminho

pela matéria rude, escolhemos um outro caminho

e procurávamos atingir o infinito. Entrámos em nós

mesmos e criámos um novo mundo “

 

Henrik Steffens

 

 

Monólogo com um Deus

 

Cidade Coronária – Tempo sem data

 

Como já te apercebeste, esta é uma data sem significado para quem está abandonado num tempo que não é o seu e com uma mensagem ininteligível para quem não conhece o Mentino. Sinto-me um universo!

Ó Deus, quem és Tu? A única coisa que sei a Teu respeito é-me contado por negociantes de almas obscuros, silhuetas que dizem representar-Te e até há um embaixador Teu aqui no Corpo. Vejo que têm um cosmos privativo e com ele dominam o nosso mundo. Até quando é que Tu o permites? Será que Tu também és propriedade deles, será que eles são os Teus negreiros? Até quando é que eu vou acreditar na Tua existência? Sinto que caí dentro de mim mesmo. Estou confuso, muito confuso!

Universo, caixa onde se guarda toda a nossa existência, saco onde se amontoam as infindáveis ideias dos seres que o habitam, guardião do caos, panela onde ferve o sangue das lamentações, onde a paisagem se faz e desfaz, espaço controlador de rebanhos formados por nuvens electrizadas, descendentes de partículas abandonadas por deuses brincalhões. Universo, elemento estrutural dum universo, sítio aglutinador de pensamentos vaidosos, onde a ignorância e a mentira fazem lei, magoados com a sua própria vitória.

Esta é a história dum planeta chamado Corpo, que existiu algures num canto dum universo, sendo habitado por seres que se agruparam em vários países. Cada individuo era naturalmente dotado duma necessidade de espaço vital, sendo capaz de fazer tudo para conservá-lo. E o espaço vital de cada país era a soma dos espaços vitais de todos os seus habitantes. Os países mais importantes eram o Coração, o Cérebro e os Pulmões, sendo o equilíbrio mundial distribuído pelas influências destes três povos. Mas era o Coração, a impiedosa monarquia cardíaca, que mais poder detinha, visto ser a única que possuía um cosmos privativo, um deus exclusivo. Era o reino da moral, durante muito tempo dirigiram moralmente as outras nações, controlando-lhes as mentes e definindo-lhes os conceitos. O seu poder era tal que chegaram a determinar o tempo do metabolismo de todas as raças, uniformizando-o ao seu, conseguindo assim dominar o esquema de pensamento dos outros povos, atrasando-o. Devido a isto os cardíacos pensavam mais depressa. O Coração pregou a crueldade contra os outros e contra si, o indivíduo devia impor a si próprio regras rígidas que, segundo eles, eram impostas por um ente superior que os criara e com isso os queria pôr à prova, para um futuro além corpo. Enquanto isso os nobres do Coração viviam com todos os vícios e sonhos que os outros desejavam na intimidade. Para o Coração o Corpo estava acima das estrelas, era o centro do Universo. Mas houve um individuo que o desafiou, provando que ele estava unicamente no meio de muitos outros corpos e a justiça cardíaca atuou rapidamente, condenando-o à morte por sabotagem do conhecimento. Para alguém ser talentoso precisava de ter o consentimento do Coração. Mas um dia a revolta contra os valores chegou e o planeta entrou em convulsão.

Esta é a história dum habitante do Universo revoltado com os seus valores mais sagrados, depois de se ter apercebido da falsidade dos seus ideais. Encontro-me algures zangado com Deus, até já ameacei escrever o Seu nome com letra pequena. Foi na rua que conhecemos o Olhar do Anjo e o amámos até ao fundo da nossa alma. Mil alegrias, mil cumplicidades passámos contigo na dificuldade da nossa vida. Foi tudo tão bonito! Transmitistes a tua boa loucura à nossa esperança, enchestes de amor o bater dos nossos grandes corações. De repente as fontes secaram e o mar da vida retirou-se! Ventos de silvos agudos trouxeram as palavras mais silenciosas e com elas as tempestades. Por cima de nós a má lua sorriu por maldade, mostrando a cumplicidade do patrocinador da vida. Proclamei a loucura! Gritei a canção da loucura! Do túmulo quis ouvir risos infantis a despertarem-me do pesadelo que queria estar a sonhar. Desejei asas para me transportarem a remotos passados. Quem és Tu que dás aos maus e tiras aos bons? És o Bem, que a tantos mandas proclamar, que imagens sem graça despejam palavras desnecessárias à vida? Gritos roucos de cólera Te oferecem! Para que a paz retorne à nossa amizade preciso que a Tua palavra chegue aos meus ouvidos e me acalme a alma. Peço-Te em nome da vida! Dá-nos o Olhar do Anjo, ele é a nossa harmonia. Até o Teu filho entregaste à má lua, mas depressa lhe patrocinaste a vida. Faz isso connosco, manda um mensageiro com a palavra mágica e eu amar-te-ei para sempre. As minhas lágrimas percorrem-me a alma. Não percebeste a cumplicidade! Aliás, só percebes aquilo que queres. Passes de mágica distribuíste aos necessitados quando não Te conheciam, mas depois disso só com os poderosos é que falas. Porque é que persegues os bons e ignoras os maus? Dá-nos o Olhar do Anjo, pois ele é a nossa alegria. Que me interessa o Teu reino, ó patrocinador da vida, se aqui me tiras o pouco que tenho. Ter que sofrer para depois receber mil sorrisos luminosos, não, não quero. Fala comigo, explica-me as Tuas razões, deixa-me dar-Te as minhas e ambos chegaremos a um acordo de amor. Raios atravessam-me a alma, matando a bonança do meu espírito, semeando dúvidas nas minhas certezas, escurecendo o céu virtuoso do meu viver. Quem és Tu ó patrocinador da vida? És falso? És verdadeiro? És bom? És mau? Porque é que não abriste o espírito nas horas difíceis? Os amigos não são para isso? Não passamos de bonecos nas Tuas mãos, de palhaços de barro que moldas com desprezo. Jogaste nessa noite com os Teus dados viciados que só o amor destrói e rejubilaste de alegria quando o ás apontou para o Olhar do Anjo. Tantas vezes pedi a alegria para a vida, mas Tu só dás aos que muito têm. A corda da nossa grande amizade está frouxa e decerto se partirá, pois de Ti já pouco espero. Só não o fazes se não quiseres! Basta um dedo Teu para me dar a alegria da vida. Uma música suave abana-me a alma e aviva-me as inúmeras recordações.

