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O Memoh
Ventriculo Direito - Tempo sem data
Após esta breve conversa com um deus que eu já não sei quem é, descobri escrito numa das paredes duma antiga estação ferroviária um pensamento que te transcrevo:
“ Se o indivíduo não é livre para a realização da sua essência – que é verdadeira, boa e bela – se não é livre para ser memoh, jamais poderá ser são física, psíquica e espiritualmente; perecerá juntamente com a civilização que está em franco processo de destruição “.
Quando leres estas folhas já estarei convertido em pó e o mundo será outro, completamente diferente, mas sei que tudo é cíclico e que um dia nos encontraremos. A pouco e pouco fui-me apercebendo de que dentro de todos existia algo de muito maléfico, que nos empurrava para uma insaciável vontade de dominar os outros. Bem podíamos negar esse implacável desejo, pois quando tudo entrou em convulsão, eu vi com os meus próprios olhos indivíduos, que sempre mostraram benevolência, transformarem-se em autênticos tiranos na altura em que assumiram o domínio sobre os outros. Foi o desmascarar de imagens construídas por valores seculares. Tudo era uma questão de sobrevivência, tínhamos finalmente tomado consciência da nossa posição no planeta: unicamente éramos uma das inúmeras espécies. Se o respeito pelos outros tivesse sido o nosso lema, não estaríamos agora à espera do Juízo Final.
Lembro-me que quando o Dr. Opereta lançou a ideia de melhorarmos a nossa espécie, para a médio prazo termos uma população saudável e unida, todos o combateram. Acusaram-no de querer reinstalar ideias de civilizações antigas, que visavam racismos inaceitáveis nos dias de hoje. Hipócritas, idiotas, perdemos a grande oportunidade de nos modificarmos. Os sacerdotes, como sempre, detinham enorme poder e através dele continuavam a defender intransigentemente as suas nefastas ideias fixistas. Preferiam ter uma população demente e doente, pois assim conseguiam dominá-la com facilidade, conservando intactas as suas regalias. Deus, sempre o desgraçado Deus, era explorado até à última! Se tivessem controlado as populações tínhamos evoluído rapidamente para um Memoh novo, com um novo sangue e um espírito renovado. Mas a nossa espécie escolheu, mais uma vez, o caminho errado. Enquanto os casais sãos só tinham em média dois filhos, os casais mal formados, alcoólicos, doentes mentais, apresentavam a sua marca recorde de oito descendentes. Eram indivíduos muito atrasados mentalmente, que só viviam para si e para os seus prazeres. Partilhar não estava escrito no seu comportamento genético. Cada vez aparecia mais dependentes e a comida começou a escassear. A par com tudo isto um cancro social invadiu de surdina as cidades e foi dinamitando as mentes: o tumor político, um grupo de dirigentes mentalmente degenerado, que lentamente tomou conta do poder, modificando as leis, visando assim conquistar as mentes. O que restava da civilização estava completamente cercada, através do espírito e da carne. E estes dois grupos de poderosos acabaram por encontrar-se frente a frente, reclamando o espaço vital um do outro: uns queriam comida e os outros escravos. Foi então quando todos se aperceberam dos milhares e milhares de anos deitados para o lixo: o Memoh estava na mesma, mesquinho, arrogante, cobarde, explorador e temente a um deus.
Coitado de Deus! Quantos crápulas se aproveitaram do Seu bom-nome para escravizarem povos, para deterem durante séculos o poder. As suas vidas foram autênticas orgias pagas pelos espíritos imbecis dos dominados. E tudo isto tudo isto em nome de Deus e do desgraçado que crucificaram. Alguns tentaram alertar para o perigo que se aproximava, mas a idiotia tinha invadido as almas e agarrava-se a elas como a lapa à rocha. Pagaram-lhes a ousadia com uma fogueira que lhes derreteu as carnes. Apesar de tudo as ideias foram-se espalhando, até que o seu peso abriu os olhos dos humilhados e com eles veio a revolta. Olho para o horizonte e só vejo uma terra devastada pelos ódios, uma terra cansada de ser enganada, que prefere a morte à falsidade, o respeito ao egoísmo.
Nós, os “caminhantes”, quando nos encontramos atualizamos a vida. Ontem encontrei pela terceira vez o “Olho de Peixe”, que me contou ter visto numa cidade um pregador a fazer milagres e a caluniar os governantes. A populaça seguiu-o com veneração e apupou os seus chefes. Espero que desta vez a sua mensagem faça a apologia do Bom e do Forte e consiga assim encaminhar as gentes. Soube que Deus está revoltado com todos nós porque O tornámos um pedinte. A Sua mensagem foi desvirtuada por uma espécie que não O merecia, por animais destituídos de almas, que impuseram a si próprios, e principalmente aos outros, valores de dominadores. Agora Deus teve de vir pessoalmente repor a verdade! Os que O viram dizem que está cansado e triste. Anda à procura dos enganadores, daqueles que deram uma imagem errada da Si, e que construíram palácios com o dinheiro dos outros. Quando os encontrar vai castigá-los implacavelmente, pois não merecem qualquer tipo de perdão. Então Ele só é o Deus dos egoístas e dos piedosos, desprezando os bons e os fortes? Não, os misericordiosos não eram nem o Bem nem o Mal, as rezas não salvavam ninguém, tudo era falso, os oportunistas tinham-No ludibriado e enriquecido à custa dos céus. Era mentira que Ele tivesse alguma vez perdoado aos assassinos dum dos Seus filhos. Mas os negociantes de céus depressa aproveitaram o acontecimento e o negócio montado foi próspero durante muitos séculos. Deus presente em todo o lado, ao mesmo tempo!?? Como era isso possível!?? Só os idiotas é que acreditaram nisso e foi para eles que os vigaristas se voltaram. E assim Deus está na nossa terra, algures à procura destes negreiros da alma, que levaram à ruína do Corpo. O “Olho de Peixe” disse que Ele ia cheio de ódio pelos Seus bajuladores e que tem um raio para atirar sobre cada um deles. Criaram um povo medricas, em vez de um forte, como tinha pedido! Tinham feito do sofrimento do corpo uma virtude, em vez da alegria da vida, da paz e da serenidade...Adorava continuar a escrever-te, mas tenho de me deslocar. Neste paraíso que criámos quem estiver mais do que alguns minutos parado morre! É a tirania do Tempo!
Do teu, Padre Narciso Baeta

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