26
- O Filho era o espelho no qual Deus se via, até perceber que o espelho não era liso, – disse Lilith puxando a cabeça do detetive para o seu colo. – A Árvore da Vida dá-nos o "Conhecimento Máximo" através da meditação. Andamos todos à volta e continuamos a não saber, enquanto que os doidos se multiplicam.
O senhor Narciso estava a ausentar-se do que fora, as outras árvores pareciam-lhe fantasmas, começou a desejar não ser mais do que fora. Tudo era sombra clara e claridade escura. Lilith afastou-se, aproximou-se, hesitou, evitou-o. Os sons misturavam-se. Olhou para cima e viu um sol alto e agressivo, enquanto que por debaixo rebentavam ondas de um mar em fúria e ao longe ouvia o som do vento na vegetação. Lilith era a filha do tempo e das suas superstições, insuficiente e excessiva. Os seus olhos sorriam-lhe, o detetive sentia uma força imensa por detrás daquele corpo aparentemente frágil. Estava impaciente, a anja parecia ter pressa. O senhor Narciso seguiu-a atentamente com os olhos. Uma ilusão fê-lo sentir a leveza do seu corpo. A comoção despertou lá do fundo, e as lágrimas toldaram-lhe os olhos. A sensação de dever cumprido abriu-lhe o sorriso, mas trouxe a confusão para dentro do espírito. Lilith lançou-lhe o seu olhar eternamente transparente, irónico e perplexo, ao mesmo tempo que dizia:
- O afeto é a mais segura das âncoras. Vê esta compulsão de Deus pelos tons escuros que lhe ensombram e arruínam o palácio. Ele precisa de cores.
A um canto do jardim, pendurado numa parede, estava um relógio que desistira de registar a passagem do tempo. À medida que falava com a anja, descobriu-lhe uma personagem frágil e obsessiva, que se recusava a ceder um pouco ao seu amado. Um era a luz e o outro as trevas. Mas, quem era quem? O detetive apercebeu-se da delicadeza com que Lilith compreendia a alma humana. Afinal, o papel da mãe tinha-lhe pertencido, mas os acasos do “Livre Arbítrio” haviam-lhe tirado essa missão. A deusa aproximou-se e disse:
- Foi aqui que o Anjo Azul declarou o fim do tempo, quando Deus descansava depois de ter feito o Universo.
- No célebre sétimo dia, - retorquiu ironicamente o detetive.
- O dia já nem Deus sabe ao certo.
O senhor Narciso tinha fome e frio, saudades da família e já não tinha uma fé inabalável no regresso, estava em paz com o mundo, e passara a acreditar na eternidade e na vontade de Deus, renegando ao seu passado ateu e trotskista.

Sem comentários:
Enviar um comentário