Torno a gritar, as estrelas estão por cima de Ti, já nada Te peço, porque não acredito. Roubaste-me o Sol, tapaste-me o Céu, baralhaste-me os ventos, as lágrimas percorrem-me a alma, tento imitar a Tua maldade, mas confesso-me impotente para tal, pois falta-me a coragem. Falo-Te com raios, ó patrocinador da vida, porque a dor que me deste nunca mais desaparecerá, ficará guardada dentro das minhas profundezas, junto aos meus dragões. Pensavas que eu me esquecia com o passar das luas? Louco, és um louco com um poder infinito, que brinca com as almas do Universo, que até os Teus amigos desprezas! Para me dares a semente quiseste em troca o Olhar do Anjo. Pedia-Te muito? Muito têm aqueles que Te dizem representar, aqueles parasitas que tudo fazem para aclamar a Tua mentira. A Tua palavra é falsa, porque nada do que dizes cumpres, a Tua palavra é negra como a noite mais escura, porque até o simples e pequeno amor destróis. Nunca lês-te o Teu livro?...E o tempo passa! Trinta, trinta sóis de recordação, trinta luas de esperança, amor e saudade, mas o Teu desprezo é total. Duvido que oiças os meus apelos! Ó patrocinador de algumas vidas, com a que Te peço nada ganhas e por isso nada fazes. És um egoísta, será que Te falta a coragem para falar comigo? Tens medo, ó Poderoso entre os poderosos? Agora sei que as palavras que mandaste o Teu filho proclamar são ventos falsos, que sopram em direções invisíveis. Ó Olhar do Anjo, onde quer que tu estejas amar-te-emos para sempre, pois tu foste o calor que nos aconchegou nos momentos difíceis. Aparece-nos ao menos uma vez a dizer que estás bem! Olho para os Teus palhaços, ó patrocinador da vida, e descubro a Tua falsidade. A desgraça dos outros é o Teu jogo preferido, eu não posso perdoar, porque Tu sabes o que fazes. Pela segunda vez jogaste aos dados e reacendeste a minha dor.

Esta é a história de um grupo de exploradores em busca duma civilização desaparecida, algures no meio de um oceano. O pior que lhes aconteceu foi tê-la encontrado! Descobriram que tudo era Universo e que não eram naturalmente superiores à fauna e à flora. Assustaram-se quando souberam que a moral tinha desistido em favor da ciência e do progresso, tendo os habitantes sacrificado os seus deuses em nome da felicidade. E os vapores do cérebro ferveram quando descobriram que os deuses estavam dentro deles e tinham sido ultrapassados. Só o retorno à Natureza, ao respeito por ela, poderia abrir de novo os horizontes dum futuro radioso. Descobriram que a queda duma civilização dá-se quando os princípios cósmicos são desrespeitados e uma chuva de rãs banha os infratores. Chuva de rãs? Sim, chuva de rãs, um fenómeno celestial que nunca passou pela cabeça dessa civilização, que não se conseguiu alcançar, apesar de tentar atingir um estádio superior. As grossas muralhas do Tempo e do Espaço não deixavam os relâmpagos iluminarem as suas almas e por isso não sabiam a dimensão da grandeza nem o limite da pequenez. Esquadrinharam os céus à procura do sentido do Tempo e descobriram horrorizados um macaco e um anjo a estudarem juntos. Bandas celestiais tocavam na mesma sala, acompanhadas pela bela voz de um assaltante dos céus. Era o caos, a frustração cósmica fizera explodir a harmonia e a civilização perdera o Tempo. Então soaram os sinos da derrocada. Todos se atiraram uns contra os outros por terem cheiros diferentes, apesar de há milénios viverem juntos. E o Corpo tombou para sempre, vítima da sua própria ignorância....

Amigo, vi saírem de dentro de mim todos estes dragões, que só nos aparecem nos sonhos. Foi tudo tão rápido, mas ao mesmo tempo tão nítido!

segunda-feira, 27 de abril de 2026

39 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - O Efeito de Eva

 


39

Ivone estava a ver a telenovela, quando de repente umas terríveis dores abdominais a obrigaram a cair desamparada no chão. Viu-se a voar, rodeada de horizontes de voo de águia e de pássaros gordos, com as almas atafulhadas de humanidade.

- O que tens ó mulher?! – Perguntou a mãe, entrando de rompante na sala, depois de ter ouvido o estrondo do embate da filha no soalho.

Durante uns largos minutos abanou desesperadamente o corpo inanimado, que se contorcia violentamente. Estava só com um destino a cumprir.

- A barriga mexe, - gritou a Ivone num segundo de lucidez.

- Estás “prenha” outra vez?! Mas o teu primo não faz outra coisa senão saltar-te para cima?! E eu é que tenho de cuidar depois dos teus ratos. Não, desenrasca-te, - avisou a mãe, batendo com a porta, e deixando para trás aquele mundo gélido, escuro e molhado.

