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O doutor Lipiérre senta-se junto à secretária e abre o jornal que acabou de descobrir na biblioteca. É uma edição do “Figaro” de 26 de Abril de 1942. No suplemento de “Saúde”, há um artigo sobre um caso ocorrido duas semanas antes num hospital psiquiátrico de Flandres, assinado por um psiquiatra de nome Jean Paul Lupi. Já tinha lido este texto há vários anos, trazido por um dos seus alunos da cadeira de psiquiatria.
Na altura estavam a falar sobre a “confabulação nos doentes mentais”. O assunto foi tratado numa aula e depressa caiu no esquecimento. Os factos ocorridos nestes últimos dias trouxeram-lhe à memória este texto.
Despertar ao fim de 20 anos
Há certos fenómenos que atiram por terra dogmas que julgamos irrefutáveis. Ontem aconteceu um deles! Durante a visita matinal, fui chamado por uma das enfermeiras para ir ver, com urgência, um dos pacientes do primeiro andar. Entrei no quarto número nove e vi o senhor Mac Macléu Ferreira de pé junto a uma das janelas, olhando para o jardim. Até aqui nada de anormal! Pedi que me facultassem o processo e foi aí que o impossível aconteceu. Este homem estava no hospital há vinte anos e tinha sido internado com um parkinsonismo pós-encefalítico. Estava totalmente paralisado, nem as pálpebras conseguiam fechar. Foi sempre alimentado com sondas, nunca padeceu de alguma doença e não houve qualquer atrofia nos seus membros, apesar de terem estado sempre em retracção. A “múmia”, como o pessoal lhe chamava, tinha acordado e estava ali a olhar para o vazio. Aproximei-me dele e iniciei a conversa. Mostrou-se uma pessoa calma, falou sem qualquer tipo de emoção, não sabia o que estava ali a fazer, e a única coisa que o preocupava eram os seus colegas da missão “Novo Olhar”, que iam a bordo de uma nave chamada Piolho-Um, em exploração ao “Corpo-Dois”. Disse-me que era o piloto e que, por qualquer razão que desconhecia, tinham sido desviados do rumo. Perguntou-me se estávamos no “corpo”. Se esta cena se tivesse passado com outro qualquer paciente, eu tinha considerado tratar-se apenas de uma confabulação. Mas este contou a história com tanta segurança, que a ideia com que fiquei era de que a tinha vivido. O caso é espantoso, talvez único na vida de um médico. Em termos clínicos, o senhor Mac Macléu representa um dos raros sobreviventes da “doença do sono”, a encefalite letárgica, dos anos vinte, e por outro lado, um dos pacientes que agora conseguiu ultrapassar o terrível parkinsonismo pós-encefalítico a que foi condenado. Das longas conversas que tenho tido com o paciente, ou ex-paciente, apercebi-me de que sempre teve uma vida muito activa. A sua memória está intacta mas, e este é o grande enigma, os factos da sua vida não correspondem aos relatados no processo. Este indivíduo que está à minha frente tem duas vidas completamente distintas: entrou no hospital como o dono de uma fábrica de lulas recheadas e desperta como astronauta. Até os planetas onde viveu são distintos, não conhece a Terra, é um habitante do planeta Corpo, e acabava de completar a sua missão a outro astro, o Corpo-Dois, quando tudo aconteceu.
O senhor Mac Ferreira é uma pessoa mentalmente sã, mas como é que poderei dar alta a um paciente que está noutro mundo? A primeira diligência que vamos fazer, é contactar com a família e tentar saber quais os nomes dos tripulantes da dita nave “Piolho-Um” e ver se também despertaram algures.
J.P.L.

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