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O detetive tinha descoberto que o Universo era constituído por passagens, esconderijos, magias, corpos, sombras, numa mistura de enigmas entre o fictício e o real, com truques, embustes, mistérios, dilemas e armadilhas. Era uma farsa visual, com um ritmo esquizofrénico dos acontecimentos, num jardim onde pulsavam paixões recalcadas. E Deus tinha um amor estranho e uma ligação em estado de ruptura com Lilith. Era a história de uma paixão desesperada, impossível, cercada pela morte e pela loucura por todos os lados. Lilith significava trauma, memória e identidade, por isso o detetive assistiu assustado à sua transfiguração:
- A felicidade está ao nosso alcance mais facilmente do que imaginamos, - disse a deusa num tom profético, com uma energia apocalíptica, puxando bruscamente o visitante para si.
O senhor Narciso viu a sombra do seu passado, como um vaticínio ou um remorso.
- Deus acima de tudo quis dar amor aos outros, – e Lilith quase que colou os seus carnudos lábios aos do detetive Narciso Serapitola Figueiredo Baeta.
Estava agora com um íntimo mais racional do que emotivo. As dúvidas eram enormes e infatigáveis, o homem chorava lentamente a sua antiga vida, que lhe parecia cada vez mais longínqua, quase que já não existia. Tinha a sensação de que, além dele e de Lilith, estava ali muito mais gente que os observava e cercava. Por isso a deusa usava palavras sumidas, quase imperceptíveis. Olhou para o lado e reparou no ar ambíguo, ao mesmo tempo inocente e perverso, da amiga, que ele parecia amar exageradamente. Já não sabia se era o culpado pelos sentimentos conturbados e esperava desesperadamente que um milagre o fizesse acordar em casa, livre desta vida suspensa do avesso. O seu desespero não tinha gritos, nem lágrimas. O detetive reparou nos sapatos da mulher:
- Porque é que são de ferro? – Perguntou.
- Porque Deus é complexo, - respondeu-lhe, escondendo o facto de não ter querido abdicar do seu estatuto de sedutora e amante, que a levou para um conflito com as filhas, que também já tinham esse estatuto.
Caminharam ao longo do jardim, que mais parecia uma floresta, entre árvores imóveis e silenciosas, envoltos por uma tarde fria. Passaram por um lago com água quase invisível, onde dois cisnes brincavam e acasalavam, com jogos de aproximação e de fuga. Lilith lançou um olhar ao detetive. Ao longe numa clareira apareceu um coreto com dois vultos sentados a uma mesa.
- Chegámos, – informou a deusa.
O detetive reconheceu Deus, mas não o jovem barbudo de cabelos negros caídos sobre os ombros que estava ao seu lado segurando um copo de água que bebia. Por isso perguntou à amiga:
- Quem é o freak?
Não obteve resposta, só um leve sorriso.
- Mandar-te para lá é condenar-te de novo à dor, porque a conduta deles não mudou em dois mil anos, a moral continua muito baixa, - disse Deus ao rapaz que estava sentado à sua frente.
- Talvez eu não tenha feito o suficiente, – insistiu.
- Meus senhores, o nosso convidado, – interrompeu a deusa, fazendo-lhes sinal para se levantarem.
O detetive ouvira a conversa e olhou com admiração para o mais novo, que pretendia ir de novo ao encontro dos carrascos. Só poderia ser masoquista.
- Também acho, – disse-lhe Lilith ao ouvido, mostrando que tinha o dom de ler pensamentos.
O senhor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta, a quem uma simples ida a um WC dum centro comercial da região de Lisboa, para satisfazer uma necessidade fisiológica, o levara para uma aventura sem limites, tinha consciência do fim. Mas seria só o dele ou faria parte do Apocalipse? O ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. Com um braço Deus negou o rosto a Lilith e parou-lhe o passo. O detetive, que estava cercado de exóticas transcendências, reparou que Ele exibia inúmeros jeitos e trejeitos, e que o filho era muito bonito e desejava ser o melhor, por causa daquele pai que parecia amar. Quanto a Lilith hesitara entre a eternidade e a existência.
- Todas as tuas palavras vão ter ao Diabo, – disse Deus olhando fixamente para a mulher. – Ainda és uma sombra, incapaz de transpor o nevoeiro e abraçar o sol que te dei.
- Não é isso o que os teus pensamentos dizem, meu rei, – retorquiu a fêmea mais poderosa do Universo.
A atmosfera era suspeita, medo e horror, apesar do jardim se chamar “Paraíso”. Lilith era um ser atento, humano, sensível aos problemas e dramas dos outros.
- Sou incapaz de ver alguém sofrer sem eu sofrer também, profundamente, – confidenciou Deus ao senhor Narciso, encostando a cabeça no seu ombro. – Os afetos são a minha perdição.
- Os “afetos” são as coisas mais bonitas do Universo, – disse o detetive, dando uma festa na face do seu interlocutor.
- Apurei a minha inteligência emocional, – retorquiu o jovem cabeludo, cujo nome era Umbelino. – Estou mais racional e objetivo.
- E queres ir para o mesmo sítio? – Perguntou Deus.
- Não, há outro lugar melhor onde estarei imune às invejas, aos conflitos e a salvo dos maus humores. O perfeccionista já não existe.
- Sempre admirei a tua lucidez Umbelino, – exclamou a anja, sentando-se ao seu colo e fazendo-lhe uma festa nos cabelos compridos.
Lilith era uma deusa excêntrica, cheia de revolta e mistério, que falava muitas vezes com tranquila clareza, apesar de parecer uma criatura frágil. Deus parecia não ter uma ideia clara sobre o sentido do bem e do mal, mas insistia na exuberância ética. Tudo isto fizera com que o detetive ganhasse fé, apesar de ter sentido o frio que subia das lajes do chão. Precisava de palavras leves que apelassem à pureza primordial de Deus, para conseguir selar um acordo com Ele. A deusa olhou para o senhor Narciso e sentiu que tinha chegado a altura perfeita para os dois se encaixarem de corpo e alma, pois só poderia acontecer naquele momento. A fêmea tinha a enorme sabedoria dos afetos e havia poucas com este brilho na alma.

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