Ivone sorriu, sorriu, sorriu porque sabia que era dotada da sabedoria de usar os outros e os seus recursos eram uma fonte de invenções e mentiras delirantes. O sorriu permaneceu quando voltou a perder os sentidos.

- Abandonaste o nada para chegares ao nenhures, – disse alguém, fazendo-lhe uma festa na cara feia e gorda. – O “Efeito da Eva” tem destas coisas, é implacável. Não podemos subestimar o seu poder.

Quando voltou a abrir os olhos, viu o rapaz e o animal verde junto a si.

- Travaste uma luta inglória contra o vício, foi esse o destino que Laputa te deu. O teu carácter afirmou-se com traços muito puros, mas duros. É por isso que estamos aqui, para reorientarmos a missão que recebeste.

- Mãe, onde está a minha mãe?! – Perguntou, com os olhos esbugalhados, tentando levantar-se da cama.

- Ela já vem do “Tempo dos Elementos”, foi Fogo, foi Água e foi Ar, foi Senhora das Tempestades, dos Fluxos e dos Movimentos, – disse o rapaz para o cordeiro verde. – No “Tempo dos Deuses” pertenceu às Neimeres. Começou perfeita e acabou desmembrada, ilegal. Está cansada. Será que exagerámos? – Olhou para o animal e continuou: Lilith merece todos os sacrifícios. Já temos as cinco partes da nossa deusa mas temos de saber a qual dos hospedeiros pertence a fechadura da chave que Laputa nos deu.

domingo, 26 de abril de 2026

38 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Mentino

 

38

O doutor Vicenti Lorenço tirou um charuto duma caixa de prata, acendeu o isqueiro e deu a primeira fumaça. Através da janela podia adivinhar-se a excelente noite de verão que cobria Buenos Aires, neste estranho ano de 1969. O ferrolho gemeu quando a grande mão o rodou, deixando a porta abrir-se com estrondo. A noite escura avançou e embrenhou-se pela sala, cobrindo-o da cabeça aos pés. O dia cansativo obrigava-o a deitar-se no sofá e a semicerrar as pálpebras. O descanso foi interrompido repentinamente por um barulho vindo da varanda. Reparou num indivíduo a espreitar para o céu através de um telescópio.

- Vou provar a grande farsa, - disse o estranho, olhando para o telhado.

- Tu ousas pôr em causa a verdade, Galileu Galilei?! – Gritou alguém.

- Qual verdade Ptolomeu?

- A verdade que diz que o planeta é o Centro do Universo. A tua certeza levou a humanidade ao desastre.

A cena que Vicenti assistia, sem saber se era real, ou apenas um sonho, de tão nítida que era, foi interrompida por um rapaz sentado numa das cadeiras, com um cordeiro verde ao colo, que se deliciava com as festas que recebia.

- Então doutor Lorenzo, que belo espetáculo?

- Quem é o senhor?! – Perguntou, tentando mover-se.

- Eu sou um mistério e incomodidade, que assistiu consigo a uma história bem contada, mas num espaço vazio, porque já tudo avançou. Mas ver Galileu ao vivo, é uma honra para qualquer astrónomo da sua categoria. Nem que seja num sonho, que não é o caso. E Ptolomeu ?

- Prefiro o grande Galileu Galilei, - respondeu, com uma voz calma. – Foi o homem que nos pôs a rodar à volta do Sol.

- Já há muitos séculos antes Aristarco de Samos, filósofo grego, dissera que o Sol estava fixo e a terra girava à sua volta, depois de ter observado os astros e o mar, – exclamou o visitante, fixando o olhar.

- Mas essa verdade ficou com Galileu.

- Mas não era dele! E Ptolomeu também tinha outra verdade.

- A da Terra ser o Centro do Universo. Belo disparate, – respondeu Vicenti com um ar arrogante, talvez por ser um sobrevivente de si próprio, que já deveria ter morrido há muito, por uma questão social.

- E como explicas tudo isto?

- Um sonho, um sonho agradável.

- Que te vai deixar uma prova da sua existência, – aproximou os lábios da orelha do animal e continuou, com um tom quase imperceptível. – Vai ser gozado e reduzido à sua insignificância, para que as suas angústias, as suas memórias e as suas vivências se transformem num silêncio zangado.

Vicenti acordou sobressaltado e acendeu a luz. O que é que acontecera? O charuto ainda fumegava e estava no princípio. Olhou para o teto e reparou que na pintura que decorava a sala, havia três gerações, a Terra era o Centro do Universo. Uma estranha legenda acompanhava o magnífico trabalho: Mentino! Mas afinal estava imóvel numa sala, com outras pessoas, todas com as cabeças caídas para trás, perdidos no tempo e no espaço.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

37 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Espírito Livre

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Inverno de 1920. O mau tempo parecia ter-se todo reunido na cidade de Paris. Ventos ciclónicos varriam a capital de França, obrigando os seus habitantes a protegerem-se dentro das casas. Os transportes públicos estavam parados, a iluminação desaparecera, ninguém se atrevia a sair à rua. O dilúvio vinha limpar um estranho vírus que descera no planeta dez anos antes e matara silenciosamente quatro milhões de pessoas.

- O Diabo anda à solta senhor doutor – disse a criada, benzendo-se e quebrando o silêncio sepulcral que reinava na casa dos Bouvalier – A menina Rita estava tão bem hoje de manhã.

Todos olhavam incrédulos para a rapariga prostrada num sofá. Parecia uma estátua. O corpo estava estendido e rijo, tinha o queixo colado a um dos ombros e os olhos esbugalhados.

- O ritmo respiratório e cardíaco estão normais, mas tudo isto ultrapassa-me. Tenho de consultar alguns colegas meus, pois nunca vi nada igual, – explicou o médico levantando-se. – O olhar parece indicar um delírio da alma, é qualquer coisa que ultrapassa a medicina e...

