quarta-feira, 29 de abril de 2026

42 - Cordeiro Verde - Harmonia Menor - Folhas Perdidas - Os Caminhantes - Carta 3

 



42

Os Senhores do Coração

 

 

Ventrículo Esquerdo - Tempo sem data

 

Caro amigo, hoje foi o dia mais feliz da minha alegre e triste vida. Encontrei um velho zarolho chamado Álhi, fugitivo de outra aventura, a falar com uma meia osga, um precioso marisco nos dias de hoje.

- Amigo caminhante, que belo discurso e que atento ouvinte – disse, obrigando-o a voltar-se para trás.

- Mais vale falar para uma meia osga, do que para um intelectual inteiro – retorquiu e continuou lendo o seu livro – “Vede trepar esses ágeis macacos! Trepam uns sobre os outros e arrastam-se assim para o lodo e para o abismo. Todos se querem abeirar do tronco: é a sua loucura – como se a felicidade estivesse no tronco! - Frequentemente também o trono está no lodo” – e apontou para o cadeirão podre do rei do Coração, D.Sistole II.

- Que palavras tão confusas.

- São mais simples do que a nossa vida. Já não sabemos quem somos nem para onde vamos. A única certeza que tenho é de que não posso parar mais do que dez minutos! - E desapareceu, embrenhando-se nas entranhas dos túneis.

Não soubemos descobrir a nossa posição no Corpo. Poucos foram os iluminados que se consideraram uma espécie entre as muitas que habitavam este extenso planeta. Todos tinham o direito à felicidade! O papel que foi dado ao Memoh pelos deuses era grande demais para tão mesquinho ser. Quando o povo dos Rins definiu os seus valores, sentiu-se com o direito de escravizar as outras raças. Ele era coerente com a maneira de pensar do Memoh, pois a relação com as outras espécies baseava-se nesta mesma filosofia de vida. Quando a lei desapareceu a “selvajaria” tomou o lugar da “civilização” e os atos cometidos foram de longe superiores à destruição que Deus fez em Nagasaki e Hiroshima, as duas cidades da perdição, segundo o Livro Sagrado. A crueldade era a festa do Memoh, a guerra o seu sonho! O grande erro foi não terem tomado consciência de que o seu grande inimigo era a sua própria espécie e não as outras. As doenças que mais o matavam eram transmitidas pelos seus semelhantes, mas no entanto ele insistia em dizimar os outros seres. Um dia foi posta em dúvida a superioridade do Memoh, muitos indivíduos deixaram de acreditar na sua espécie e aliaram-se às outras, depois de descobrirem a grande fraude. E tudo isto devido à matança dos deuses. A populaça entrou pelas cidades, atravessou as muralhas e descobriu a verdade acerca dos senhores do Coração: o deus que proclamavam estava seco, o pó que o cobria tinha séculos. O ódio aumentou quando descobriram os tesouros que os falsos moralistas guardavam nos seus cofres. A comida e o luxo abundavam, enquanto eles proclamavam o seu amor, e o do seu deus, aos pobres que semeavam o Corpo. Os exércitos de analfabetos eram a garantia dos seus privilégios. Matavam todos aqueles que ousassem levantar o véu que os separava do real! Até chegaram a assassinar um dos seus monarcas, Helias I, que resolvera investigar a verdade. Só um mês reinou, até que lhe deram o chá maldito. O orçamento da monarquia do Coração era feito em função do número de fiéis e duma esmola média. Quanto mais fiéis mais luxos! A causa de todo este caos deveu-se ao divórcio que sempre existira entre o que os senhores do Coração pregavam e o que faziam. Foi esta a sua ruína, a ruína do Corpo, que levou à revolta das mentes, à loucura dos enganados. O povo preferiu destruir tudo, auto destruir-se, do que continuar a viver com a mentira e com os mentirosos. E eram maus porque os poderosos é que tinham meios para serem bons. Estou a tentar sobreviver apoiando incondicionalmente os chefes, que vão mudando.

                        Do teu, Narciso

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