sábado, 18 de abril de 2026

32 - Parte quatro Do princípio do Céu em que nada morre mas tudo se transforma

 

32

Narciso estava de novo no meio de uma hecatombe de sentimentos, confrontando-se com os mais perfeitos e belos demónios internos. Apesar de haver sol, ele sentiu o frio da sombra e um vento vazio. A quietude assustou-o, e era por isso que os seus sentidos estavam mais atentos e minuciosos. Espreitou a vida, escutou um ruído, sentiu um arrepio e uma tristeza pequena, e foi de novo envolto num turbilhão de gotas, vendo o céu e a terra, balbuciando raiva, mas reparando que tudo estava diferente, já não tinha só um corpo, as pessoas já se riam, apesar dos sorrisos serem curtos, e uns apontarem para cima e outros para baixo. Havia uma mudança. Encontrou-se com as suas emoções, e por isso riu e chorou alarvemente num íntimo recanto de sofrimento. Apercebeu-se de que há muito tempo não via o seu rosto. Teve uma vertigem, seguida de uma obsessão, depois um medo e por fim sentiu uma carícia deliciosa.

- Acredita, isto agora é a tua realidade, - disse-lhe Pureza com amor, com muito amor. – Esquece os segredos velhos, tens de exorcizar o passado, não existe uma só verdade.

Os olhares procuraram-se. O detetive sentia uma necessidade obsessiva de descobrir a pura e bruta realidade.

- Minha querida e amada Pureza, mas isto tudo não será apenas um desejo, que não tem nada a ver com a realidade?

Quando ela abriu a cortina sentiu-se abençoado pelo sol e viu uma luz intensa e constante. O movimento dela era seguro e tinha graça, a sua força vinha muito lá de dentro, das entranhas. Narciso reparou que estava deitado numa cama, sem conseguir encontrar uma posição que lhe permitisse sossegar o pensamento, que dava voltas e mais voltas.

- Pureza, - chamou!

Do silêncio insuportável saiu um ruído estragado e viu ao longe uma televisão ligada. Sentiu um vazio pesado. Apercebeu-se que estava acompanhado de cuidados e por isso ficou inseguro e inquieto.

- Pureza, - tornou a chamar, agarrando-se à almofada.

Apareceu-lhe à frente a imagem de uma mulher a preto e branco, junto à janela, que estava embaciada.

- Os anjos são ciumentos, por isso entre vocês há aqueles que morrem cedo…e os outros, - disse-lhe a desconhecida. – Com eles a verdade parece ser sempre mentira e a mentira parece ser sempre verdade. Vê tudo isto como uma cerimónia que marca a passagem, pela paz dos que passam e dos que vivem. A verdade não é um valor relevante, tens de pensar na vida de uma maneira nova.

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