- Doutor sinto que a Rita está desperta, ela está a tentar dizer-nos algo, – interrompeu o pai ao mesmo tempo que agarrava numa das mãos da filha. – Tenho de descobrir uma maneira de falar com ela.

- Nestes últimos dias alguém notou alguma alteração no seu comportamento? - Perguntou o médico voltando-se para a assistência aterrorizada.

- A menina nestes últimos dias estava tão feliz. Ainda ontem falámos durante quase toda a noite.

- Parecia andar muito agitada, – disse a mãe com uma voz muito suave. – Mas tinha razão para isso, o casamento está marcado para o mês que vem.

- Há dois dias, por volta das duas da madrugada, quis ir tomar banho ao lago. Nem o noivo a conseguiu fazer mudar de ideias, – exclamou o irmão dum dos cantos da sala.

- Falta de ar, neste último mês foram quatro vezes e sempre à quarta-feira à meia-noite.

- Eu até disse à menina Rita que parecia que alguém lhe tinha lançado um mau olhar...

- ... deixe-se de disparates Maria. Essa sua mania de espíritos já começa a incomodar-nos.

- Ela costuma ter dificuldades em respirar? - Perguntou o médico voltando-se para o pai.

- Que eu saiba não. Sempre foi uma rapariga saudável, muito afetiva e equilibrada.

- É melhor esperarmos e vermos a evolução da paciente. Venho vê-la amanhã. Até lá agasalhem-na e deixem-na repousar.

A um dado momento Rita reparou em vários vultos ao redor de uma mesa, a da cozinha da casa antiga dos bisavôs. E viu-os, mais ao irmão Charles, que tinha desaparecido há muitos anos, e que só o conhecia por fotografia, o Leal, o cocheiro e mais outras que não sabia quem eram. Eram pessoas mortas que estavam agora à sua frente.

- Olá Rita, – cumprimentou o irmão, fazendo-lhe um sinal com a mão.

Todos se voltaram para ela.

- Estás tão bonita querida, – disse a bisavó Beatriz.

- Charles, o que é que te aconteceu? Tive tantas saudades tuas.

O irmão levantou-se, foi sentar-se no sofá junto à irmã e pegou na sua mão.

- São factos sem importância para nós, mas compreensíveis para ti. No dia em que saí, o tio Amadeu deu-me boleia para a escola. Tinha estado à minha espera, sabia do meu horário. Ninguém nos viu. A meio do caminho atacou-me e revelou-se um animal, uma besta. Fui morto e enterrado debaixo da figueira.

- Tu estás morto?! E eu?!

As imagens foram de repente trocadas por três vultos ao redor de uma fogueira.

- É necessária uma inspeção rigorosa, – disse uma das pessoas, de túnica branca e barba comprida, apanhando os cabelos que esvoaçavam. – Os organismos que colocámos em Leve gravitavam naturalmente para um resultado “Bom”, mas algo os empurrou para a tragédia.

- Estão num estado de menor harmonia, – interrompeu o outro.

- Os organismos têm de voltar à pureza.

- Foram dotados de comportamentos prescritos, mas adquiriram outros que não estavam previstos, nem faziam parte do planeta.

- Então alguém sabotou os planos de Laputa?!

- Laputa não está propriamente em harmonia!

Rita foi envolvida por um medo intenso e deu um salto no sofá. Quando caiu acordou algures a meio do século, sozinha num quarto. A reação emocional foi fraca, quando reparou que um cordeiro verde estava deitado junto a si. Olhou em redor e descobriu uma cara sorridente.

- Onde estou? – Perguntou.

- Num sítio bom, com gente igual a si.

- Os meus pais, eu quero ver os meus pais, – gritou, tentando levantar-se.

- Foram ter com o Charles!

Vi-os num sonho, em cima de uma ponte precária, sem princípio nem fim, no meio do breu, com um cartaz que tinha escrito “Espírito Livre”.

- Tiveste de ficar, as condições alteraram-se, a tua presença é muito importante.

Quando abriu os olhos viu que estava numa sala com vários idosos, todos sentados em cadeiras de rodas, com uma tabuleta entre as mãos.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

36 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Tríade

 

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O senhor Prestes comprou o jornal e sentou-se calmamente num dos bancos do jardim principal da pequena vila de Torne. Tirou os óculos do bolso da camisa, acendeu o centenário cachimbo e após a primeira fumaça contemplou pensativamente a sua terra. O imponente castelo, testemunho duma época áurea que tornara famosa a região, deu-lhe os bons dias. Outrora passaram por ali milhares de viajantes que se dirigiram para todos os cantos do mundo. E era a memória colectiva do passado que tentava a todo o custo enganar esta terra esquecida e desgastada pelo tempo. Abanou a cabeça e riu-se para dentro com desprezo. Só o passado lhes dava alguma coisa, pois do presente nada recebiam. E até o pouco que tinham era de origem duvidosa! Para ele a vila de Torne, outrora cidade, tinha sido unicamente um ponto de passagem de piratas e ladrões, transformados em heróis com o decorrer dos séculos. E ainda havia descendentes que clamavam bem alto as suas origens e olhavam com desprezo para os que os rodeavam. Eram um bom exemplo da espécie mesquinha auto-intitulada "Homem" que dominava o planeta, criando valores à sua medida, para assim poder explorar todos os outros indivíduos que consigo coabitavam este pequeno grão atirado e esquecido num dos cantos do Universo. Torturava e matava em nome da sua longevidade, controlava em nome da sua multiplicação... Umas pernas femininas interromperam a meditação e trouxeram-lhe à memória os anos da sua louca juventude e do grupo de amigos. Ele era o único sobrevivente! Tantos sonhos tiveram juntos, tantas ambições e planos que consumiram horas e horas das suas vidas. Agora pertencia tudo ao passado, nada se distinguia entre o banal e o histórico. A única esperança que havia no meio de toda esta confusão existencial, era de que tudo tinha um fim, a morte igualava os seres perante o verdadeiro Deus. Uma aragem agradável do início do Verão banhou o senhor Prestes e interrompeu-lhe, mais uma vez, o diálogo com a alma. Mas foi tudo tão rápido, pois o

seu pensamento estava a atingir uma velocidade incontrolável. Uma formiga que subia pela sua perna trouxe-o de novo à realidade.

