segunda-feira, 20 de abril de 2026

34 - Fim e Princípio

 

34

Raios de sol incidiram no quarto, penetrando na cama. O detetive viu que estava só, nesta manhã de profundo silêncio, rodeado de astros, deuses, demónios, santos e relâmpagos. Sentiu a cidade de Deus, ao mesmo tempo que o beijo de Pureza. Foi um convite à perdição, que conseguiu desfazer a sua aflição, destruir o seu pânico. Mas  reparou que a voz da sua amada ainda lhe era alheia e o seu olhar refletido no vidro mantinha-se frio. Apercebeu-se que algo lhe estava vedado, havia um pacto com qualquer coisa de inconfessável, pois viu flashbacks sucessivos de estranhas violências, com afetos, raivas e esperanças à mistura. Chorou e Pureza viu-lhe as lágrimas, sinal de que lhe conhecia a alma. Era serena e contida, singela, subtil, elegante, de uma beleza inusitada onde sobressaiam os olhos profundos e felinos com uma maquilhagem discreta. O senhor Narciso não sabia se concordava com os princípios, mas estava de acordo completo com os pormenores. O dia tinha sido enorme, o ar estava cada vez mais rarefeito que já doía. Parecia que pouco a pouco as paredes do seu quarto se tinham tornado os limites do seu mundo. Até aqui acreditara mais na razão do que nas forças obscuras da terra. Por isso estava agora a tentar varrer a culpa, a dor e o desespero que toda esta cerimónia solene remexia.

- Meu amor, deixa-te penetrar pela ambivalência, - disse-lhe Pureza, encostando-lhe à cara o decote ligeiramente malandro. – Não tentes encontrar uma explicação lógica para os eventos. A vida pode ser recuperada.

A madrugada ruidosa do hospital chegou a todos os cantos. Cada barulho deu-lhe uma informação e ele ouviu-os sempre com atenção e emoção. Olhou o reflexo da luz na janela e ficou triste, pois já não podia sonhar o nada ou o tudo, apesar de sentir uma efervescência típica dos momentos de grande entusiasmo e antecipação. Para trás ficara uma noite sem luz, cruel, tensa, violenta, que só com uma disciplina severa de prisioneiro conseguira ultrapassar.

- Deus é uma potestade rabugenta, responsável pelo Universo, este caos probabilístico onde nunca ninguém tem a certeza de coisa alguma, - disse Pureza, pondo os braços sobre ele, ao mesmo tempo que os olhos de ambos brilhavam a mesma luz fixa.

Entrou então num longo corredor escuro, que se tornou claro à medida que avançava, lento e leve, revirando-se, vendo-se, vendo luzes e sombras, olhando para pessoas que o olhavam com um olhar miudinho e metódico. Só ele se ouvia, só ele se via. O seu rosto estava ausente, sentiu alguém a aproximar-se de si, com uma alegria leve. Apercebeu-se que estava a desconhecer-se, tornara-se inútil, naquele quarto de hospital cabiam agora todos os seus sonhos. Era um mundo à parte, vazio, rigoroso, com emoções carregadas de imagens. Delirava agora entre o real e o irreal, o tempo estava distorcido e incompreensível, a única luz existente iluminava os sapatos, que estavam esquecidos num canto, junto à máquina que o conservava, não sabia bem aonde. O detetive adensou a profundidade do seu pensamento, abstraindo-se em relação ao corrupio infindável de gente e tralha. Sucederam-se sonhos pequenos, um pouco mais longos. Viu os locais por onde passou, as pessoas com quem se cruzou, o que pensou, o que ouviu, o que sentiu. A alma passou a ter uma representação física, sentiu a urgência de encontrar um refúgio para a nova realidade do silêncio total. O detetive Narciso Sarapitola Figueiredo Baeta sentia-se agora um fantasma em fuga do mundo, desmaterializado, um ser imóvel que se movia, voando apesar de estar parado. Apercebeu-se dos paradoxos da morte, dos seus contornos, da sua matéria imaterial, imaginou muitos futuros, fechou os olhos e ofereceu-se ávido ao céu. O sítio era um espaço cheio de coisas e cheio de gente, agora compreendia porque era um ser de razão, que via os enigmas da vida e o estado do mundo através de Deus, onde o Bem já não era uma utopia porque tinha agora um rosto e um sujeito por trás. Remeteu para os sonhos dos homens a responsabilidade dos males, e por isso estava agora com a serenidade daqueles que a alcançam, neste movimento ascendente que dá tudo a quem não tem nada. Um desconhecido aproximou-se e ele viu-lhe nos olhos uma inteligência rara e bondosa, apesar de sorrir uma simpatia vaga de ar ausente. Tudo era lento e parecia medido.

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