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- A tua vida está a ser empurrada, – disse Lilith com uma voz doce e suave. – Morre num momento de graça quem amou e foi amado.
O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta ainda teve tempo de se aperceber da azáfama deste fim do mundo. Viu tudo, ouviu tudo, conheceu tudo. Atravessou corredores longos e galerias largas com paisagens abstratas. Ouviu o som muito baixo da sua respiração. Fechou os olhos, tentando adormecer definitivamente. Não conseguiu. Olhou para o chão e fitou o teto. Sentiu que as palavras estavam a ficar fora do lugar, por breves instantes ouviu a música de uma trombeta. Relacionou tudo, sons, imagens, palavras, coisas, pessoas, atmosferas, ideias, sentimentos, vestígios, miragens. Viu desfilar episódios de uma vida, uns difusos, outros mais precisos. Uma volta na cama pô-lo cara a cara com sorrisos e formas há muito desaparecidos, viu Pureza, que lhe fez acenos subtis. Trocaram olhares cúmplices. Deu uma ordem ao corpo, mas ele não obedeceu. Procurou um pensamento mais forte, pensou no ontem e no amanhã, mas o ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. Teve uma fúria lenta. Apercebeu-se que a alma deixara de coincidir com o corpo pois este estava parado, distorcido, com o rosto alterado. Atravessou um espelho, porque viu a mão a cruzar o espelho. Chamou com uma voz funda a sua eterna amada, beijando-a a meio de uma frase. O amor era lúcido e louco, insubmisso e ilimitado. Tentou chorar, mas já não tinha lágrimas. A partir daquele momento iria ser um viajante na noite, em busca de um alvorecer clarificador. Estava num mar enorme, instável, de um azul sem luz, com perigos e abismos. Soltou um sorriso aberto, alto e alegre depois de receber um beijo noturno, vindo de uma memória longínqua que o fez esquecer as tragédias, desilusões e falhanços. Deixou escapar um soluço no silêncio da noite. Ouviu uma voz a chamá-lo, lenta, nítida e exacta. Pureza tinha guardado para este dia, que nunca fora calculado, o que de mais profundo se lhe atravessou na vida, sentimentos e sensações, que oscilavam agora entre a força e a fragilidade, por isso o beijo foi arrebatador e visceral. Afinal, onde residiria o Mal, seria nos incondicionados atos de violência dos homens ou nos condicionados atos de violência de Deus?
- Não tenhas medo de seguir a felicidade, aproveita este tempo e este lugar para confirmares os teus sonhos mais desejados, - disse um homem de barbas dando-lhe uma festa na mão.
- E quais são os meus sonhos mais desejados?
- A única coisa que vejo em ti são emoções espontâneas e muitas frases soltas.
- O que desejo é resgatar o amor mais desejado, – exclamou o detetive, baixando os olhos.
- Deus não está só encostado ao Universo, a agarrar com força as suas paredes, faz parte dele e sente-o – retorquiu o interlocutor, usando as mãos e os olhos.
Tornou a ouvir vozes que já tinham partido e voltavam agora com a eternidade, no meio de um silêncio concreto. Ouviu uma voz magnética como um íman. Era uma hora em que o Sol ainda não se via. Sentiu uma tranquila serenidade. Despiu o manto negro da desesperança e sentiu um desejo intenso de agradecer. A verdade era instável e os tempos misturavam-se. Parou num monte de pedras, que o seu acompanhante dizia estarem carregadas de histórias, que os separavam de um rio que corria, brilhante, ao longe. Exigiu que o levassem a sério:
- Mas que balda é esta? – Gritou.
Estava desassossegado e ansioso, a imaginação não parava. Tudo isto que estava a viver, representava para si a vitória de Deus e a sua própria por ter acreditado Nele. Sabia que aqueles silêncios estavam habitados. Por breves instantes reencontrou rostos, lugares estranhos e tempos, que o ofuscaram com o seu brilho e fluência.

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