- Aqui está um membro da mais evoluída civilização que alguma vez habitou a Terra – exclamou, abrindo os braços como que cumprimentando a amiga. – Vocês já existiam há cem milhões de anos antes de nós, mas no entanto andamos à procura de seres inteligentes extraterrestres. Não param para pensarem que o que procuram é infra terrestre. É pelo medo de serem desmascarados que se tornam arrogantes.

Olhou para o cimo da cordilheira e pareceu-lhe ver um vulto. Sim, era um velho, muito velho, com umas longas barbas brancas, sujas pelo passar dos anos. Estranho, muito estranho, o tempo parecia estar sintonizado com o movimento do desconhecido que descia em direcção a Torne. Um nevoeiro de poeira foi-se embrenhando pela vila e apagou lentamente toda a paisagem, pondo frente a frente dois homens e uma formiga.

- Bom-dia velho amigo, – saudou o barbudo levantando um dos braços. – Eu sou um rebelde da minha espécie, que um dia subiu para a montanha fugindo do meu passado, mas que agora a desce para trazer a boa nova, a tua palavra escondida, que é “Tríade”.

- A tua forma é igual à minha. – Interrompeu senhor Paulo Prestes.

- Não, não penses assim, tu estás preso num castelo com a forma e o feitio de ti próprio. Eu já me libertei dessa prisão, eu sou diferente de ti porque abandonei o meu neocórtex. Não o tenho e assim estou livre da sua tirania, do seu ressentimento. Ele é um conservador de sonhos mortos e de ambições esgotadas. Eu vivo numa imensa floresta sem homens, convivo todos os dias com o meu próprio espírito, um amigo excessivo e perturbador, com pensamentos dominantes e dominadores, que se elevam lentamente até se superarem a si próprios e deixarem de ser ouvidos.

- Se vives sozinho, se não te conheces, porque é que vieste até aqui? - Perguntou Paulo, ao mesmo tempo que olhava para a formiga, que agora se encontrava num dos seus ombros.

- Foi o teu espírito e o da tua amiga, que são mais brilhantes do que um raio do Sol, e que pairam libertos de tudo, que me alertaram e avisaram da tua vontade de fugir do rebanho.

- Fugir!?? Fugir para onde!?

- Fugir para a verdade, subir para as montanhas mais altas, caminhar em direcção ao teu cume. Então, tu não sabes que Deus está moribundo!?

Acordou num quarto mergulhado num silêncio reconfortante, com um brilho que cegava, e o impossibilitava de olhar para cima.

- Seja bem-vindo, senhor Prestes, – cumprimentou alguém que estava sentado junto a si, e que tinha acabado de lhe tocar num ombro.

- Mas o que é que me aconteceu?!

- Fez uma viagem até mim.

- O quê?! Uma viagem até si?!

A atenção foi desviada pelo estrepitar de uma ruminação. Aos pés da cama estava um cordeiro verde.

- Mas o que é isto?! Um sonho?!

- Não meu amigo, é a hora da manifestação, de desmantelar os seus sentidos.

- O senhor é um anjo?! – Perguntou, calmo e sorridente. – Eu acredito em anjos que nos vêem e nos falam. Vai-me levar pela mão para o Céu?

- Eu sempre ouvi dizer que sob as asas dos anjos acoitam-se, muitas vezes, a cobardia e a vaidade, – respondeu o rapaz.

- Eu senti muitas vezes, em sonhos, os passos de um anjo na minha cabeça.

- E a marca dos teus pés sobre a terra, reparaste?

- Tantas vezes!

- Quiseste sempre transfigurar os lugares de decepção em sítios maravilhosos, com vida nova.

- E esta luz, porque é que é tão intensa?

- Atrás dela há outro mundo, vais-te transformar a partir da luz, que ilumina agora as tuas memórias. Estou a passear por dentro do teu cérebro.

- És Deus?

- Deus está em toda a parte, dentro de cada partícula do Universo, cuja unidade estrutural é o Cérebro, que acomoda o próprio e o mundo. Deus não tem princípio nem fim, e não responde a preces nem a lamentações. Não, não sou Deus, nem pouco mais ou menos.

- E essa ovelha verde?

- O Cordeiro Verde? Ele tem a resposta para todos os mistérios da vida, e estou a ver que gostou de ti.

- Gostou de mim?!

- Os teus afectos e a regulação da tua vida fazem com que o animal goste de ti e se aproxime. Nunca gritaste “Deus é Grande”, e por isso nunca O insultaste. As distâncias definem o novo caminho que vais seguir. Tu representas a ânsia de uma criatura em superar as suas debilidades, sob o ímpeto da gratidão, da honra e do amor.

- Eu nunca gritei por Deus!

- Graças a Deus. E Ele também nunca gritou por ti!

- Graças a Deus.

