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- Quem és Tu? – Perguntou o senhor Narciso.
- Sou o filho do Nada.
- Filho do nada?!
- Antes de mim existia o vazio, em oito dias criei o Universo.
- Apareceste do nada? Por geração espontânea, presumo? – Questionou o detetive com um sorriso trocista.
- Deus É! – Gritou, lançando um apocalipse de raios, relâmpagos e trovões. - Espero que não tenhas vindo aqui só para me fazer perguntas ridículas, cujas respostas nunca conseguirás perceber.
Nesse momento Lilith reapareceu e sentou-se à mesa. O detetive fitou-a e acenou com a cabeça. Ela tocou-lhe no braço, ele não sentiu os seus ossos, mas apercebeu-se da boca sensual da anja junto ao seu ouvido:
- Ele resistiu a todas as tentações carnais, é uma entidade povoada de aparições que lhe provocam um sentimento de revolta muito grande, - exclamou Lilith, deixando no ar um cheiro agradável e intenso.
- Tens razão, não ganho nada em saber a origem do Universo. Mas podes-me explicar porque é que a minha mulher morreu tão nova, com vinte e sete anos, um ano depois do nosso casamento, e a vizinha do segundo esquerdo, que só fez mal a vida toda, viveu até aos oitenta anos? Ás pessoas más nunca lhes acontece nada, à Pureza que eu amava acima de tudo e era uma mulher excecional com uma alegria de viver, teve um cancro fulminante.
- Os que os deuses amam morrem cedo. Tens alguma estatística que comprove que os “maus” vivem mais que os “bons”?
- Constato!
- Então, caro Narciso, constatas mal. Já ouviste falar em “Livre Arbítrio”? – Perguntou Deus olhando-o nos olhos.
- Regra essa que Tu quando queres desrespeitas, – respondeu o detetive mostrando um raio de lucidez sobre a confusão que o rodeava.
- Achas que eu consigo ser omnipresente neste Universo ilimitado? Por vezes interfiro, mas só quando posso. O “Mundo das Ideias” que construí serve para que o Universo seja belo e feliz, para que se perpetue a minha obra. Quando as “ideias” se encontram e dão forma a um indivíduo, este já tem um destino. Alterá-lo envolve tomar decisões difíceis.
- Para ti isso é uma ninharia, – exclamou, com uma atitude que parecia desproporcionada e sem sentido.
- Se tivesses tido esse poder no caso da Pureza, o que é que terias feito?
- Ela nunca teria morrido…
- …ia a vizinha do segundo esquerdo? – Perguntou Deus mostrando a sua beleza num grande sorriso.
- Isso mesmo! A velha nunca teria chegado a velha, – respondeu o detetive com raiva parecendo estar possuído por um demónio contorcionista.
- Mas isso não funciona assim. Tem de haver compatibilidade entre as “ideias”, só podes trocar um genoma por outro idêntico.
- Genoma?!
- Todos os seres do Universo têm a minha marca, a “Substância Negra”, que dá vida dupla às coisas, ao original e ao seu clone, em que cada um ficará sujeito ao “Livre Arbítrio”.
- Então eu para destruir a Pureza teria de destruir o seu clone.
- Ou o original, isso é irrelevante. Mas poderia ser também uma pessoa boa e a má continuaria a ficar.
- Mas Tu podes mudar isso. Porque não o fazes?
- Porque só assim é que o Universo funciona, com “ideias” más e boas, são ambas úteis, da eternidade à eternidade, é o melhor mundo possível, – respondeu Deus sem parar, subindo o tom, tornando a voz poderosa.
- Estás-me a dizer que a vizinha do segundo esquerdo foi mais importante para o Universo do que a Pureza?
- Uma má para dez boas. Foi muito útil.
- Nunca sentiste revolta por isto?
- Acredita que todos os dias sofro e por isso introduzi uma variante no mecanismo: o meu vírus!
- O Teu vírus?!
- Sim, o “Vírus de Deus”, mas o conceito é diferente do vosso. O “Genoma” aperfeiçoa-se com o “Livre Arbítrio”, reforça-se, ilumina-se, a política de Laputa faz-se de extremos e paradoxos, levando muitas vezes um indivíduo mau a fazer coisas boas, num sentido unívoco, do menos para o mais, e quando o meu “vírus” entra o indivíduo dá um salto substancial e as suas “ideias” mantêm-se unidas após a sua morte, num espaço diferente. São aqueles a quem vocês apelidam de “santos”, que adquiriram a capacidade de fazer “milagres”. Foi a forma que arranjei para dar a volta ao sistemas e poder ajudar alguns “bons”, os que conseguem aproximar-se mais de mim nos seus momentos de dor. Agora compreendes porque é que todos me gritam aos ouvidos?

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