domingo, 26 de abril de 2026

38 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Mentino

 

38

O doutor Vicenti Lorenço tirou um charuto duma caixa de prata, acendeu o isqueiro e deu a primeira fumaça. Através da janela podia adivinhar-se a excelente noite de verão que cobria Buenos Aires, neste estranho ano de 1969. O ferrolho gemeu quando a grande mão o rodou, deixando a porta abrir-se com estrondo. A noite escura avançou e embrenhou-se pela sala, cobrindo-o da cabeça aos pés. O dia cansativo obrigava-o a deitar-se no sofá e a semicerrar as pálpebras. O descanso foi interrompido repentinamente por um barulho vindo da varanda. Reparou num indivíduo a espreitar para o céu através de um telescópio.

- Vou provar a grande farsa, - disse o estranho, olhando para o telhado.

- Tu ousas pôr em causa a verdade, Galileu Galilei?! – Gritou alguém.

- Qual verdade Ptolomeu?

- A verdade que diz que o planeta é o Centro do Universo. A tua certeza levou a humanidade ao desastre.

A cena que Vicenti assistia, sem saber se era real, ou apenas um sonho, de tão nítida que era, foi interrompida por um rapaz sentado numa das cadeiras, com um cordeiro verde ao colo, que se deliciava com as festas que recebia.

- Então doutor Lorenzo, que belo espetáculo?

- Quem é o senhor?! – Perguntou, tentando mover-se.

- Eu sou um mistério e incomodidade, que assistiu consigo a uma história bem contada, mas num espaço vazio, porque já tudo avançou. Mas ver Galileu ao vivo, é uma honra para qualquer astrónomo da sua categoria. Nem que seja num sonho, que não é o caso. E Ptolomeu ?

- Prefiro o grande Galileu Galilei, - respondeu, com uma voz calma. – Foi o homem que nos pôs a rodar à volta do Sol.

- Já há muitos séculos antes Aristarco de Samos, filósofo grego, dissera que o Sol estava fixo e a terra girava à sua volta, depois de ter observado os astros e o mar, – exclamou o visitante, fixando o olhar.

- Mas essa verdade ficou com Galileu.

- Mas não era dele! E Ptolomeu também tinha outra verdade.

- A da Terra ser o Centro do Universo. Belo disparate, – respondeu Vicenti com um ar arrogante, talvez por ser um sobrevivente de si próprio, que já deveria ter morrido há muito, por uma questão social.

- E como explicas tudo isto?

- Um sonho, um sonho agradável.

- Que te vai deixar uma prova da sua existência, – aproximou os lábios da orelha do animal e continuou, com um tom quase imperceptível. – Vai ser gozado e reduzido à sua insignificância, para que as suas angústias, as suas memórias e as suas vivências se transformem num silêncio zangado.

Vicenti acordou sobressaltado e acendeu a luz. O que é que acontecera? O charuto ainda fumegava e estava no princípio. Olhou para o teto e reparou que na pintura que decorava a sala, havia três gerações, a Terra era o Centro do Universo. Uma estranha legenda acompanhava o magnífico trabalho: Mentino! Mas afinal estava imóvel numa sala, com outras pessoas, todas com as cabeças caídas para trás, perdidos no tempo e no espaço.

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