O quarto foi invadido por um pôr-do-sol melodioso, brutal e efémero, que desmantelou os sentidos. O senhor Prestes só teve tempo para reter a imagem de um anjo gigantesco, com as asas de abutre, que lhe pôs as mãos sobre os ombros e levantou voo. Quando abriu os olhos viu que estava numa sala com vários idosos, todos sentados em cadeiras de rodas, com uma tabuleta ao colo.

terça-feira, 21 de abril de 2026

35 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Leve

 


“Tarde de mais para os homens, cedo de mais para os deuses”

 

Heidegger



35

1

O padre Narciso dirigiu-se, mais uma vez, para a pequena igreja situada numa verdejante colina. Durante trinta anos, trinta longos anos, fizera aquele mesmo trajeto e nada mudara. Sentia-se espiritualmente vergado pela tirania dos seus valores, que já nada significavam para si e que a pouco e pouco lhe tinham corroído a alma. Já nem mesmo sabia se tinha alma! À medida que se aproximava da casa de Deus fazia a retrospetiva de toda a sua vida, tentando encontrar algo de seguro que o ajudasse a compreender as dúvidas que o assaltavam, agora aos setenta e cinco anos. Para trás ficava uma estrada íngreme, semelhante à sua vida, rodeada de árvores de grande porte, parecidas com os seus valores, testemunhas de um passado sem escrúpulos. Era esta estranha angústia que se abatia a pouco e pouco sobre o padre e o fazia recear entrar na igreja. Nunca antes tivera tão estranha sensação e isto assustava-o. Mas a coragem fazia parte da sua personalidade e como em muitas ocasiões, entrou decidido a dar a missa. O rebanho nem se mexeu, pois quase todos eram fósseis, uns devido à idade, outros devido ao espírito. Sabiam que o seu pastor dispensava o cumprimento, preferindo em vez disso que lhe enchessem a caixa das esmolas, base do sustento do seu devorador apetite. Se as rezas destes fiéis valessem dinheiro, já há muito tempo que o templo estava transformado num palácio, em vez da caverna com cheiro a mofo, espelho dos seus clientes. A hierarquia da devoção estava presente, sendo a primeira fila ocupada por treze velhotas muito feias, que passavam a vida a massacrar o espírito do padre e a criticarem os outros sobre aquilo que nunca tiveram coragem para fazer, mas sempre o tinham desejado nos pensamentos mais íntimos. A única consolação do padre era que Deus sabia disto tudo e de que um dia iria atirar com estas verdades à cara destas bruxas. Na sexta e última fila sentavam-se os menos devotos, mas mais honestos, aqueles que no dia-a-dia faziam o que ali proclamavam. O pastor nunca ousara pôr em dúvida o seu rebanho, pois necessitava dele para dominar a região. E assim tudo lhes era permitido em nome duma fé alterada ao sabor das conveniências. Mas algo estava diferente na sua alma, a revolta tomara conta de si e não aguentava mais aquela farsa. Apetecia-lhe rugir como o leão, clamar a sua liberdade e abandonar tudo e todos. Dentro de si desenrolava-se uma batalha decisiva, uma luta entre o presente estagnado e o futuro luminoso. A escolha talvez fosse difícil naquela idade, pois o presente dava mais garantias de sobrevivência do que o futuro incerto. Mas o futuro era mais leve! Com ele ganharia uma alma nova, sem o peso dos valores que o asfixiava lentamente. Durante toda a vida fora obrigado a desprezar as coisas sensíveis, visíveis, finitas, fora obrigado a defender algo sobrenatural, infinito, rodeado de ideias implacáveis que lentamente lhe tinham curvado a alma e lhe desviaram o olhar da verdade. Agora tudo seria diferente! O padre Narciso sentia algo a nascer dentro de si, que lhe dava uma força sobre humana. Isto tudo talvez fosse uma grande verdade, mas no entanto nunca tinha ouvido falar de alguém que tivesse conseguido sobreviver sem comer, e a alma era um animal de muita comida. A missa começou com as ovelhas a responderem-lhe em coro aos seus berros. Até nisto havia uma hierarquia no tom das vozes, tendo as múmias da primeira fila direitas a um maior volume.

A um dado momento teve a estranha sensação de ter parado, de se ter tornado uma estátua por dentro, com movimento por fora. Um silêncio agradável envolveu-o e uma luz radiante levou-o para bem longe dali. Viu-se rígido e imóvel a ser transportado, com a cabeça atirada para trás, para um palco. Aí permaneceu durante algum tempo, sendo contemplado por uma vasta multidão e temido pelas estrelas. Uma imagem esbatida passou junto a ele e bateu-lhe suavemente nas costas. De imediato deu-se no seu corpo uma explosão de movimentos, acompanhado de um hiper discurso incontrolável vindo das suas profundezas. A aceleração do pensamento e das palavras atirou sucessivas rajadas sobre a assistência que o ouvia atentamente. O tempo e o espaço eram agora dons individuais que permitiam aos espectadores ouvir o discurso. Todo o corpo do padre Narciso participava freneticamente através de mímicas, tiques, esgares, carregados de uma energia intensa que afectava e hipnotizava a plateia. Esta, como que contagiada, entrou numa ebulição de gestos e ruídos, tal como um vulcão. Repentinamente foi puxado por criaturas monstruosas do inconsciente para abismos nas alturas, caindo desamparado do céu. Tentou mover a cabeça mas esta não lhe obedeceu. Aliás, nada lhe obedecia no seu corpo torcido. Estava algures, bem longe da vida e da morte.            

- Então Padre Narciso, como está?

- Onde estou? Quem é o senhor?

Tentou desesperadamente levantar-se, olhando desconfiado para o estranho. Quem é que seria este rapaz de calças de ganga, rabo-de-cavalo, brinco na orelha direita, camisola com um desenho que parecia ser de um dos muitos conjuntos de música moderna, que há muito lhe infernizavam a vida, desviando os jovens da sua paróquia. O rosto era equilibrado, a pele amendoada, estatura média, olhos azuis, delicadeza e afabilidade. Fez de novo um esforço para se sentar, mas não passou de uma intenção. O corpo não obedecia.

- O que é que estou aqui a fazer? O que é que me aconteceu?

