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“ Cansados das tentativas eternas para forçarmos o caminho
pela matéria rude, escolhemos um outro caminho
e procurávamos atingir o infinito. Entrámos em nós
mesmos e criámos um novo mundo “
Henrik Steffens
Monólogo com um Deus
Cidade Coronária – Tempo sem data
Como já te apercebeste, esta é uma data sem significado para quem está abandonado num tempo que não é o seu e com uma mensagem ininteligível para quem não conhece o Mentino. Sinto-me um universo!
Ó Deus, quem és Tu? A única coisa que sei a Teu respeito é-me contado por negociantes de almas obscuros, silhuetas que dizem representar-Te e até há um embaixador Teu aqui no Corpo. Vejo que têm um cosmos privativo e com ele dominam o nosso mundo. Até quando é que Tu o permites? Será que Tu também és propriedade deles, será que eles são os Teus negreiros? Até quando é que eu vou acreditar na Tua existência? Sinto que caí dentro de mim mesmo. Estou confuso, muito confuso!
Universo, caixa onde se guarda toda a nossa existência, saco onde se amontoam as infindáveis ideias dos seres que o habitam, guardião do caos, panela onde ferve o sangue das lamentações, onde a paisagem se faz e desfaz, espaço controlador de rebanhos formados por nuvens electrizadas, descendentes de partículas abandonadas por deuses brincalhões. Universo, elemento estrutural dum universo, sítio aglutinador de pensamentos vaidosos, onde a ignorância e a mentira fazem lei, magoados com a sua própria vitória.
Esta é a história dum planeta chamado Corpo, que existiu algures num canto dum universo, sendo habitado por seres que se agruparam em vários países. Cada individuo era naturalmente dotado duma necessidade de espaço vital, sendo capaz de fazer tudo para conservá-lo. E o espaço vital de cada país era a soma dos espaços vitais de todos os seus habitantes. Os países mais importantes eram o Coração, o Cérebro e os Pulmões, sendo o equilíbrio mundial distribuído pelas influências destes três povos. Mas era o Coração, a impiedosa monarquia cardíaca, que mais poder detinha, visto ser a única que possuía um cosmos privativo, um deus exclusivo. Era o reino da moral, durante muito tempo dirigiram moralmente as outras nações, controlando-lhes as mentes e definindo-lhes os conceitos. O seu poder era tal que chegaram a determinar o tempo do metabolismo de todas as raças, uniformizando-o ao seu, conseguindo assim dominar o esquema de pensamento dos outros povos, atrasando-o. Devido a isto os cardíacos pensavam mais depressa. O Coração pregou a crueldade contra os outros e contra si, o indivíduo devia impor a si próprio regras rígidas que, segundo eles, eram impostas por um ente superior que os criara e com isso os queria pôr à prova, para um futuro além corpo. Enquanto isso os nobres do Coração viviam com todos os vícios e sonhos que os outros desejavam na intimidade. Para o Coração o Corpo estava acima das estrelas, era o centro do Universo. Mas houve um individuo que o desafiou, provando que ele estava unicamente no meio de muitos outros corpos e a justiça cardíaca atuou rapidamente, condenando-o à morte por sabotagem do conhecimento. Para alguém ser talentoso precisava de ter o consentimento do Coração. Mas um dia a revolta contra os valores chegou e o planeta entrou em convulsão.
Esta é a história dum habitante do Universo revoltado com os seus valores mais sagrados, depois de se ter apercebido da falsidade dos seus ideais. Encontro-me algures zangado com Deus, até já ameacei escrever o Seu nome com letra pequena. Foi na rua que conhecemos o Olhar do Anjo e o amámos até ao fundo da nossa alma. Mil alegrias, mil cumplicidades passámos contigo na dificuldade da nossa vida. Foi tudo tão bonito! Transmitistes a tua boa loucura à nossa esperança, enchestes de amor o bater dos nossos grandes corações. De repente as fontes secaram e o mar da vida retirou-se! Ventos de silvos agudos trouxeram as palavras mais silenciosas e com elas as tempestades. Por cima de nós a má lua sorriu por maldade, mostrando a cumplicidade do patrocinador da vida. Proclamei a loucura! Gritei a canção da loucura! Do túmulo quis ouvir risos infantis a despertarem-me do pesadelo que queria estar a sonhar. Desejei asas para me transportarem a remotos passados. Quem és Tu que dás aos maus e tiras aos bons? És o Bem, que a tantos mandas proclamar, que imagens sem graça despejam palavras desnecessárias à vida? Gritos roucos de cólera Te oferecem! Para que a paz retorne à nossa amizade preciso que a Tua palavra chegue aos meus ouvidos e me acalme a alma. Peço-Te em nome da vida! Dá-nos o Olhar do Anjo, ele é a nossa harmonia. Até o Teu filho entregaste à má lua, mas depressa lhe patrocinaste a vida. Faz isso connosco, manda um mensageiro com a palavra mágica e eu amar-te-ei para sempre. As minhas lágrimas percorrem-me a alma. Não percebeste a cumplicidade! Aliás, só percebes aquilo que queres. Passes de mágica distribuíste aos necessitados quando não Te conheciam, mas depois disso só com os poderosos é que falas. Porque é que persegues os bons e ignoras os maus? Dá-nos o Olhar do Anjo, pois ele é a nossa alegria. Que me interessa o Teu reino, ó patrocinador da vida, se aqui me tiras o pouco que tenho. Ter que sofrer para depois receber mil sorrisos luminosos, não, não quero. Fala comigo, explica-me as Tuas razões, deixa-me dar-Te as minhas e ambos chegaremos a um acordo de amor. Raios atravessam-me a alma, matando a bonança do meu espírito, semeando dúvidas nas minhas certezas, escurecendo o céu virtuoso do meu viver. Quem és Tu ó patrocinador da vida? És falso? És verdadeiro? És bom? És mau? Porque é que não abriste o espírito nas horas difíceis? Os amigos não são para isso? Não passamos de bonecos nas Tuas mãos, de palhaços de barro que moldas com desprezo. Jogaste nessa noite com os Teus dados viciados que só o amor destrói e rejubilaste de alegria quando o ás apontou para o Olhar do Anjo. Tantas vezes pedi a alegria para a vida, mas Tu só dás aos que muito têm. A corda da nossa grande amizade está frouxa e decerto se partirá, pois de Ti já pouco espero. Só não o fazes se não quiseres! Basta um dedo Teu para me dar a alegria da vida. Uma música suave abana-me a alma e aviva-me as inúmeras recordações.
