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Ivone estava a ver a telenovela, quando de repente umas terríveis dores abdominais a obrigaram a cair desamparada no chão. Viu-se a voar, rodeada de horizontes de voo de águia e de pássaros gordos, com as almas atafulhadas de humanidade.
- O que tens ó mulher?! – Perguntou a mãe, entrando de rompante na sala, depois de ter ouvido o estrondo do embate da filha no soalho.
Durante uns largos minutos abanou desesperadamente o corpo inanimado, que se contorcia violentamente. Estava só com um destino a cumprir.
- A barriga mexe, - gritou a Ivone num segundo de lucidez.
- Estás “prenha” outra vez?! Mas o teu primo não faz outra coisa senão saltar-te para cima?! E eu é que tenho de cuidar depois dos teus ratos. Não, desenrasca-te, - avisou a mãe, batendo com a porta, e deixando para trás aquele mundo gélido, escuro e molhado.
Ivone sorriu, sorriu, sorriu porque sabia que era dotada da sabedoria de usar os outros e os seus recursos eram uma fonte de invenções e mentiras delirantes. O sorriu permaneceu quando voltou a perder os sentidos.
- Abandonaste o nada para chegares ao nenhures, – disse alguém, fazendo-lhe uma festa na cara feia e gorda. – O “Efeito da Eva” tem destas coisas, é implacável. Não podemos subestimar o seu poder.
Quando voltou a abrir os olhos, viu o rapaz e o animal verde junto a si.
- Travaste uma luta inglória contra o vício, foi esse o destino que Laputa te deu. O teu carácter afirmou-se com traços muito puros, mas duros. É por isso que estamos aqui, para reorientarmos a missão que recebeste.
- Mãe, onde está a minha mãe?! – Perguntou, com os olhos esbugalhados, tentando levantar-se da cama.
- Ela já vem do “Tempo dos Elementos”, foi Fogo, foi Água e foi Ar, foi Senhora das Tempestades, dos Fluxos e dos Movimentos, – disse o rapaz para o cordeiro verde. – No “Tempo dos Deuses” pertenceu às Neimeres. Começou perfeita e acabou desmembrada, ilegal. Está cansada. Será que exagerámos? – Olhou para o animal e continuou: Lilith merece todos os sacrifícios. Já temos as cinco partes da nossa deusa mas temos de saber a qual dos hospedeiros pertence a fechadura da chave que Laputa nos deu.

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