- Não tenha medo padre Narciso. Teve um pequeno problema de saúde, nada que não se resolva.

- É médico?

- Nesta altura já não são necessários médicos. As doenças são caminhos que são atribuídos aos indivíduos. O nosso encontro vai ser breve e tem um nome, Manifestação. Só através dela é que nos podemos encontrar. Estamos aqui para conversar um pouco, – e olhou fixamente para o padre Narciso, mas desta vez com o rosto desequilibrado, aproximando-se. – Chegou a altura de construirmos a sua memória, e tirarmos de lá a palavra que procuro.

- “Construir a memória”?!

- O senhor nasceu num estado de esplendor psicadélico, ou seja, com uma “pedrada”, a gritar no meio da multidão, viveu com a multidão a berrar-lhe aos ouvidos, rodeaste-te sempre por uma pletora de riquezas, entre o torpor e a zanga, sempre de “trombas” e por isso não aproveitaste nada, foi um embaraço para ti, porque o conforto sempre te impossibilitou de mudar. Estás agora aqui mergulhado no silêncio, pois chegou o tempo para a construção da tua memória, que te dará a vida eterna. A Omnipresença está na memória de cada indivíduo, que é exposta quando chega ao Limbo, um local de análise, que decide as etapas seguintes. Pelo que vejo o senhor está cheio de egocentrismo e narcisismo, e por isso sempre se achou dotado da fonte infalível da verdade. E porque as convicções são contagiosas, contaminou muitos, desviou-os do caminho certo. Tentaste esconder aquele dia em que te revelaste o mais selvagem e vergonhoso da tua natureza, mas as memórias não se controlam.

O rapaz pegou num espelho e confrontou o padre com o seu próprio rosto.

- Tens uma alma torturada! “Leve” é a palavra que trazes escondida.

O padre Narciso adormeceu, e do silêncio interior, agudo, assustado, lançou a dor do último grito, mas quando acordou não passava tudo de um inquietante sonho, em que a única imagem que ficara fora a de um cordeiro verde junto à porta do quarto, solitário, inexplicável, sem continuidade. Abriu os olhos e viu que estava numa sala com vários idosos, todos sentados em cadeiras de rodas, com uma tabuleta ao colo.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

34 - Fim e Princípio

 

34

Raios de sol incidiram no quarto, penetrando na cama. O detetive viu que estava só, nesta manhã de profundo silêncio, rodeado de astros, deuses, demónios, santos e relâmpagos. Sentiu a cidade de Deus, ao mesmo tempo que o beijo de Pureza. Foi um convite à perdição, que conseguiu desfazer a sua aflição, destruir o seu pânico. Mas  reparou que a voz da sua amada ainda lhe era alheia e o seu olhar refletido no vidro mantinha-se frio. Apercebeu-se que algo lhe estava vedado, havia um pacto com qualquer coisa de inconfessável, pois viu flashbacks sucessivos de estranhas violências, com afetos, raivas e esperanças à mistura. Chorou e Pureza viu-lhe as lágrimas, sinal de que lhe conhecia a alma. Era serena e contida, singela, subtil, elegante, de uma beleza inusitada onde sobressaiam os olhos profundos e felinos com uma maquilhagem discreta. O senhor Narciso não sabia se concordava com os princípios, mas estava de acordo completo com os pormenores. O dia tinha sido enorme, o ar estava cada vez mais rarefeito que já doía. Parecia que pouco a pouco as paredes do seu quarto se tinham tornado os limites do seu mundo. Até aqui acreditara mais na razão do que nas forças obscuras da terra. Por isso estava agora a tentar varrer a culpa, a dor e o desespero que toda esta cerimónia solene remexia.

- Meu amor, deixa-te penetrar pela ambivalência, - disse-lhe Pureza, encostando-lhe à cara o decote ligeiramente malandro. – Não tentes encontrar uma explicação lógica para os eventos. A vida pode ser recuperada.

A madrugada ruidosa do hospital chegou a todos os cantos. Cada barulho deu-lhe uma informação e ele ouviu-os sempre com atenção e emoção. Olhou o reflexo da luz na janela e ficou triste, pois já não podia sonhar o nada ou o tudo, apesar de sentir uma efervescência típica dos momentos de grande entusiasmo e antecipação. Para trás ficara uma noite sem luz, cruel, tensa, violenta, que só com uma disciplina severa de prisioneiro conseguira ultrapassar.

- Deus é uma potestade rabugenta, responsável pelo Universo, este caos probabilístico onde nunca ninguém tem a certeza de coisa alguma, - disse Pureza, pondo os braços sobre ele, ao mesmo tempo que os olhos de ambos brilhavam a mesma luz fixa.

Entrou então num longo corredor escuro, que se tornou claro à medida que avançava, lento e leve, revirando-se, vendo-se, vendo luzes e sombras, olhando para pessoas que o olhavam com um olhar miudinho e metódico. Só ele se ouvia, só ele se via. O seu rosto estava ausente, sentiu alguém a aproximar-se de si, com uma alegria leve. Apercebeu-se que estava a desconhecer-se, tornara-se inútil, naquele quarto de hospital cabiam agora todos os seus sonhos. Era um mundo à parte, vazio, rigoroso, com emoções carregadas de imagens. Delirava agora entre o real e o irreal, o tempo estava distorcido e incompreensível, a única luz existente iluminava os sapatos, que estavam esquecidos num canto, junto à máquina que o conservava, não sabia bem aonde. O detetive adensou a profundidade do seu pensamento, abstraindo-se em relação ao corrupio infindável de gente e tralha. Sucederam-se sonhos pequenos, um pouco mais longos. Viu os locais por onde passou, as pessoas com quem se cruzou, o que pensou, o que ouviu, o que sentiu. A alma passou a ter uma representação física, sentiu a urgência de encontrar um refúgio para a nova realidade do silêncio total. O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta sentia-se agora um fantasma em fuga do mundo, desmaterializado, um ser imóvel que se movia, voando apesar de estar parado. Apercebeu-se dos paradoxos da morte, dos seus contornos, da sua matéria imaterial, imaginou muitos futuros, fechou os olhos e ofereceu-se ávido ao céu. O sítio era um espaço cheio de coisas e cheio de gente, agora compreendia porque era um ser de razão, que via os enigmas da vida e o estado do mundo através de Deus, onde o Bem já não era uma utopia porque tinha agora um rosto e um sujeito por trás. Remeteu para os sonhos dos homens a responsabilidade dos males, e por isso estava agora com a serenidade daqueles que a alcançam, neste movimento ascendente que dá tudo a quem não tem nada. Um desconhecido aproximou-se e ele viu-lhe nos olhos uma inteligência rara e bondosa, apesar de sorrir uma simpatia vaga de ar ausente. Tudo era lento e parecia medido.

