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O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta era um homem minucioso, perscrutador e subtil, com uma cultura requintada e infinita. Estava de novo em silêncio à espera do encontro com a mais alta e criadora especulação. Os olhares fixaram-se e ficaram presos por um sorriso. Um mar de serenidade espelhava agora o rosto do detetive. O tempo estava a ser manipulado por meros jogos vazios, seria alucinação ou realidade? A mulher aproximou-se do vidro embaciado e começou a escrever, com o corpo, com os lábios e com a respiração:
“Apega-se a minha vida a ti; em mim aperta a tua direita”
Foi coberto por um nevoeiro que alastrou e cerrou, sentiu um peso pesadíssimo sobre o corpo e viu no reflexo da janela que tinha uma sombra no rosto. A porta do quarto abriu-se e uma gótica com vestes negras e olheiras profundas espreitou, deixando-lhe no ar cheiros soberbos e sabores deliciosos. Uma sedução vinda de longe, como uma carta de amor, encheu-lhe a boca de gosto e de gozo, despertando-lhe uma vontade de beijar. Sentiu então o peso inexorável do destino. As pessoas do passado tornaram-se figuras reais, acreditou então que já não tinha um começo, estava sim num tempo de epílogo. Iria ser o grande e definitivo confronto com o destino. A sua vida teria valido mais pelas noites ou pelos dias? Viu que à sua espera, na ponta da cama, estava o primo Ambrósio, altivo, elegante e com o ar doce que a sua memória guardara, e que agora se abria para os sentidos desconhecidos da memória. Atrás, numa poltrona de napa bege, estava a tia Leopoldina a baloiçar-se com o Pessoa, o sempre fiel gato rafeiro, companheiro de charros e bagaços. O detetive Narciso era refém de um eficaz processo de sabotagem, composto por níveis de percepção diferentes. Apercebeu-se que o seu tempo ainda não se afastara, apesar de já estar num mundo que não era o seu. Sentiu uma emoção profunda quando uma velha vestida de escuro, talvez de luto por ele e por toda a gente, envolta numa aura luminosa, entrou no quarto com passos pequeninos , silenciosa e fugidia, deixando-lhe um olhar superior, piedoso e sentimentalista. Era a irmã, Luciana Baeta. Tornou a sentir uma respiração sexual.
- Pureza? – Perguntou, passeando pelo quarto uns olhos ávidos, perdidos no meio de tantos signos.
O tempo onde estava já não era linear, as regiões profundas dos seus sentimentos estavam agora à vista de todos. O barulho da chuva a cair, que tudo levava e tudo lavava, trouxe-o de novo à realidade que ainda julgava ser a sua. Sentiu uma embriaguez, um torpor. O quarto ficou sob uma sombra escura e tensa, sentiu um frio, que lhe deu um alívio, uma consolação, uma felicidade leve. Reparou que estava a flutuar no quarto por cima de todos. Primeiro estranhou, depois deslumbrou-se com o ambiente obscuro e onírico que o rodeou.
- Calma Náná, tudo é preparado com tempo e realizado com vagar, - disse-lhe a irmã Luciana.
“Náná”, há tanto tempo que não lhe chamavam por esse nome carinhoso, que já se tinha perdido no passado longínquo. Ouviu as horas a baterem pausadamente num relógio de corda que estava algures.
- Então rapagão, até que enfim que nos conhecemos, - disse-lhe alguém junto a si.
Voltou levemente a cabeça, não fosse um movimento brusco modificar-lhe a posição do novo corpo, que era tão leve, e deu de caras com o modelo do retrato que vira durante anos pendurado na sala da casa da avó Miquelina.
- Avô Teófilo?
- “Avô” já era, não em carne e osso mas uma espécie de mamífero gasoso, mais resistente ao tempo, - respondeu, dando-lhe uma palmada no ombro, que ele sentiu.
- O avô ainda é o modelo da família, - gracejou o detetive.
O frio da sua respiração condensou-se numa nuvem de vapor, ao mesmo tempo que sentiu um cheiro a lavado, acre e sadio.
- Quem sai cedo de cena só deixa virtudes, porque não tem tempo para acumular mais nada.
O acontecimento estava visível nos rostos, nos gestos e nos passos inquietos e irregulares dos que se cruzavam no quarto. A cena oprimiu-o e asfixiou-o. Falavam para nada dizer.
- Narciso, as fronteiras formais já não existem, este caos é uma necessidade, - explicou-lhe Pureza. – Tens de estar em face dos desastres, dos dramas, dos dilemas, das alegrias, do Sol, do Mar, dos gatos, precisas perseguir a morte com paciência, para conseguires agarrá-la.

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