Torno a gritar, as estrelas estão por cima de Ti, já nada Te peço, porque não acredito. Roubaste-me o Sol, tapaste-me o Céu, baralhaste-me os ventos, as lágrimas percorrem-me a alma, tento imitar a Tua maldade, mas confesso-me impotente para tal, pois falta-me a coragem. Falo-Te com raios, ó patrocinador da vida, porque a dor que me deste nunca mais desaparecerá, ficará guardada dentro das minhas profundezas, junto aos meus dragões. Pensavas que eu me esquecia com o passar das luas? Louco, és um louco com um poder infinito, que brinca com as almas do Universo, que até os Teus amigos desprezas! Para me dares a semente quiseste em troca o Olhar do Anjo. Pedia-Te muito? Muito têm aqueles que Te dizem representar, aqueles parasitas que tudo fazem para aclamar a Tua mentira. A Tua palavra é falsa, porque nada do que dizes cumpres, a Tua palavra é negra como a noite mais escura, porque até o simples e pequeno amor destróis. Nunca lês-te o Teu livro?...E o tempo passa! Trinta, trinta sóis de recordação, trinta luas de esperança, amor e saudade, mas o Teu desprezo é total. Duvido que oiças os meus apelos! Ó patrocinador de algumas vidas, com a que Te peço nada ganhas e por isso nada fazes. És um egoísta, será que Te falta a coragem para falar comigo? Tens medo, ó Poderoso entre os poderosos? Agora sei que as palavras que mandaste o Teu filho proclamar são ventos falsos, que sopram em direções invisíveis. Ó Olhar do Anjo, onde quer que tu estejas amar-te-emos para sempre, pois tu foste o calor que nos aconchegou nos momentos difíceis. Aparece-nos ao menos uma vez a dizer que estás bem! Olho para os Teus palhaços, ó patrocinador da vida, e descubro a Tua falsidade. A desgraça dos outros é o Teu jogo preferido, eu não posso perdoar, porque Tu sabes o que fazes. Pela segunda vez jogaste aos dados e reacendeste a minha dor.
Esta é a história de um grupo de exploradores em busca duma civilização desaparecida, algures no meio de um oceano. O pior que lhes aconteceu foi tê-la encontrado! Descobriram que tudo era Universo e que não eram naturalmente superiores à fauna e à flora. Assustaram-se quando souberam que a moral tinha desistido em favor da ciência e do progresso, tendo os habitantes sacrificado os seus deuses em nome da felicidade. E os vapores do cérebro ferveram quando descobriram que os deuses estavam dentro deles e tinham sido ultrapassados. Só o retorno à Natureza, ao respeito por ela, poderia abrir de novo os horizontes dum futuro radioso. Descobriram que a queda duma civilização dá-se quando os princípios cósmicos são desrespeitados e uma chuva de rãs banha os infratores. Chuva de rãs? Sim, chuva de rãs, um fenómeno celestial que nunca passou pela cabeça dessa civilização, que não se conseguiu alcançar, apesar de tentar atingir um estádio superior. As grossas muralhas do Tempo e do Espaço não deixavam os relâmpagos iluminarem as suas almas e por isso não sabiam a dimensão da grandeza nem o limite da pequenez. Esquadrinharam os céus à procura do sentido do Tempo e descobriram horrorizados um macaco e um anjo a estudarem juntos. Bandas celestiais tocavam na mesma sala, acompanhadas pela bela voz de um assaltante dos céus. Era o caos, a frustração cósmica fizera explodir a harmonia e a civilização perdera o Tempo. Então soaram os sinos da derrocada. Todos se atiraram uns contra os outros por terem cheiros diferentes, apesar de há milénios viverem juntos. E o Corpo tombou para sempre, vítima da sua própria ignorância....
Amigo, vi saírem de dentro de mim todos estes dragões, que só nos aparecem nos sonhos. Foi tudo tão rápido, mas ao mesmo tempo tão nítido!

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