domingo, 19 de abril de 2026

33 - Parte cinco Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

33

O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta era um homem minucioso, perscrutador e subtil, com uma cultura requintada e infinita. Estava de novo em silêncio à espera do encontro com a mais alta e criadora especulação. Os olhares fixaram-se e ficaram presos por um sorriso. Um mar de serenidade espelhava agora o rosto do detetive. O tempo estava a ser manipulado por meros jogos vazios, seria alucinação ou realidade? A mulher aproximou-se do vidro embaciado e começou a escrever, com o corpo, com os lábios e com a respiração:

“Apega-se a minha vida a ti; em mim aperta a tua direita”

Foi coberto por um nevoeiro que alastrou e cerrou, sentiu um peso pesadíssimo sobre o corpo e viu no reflexo da janela que tinha uma sombra no rosto. A porta do quarto abriu-se e uma gótica com vestes negras e olheiras profundas espreitou, deixando-lhe no ar cheiros soberbos e sabores deliciosos. Uma sedução vinda de longe, como uma carta de amor, encheu-lhe a boca de gosto e de gozo, despertando-lhe uma vontade de beijar. Sentiu então o peso inexorável do destino. As pessoas do passado tornaram-se figuras reais, acreditou então que já não tinha um começo, estava sim num tempo de epílogo. Iria ser o grande e definitivo confronto com o destino. A sua vida teria valido mais pelas noites ou pelos dias? Viu que à sua espera, na ponta da cama, estava o primo Ambrósio, altivo, elegante e com o ar doce que a sua memória guardara, e que agora se abria para os sentidos desconhecidos da memória. Atrás, numa poltrona de napa bege, estava a tia Leopoldina a baloiçar-se com o Pessoa, o sempre fiel gato rafeiro, companheiro de charros e bagaços. O detetive Narciso era refém de um eficaz processo de sabotagem, composto por níveis de percepção diferentes. Apercebeu-se que o seu tempo ainda não se afastara, apesar de já estar num mundo que não era o seu. Sentiu uma emoção profunda quando uma velha vestida de escuro, talvez de luto por ele e por toda a gente, envolta numa aura luminosa, entrou no quarto com passos pequeninos , silenciosa e fugidia, deixando-lhe um olhar superior, piedoso e sentimentalista. Era a irmã, Luciana Baeta. Tornou a sentir uma respiração sexual.

- Pureza? – Perguntou, passeando pelo quarto uns olhos ávidos, perdidos no meio de tantos signos.

O tempo onde estava já não era linear, as regiões profundas dos seus sentimentos estavam agora à vista de todos. O barulho da chuva a cair, que tudo levava e tudo lavava, trouxe-o de novo à realidade que ainda julgava ser a sua. Sentiu uma embriaguez, um torpor. O quarto ficou sob uma sombra escura e tensa, sentiu um frio, que lhe deu um alívio, uma consolação, uma felicidade leve. Reparou que estava a flutuar no quarto por cima de todos. Primeiro estranhou, depois deslumbrou-se com o ambiente obscuro e onírico que o rodeou.

- Calma Náná, tudo é preparado com tempo e realizado com vagar, - disse-lhe a irmã Luciana.

“Náná”, há tanto tempo que não lhe chamavam por esse nome carinhoso, que já se tinha perdido no passado longínquo. Ouviu as horas a baterem pausadamente num relógio de corda que estava algures.

- Então rapagão, até que enfim que nos conhecemos, - disse-lhe alguém junto a si.

Voltou levemente a cabeça, não fosse um movimento brusco modificar-lhe a posição do novo corpo, que era tão leve, e deu de caras com o modelo do retrato que vira durante anos pendurado na sala da casa da avó Miquelina.

- Avô Teófilo?

- “Avô” já era, não em carne e osso mas uma espécie de mamífero gasoso, mais resistente ao tempo, - respondeu, dando-lhe uma palmada no ombro, que ele sentiu.

- O avô ainda é o modelo da família, - gracejou o detetive.

O frio da sua respiração condensou-se numa nuvem de vapor, ao mesmo tempo que sentiu um cheiro a lavado, acre e sadio.

- Quem sai cedo de cena só deixa virtudes, porque não tem tempo para acumular mais nada.

O acontecimento estava visível nos rostos, nos gestos e nos passos inquietos e irregulares dos que se cruzavam no quarto. A cena oprimiu-o e asfixiou-o. Falavam para nada dizer.

- Narciso, as fronteiras formais já não existem, este caos é uma necessidade, - explicou-lhe Pureza. – Tens de estar em face dos desastres, dos dramas, dos dilemas, das alegrias, do Sol, do Mar, dos gatos, precisas perseguir a morte com paciência, para conseguires agarrá-la.