segunda-feira, 13 de abril de 2026

28 - Do “Rio Sereno” que guarda a mão providencial

28

Lilith contou que Deus dera a fórmula original do planeta que queria para o Homem e com o “Livre Arbítrio” pusera tudo em movimento. Um cheiro amargo e intenso num imenso prado verde iluminado por um sol brilhante, desviou a atenção do detetive e levou-lhe o olhar para a visão de umas figuras atentas e grandiosas, que ficaram perturbadas com a sua presença:

- Papões, - disse docemente a deusa, aproximando-se de um deles com movimentos dançantes ligeiramente estranhos e exóticos.

Trocaram carícias trocistas, o senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta surpreendeu-se com os gestos e os movimentos daqueles monstros, pois pareciam-lhe demasiado humanos e intencionais. De repente o Papão deu um elegante salto para cima, primeiro elevando as patas traseiras e depois as da frente, projetando-se no ar.

- Os Papões são os cavalos de Deus, inteligentes, doces, generosos, elegantes, astutos…

- … e cheirosos!

- Aqui, no Paraíso, a Natureza é um estado de alma partilhado por todos os seres vivos. Deus pediu-lhes para guardarem este pedaço, e é por isso que eles saltam de tempos a tempos, para aumentarem o campo de visão.

O senhor Narciso olhou para Lilith e reparou na sua pele aveludada semeada de sinais, enquanto que ela pressentiu as saudades e as mágoas do detetive, dizendo:

- Muitas vezes a ocasião é o oposto daquilo que desejamos.

O detetive estava a olhar a terra e a fitar o céu, e foi por isso que não respondeu. A deusa continuou:

- Tudo o que foi produzido no Universo desde o seu início, e que Deus considerou relevante, está ali, - apontou para uma floresta no horizonte.

Lilith colocou-se atrás do companheiro de viagem com uma figura nostálgica e fantasmagórica, abraçando-o de uma forma descomplexada e irónica, que faziam dela uma personagem ociosa e perversa onde o Bem tinha encarnado.

- É a maqueta do Bem, que alimentou cultos, excentricidades e rejeições. Mais do que uma floresta, este espaço é mais um processo metabólico, - explicou a anja, atravessando um espelho com a mão.

De repente o senhor Narciso tropeçou numa tartaruga e estatelou-se no chão.

- A tartaruga em cuja carapaça está incrustado o veneno da vida, a droga das mulheres fatais e pecaminosas, que faz crescer flores venenosas por onde passa, - disse Lilith rindo-se com barulho.

O homem foi ajudado pela mulher e pararam à entrada da floresta.

- Este é o local onde se gerem os destinos de todos os seres do Universo. Quer entrar, detetive?

- É seguro?

- Saber o seu destino será seguro? – Perguntou Lilith aproximando os seus lábios carnudos da boca pequena do senhor Narciso.

- É imperativo saber a verdade!

- Avancemos, – disse a fêmea atravessando um espelho com a mão.

Deram de imediato de caras com a figura de uma mulher. Era Tati, a deusa mulher, mãe, artista, eternamente independente, arquiteta do “Livre Arbítrio”. Quando Deus se preparou para iniciar o movimento da vida, descobriu que os elementos nunca se iriam cruzar e por isso ficariam eternamente imutáveis. Tati introduziu o “número um” para provocar a imprevisibilidade. A mulher fez um aceno subtil com a cabeça, uma mistura de deferência e orgulho, piscando um olho e sorrindo. Era fiel a Deus mas não devota, e guardava no seu bolso um pequeno frasco que, segundo dizia, aprisionava a “infelicidade perpétua”, em forma de nuvem azul. Tinha um desencanto na alma porque vira e fizera coisas de que não queria que houvesse memória. A figura era bela e comovente. O detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, contratado por Deus para descobrir Lilith, viu ao longe uma mulher a sair de uma casa, no meio de um nevoeiro, e gritou um nome:

- Pureza!

- O que é fascinante nesta floresta é que a linha que separa a verdade da mentira, é muito ténue, - explicou a anja empurrando-o em direção à casa.

O abraço entre os dois foi tão intenso, que Narciso e Pureza pareciam que se tinham fundido.

- Quando o sol da tarde bate nas janelas e na minha cabeça, penso sempre em ti, foi sempre assim desde que nos separámos, - disse Pureza encostando os seu lábios ao ouvido esquerdo do marido.

- Tu estás igualzinha.

- A imagem que se tem é a que permanece, neste lugar as ideias germinam como plantas.

O detetive falou-lhe das suas desilusões, da enorme frustração da impotência, da negação da realidade, da constante deambulação, da incapacidade de amor.

- A nossa separação foi tão brusca, tão injusta, que eu amaldiçoei tudo e todos, - confessou o senhor Narciso abraçando com mais força a sua amada.

