37
3
Inverno de 1920. O mau tempo parecia ter-se todo reunido na cidade de Paris. Ventos ciclónicos varriam a capital de França, obrigando os seus habitantes a protegerem-se dentro das casas. Os transportes públicos estavam parados, a iluminação desaparecera, ninguém se atrevia a sair à rua. O dilúvio vinha limpar um estranho vírus que descera no planeta dez anos antes e matara silenciosamente quatro milhões de pessoas.
- O Diabo anda à solta senhor doutor – disse a criada, benzendo-se e quebrando o silêncio sepulcral que reinava na casa dos Bouvalier – A menina Rita estava tão bem hoje de manhã.
Todos olhavam incrédulos para a rapariga prostrada num sofá. Parecia uma estátua. O corpo estava estendido e rijo, tinha o queixo colado a um dos ombros e os olhos esbugalhados.
- O ritmo respiratório e cardíaco estão normais, mas tudo isto ultrapassa-me. Tenho de consultar alguns colegas meus, pois nunca vi nada igual, – explicou o médico levantando-se. – O olhar parece indicar um delírio da alma, é qualquer coisa que ultrapassa a medicina e...
- Doutor sinto que a Rita está desperta, ela está a tentar dizer-nos algo, – interrompeu o pai ao mesmo tempo que agarrava numa das mãos da filha. – Tenho de descobrir uma maneira de falar com ela.
- Nestes últimos dias alguém notou alguma alteração no seu comportamento? - Perguntou o médico voltando-se para a assistência aterrorizada.
- A menina nestes últimos dias estava tão feliz. Ainda ontem falámos durante quase toda a noite.
- Parecia andar muito agitada, – disse a mãe com uma voz muito suave. – Mas tinha razão para isso, o casamento está marcado para o mês que vem.
- Há dois dias, por volta das duas da madrugada, quis ir tomar banho ao lago. Nem o noivo a conseguiu fazer mudar de ideias, – exclamou o irmão dum dos cantos da sala.
- Falta de ar, neste último mês foram quatro vezes e sempre à quarta-feira à meia-noite.
- Eu até disse à menina Rita que parecia que alguém lhe tinha lançado um mau olhar...
- ... deixe-se de disparates Maria. Essa sua mania de espíritos já começa a incomodar-nos.
- Ela costuma ter dificuldades em respirar? - Perguntou o médico voltando-se para o pai.
- Que eu saiba não. Sempre foi uma rapariga saudável, muito afetiva e equilibrada.
- É melhor esperarmos e vermos a evolução da paciente. Venho vê-la amanhã. Até lá agasalhem-na e deixem-na repousar.
A um dado momento Rita reparou em vários vultos ao redor de uma mesa, a da cozinha da casa antiga dos bisavôs. E viu-os, mais ao irmão Charles, que tinha desaparecido há muitos anos, e que só o conhecia por fotografia, o Leal, o cocheiro e mais outras que não sabia quem eram. Eram pessoas mortas que estavam agora à sua frente.
- Olá Rita, – cumprimentou o irmão, fazendo-lhe um sinal com a mão.
Todos se voltaram para ela.
- Estás tão bonita querida, – disse a bisavó Beatriz.
- Charles, o que é que te aconteceu? Tive tantas saudades tuas.
O irmão levantou-se, foi sentar-se no sofá junto à irmã e pegou na sua mão.
- São factos sem importância para nós, mas compreensíveis para ti. No dia em que saí, o tio Amadeu deu-me boleia para a escola. Tinha estado à minha espera, sabia do meu horário. Ninguém nos viu. A meio do caminho atacou-me e revelou-se um animal, uma besta. Fui morto e enterrado debaixo da figueira.
- Tu estás morto?! E eu?!
As imagens foram de repente trocadas por três vultos ao redor de uma fogueira.
- É necessária uma inspeção rigorosa, – disse uma das pessoas, de túnica branca e barba comprida, apanhando os cabelos que esvoaçavam. – Os organismos que colocámos em Leve gravitavam naturalmente para um resultado “Bom”, mas algo os empurrou para a tragédia.
- Estão num estado de menor harmonia, – interrompeu o outro.
- Os organismos têm de voltar à pureza.
- Foram dotados de comportamentos prescritos, mas adquiriram outros que não estavam previstos, nem faziam parte do planeta.
- Então alguém sabotou os planos de Laputa?!
- Laputa não está propriamente em harmonia!
Rita foi envolvida por um medo intenso e deu um salto no sofá. Quando caiu acordou algures a meio do século, sozinha num quarto. A reação emocional foi fraca, quando reparou que um cordeiro verde estava deitado junto a si. Olhou em redor e descobriu uma cara sorridente.
- Onde estou? – Perguntou.
- Num sítio bom, com gente igual a si.
- Os meus pais, eu quero ver os meus pais, – gritou, tentando levantar-se.
- Foram ter com o Charles!
Vi-os num sonho, em cima de uma ponte precária, sem princípio nem fim, no meio do breu, com um cartaz que tinha escrito “Espírito Livre”.
- Tiveste de ficar, as condições alteraram-se, a tua presença é muito importante.
Quando abriu os olhos viu que estava numa sala com vários idosos, todos sentados em cadeiras de rodas, com uma tabuleta entre as mãos.

Sem comentários:
Enviar um comentário