quinta-feira, 16 de abril de 2026

31 - Parte três Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

31

Narciso e Pureza estavam num impasse existencial, ali naquela terra de paz, de amores e de ódios. Os seus gestos cruzavam-se e colidiam. O detetive viu-se de novo longe do Paraíso e ouviu conversas que caíam umas sobre as outras, viu gestos que se cruzavam e se cortavam à sua frente, num clima de tensão no limite do insuportável. Quem lá estava não queria desistir e ele apercebeu-se disso.

- Deixem-me ir, por amor de Deus, - gritou contente e cansado, tentando fugir para dentro de si, do labiríntico meandro emocional onde tinha caído.

Mas estava ali e fora dali, distante com proximidade, revelando um universo fragmentado no tempo e no espaço, cuja limpidez ocultava obscuridades.

- Meu amor, apesar de termos vivido num mundo difícil para se ser bom, tu foste sempre bom. Por isso não precisas de desculpas. – Disse Pureza abraçando o seu amado e dando-lhe um beijo ternurento no pescoço. – Deus existe para que tudo não seja permitido.

- A tua ausência foi como se me tivessem roubado parte da minha vida, - exclamou Narciso retribuindo a carícia.

O estado caótico dos seus sentidos assombrava-lhe a razão. O que era afetivo estava agora a emergir, ele olhava para ela e admirava a sua pureza e a sua inteligência.

- Mostra-Te para que eu acredite em Ti, - gritou desesperado quando se apercebeu que ela estava novamente a perder os seus contornos, tornando-se distante e próxima

Distante porque parecia estar a ser enrolado por acontecimentos contraditórios; próxima porque lhe sentia o cheiro único. Estaria a história da sua vida condenada a desaparecer da memória, levada pelo pó? Mas Pureza jamais poderia desaparecer da sua memória, porque estava agora ali naquele caminho sinuoso, de trevas e luz, um em frente do outro, acompanhados por um desconhecido engravatado e diletante, de olhar medroso. O detetive sabia que não aguentaria outra ruptura brusca e dolorosa. Era uma relação visceral e afetiva. Ela olhava lúcida e serenamente para o seu amado. Ali, onde se encontravam, era um lugar curioso que vivia de muitos mitos. Ele estendeu-lhe as mãos e quando ela as apertou puxou-o com violência. Narciso recuperou as memórias da infância, paisagens e histórias do seu percurso. E eis que o homem engravatado explicou que Deus nunca aceitaria Isaac, o filho de Abraão, mas também nenhum cordeiro em vez dele. O Paraíso era um lugar que vivia muito de mitos. O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta viu nuvens escuras recuando no Céu e pássaros negros chocando no ar, reconheceu o seu rosto contorcido pela dor, sentiu os olhos cheios de água, descobriu rostos incertos e fascinantes com histórias horrendas recheadas de vítimas chorosas de tristes casos de vida. O espaço e o tempo estavam agora condensados e geravam tensões afetivas. Havia meios-olhares, meias-palavras sussurradas, meias memórias, acompanhadas pela presença invisível do passado. Tornou a ver muitas paisagens e muitos mundos, as dúvidas desfilavam na sua memória como reflexos do passado. Narciso ouviu a sua voz, sentiu a sua alma e tocou o fluxo da vida. Com a mão tentou alcançar a superfície da pele de Pureza, mas não a sentiu. Devorou-a com os outros sentidos e perdeu-se nessa entrega.

- Tenho urgência neste amor - disse, olhando para o desconhecido de olhar medroso.

- Estes momentos são sempre assim, confusos – exclamou o homem alto, com o olhar vivo e um sorriso irónico. – Não deves ter pudores nem complexos, pois não há regresso.

O silêncio ficou ferido.

- Não há regresso? – Perguntou o detetive.

- O teu futuro está traçado, as tuas memórias vão-se apagando, mas vais ganhar outras.

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