- Estamos juntos, não sei como é que vim para aqui parar, mas foi com certeza pela mão de Deus. Ele ouviu a tua raiva!

- E eu também estou aqui pela mão de Deus. Ele ouviu os teus pensamentos.

- Poderemos então dizer que Deus escreve direito por linhas tortas, - exclamou Lilith rindo-se com barulho.

Narciso chorou. Pureza também. Pareciam crianças vindas de um planeta distante. Refizeram as vidas a passo e passo, prostrando-se um diante do outro, numa saudade obsessiva sufocante.

- Guardo na memória a sequência de dias e de noites que pensei desesperadamente em ti, - disse o detetive beijando-lhe as mãos.

- O tempo está a atrasar-se. Cada minuto de indecisão está a tornar-se o teu mais íntimo inimigo. Aproveita o que Deus te deu e escolhe: ficar ou voltar! – Interrompeu Lilith. – Também Ele achou injusto o que o “Livre Arbítrio” vos fez e por isso interveio…por linhas tortas. É este o mistério que Deus nos ensina.

A deusa explicou que havia uma fusão absoluta entre a alma e o corpo, os sentimentos originavam-se na carne e o “Livre Arbítrio” estava intimamente ligado ao cérebro. Mas o detetive e a sua mulher estavam íntimos dos afetos e nem a ouviram. Narciso olhou para o ar e viu que a sua cor era reles, sinal de que estava cansado deste tempo que se arrastava. Olhou para a Pureza e viu que a luz aparecia de esguelha, mostrando a sombra da sua ausência. A escolha que Lilith lhe dera seria uma máscara ou um rosto limpo? Ouviu o som dos papões. Tudo avançava. Ele sabia que sobre a sua cabeça estava uma ampulheta em movimento. Desejou fugir da solidão onde sempre estivera e por isso trocou um sorriso longo com a amada. Vieram-lhe à mente as cenas e dramas de uma vida conjugal feita de dor e sofrimento. Tudo parecia ser simultaneamente muito simples e muito denso. A sua vida atual era sobretudo memória dela e o domínio dos acontecimentos aparecera-lhe como um clarão.

- O meu passado é agora o meu presente.

O detetive não sabia o que fazer com os dois tempos, pois ambos pareciam ser uma ameaça. O futuro tanto poderia ser uma noite cerrada como um dia luminoso, sabia que estava na confluência entre dois estados nas dobras da vida. Ficar com o amor da sua vida significava um rasgão de que todos tinham medo. O seu percurso tinha sido demasiado afetado, desde o início, pelas contradições, pelos equívocos e pela polémica. O senhor Narciso tinha consciência do seu crescimento pessoal, que lhe permitia olhar mais longe, tornando os seus medos insignificantes. A noite que caiu sobre ele era húmida e de solidão, e o único bem daquele cenário melancólico dava pelo nome de Pureza. Surgiram-lhe memórias rápidas das curvas da vida, apertadas entre lugares e pessoas. Viu dez casinhas de xisto de pescadores de lampreia, à beira das águas mansas de um rio transparente. Sentiu o respirar do mundo, sinal de que o tempo estava a passar. O mundo imoral ou o mundo moral era esta a sua terrível escolha. As voltas do vento trouxeram-no de novo à realidade e ele pôde admirar a Pureza com um olhar distanciado. Era uma mulher viva e serena, elegante, convicta, com um olhar límpido, num jardim atravessado por pássaros. Ele amou-lhe os movimentos, enquanto ela sentiu-lhe a tensão. A luz oblíqua que passava através dos abetos milenares fê-lo ver que as duas mulheres que o rodeavam eram extremamente belas. Atrás delas estavam figuras envelhecidas entregues a uma letargia profunda, no espaço caótico daquele fim de mundo.

- Falam muito de Deus e aquilo é o resultado de deuses menores a quererem imitá-lo – disse Lilith, ajeitando um dos sapatos de salto alto feitos em madeira esculpida à mão, mostrando não ser uma deusa relegada ao rés-do-chão.

A veia nostálgica e romântica do senhor Narciso levou-o de novo a olhar para a sua amada que esperava, sentada, pela sua decisão de ficar ou partir, com um olhar repleto de paz e concentração. O detetive tornara-se um indivíduo inquieto, balançando na fronteira entre o caos da loucura e a lucidez clara e distinta que a fina ironia de Lilith e o sorriso indulgente agravavam. Estava sozinho perante si, minado pela melancolia e pelo sentimento de inutilidade, exangue, desnorteado. Numa ponta estavam as exigências de Deus e noutra a impossibilidade de as satisfazer, por culpa daquele de quem, aos olhos Dele, a não podia ter. Tornou a voltar-se para a Pureza com um olhar ávido e a respiração suspensa, ao mesmo tempo que sentia o enorme poder de ilusão do invisível. Optou por escutar o que lhe dizia o coração, porque já não tinha nada a perder.

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